March 15th, 2010
Originalmente publicado em 18/09/2009 no blog: História em Projetos
Sexta-feira, 25 de setembro, às 22 hs estréia na TV Brasil a série Nova África
por: Conceição Oliveira
Compreender a África é sumamente um exercício crítico. Uma das suas metas aponta para o desvendamento de realidades encobertas por mitos, ficções e imagens fantasiosas. Indiscutivelmente, ainda que existam visões estereotipadas cultivadas contra outros povos e regiões, a África, mais do que qualquer outro continente, terminou encoberta por um véu de preconceitos que ainda hoje marcam a percepção da sua realidade. (Maurício Waldman, 2006)

Na minha África moçambicana a esperança nos olhos dos pequeninos: crianças de Beira, província de Sofala, Moçambique, voltando da escola, junho de 2009.

Meninas Macua da Ilha de Moçambique fazem graça, chamam a atenção e posam para as minhas lentes. Deixei a ilha chorando. Um misto de emoção, saudades, encantamento e solidariedade invadiu-me.
Desde a graduação, estimulada e sob orientação da professora Maria Odila e depois da professora Siívia Lara, professor Bob Slenes, professor Sidney Chalhoub, professora Clementina Cunha e, mais recentemente, professor Carlos Serrano, professora Anita Morais, professora Rejane Vecchia a importância dos negros na história de nosso território, assim como a história do continente africano despertaram e ainda muito me interessam.
Ao longo desses mais de 20 anos, às reflexões acadêmicas somaram-se o ativismo na luta contra o racismo e na luta pela inclusão plena à cidadania da população negra brasileira. Por meio do trabalho de formação dos professores, do trabalho de pesquisa e escrita das coleções didáticas de história, por meio dos blogs sempre focando a educação pautada na igualdade étnico-racial e, principalmente para que a 10639/03 se torne realidade em nossas academias e na Educação Básica.
Por isso, foi com imenso prazer e, ao mesmo tempo, ciente do enorme desafio que nos cabia que aceitei o convite do meu amigo, mas antes de tudo, do jornalista sério e responsável que é Luiz Carlos Azenha, para compor esta pequena equipe, formada pela produtora Baboon Filmes, para disputar o Edital da TV Brasil (leia-o aqui e aqui veja a apresentação da equipe no site do Vi o mundo).
Não é um trabalho fácil desconstruir inúmeros estereótipos sobre o continente africano reafirmados ao longo de séculos e vencer os inúmeros silêncios aos quais os próprios africanos foram submetidos. Nossa tarefa será dar conta em 26 programas de 26 minutos cada, divididos em dois blocos, de alguns aspectos que nos foram revelados durante as viagens.
Nova África é acima de tudo uma série jornalística que dá voz e vez aos africanos para que eles próprios falem de seus problemas e soluções. Tocaremos em feridas, problemas de diferentes ordens serão tratados ao longo da série, mas sem perdermos a perspectiva de que os africanos são sujeitos da história, não formam um bloco único e homogêneo nem em termos étnico-culturais, nem políticos, nem econômicos.
Acredito que ao conhecer um pouco mais sobre os diferentes países que visitamos e ainda iremos visitar, o público brasileiro também se impressionará com a enorme capacidade de resistência dos povos africanos.

Na ilha de Moçambique eu, a jovem Maconde Ana com suas irmãs menores e a repórter da série Nova África, Aline Midlej.
Aos ver os programas da série vocês conhecerão diferentes atores sociais deste continente: homens e mulheres trabalhadores, ativistas, artistas plásticos, políticos, escritores, cantores etc.
Em minha opinião, temos muito a aprender com a professora Diamantina que vive no Alto Ligonha, na província da Zambézia, Moçambique. Ela dá aulas, em salas rurais com teto de palha e bancos de madeira quase na altura do chão e, muitas vezes, debaixo do cajueiro para 360 alunos! Ela consegue ensiná-los com uma doçura que nos comove.
Temos muito a aprender com a adolescente Belquiça, uma garota Macua da Ilha de Moçambique, que além de ótima aluna, neta carinhosa, dedica parte de seu tempo a tocar um projeto de rádio comunitária e educativa falando dos principais problemas que afetam a população da Ilha.
Seu Germano de Quelimane, cidade nascida em um dos braços do delta do rio Zambeze, por onde passou Vasco da Gama a caminho para as Índias, lembra-me a famosa frase de Euclides da Cunha, mas revisitada: “O africano é antes de tudo um forte”. É preciso ser portador de uma resistência hercúlea para tocar a vida em um país que foi sangrado por séculos por um colonialismo predador, depois achacado por 16 anos de guerra civil violenta e ainda assim tocar a vida, fazendo a diferença.
Nesta nova série eu espero que você aprenda o tanto que aprendi ao visitar e conhecer de perto homens e mulheres como eu e você, crianças e adolescentes como nossos filhos e alunos que, na “África Contemporânea, independentemente da frágil legitimidade de muitos Estados africanos, das suas subvalorizadas economias formais e dos seus simulacros de autoridade institucional, agarram-se à vida e à esperança, ignorando prognósticos negativos e sobrevivendo à margem de instituições, organismos e poderes que procuram acorrentá-los.” (Serrano, 2007:35)
Espero que a série Nova África consiga despertar em você a vontade de ler, estudar e conhecer mais sobre este continente que nos é tão próximo, mas ao mesmo tempo tão desconhecido. Lembrando ainda o cuidado que devemos tomar neste esforço de conhecimento/reconhecimento do continente africano, como nos alerta o professor angolano Carlos Serrano: “para além de mero ato de vontade, a desconstrução das imagens negativas do continente faz-se com estudo, conhecimento e compreensão atentos à sua personalidade histórica, geográfica e cultural específica. (Serrano, idem, ibidem)
um comentárioMarch 15th, 2010
Originalmente publicado em 18/09/2009 no Viomundo

A repórter Aline Midlej faz anotações ao sair de um vilarejo dos himba quase na fronteira da Namíbia com Angola, na África. Notem o braço avermelhado dela. Uma mulher himba aplicou na repórter a mistura de gordura e ocre que tinge as mulheres himba de vermelho.
por Luiz Carlos Azenha
Nos próximos dias pretendo apresentar a vocês um projeto do qual orgulhosamente faço parte. Trata-se da revista Nova África, que estréia dia 25 de setembro, 10 da noite, na TV Brasil. Uma série de 26 programas semanais em que uma equipe da Baboon Filmes viaja pela maior parte do continente.
Mas, antes, uma explicação: a Baboon Filmes disputou uma concorrência pública com várias produtoras de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília — todas interessadas em fazer o projeto. E venceu. A Baboon pertence a dois jovens empresários de São Paulo, Henry Ajl e Markus Bruno, ambos repórteres cinematográficos. Fui convidado pela produtora para escrever o projeto editorial, o que fiz em parceria com a historiadora Conceição Oliveira. E, depois de 28 anos como repórter de televisão — comecei em 1980, na TV Bauru, da Rede Globo — faço minha estréia como diretor.
Na verdade integro uma equipe de feras, uma mistura de gente que tem grande experiência no ramo, como eu, e de novatos como a repórter Aline Midlej. Estou certo de que vocês vão se encantar com a Aline. É uma mulher batalhadora e dedicada, que ontem estava com o Henry em algum lugar do Congo, a caminho de um encontro com os pigmeus na região fronteiriça com Ruanda. Como a maioria dos brasileiros afrodescendentes, ela tem poucas informações sobre suas raízes na África. Nossa idéia foi colocá-la não só como repórter, mas também como personagem dessa descoberta, que é de muitos.
Para todos os envolvidos no projeto, aliás, tem sido uma descoberta. Quando eu comecei a me interessar pela África eu ainda morava nos Estados Unidos. Fui notando aos poucos que quase toda a historiografia refletia o olhar europeu sobre um continente partilhado pelas potências européias no auge do imperialismo mercantil. E que, mesmo títulos recentes, embora descartassem o racismo mais aberto, estavam impregnados de preconceito. Notei que quase não existia nada escrito em português sobre a rebelião Mau-Mau no Quênia, a matança dos herero no que hoje é a Namíbia ou os crimes do rei Leopoldo no Congo. Pela dimensão dessas tragédias, há pouco escrito sobre esses temas mesmo em inglês.
Com certeza, não é por acaso. Descobri também que quando os europeus buscaram ocupar fisicamente o território africano, em nome do “comércio, cristianismo e civilização”, se esforçaram para apagar a história da África e descrevê-la como território dos “bárbaros”. Os negros como símbolo de barbárie era do que os europeus precisavam para justificar a expropriação das terras, a exploração dos recursos naturais e a implantação de regimes racistas, dos quais o da África do Sul se tornou símbolo, embora vários tenham sido tão perversos quanto o dos africâners.
Entendendo episódios como a rebelião Mau Mau e outros eventos que podemos classificar grosseiramente na categoria de lutas de resistência, cresce a admiração pelas estratégias que os africanos adotaram para preservar sua cultura e tradição. Foi o que vimos, por exemplo, na ilha de Moçambique, com o povo macua. Os macua reciclaram as influencias que “desembarcaram” na costa de Moçambique mas nunca perderam a energia vital — podemos vê-la hoje por aí, nas ruas do Rio de Janeiro e Salvador.
A África real também é surpreendente por não se encaixar na África “da diáspora”. Como observou com propriedade o pintor moçambicano Naguib, numa entrevista que gravamos com ele em Maputo, os afrodescendentes muitas vezes idealizam, à distância, uma África que já não existe mais. E resistem bravamente a qualquer fato que não se encaixe nesse mundo idealizado, em que a cor de pele é definidora de quem é “herói” e quem é “vilão”.
Modestamente, aos poucos, pretendemos dar conta dessa complexidade, ouvindo especialmente os protagonistas que o Jornalismo em geral relegou ao papel de “coadjuvantes exóticos”: os próprios africanos.
2 comentáriosJanuary 31st, 2010
Em junho de 2009 a equipe Nova África visitou Moçambique. Iniciamos nossa viagem na Ilha de Moçambique, depois descemos de carro em direção a Maputo, passando pelas províncias de Nampula, Zambézia e Sofala.
Apesar de permanecermos em Beira para as gravações no Grande Hotel, não entrevistamos Mia Couto em sua ‘Água Natal’ como diria o escritor moçambicano ao se referir a cidade onde nasceu pois, enquanto parte da equipe da série Nova África gravava em Moçambique, Mia veio ao Brasil para o lançamento do seu novo romance Jesusalém ou Antes do Nascer do mundo, título que o livro recebeu no Brasil.
Mia Couto carece de apresentações: é um escritor reconhecido e admirado em seu país, no Brasil e no Mundo.
Nossa conversa girou em torno da construção da identidade nacional moçambicana, da influência da tevê brasileira em Moçambique, falamos sobre racismo, o passado colonial, o movimento de independência, a guerra civil, sobre as novas elites que governam o país e também sobre literatura.
Clique aqui para ler a entrevista de Mia Couto na íntegra. Esperamos que vocês, leitores do blog Nova África, ao lê-la , tenham o mesmo prazer que tivemos ao encontrar o grande Mia Couto.