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  • September 30th, 2009

    Tomás Antônio Gonzaga, o poeta do desterro

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    Na foto podemos ver Dona Flora e sua prima à esquerda, a repórter Aline e Conceição Oliveira.

    No primeiro programa da série Nova África entrevistamos a Sra. Flora Magalhães, tetranetra do poeta inconfidente, Tomás Antônio Gonzaga.

    A primeira parte da entrevista foi gravada no Jardim da Memória, antigo entreposto negreiro. Esse memorial foi inaugurado em 2007  e constitui parte de um grande projeto de recuperação sobre as rotas dos escravos nesta região do mundo promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), iniciado em 2004.

    Dona Flora saiu da Ilha de Moçambique,  em 1972, quando o porto foi desativado e retornou em 1997. Em 1982 cria, em Maputo, a Associação dos Amigos da Ilha.

    Ela nos conta que quando retornou à  Ilha sentiu tristeza e revolta ao ver o estado de deteriorização em que se encontra o patrimônio edificado, mesmo depois de a Ilha ter sido considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1992.

    Em nossa conversa ela mencionou que no o período da guerra civil a Ilha recebeu de uma única vez, mais de 7 mil pessoas, fugindo da guerra. Conta-nos que  os ilhéus dormiam na ponte que liga a Ilha ao continente para fazerem segurança e não permitiram que as tropas da Renamo ocupassem a Ilha.  Vários moradores da Ilha que viveram este tempo nos relataram esse episódio, como o Sr Abdu, sobrinho de Felipe Samuel Magaia, um dos fundadores da Frelimo, juntamente com o Eduardo Mondlane e o Samora Machel.

    Dona Flora tem um profundo amor à ilha e aos ilhéus, especialmente em relação às crianças. Ela acha que o patrimônio material não pode se descolar do imaterial e os ilhéus sem trabalho, sem condições de alimentar os seus filhos, não podem ser cobrados para valorizar edificações. De acordo com suas palavras: patrimônio não é só pedra e cimento. Junto com outros membros importantes da Ilha e fora dela, ela investiu recursos próprios em jornais, vive em Congressos tentando convencer arquitetos sobre uma idéia mais ampla de gestão patrimonial.

    Em muitas de nossas conversas dona Flora deixa transparecer situações nas quais enfrentou preconceito, uma delas em Portugal, quando visitava um museu em Lisboa. Ao final da visita, ela retirou os sapatos, pois estavam muito apertados (durante a guerra civil ter acesso a bens de consumo tornou-se muito difícil e as pessoas usavam sapatos, por vezes, doados de numeração maior ou menor). Ao fazer isso ouviu do guia  algo como: “- Ah! vocês não estão acostumados a usar sapatos!”

    Dona Flora esteve no Brasil em 1996 e aqui também percebeu os estereótipos que construímos sobre a África, entre eles a idéia que o continente é  um ‘país’. Segundo ela, várias pessoas com as quais conversou não sabiam onde ficava Moçambique. Ela só encontrou uma professora de Geografia que sabia que Moçambique era um país e onde se localizava.

    Durante o primeiro episódio da série Nova África, dona Flora lê um poema que Tomás Antônio Gonzaga fez para a Ilha de Moçambique:

    “A Moçambique, aqui vim deportado,
    Descoberta a cabeça ao sol ardente;
    Trouxe por irrisão duro castigo
    Ante a africana, pia, boa gente.
    Graças Alcino amigo,
    Graças a nossa estrela!

    Não esmolei, aqui não se mendiga;
    Os africanos, peitos caridosos
    Antes que a mão o infeliz lhe estenda
    A socorrê-lo correm, pressurosos.
    Graças, Alcino amigo,
    Graças a nossa estrela!

    Durante a nossa produção, várias pessoas ajudaram-nos a localizar Dna Flora, entre elas o professor Adelto Gonçalves e Fernando Gil, organizador do blog sobre Moçambique, o Macua- Moçambique para todos.

    O livro do professor Adelto Gonçalves Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, foi uma de nossas leituras básicas para conhecer a vida de Tomas Antônio Gonzaga, após o seu desterro para a Ilha de Moçambique.

    Para abrir a série de artigos que publicaremos ao longo dos programas, como material de apoio aos professores e a todos que desejarem aprofundar seus conhecimentos sobre as temáticas tratadas nos programas, recebemos do professor Adelto um artigo que pode ser lido na íntegra aqui.

    O artigo do professor Adelto, divido em quatro partes, faz uma síntese de sua tese de doutoramento “Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (vida e época)” que traça a trajetória de Tomás Antônio Gonzaga, do seu nascimento à morte. Boa leitura!

    Conceição Oliveira

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