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Professora de fotografia para cegos fala da experiência ao Impressões

Profissional revela que mudou percepção de mundo com as aulas

Impressões

No AR em 07/10/2019 - 23:00

Fotógrafa, videomaker, analista internacional. Hoana Gonçalves, entrevistada do programa Impressões, tem vários títulos. Mas o que mais se orgulha é o de professora de fotografia para pessoas cegas.

Formada em Relações Internacionais, Hoana, hoje fotógrafa oficial no Ministério da Economia, acabou caminhando para o mundo das imagens. O trabalho com a fotografia a levou a um desafio que poucas pessoas no mundo tem: ensinar pessoas cegas a fotografar. Hoana conta que entrou em um projeto da faculdade de Artes da Universidade de Brasília, o Poéticas Contemporâneas, e quis direcionar seu trabalho a pessoas cegas. "Foi pela pesquisa científica que eu cheguei nesse assunto e acabei percebendo que não tinha ninguém que pesquisava isso, que em Brasília nunca tinha tido aulas de fotografia para cegos", conta.

"É muita informação visual, e a gente fica naquele esquema de quase não ver mais de tanto que a gente vê", avalia Hoana
"É muita informação visual, e a gente fica naquele esquema de quase não ver mais de tanto que a gente vê", avalia Hoana, por Divulgação/TV Brasil

A percepção de mundo dela mudou após começar a trabalhar com deficientes visuais. Hoana costuma usar a expressão “foto para sentir” para se referir a esse trabalho. “Sentir a foto é muito mais de algo que vem de dentro do que da visão em si. E, hoje em dia, com aparelhos fotográficos, a gente pode perceber o que quer mostrar e conseguir mostrar isso, mesmo sem visão”.

Na prática, o começo do trabalho não foi fácil. Ela reuniu um grupo de cegos que frequentavam uma biblioteca braile que tem ao lado de sua casa e se sentiu perdida, porque não havia material prático nem teórico sobre o assunto. Foi uma construção conjunta: ela ensinando como o seu mundo visual funcionava num aparelho fotográfico e os alunos cegos mostrando que a percepção de mundo deles era diferente e maior. “As primeiras vezes que eu fui ensinar, tinha gente que segurava o aparelho fotográfico e não sabia se ele ia sair na foto ou se saía o que estava na frente. E eu fui percebendo que a visão deles é de 360 graus, e para eles é tudo uma coisa só”, conta. Hoana diz que percebeu que sua visão era limitada por só enxergar para frente enquanto para eles não havia limitações de espaço.

Fotógrafa fala sobre o trabalho com pessoas cegas
Fotógrafa fala sobre o trabalho com pessoas cegas - Divulgação/TV Brasil

Nas oficinas de fotografia, eles desenvolveram as fotografias táteis, com pequenos furos no papel fotográfico para que as imagens feitas pudessem ser vistas pelos alunos cegos. "Eles ficam emocionados ao perceber eles retratados nas fotos”.

Seu trabalho chama a atenção para a inclusão de pessoas com deficiência, mas também para as limitações de quem enxerga. E faz um alerta para o excesso de informações do mundo. "É difícil a gente imaginar porque acha que tudo é só pela visão. Inclusive, hoje em dia, as pessoas estão com a visão muito poluída, é muita informação visual, e a gente fica naquele esquema de quase não ver mais de tanto que a gente vê".

 

Criado em 03/10/2019 - 17:10

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