Vida e morte no Paraguai - episódio 8

Tuiuti, 1866

Amigos levantam possibilidades para o ferimento sofrido por Alfredo na Guera do ParaguaiNo acampamento do Exército Aliado, três amigos se divertem conversando sobre Alfredo, colega deles que se feriu levemente em circunstâncias misteriosas. Cada amigo tem uma versão para o ferimento.

O primeiro acredita que Alfredo se feriu ao voltar a um campo de batalha para recuperar sua espada perdida. Ao chegar ao campo forrado de cadáveres, deparou-se com uma cena no mínimo chocante. Quatro soldados paraguaios, que provavelmente haviam se fingido de mortos durante a batalha, saqueavam os mortos. Botas, cintos, camisas e até calças eram recolhidos pelos homens. Ao ficarem cara a cara, brasileiro e paraguaios não sabiam como agir. Alfredo explicou que só havia voltado por sua espada e, realmente, a pegou do chão. Mas temia que os paraguaios não o deixassem ir, afinal, ele podia avisar o Exército Aliado da presença dos inimigos. Por outro lado, os paraguaios não sabiam se o Exército Aliado estaria esperando o retorno do soldado brasileiro. Nesse caso, se matassem Alfredo, poderiam ser perseguidos por centenas de inimigos. Após um momento de indecisão, os paraguaios deram as costas para Alfredo e voltaram a se ocupar dos cadáveres. Alfredo entendeu a deixa e saiu rápido. Mas, ainda nervoso, ao montar em seu cavalo perdeu o equilíbrio e caiu, ferindo-se com a própria espada.

O segundo colega afirma que Alfredo fez uma inacreditável visita à trincheira inimiga. Tudo começou quando, certa noite, cansado de ficar de sentinela, Alfredo decidiu visitar os paraguaios na trincheira a poucos metros dali. Apesar da surpresa dos paraguaios, Alfredo logo convenceu os inimigos de que sua presença ali era amistosa. Em pouco tempo, conversavam como melhores amigos. Beberam, fumaram, tomaram chimarrão e cada um falou mal de seu exército. O clima só ficou um pouco mais pesado quando Alfredo começou a tentar convencer os paraguaios a desertar e passar para o lado brasileiro, afinal, dizia ele, "o Solano Lopez é um louco!" Os paraguaios não gostaram nem um pouco dos comentários do brasileiro. Alfredo teve que sair de lá correndo, perseguido pelos enfurecidos paraguaios. Bêbado, sem lembrar a senha que devia dizer para o sentinela brasileiro, acabou se vendo numa luta corporal, que terminou com a baioneta do sentinela cravada em sua perna.

Já a terceira versão garante que ferimento de Alfredo foi fruto de um caso de amor. Alfredo teria se encantado por uma jovem, filha de um barbeiro do acampamento. Já estavam juntos há alguns dias quando um coronel também se encantou pela jovem. Alfredo sabia que sua patente não era páreo para a de um coronel, mas tentou convencer o pai da moça do absurdo que seria autorizar a namoro da jovem com o velho. Isso porque o coronel tinha 60 anos, enquanto a jovem apenas 17. Mas o barbeiro não conseguiu resistir à oferta do coronel: um saco de feijão, outro de milho, dois alqueires de arroz, uma vaca para corte e um boi de montaria pela moça. Mas Alfredo não desistiu. Sempre que o coronel se ausentava, ele entrava sorrateiramente na cabana do velho para desfrutar de alguns momentos de romance com a jovem. Para seu azar, certa noite o coronel voltou mais cedo e deparou-se com sua jovem nua e um soldado tentando fugir por baixo da lona da barraca. O coronel só teve tempo de sacar sua faca e fincá-la na perna do soldado. Mas, mesmo com a faca do coronel cravada em seu corpo, Alfredo conseguiu sumir na escuridão do acampamento. O coronel não tentou descobrir a identidade do soldado que estava com sua jovem amante, afinal, não quis correr o risco ter sua fama de homem traído na boca dos soldados. Mesmo assim, depois do ocorrido Alfredo teve que se esforçar para não mancar na frente do coronel.

Os três riem e esperam por notícias de Alfredo. Mas o tempo passa. E o amigo está demorando muito a voltar.