January 31st, 2010
Em junho de 2009 a equipe Nova África visitou Moçambique. Iniciamos nossa viagem na Ilha de Moçambique, depois descemos de carro em direção a Maputo, passando pelas províncias de Nampula, Zambézia e Sofala.
Apesar de permanecermos em Beira para as gravações no Grande Hotel, não entrevistamos Mia Couto em sua ‘Água Natal’ como diria o escritor moçambicano ao se referir a cidade onde nasceu pois, enquanto parte da equipe da série Nova África gravava em Moçambique, Mia veio ao Brasil para o lançamento do seu novo romance Jesusalém ou Antes do Nascer do mundo, título que o livro recebeu no Brasil.
Mia Couto carece de apresentações: é um escritor reconhecido e admirado em seu país, no Brasil e no Mundo.
Nossa conversa girou em torno da construção da identidade nacional moçambicana, da influência da tevê brasileira em Moçambique, falamos sobre racismo, o passado colonial, o movimento de independência, a guerra civil, sobre as novas elites que governam o país e também sobre literatura.
Clique aqui para ler a entrevista de Mia Couto na íntegra. Esperamos que vocês, leitores do blog Nova África, ao lê-la , tenham o mesmo prazer que tivemos ao encontrar o grande Mia Couto.
December 17th, 2009
Para o Brasil, apesar de toda a imensa herança que, como elemento formador – e a partir do legado cruel da escravidão -, nos deixou, ela continua sendo um grande enigma. É precisamente esse enigma que a série Nova África, em exibição a partir do próximo dia 25, todas as sextas-feiras, às 22hs, na TV Brasil, tenta desvelar.
Dirigida pelo jornalista e blogueiro Luiz Carlos Azenha e por Henry Daniel Ajl, a série se propõe a empreender uma “jornada de descoberta”, inédita na TV brasileira, pelo continente africano, revelando-o em sua diversidade, para além dos tais estereótipos imperialistas, com uma atenção especial a seus povos e culturas e à capilaridade de suas relações com o Brasil.
Primeiro programa enfoca Moçambique
Essa jornada começa em pleno mar, que a um tempo une e separa Brasil e África e ocupa um lugar central no imaginário artístico de boa parte da produção desses dois gigantes periféricos tão perto e tão longe entre si. Um barco navega no Oceano índico, que separa o continente africano da ilha de Moçambique, tema do primeiro programa da série de 26 episódios produzida pela Baboon Filmes, que venceu edital público da TV Brasil.
A estratégia narrativa desenhada pelo roteiro permite, a um tempo, retratar a África a partir da perspectiva dos africanos – evitando abordagens condicionadas por um vício imperialista que, como aponta o escritor moçambicano Mia Couto, tem produzido uma imagem falsa do continente – e garimpar os veios de ligação da cultura africana com a brasileira. A primeira operação é propiciada não apenas por entrevistas que evitam as fontes oficiais e interagem da forma mais espontânea possível com o interlocutor, mas por um olhar atento, cúmplice (imerso, e não de fora) ao modo de vida nos países percorridos.
Já a ligação do continente com o Brasil é uma teia tecida de forma sutil e intermitente, num primeiro nível através da repórter Aline Midlej, que já no episódio inicial, em solo africano, declara: “Como muitos brasileiros, tenho dúvidas sobre minhas raízes. Sei que alguns de meus antepassados familiares saíram daqui, e é tudo. É como se minha história familiar se perdesse na imensidão do continente”. E, enquanto imagens em sucessão mostram cenas de um cotidiano que bem poderíamos reconhecer como o de muitas pessoas no Brasil – mas que não deixam de ter um quê especial – a ligação com o continente deixa de se dar a partir da subjetividade da repórter e se anuncia coletiva: “mas qualquer um é capaz de reconhecer esse ritmo, esses sorrisos, esse jeito de ser”.
Num segundo e mais explícito nível, a ligação África-Brasil é objetivamente tematizada pela abordagem narrativa. No primeiro episódio, por exemplo, isso se dá tanto através de uma reconstituição “subjetiva” da chegada à Ilha de Moçambique do navio Nossa Senhora da Conceição, que em 1792 levou sete dos “inconfidentes” mineiros – cujas penas capitais foram comutadas por degredo em colônias portuguesas. Entre eles, Tomás Antônio Gonzaga, o autor de Marília de Dirceu, que prosperaria em terras africanas. Por vezes, o dualismo África-Brasil é superado pela evidência de uma cultura pan-portuguesa, como na ligação entre Camões (que morou em Moçambique, numa casa semi-arruinada visitada pelo documentário) e a poética luso-brasileira. Mas o momento climático do primeiro episódio se dá através do relato emocionado de uma moçambicana de sua relação com as novelas brasileiras.
Assim, evidencia-se que mais do que o continente em si, são as mulheres e os homens africanos e a cultura – na acepção ampla do termo – que produzem o centro do interesse de Nova África. O documentário, desse modo, não apenas possibilita o contato com uma realidade sócio-cultural da qual a grande mídia nos mantém afastados, mas o faz em grande estilo: com imagens belas mas jamais folclóricas, conteúdo rico em sua diversidade e curiosidade antropológica. Como demonstra o relato de Conceição Oliveira, co-autora do projeto editorial e consultora de História da série:
“No segundo programa, no interior de Moçambique, encontramos a professora Diamantina embaixo de um cajueiro. Era sábado, dia de entrega de material. A cena é fabulosa, passávamos pela estrada e vimos uma roda imensa de crianças ao redor do cajueiro, protegidas do sol pela copa da árvore. Ela dá aula sozinha para 360 alunos em condições distantes da ideal – e não precisa dar um grito para ter atenção. Foi uma lição de vida para todos… Você vai se emocionar, as crianças cantaram lindamente para nós, chorei. Aliás, as crianças de Moçambique me emocionaram sempre”.
Excelência técnica e imersão emocional
A direção de fotografia da série (Markus Bruno) não pode ser considerada menos do que primorosa: gravações tecnicamente bem-resolvidas, mas feitas no calor da hora, no melhor estilo jornalístico, combinam-se a tomadas que evidenciam um cuidado extremo não apenas com angulações, movimentos de câmera e composições de quadro, mas em trabalhar a luz – no mais das vezes intensa e natural – de modo a realçar o universo multicolorido do continente sem folclorizá-lo.
Tais imagens são trabalhadas por uma montagem que é ágil sem jamais ser neurótica e “videoclipada”, como ora em voga: respira, tem ritmo; não se furta a compor mosaicos com imagens em profusão, mas respeita a relação com o objeto retratado, não hesitando em se deter em determinada tomada por um tempo mais longo, se conveniente. E, embora a ficha técnica não elenque sound design ou montagem de som entre seus quesitos, o som é tratado com especial atenção, seja em relação à imagem, como elemento de condução da narrativa ou exercendo a função de realçar à riqueza musical da África. Trata-se de um aspecto técnico tratado com um apuro raro de se observar em produções jornalístico/documentais da TV brasileira.
Desnecessário dizer que as manifestações sonoras retratadas são, literalmente, um show à parte – valorizado, no caso, pela trilha sonora e pela mixagem de Rafael Gallo. É na música e na dança, mais do que em qualquer outra arte, que a excepcional aptidão artística dos africanos se evidencializa, como manifestação de uma alegria que não sem frequência contrasta com a escassez material em volta:
“Voltei com a sensação de que se há um continente onde seus povos são sinônimo de resistência é o africano. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida como pessoa, estudiosa do assunto, como mulher – afirma Conceição, que promete postar em seu blog algumas histórias sobre a empreitada e “pôr no ar algumas fotos dos sorrisos mais lindos que vi na vida” (o primeiro texto já esta lá, confira).
September 30th, 2009

No primeiro programa da série Nova África entrevistamos a Sra. Flora Magalhães, tetranetra do poeta inconfidente, Tomás Antônio Gonzaga.
A primeira parte da entrevista foi gravada no Jardim da Memória, antigo entreposto negreiro. Esse memorial foi inaugurado em 2007 e constitui parte de um grande projeto de recuperação sobre as rotas dos escravos nesta região do mundo promovido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), iniciado em 2004.
Dona Flora saiu da Ilha de Moçambique, em 1972, quando o porto foi desativado e retornou em 1997. Em 1982 cria, em Maputo, a Associação dos Amigos da Ilha.
Ela nos conta que quando retornou à Ilha sentiu tristeza e revolta ao ver o estado de deteriorização em que se encontra o patrimônio edificado, mesmo depois de a Ilha ter sido considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1992.
Em nossa conversa ela mencionou que no o período da guerra civil a Ilha recebeu de uma única vez, mais de 7 mil pessoas, fugindo da guerra. Conta-nos que os ilhéus dormiam na ponte que liga a Ilha ao continente para fazerem segurança e não permitiram que as tropas da Renamo ocupassem a Ilha. Vários moradores da Ilha que viveram este tempo nos relataram esse episódio, como o Sr Abdu, sobrinho de Felipe Samuel Magaia, um dos fundadores da Frelimo, juntamente com o Eduardo Mondlane e o Samora Machel.
Dona Flora tem um profundo amor à ilha e aos ilhéus, especialmente em relação às crianças. Ela acha que o patrimônio material não pode se descolar do imaterial e os ilhéus sem trabalho, sem condições de alimentar os seus filhos, não podem ser cobrados para valorizar edificações. De acordo com suas palavras: patrimônio não é só pedra e cimento. Junto com outros membros importantes da Ilha e fora dela, ela investiu recursos próprios em jornais, vive em Congressos tentando convencer arquitetos sobre uma idéia mais ampla de gestão patrimonial.
Em muitas de nossas conversas dona Flora deixa transparecer situações nas quais enfrentou preconceito, uma delas em Portugal, quando visitava um museu em Lisboa. Ao final da visita, ela retirou os sapatos, pois estavam muito apertados (durante a guerra civil ter acesso a bens de consumo tornou-se muito difícil e as pessoas usavam sapatos, por vezes, doados de numeração maior ou menor). Ao fazer isso ouviu do guia algo como: “- Ah! vocês não estão acostumados a usar sapatos!”
Dona Flora esteve no Brasil em 1996 e aqui também percebeu os estereótipos que construímos sobre a África, entre eles a idéia que o continente é um ‘país’. Segundo ela, várias pessoas com as quais conversou não sabiam onde ficava Moçambique. Ela só encontrou uma professora de Geografia que sabia que Moçambique era um país e onde se localizava.
Durante o primeiro episódio da série Nova África, dona Flora lê um poema que Tomás Antônio Gonzaga fez para a Ilha de Moçambique:
“A Moçambique, aqui vim deportado,
Descoberta a cabeça ao sol ardente;
Trouxe por irrisão duro castigo
Ante a africana, pia, boa gente.
Graças Alcino amigo,
Graças a nossa estrela!
Não esmolei, aqui não se mendiga;
Os africanos, peitos caridosos
Antes que a mão o infeliz lhe estenda
A socorrê-lo correm, pressurosos.
Graças, Alcino amigo,
Graças a nossa estrela!
Durante a nossa produção, várias pessoas ajudaram-nos a localizar Dna Flora, entre elas o professor Adelto Gonçalves e Fernando Gil, organizador do blog sobre Moçambique, o Macua- Moçambique para todos.
O livro do professor Adelto Gonçalves Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, foi uma de nossas leituras básicas para conhecer a vida de Tomas Antônio Gonzaga, após o seu desterro para a Ilha de Moçambique.
Para abrir a série de artigos que publicaremos ao longo dos programas, como material de apoio aos professores e a todos que desejarem aprofundar seus conhecimentos sobre as temáticas tratadas nos programas, recebemos do professor Adelto um artigo que pode ser lido na íntegra aqui.
O artigo do professor Adelto, divido em quatro partes, faz uma síntese de sua tese de doutoramento “Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (vida e época)” que traça a trajetória de Tomás Antônio Gonzaga, do seu nascimento à morte. Boa leitura!
Conceição Oliveira