March 12th, 2010
December 17th, 2009
A série Nova África, incluída na nova programação da TV Brasil, mostra imagens e histórias do continente africano que pouca gente viu ou ouviu. “Falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África. Uma nova forma de ver a África”, define Luiz Carlos Azenha, jornalista responsável pela série de 26 episódios que será exibida toda sexta-feira a partir de 25 de setembro, às 22h, na TV Brasil. “A cada semana, uma surpresa”, promete o jornalista, para acrescentar: “ Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África”.
Confira a entrevista que Azenha concedeu à equipe da TV Brasil.
TV Brasil – A ideia do Nova África é mostrar uma África diferente. O que isso quer dizer?
Luiz Carlos Azenha – A África que conhecemos foi “inventada” pelos europeus. A ocupação física do continente se deu num quadro de disputa entre as potências européias e da expansão da evangelização cristã. “Comércio, cristianismo e civilização” eram os 3 cês conjugados pelos colonizadores. Nasceu daí a idéia da África “bárbara”, “selvagem”, do “continente negro” como lugar da perdição. Foi preciso apagar a história da África para inventar um continente à imagem e semelhança da Europa, mas para poucos. Muito embora essa visão racista da África tenha desaparecido do discurso oficial, os preconceitos persistem em pleno século 21. A África “não dá certo”, é vista como símbolo do atraso, da decadência e da corrupção. Nós pretendemos romper com esse paradigma de ver a África através de lentes européias. Em primeiro lugar, deixando que os próprios africanos falem sobre si, não “especialistas” que nunca puseram o pé no continente. Em segundo lugar mostrando que o continente é bastante complexo e que falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África. Uma nova forma de ver a África.
TVB – Como será a estrutura do programa?
LCA – Cada programa tem 26 minutos, grosseiramente divididos em dois blocos. Fazemos roteiros terrestres, viagens de descoberta, especialmente por regiões remotas dos países que visitamos. Começamos em Moçambique, passamos pela África do Sul, Botsuana e Namíbia. Em seguida, Ruanda e Congo. Existem fios condutores em cada um dos programas. Em Moçambique, mostramos a força da cultura dos macua, que mantiveram suas tradições apesar da escravidão, do colonialismo e da guerra civil. Na África do Sul, mostramos como pouco mudou no campo desde o fim do apartheid: as terras continuam concentradas na mão de 60 mil fazendeiros brancos e os negros que migraram para as cidades entram em conflito com imigrantes negros que vem de países da região.Em Botsuana mostramos a disputa entre homens e elefantes pelo uso da água e das terras.
TVB – Quais temas serão tratados nos episódios?
LCA – Nos programas temáticos falaremos, por exemplo, de como o português do Brasil – que chega pela TV, especialmente pelas novelas – foi incorporado ao cotidiano dos países de língua portuguesa; da disputa pelos recursos naturais à qual se incorporaram mais recentemente chineses, indianos e brasileiros; discutiremos até que ponto a “ajuda externa” à África é, de fato, ajuda.
TVB – Que histórias dos programas já gravados você destacaria?
LCA – Fomos ao famoso Grande Hotel da Beira, em Moçambique, que já foi um símbolo do império colonial português na África, hoje ocupado por cerca de 800 famílias. Fomos ao parque nacional do Chobe, em Botsuana, onde a maior concentração de elefantes no planeta disputa terras com os fazendeiros. Fomos às cachoeiras de Epupa, no rio Cunene, fronteira de Angola e Namíbia, mostrar a tradição ameaçada do povo himba. Apenas na primeira viagem fizemos 6 mil km de jipe atravessando quatro países, o que resultou num material riquíssimo. A segunda viagem começamos em Bruxelas, na Bélgica, país que enriqueceu graças à borracha extraída do Congo. Ou seja, fazemos reportagens historicamente contextualizadas, que estamos certos terão grande serventia para estudantes e professores que quiserem ensinar sobre a África.
TVB – O que o telespectador da TV Brasil pode esperar do Nova África?
LCA – Estamos prometendo uma surpresa por semana. Os programas estão bem diferentes uns dos outros. Não é por acaso. Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África. Os montadores fazem um trabalho muito mais próximo do cinema que da TV. E a repórter Aline Midlej faz uma viagem de descoberta pessoal em busca das raízes da família dela no continente. A gente espera que o telespectador se surpreenda tanto quanto a Aline se surpreendeu até agora.
Nova África estreia no dia 25 de setembro, às 22h.
December 17th, 2009
Para o Brasil, apesar de toda a imensa herança que, como elemento formador – e a partir do legado cruel da escravidão -, nos deixou, ela continua sendo um grande enigma. É precisamente esse enigma que a série Nova África, em exibição a partir do próximo dia 25, todas as sextas-feiras, às 22hs, na TV Brasil, tenta desvelar.
Dirigida pelo jornalista e blogueiro Luiz Carlos Azenha e por Henry Daniel Ajl, a série se propõe a empreender uma “jornada de descoberta”, inédita na TV brasileira, pelo continente africano, revelando-o em sua diversidade, para além dos tais estereótipos imperialistas, com uma atenção especial a seus povos e culturas e à capilaridade de suas relações com o Brasil.
Primeiro programa enfoca Moçambique
Essa jornada começa em pleno mar, que a um tempo une e separa Brasil e África e ocupa um lugar central no imaginário artístico de boa parte da produção desses dois gigantes periféricos tão perto e tão longe entre si. Um barco navega no Oceano índico, que separa o continente africano da ilha de Moçambique, tema do primeiro programa da série de 26 episódios produzida pela Baboon Filmes, que venceu edital público da TV Brasil.
A estratégia narrativa desenhada pelo roteiro permite, a um tempo, retratar a África a partir da perspectiva dos africanos – evitando abordagens condicionadas por um vício imperialista que, como aponta o escritor moçambicano Mia Couto, tem produzido uma imagem falsa do continente – e garimpar os veios de ligação da cultura africana com a brasileira. A primeira operação é propiciada não apenas por entrevistas que evitam as fontes oficiais e interagem da forma mais espontânea possível com o interlocutor, mas por um olhar atento, cúmplice (imerso, e não de fora) ao modo de vida nos países percorridos.
Já a ligação do continente com o Brasil é uma teia tecida de forma sutil e intermitente, num primeiro nível através da repórter Aline Midlej, que já no episódio inicial, em solo africano, declara: “Como muitos brasileiros, tenho dúvidas sobre minhas raízes. Sei que alguns de meus antepassados familiares saíram daqui, e é tudo. É como se minha história familiar se perdesse na imensidão do continente”. E, enquanto imagens em sucessão mostram cenas de um cotidiano que bem poderíamos reconhecer como o de muitas pessoas no Brasil – mas que não deixam de ter um quê especial – a ligação com o continente deixa de se dar a partir da subjetividade da repórter e se anuncia coletiva: “mas qualquer um é capaz de reconhecer esse ritmo, esses sorrisos, esse jeito de ser”.
Num segundo e mais explícito nível, a ligação África-Brasil é objetivamente tematizada pela abordagem narrativa. No primeiro episódio, por exemplo, isso se dá tanto através de uma reconstituição “subjetiva” da chegada à Ilha de Moçambique do navio Nossa Senhora da Conceição, que em 1792 levou sete dos “inconfidentes” mineiros – cujas penas capitais foram comutadas por degredo em colônias portuguesas. Entre eles, Tomás Antônio Gonzaga, o autor de Marília de Dirceu, que prosperaria em terras africanas. Por vezes, o dualismo África-Brasil é superado pela evidência de uma cultura pan-portuguesa, como na ligação entre Camões (que morou em Moçambique, numa casa semi-arruinada visitada pelo documentário) e a poética luso-brasileira. Mas o momento climático do primeiro episódio se dá através do relato emocionado de uma moçambicana de sua relação com as novelas brasileiras.
Assim, evidencia-se que mais do que o continente em si, são as mulheres e os homens africanos e a cultura – na acepção ampla do termo – que produzem o centro do interesse de Nova África. O documentário, desse modo, não apenas possibilita o contato com uma realidade sócio-cultural da qual a grande mídia nos mantém afastados, mas o faz em grande estilo: com imagens belas mas jamais folclóricas, conteúdo rico em sua diversidade e curiosidade antropológica. Como demonstra o relato de Conceição Oliveira, co-autora do projeto editorial e consultora de História da série:
“No segundo programa, no interior de Moçambique, encontramos a professora Diamantina embaixo de um cajueiro. Era sábado, dia de entrega de material. A cena é fabulosa, passávamos pela estrada e vimos uma roda imensa de crianças ao redor do cajueiro, protegidas do sol pela copa da árvore. Ela dá aula sozinha para 360 alunos em condições distantes da ideal – e não precisa dar um grito para ter atenção. Foi uma lição de vida para todos… Você vai se emocionar, as crianças cantaram lindamente para nós, chorei. Aliás, as crianças de Moçambique me emocionaram sempre”.
Excelência técnica e imersão emocional
A direção de fotografia da série (Markus Bruno) não pode ser considerada menos do que primorosa: gravações tecnicamente bem-resolvidas, mas feitas no calor da hora, no melhor estilo jornalístico, combinam-se a tomadas que evidenciam um cuidado extremo não apenas com angulações, movimentos de câmera e composições de quadro, mas em trabalhar a luz – no mais das vezes intensa e natural – de modo a realçar o universo multicolorido do continente sem folclorizá-lo.
Tais imagens são trabalhadas por uma montagem que é ágil sem jamais ser neurótica e “videoclipada”, como ora em voga: respira, tem ritmo; não se furta a compor mosaicos com imagens em profusão, mas respeita a relação com o objeto retratado, não hesitando em se deter em determinada tomada por um tempo mais longo, se conveniente. E, embora a ficha técnica não elenque sound design ou montagem de som entre seus quesitos, o som é tratado com especial atenção, seja em relação à imagem, como elemento de condução da narrativa ou exercendo a função de realçar à riqueza musical da África. Trata-se de um aspecto técnico tratado com um apuro raro de se observar em produções jornalístico/documentais da TV brasileira.
Desnecessário dizer que as manifestações sonoras retratadas são, literalmente, um show à parte – valorizado, no caso, pela trilha sonora e pela mixagem de Rafael Gallo. É na música e na dança, mais do que em qualquer outra arte, que a excepcional aptidão artística dos africanos se evidencializa, como manifestação de uma alegria que não sem frequência contrasta com a escassez material em volta:
“Voltei com a sensação de que se há um continente onde seus povos são sinônimo de resistência é o africano. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida como pessoa, estudiosa do assunto, como mulher – afirma Conceição, que promete postar em seu blog algumas histórias sobre a empreitada e “pôr no ar algumas fotos dos sorrisos mais lindos que vi na vida” (o primeiro texto já esta lá, confira).