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Raul Jungmann, ministro da Defesa

"Em cada três presidiários, um está armado", diz o ministro

Conversa com Roseann Kennedy

No AR em 04/09/2017 - 21:30

Nesta Conversa com Roseann Kennedy, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, fala sobre os desafios que tem pela frente em sua pasta. Da necessidade de reajuste dos salários dos militares, da defesa das fronteiras do país, da atuação das tropas brasileiras nos treze anos que integraram a missão de paz da ONU no Haiti e também do Plano Nacional de Segurança e das ações integradas entre a polícia e as Forças Armadas. Para o ministro, não há mágica no combate do crime organizado no Rio de Janeiro.

"Nós não vamos ter resultados espetaculares a curto prazo. Nós vamos fazer um trabalho duro, não há mágica. O Rio de Janeiro levou décadas para chegar a essa situação, mas eu acredito que cada vez mais vão surgir resultados melhores. E nós vamos chegar sim aos arsenais do crime organizado no Rio de Janeiro". O ministro lembra que já foram presos mais de 60 criminosos e foi desarticulada uma grande parte do roubo de cargas que chegou a cair 37% no Rio de Janeiro.

Roseann Kennedy e o ministro da Defesa, Raul Jungmann
Roseann Kennedy e o ministro da Defesa, Raul Jungmann, por Divulgação

Ele ressalta que hoje, no Rio de Janeiro, aproximadamente 800 comunidades não têm direitos constitucionais porque elas estão submetidas ao crime organizado. "Então é uma situação de exceção que essas pessoas vivem. Não tem segurança, não tem liberdade, não tem muitas vezes o direito de ir e vir", resume. 

Jungmann considera graves as situações de conflitos nos presídios, as quais muitas vezes resultam em violência e chacinas. E diz ser inaceitável que ainda existam presos armados dentro das próprias prisões. "Para se ter uma ideia, quando nós estávamos aí pela décima-quarta, décima-quinta varredura e a população somada dessas unidades chegava a doze mil apenados, presidiários, nós encontramos mais de quatro mil armas brancas. Isso quer dizer que em cada três presidiários, um está armado". E completa: "Em alguns estados há um acordo entre o sistema penitenciário e o crime organizado, do tipo: 'Não mexe comigo, que eu não crio problemas para você'". 

O ministro é enfático ao defender que as penitenciárias não sejam utilizadas pelo crime como 'home office' dos prisioneiros. "É preciso cortar a comunicação entre o comando do crime que está preso e os criminosos que estão nas ruas". Ele defende um maior rigor e um novo sistema de controle para combater esse tipo de crime. E questiona: "Por que não usar aquilo que existe em muitos outros países? O parlatório. Ou seja, o familiar, assim como o advogado, é separado por um vidro do criminoso e se comunica por telefone. Tudo aquilo fica gravado e, à requisição de um juiz, é possível saber o que foi conversado. Então eu quero inclusive conversar com a OAB, quero conversar com os advogados para colocar para eles esse programa".

Por fim, Raul Jungmann faz uma análise do crime no país e chama atenção para a urgência em mudar essa realidade. E relembra um caso onde o crime conseguiu interferir no direito dos cidadãos. "No ano passado, nas eleições, o governador do Maranhão, Flávio Dino, resolveu fazer cumprir a lei de execução penal, incluindo o tristemente famoso complexo de Pedrinhas. O que aconteceu? Os bandidos ali dentro mandaram uma ordem para fora, dizendo: 'não vai ter eleições'. E começaram a queimar escolas, que são os postos de votação. Ora, é o crime tentando impedir um direito constitucional de escolha de seus governantes, que é de fato um direito constitucional da cidadania". Para o ministro é preciso mudar esta situação enquanto é tempo. Para ele, quando o crime ganha tamanha dimensão e força, ele começa a confrontar as instituições.

Sobre o trabalho das Forças Armadas no Haiti, Jungmann fez questão de relembrar que, dos mais de 37 mil brasileiros que passaram pelo país, vinte e cinco não voltaram para casa e que dezoito deles morreram no terremoto de 2010. Disse que não se pode esquecer a memória dessas pessoas e que avalia o trabalho das tropas brasileiras como positivo. De acordo com o ministro, a maneira como os brasileiros eram tratados no país traduz um pouco desse sentimento.

Ministro da Defesa Raul Jungmann
Ministro da Defesa Raul Jungmann, por Divulgação

"O termo que os haitianos chamam os brasileiros lá, 'Bombagai', quer dizer sujeito bom, pessoa boa". E completa: "A principal arma que os brasileiros tinham levado lá não foram fuzis, não foram metralhadoras. Foram princí­pios, valores, o respeito pelas pessoas, pela cultura, pela dignidade".

Raul Jungmann também comenta os novos pedidos de envio de tropas para as missões de paz: "Nós temos hoje dez pedidos que nos chegam através da ONU, para que nós mandemos tropas. Para que a gente trabalhe para levar a paz a vários recantos do mundo. Nós estamos analisando, mas dentre esses o que tem despontado como o mais possível de uma nova missão de paz do Brasil é a República Centro Africana". 

E ao comparar a situação no Haiti com a violência no Rio de Janeiro, o ministro parafraseia o poeta Carlos Drummond de Andrade e analisa: "Do mesmo engano, outro retrato" . Diz que ambas situações envolvem a busca de paz e defesa da vida.

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