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A transexual Taya Carneiro fala de discriminação e enfrentamento à violência

"Encarar o mundo enquanto transexual é muito difícil", afirma Taya

Conversa com Roseann Kennedy

No AR em 02/10/2017 - 21:30

Enquanto o país lida com a polêmica decisão judicial que abre brechas para a chamada "cura gay", apesar de a homossexualidade não ser doença, transexuais lembram que ainda são tratados como pessoas com transtornos sexuais, de acordo com a lista de patologias da Organização Mundial de Saúde (OMS), e fazem uma campanha para superar esse preconceito.

O trabalho é uma das principais bandeiras de Taya Carneiro, presidente da União Libertária de Travestis e Mulheres Transexuais no Distrito Federal. Taya tem 24 anos, é mestranda em Comunicação e foi a representante brasileira convidada a participar do evento oficial da ONU para o Dia Internacional da Juventude, em agosto, em Nova Iorque. A jovem, que já ajudou a criar dois coletivos para promover a busca por direitos e combate à discriminação, fez um alerta sobre a violência sofrida pela juventude LGBTI no Brasil e no mundo.

Roseann Kennedy conversa com Taya Carneiro
Roseann Kennedy conversa com Taya Carneiro, por Divulgação

Ela explica que a psiquiatria e a psicologia classificaram as sexualidades e as identidades sexuais de gênero que não eram tradicionais como doenças. Atribuíram a elas o sufixo "ISMO". Desta forma, expressões como "homossexualismo" e "transexualismo" dariam a ideia de que seriam doenças. “Por isso se fala transexualidade e homossexualidade, para tirar esse estigma”. 

Para Taya os códigos do CID - principal manual de diagnóstico usado como base para qualquer procedimento médico - também reforçam preconceitos. Termos como homossexualismo, travestismo bivalente, travestismo fetichista, transtorno de identidade sexual na infância são classificações estigmatizantes.

Vinda da periferia de Brasília, Taya relembra que enfrentou agressões desde criança, porque apresentava um jeito feminino. “Eu apanhava bastante na escola”, relata. Mas conta que só se identificou como trans na universidade.

“Quando me assumi eu consegui criar estratégias para evitar contato com pessoas que eu soubesse que poderiam me agredir”.

Para ela, encarar o mundo como transexual é muito difícil, um ato que ainda exige muita coragem. “No momento em que você se assume transexual, você diz: 'Agora, eu vou brigar com o mundo inteiro'”. Nessa trajetória, Taya contou com uma aliada importante:“Minha mãe sempre me defendeu, porque, se eu não tivesse apoio, eu não estaria tão bem como eu estou hoje. Eu provavelmente estaria na rua como as outras”.

Taya acredita que a aceitação da família é um passo importante para mudar essa realidade de discriminação e preconceito. “A família te ajuda a brigar com a escola, a família te ajuda a brigar com o mercado de trabalho, a família vira uma guerreira do seu lado. A família também tem que transexualizar”, avalia.

Com tristeza, ela analisa os resultados da intolerância aos LGBTs no país. “Infelizmente, a gente tem mais números de assassinatos do que o próprio Oriente Médio”. E lamenta: “A gente está na liderança de assassinatos das pessoas trans do mundo inteiro”. Para Taya, a violência estrutural do país tem origem na cultura do brasileiro. “Como as pessoas ainda têm uma cultura muito homofóbica e transfóbica, elas veem uma pessoa trans e já se sentem no direito de assassiná-la, porque ela já está errada só por ser trans”. 

A ativista considera que isso também está relacionado à exclusão social sofrida por trans e travestis que não encontram trabalho e educação por causa do preconceito. Muitas são obrigadas a se prostituir, passando a viver num ambiente de maior vulnerabilidade e violência.

"Encarar o mundo enquanto transexual é muito difícil", afirma Taya Carneiro
"Encarar o mundo enquanto transexual é muito difícil", afirma Taya Carneiro - Divulgação

Taya Carneiro também fala da importância de políticas públicas de saúde para a transexualização e chama atenção para os riscos que envolvem as transformações do corpo. Ela lembra que, na falta de atendimento médico, as próprias mulheres e travestis tomavam hormônio por conta própria e já iam fazendo a autocirurgia, com silicone industrial. O procedimento feito pelas chamadas “bombadeiras” é aplicado de forma clandestina e pode causar deformações e sérios danos à saúde. “Isso é uma prática que ainda existe. As mulheres trans marginalizadas colocam silicone industrial. E quando você não fornece esse sistema de saúde, as pessoas vão procurar de forma clandestina, porque elas necessitam ter aquela identidade reafirmada”.

Ela lembra que o Brasil é um dos poucos países que oferece esse tipo de atendimento na rede pública de saúde. Desde 2008, o SUS já fez mais de 400 cirurgias. Entre os procedimentos estão redesignação sexual, mastectomia, histerectomia, plástica mamária reconstrutiva e tireoplastia, esta para mudança da voz.

Por fim, Taya diz que por uma questão histórica e ideológica prefere ser tratada por travesti. A ideia é garantir maior visibilidade à luta protagonizada por este movimento diante do combate ao HIV e também contra a violência policial. “Hoje em dia, muitos militantes estão se assumindo como travestis por essa questão política, de ressignificar o que significa travesti. É uma identidade marginalizada? É. Mas é por conta da transfobia e não por conta de opção da pessoa. Então eu acho muito importante assumir essa identidade e reivindicar outros significados de pessoas que precisam viver em sociedade e pessoas que precisam ser incluídas”.
 

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