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    Pgm 722 - Entrevista com o jornalista Glenn Greenwald - 29/04/2014

     

    O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (29/4) pela TV Brasil exibiu uma entrevista de Alberto Dines com Glenn Greenwald, um dos vencedores do prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo internacional. No ano passado, Greenwald divulgou em primeira mão, no jornal britânico The Guardian, as informações vazadas pelo ex-consultor da Agência Nacional de Segurança (NSA) americana, Edward Snowden. Os dados bombásticos revelaram a rede de monitoramento internacional de comunicações montada pelo governo dos Estados Unidos a partir do 11 de Setembro. Advogado constitucionalista, Greenwald nasceu no Queens, coração de Nova York, e vive há nove anos no Rio de Janeiro. Deixou o Guardian há seis meses e agora parte para uma nova aventura: um site de jornalismo independente financiado pelo fundador do eBay, o americano de origem iraniana Pierre Omidyar.

    Alberto Dines abriu a entrevista questionando se Greenwald tem noção do perigo que corre ao contrariar interesses internacionais tão poderosos com as revelações do caso Snowden. O jornalista contou que quando começou esta reportagem já tinha em mente que os documentos trariam consequências graves não só para os Estados Unidos. “Como jornalista, você precisa aceitar esses riscos, esses perigos, porque jornalismo é apenas desafiar os poderosos. Sempre têm riscos e se você não aceita isso, nada vai ser no jornalismo”, disse Greenwald.

    Greenwald relembrou que, em dezembro de 2012, Edward Snowden entrou em contato por e-mail pedindo para que instalasse programas que protegessem a privacidade das comunicações entre eles, mas não detalhou o assunto da conversa. O jornalista descartou a aproximação e então Snowden procurou a documentarista e cineasta Laura Poitras, que fez a ponte entre os dois. O primeiro encontro do trio ocorreu pouco depois, em Hong Kong, sob forte esquema de sigilo.

    Rapidamente criou-se um clima de confiança e cumplicidade entre os três. “Depois de um dia eu sabia que ele estava falando a verdade, que os motivos dele eram puros. Eu acreditei muito no que ele estava falando, que os documentos eram reais. Eu consegui confiar nele e ele em mim e por isso o trabalho foi muito fácil”, lembrou Greenwald. Dines pediu para o jornalista comentar a dramática situação de Snowden. Asilado em Moscou, o ex-agente da NSA está longe da família, dos amigos, em um país com outra língua e cultura. Ele explicou que nos últimos meses tem falado com Snowden quase todos os dias através de conexões seguras.

    Para o entrevistado, o asilo é melhor do que uma prisão nos Estados Unidos. “Ele se sacrificou sabendo exatamente o que estava fazendo. Eu acho que ele está feliz, na realidade, porque as consequências do que ele fez foram muito maiores do que imaginávamos quando estávamos em Hong Kong. Eu acho que ele não se arrepende do que fez nem um pouco e quando você tem essa convicção, isso tem um valor muito grande e pode substituir outras coisas que ele perdeu”, disse o jornalista. Greenwald sublinhou que o governo dos Estados Unidos usa o medo para controlar o país e usa da situação de Snowden para assustar outras pessoas que pretendem divulgar informações sigilosas.

    Uma nova forma de ver o mundo

    “Sabíamos desde o começo que o que estávamos fazendo era muito maior do que só espionagem. Primeiro porque sabíamos que muitas pessoas não iram mais confiar no papel que os Estados Unidos têm no mundo. Segundo porque as pessoas vão pensar diferente sobre os jornalistas e o relacionamento entre governo e mídia. Terceiro porque eles vão perceber que os governos podem fazer muita coisa sem transparência”, disse o entrevistado.

    Greenwald acredita que muitas pessoas estejam refletindo pela primeira vez sobre as relações entre indivíduo e Estado, e em como fica a privacidade na era da internet. De acordo com pesquisas de perfil psicológico citadas pelo entrevistado, quando o indivíduo acredita que pode estar sendo monitorado, navega na internet baseado naquilo que imagina que quem o está vigiando quer ver. E isto determina seus hábitos na rede.

    Glenn Greenwald disse que o presidente Barack Obama intensificou os sistemas de espionagem criados pelos seus antecessores. “Ele está perseguindo jornalistas e fontes com mais vibração do que qualquer presidente antes dele, incluindo o Bush. Altos oficiais do governo Obama estão ameaçando jornalistas, incluindo a mim, que estou fazendo essas reportagens, e dizendo que somos criminosos e devemos ser processados. Eu acho que o clima de medo criado nos Estados Unidos piorou no governo Obama, não melhorou como era a promessa”, afirmou Greenwald. O entrevistado lembrou que mesmo o presidente conservador Dwight Eisenhower percebeu como sendo um grande problema a combinação de grandes empresas com o poder militar. Um país que está sempre fazendo guerras consolida o poder desses grupos e a democracia fica ameaçada.

    Dines perguntou a Glenn Greenwald se houve algum problema que precipitou a saída do Guardian, jornal onde começou a publicar as denúncias de Snowden. Greenwald assegurou que não houve polêmica, mas o jornal – como outros veículos da grande imprensa – tem problemas econômicos e teme conflitos com governos ou grandes empresas que possam levar a prejuízos financeiros. “Esse medo criou um clima onde eles não querem ficar muito agressivos. O governo britânico, especificamente, pode atacar jornais de forma intensa porque tem proteções constitucionais. O Guardian teve muita coragem, mas [houve] um ponto em que eles estiveram intimidados”, disse Greenwald. Ele deixou o jornal não por conta desta restrição, mas pela possibilidade de criar um novo grupo de mídia independente.

    O poder do dinheiro e da política

    Glenn Greenwald contou que o governo diz que vai impedir reportagens, processar e colocar na prisão os responsáveis por elas. Já as gigantes da internet, como Google e Facebook, deixam clara a possibilidade de processar: “Essas empresas têm dinheiro sem limites e sabem que os jornais não podem perder muito nesses processos; e este perigo sempre está no cérebro dos jornais e os jornais têm medo de fazer reportagens com agressões contra estas empresas”, afirmou.

    O jornalista explicou que as empresas são obrigadas por lei a auxiliar o governo na espionagem, mas estão fornecendo dados além do estritamente exigido. “Sem o envolvimento dessas empresas a NSA não poderia fazer nada do que está fazendo. É verdade o que essas empresas estão falando, que estão obrigadas pela lei a colaborar. Mas eles estão fazendo muito mais colaboração do que a lei obriga, porque antes dessas reportagens ninguém sabia que elas estavam fazendo isso. E eles estão recebendo muitos benefícios, trabalhando com o governo, com contratos. Essas empresas têm muito poder, muita influência”, disse. Por outro lado, elas já sentem a perda de credibilidade junto aos consumidores e poderiam pressionar o governo a mudar as leis que as obrigam a colaborar.

    Dines pediu para Glenn Greenwald explicar como funcionará o novo projeto do qual participa, o First Look Media. Um dos homens mais ricos do mundo, Pierre Omidyar, não tem medo de desafiar o poder ao criar um grupo de mídia independente e questionador. Vários jornalistas em todo o mundo estão sendo beneficiados com o projeto. “Ele quer apoiar os jornalistas que estão desafiando as facções mais poderosas. Ele não tem interesse em ganhar mais dinheiro”, explicou Greenwald. Omidyar se comprometeu a jamais se envolver em questões editoriais dos projetos que patrocina. “As pessoas que trabalham com internet, como ele, sempre acham que ela vai ajudar as pessoas, e criar mais igualdade. E ele está percebendo agora, com o caso Snowden, que a internet está sendo usada pelo governo no sentido oposto, para ter mais controle”, disse Greenwald.

    Novas e velhas mídias

    O entrevistado contou que Pierre Omidyar chegou a pensar em comprar o Washington Post, mas interrompeu as negociações com o jornal ao perceber que seria difícil fazer grandes mudanças em uma instituição de mídia convencional. Destinou os US$ 250 milhões reservados à compra do jornal para criar uma organização livre, onde cada revista eletrônica terá total independência editorial. O grupo irá contar com jornalistas de diferentes perfis, inclusive conservadores e radicais. A conexão entre eles será o método do jornalismo e não a ideologia. E o ponto em comum será a vontade de desafiar facções poderosas em diversas áreas: “Poder existe em todo lugar onde os humanos atuam. Na polícia, na religião, nos esportes, na cultura, na política. A tentação para abusar do poder é a mesma”.

    No ano passado, Greenwald travou uma polêmica pública com Bill Keller, editor do New York Times, sobre a opinião no jornalismo. A correspondência foi publicada pelo jornal: “Para mim, a diferença não é entre jornalistas que têm ou não têm opiniões porque os jornalistas sempre têm opiniões muito fortes. A diferença é que há jornalistas honestos, que admitem qual opinião eles têm, e os jornalistas que mentem para os leitores e fingem que não têm opiniões, e o fazem escondido. Para mim, o jornalismo é muito mais honesto e forte quando você admite exatamente o que você pensa e mostra evidência. E a coisa mais importante é se a reportagem é verdadeira, se tem evidências. Assim vai ter credibilidade”. Greenwald disse que é importante que essa discussão tenha ganhado dimensão. Ela mostra que a mídia tradicional está finalmente dialogando com representantes do novo jornalismo e respeitando a controvérsia e a crítica.

     

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    Pgm 721 - Entrevista com o jornalista Hélio Fernandes - 22/04/2014

     

    O Observatório da Imprensa exibido pela TV Brasil na terça-feira (22/4) levou ao ar uma entrevista de Alberto Dines e Ancelmo Gois com o jornalista Hélio Fernandes, proprietário da Tribuna da Imprensa desde 1962. Um dos nomes mais polêmicos da imprensa brasileira, Hélio Fernandes contou o início de sua carreira, comentou fatos marcantes da história política brasileira e relembrou a convivência com nomes de peso da mídia, como Carlos Lacerda. Leia abaixo a transcrição da entrevista.

    ***

    Alberto Dines – Começamos esta temporada de entrevistas especiais de 2014 com um fascinante e discutidíssimo personagem que nos guiará através dos últimos 70 anos do jornalismo brasileiro. Começou na profissão em 1945, quando acabava a ditadura do Estado Novo e se iniciava a redemocratização. O clima de liberdade marcou definitivamente o seu estilo de escrever e o seu padrão de jornalismo. Por isso, a sua profissão de fé contém três palavras apenas, afiadíssimas: "jornal é combate". O jornal no qual combate há um pouco mais de meio século, a "Tribuna da Imprensa", agora um blog, tinha no cabeçalho uma lanterna para lembrar a lamparina de Diógenes, o filósofo grego que saía à rua para descobrir homens honestos. O vespertino era também conhecido como derrubador de presidentes. Por isso foi castigado, um dos mais castigados na história recente do nosso jornalismo. Nas cinco décadas da ditadura militar, foi preso nove vezes, desterrado três e sofreu 37 processos. Foi condenado pelo STF em 1963 quando Jango ainda era presidente. Para enfrentar esta "fera" convoquei um parceiro, Ancelmo Gois, para dividir a arena.

    A.D.Hélio Fernandes, jornal é só combate?

    Hélio Fernandes – Jornal é opinião e informação, informação e opinião. Sempre foi. Quando eu comecei a fazer coluna diária, em 1956, eu já era velho, tinha 35 anos. Foi a primeira coluna diária do Diário de Notícias. Eu fazia coluna e artigo diário. Então, você disse aí que eu sou discutidíssimo; eu sou tão discutido que discuto até comigo mesmo. Quando eu fui preso em 1963...

    A.D.Uma das prisões.

    H.F. – É, mas nessa eu fui julgado no Supremo Tribunal Federal. O único jornalista brasileiro julgado no STF. Alguns foram processados, o que era coisa diferente. O Rui Barbosa foi processado duas vezes, o João Dantas do Diário de Notícias foi processado, o Prudente de Morais Neto foi processado. Agora, processado era só contratar um advogado que o processo era arquivado. Eu, não. Eu fui preso porque publiquei uma circular sigilosa e confidencial do [então] ministro da Guerra, fui preso e fui julgado no STF.

    Ancelmo GoisIsso na época do Jango. Vamos voltar a essa pergunta do Dines, essa coisa de ajudar a definir o que é jornal, o que é jornalismo, o que é combate. Aliás, o seu irmão, o saudoso Millôr, dizia que imprensa é oposição e o resto é armazém de secos e molhados. O que é jornal?

    H.F. – O que eu ia te dizer é exatamente isso. Quando eu fui preso, o Millôr, no dia seguinte, fez uma frase que dizia o seguinte: “Eu não quero defender o meu irmão, não, mas o jornalista que recebe um documento sigiloso e confidencial do ministro da Guerra e não publica é melhor que abra um supermercado”. É verdade, é lógico. Eu nunca deixei de publicar coisa alguma, até mesmo na ditadura. Por isso eu fui muito preso.

    A.G.Você acha que é inerente à nossa profissão?

    H.F. – Mas é claro. O jornalismo não é uma profissão comum que você sai de casa às 8 horas e [volta] às 6 da tarde. No jornalismo você fica, você sai de casa e você fica. Você, digamos, é dominado pelo jornalismo. Você não domina o jornalismo: o jornalista para ter opinião precisa ter informação. Eu sempre fui considerado um dos jornalistas mais bem informados porque sempre trabalhei. Eu entrei na revista O Cruzeiro com 12 anos. Eu trabalhava em um escritório de advocacia na Rua Senador Dantas [no Rio], ganhava 120 mil réis, que era o salário daquela época. Aí um amigo me disse: “Hélio, na revista O Cruzeiro estão querendo uma pessoa, não precisa ser jornalista, e eles pagam 150 mil réis”. Então, como eu ganhava 120 e tinha mais ou menos 12 anos, eu fui trabalhar. O Millôr já trabalhava lá, ele era uma espécie de contínuo do doutor Dario de Almeida Magalhães, que era superintendente dos Diários Associados. Nunca mais deixei de ser jornalista. Escrevendo sobre tudo, futebol, política, economia, tudo.

    Hélio, o Juscelino quer conversar com você.”

    A.D.Antes de ser dono de jornal, você trabalhou para muitos donos de jornal e brigou com todos. Você conviveu com figuras exponenciais, emblemáticas: Assis Chateaubriand, Carlos Lacerda; em suma, qual deles marcou mais você, ensinou mais?

    H.F. – Olha, eu na verdade não briguei. Eu, quando discordava, eu saía e ia embora. O primeiro lugar de onde eu saí foi da revista O Cruzeiro. O Millôr sairia 25 anos depois, quando escreveu um artigo sobre a igreja e o cardeal pediu para o Chateaubriand para demitir o Millôr. E o Chateaubriand demitiu. Depois o Millôr entrou na justiça e ganhou uma boa indenização. O Chateaubriand, eu escrevi várias vezes, eu me dava muito bem com ele, eu escrevi várias vezes quando eu comprei a Tribuna da Imprensa: “Eu e o Chateaubriand somos os únicos donos de jornais que sabem escrever e escrevem diariamente”. Quando o Chateaubriand morreu, em 1968, eu escrevi no dia seguinte sobre [ele] e disse: “Puxa, o Chateaubriand me deixou sozinho, porque agora eu sou o único dono de jornal que sabe escrever”. E escrevia diariamente. E o Chateaubriand escrevia em papel de jornal, em maço de cigarros, escrevia diariamente. E foi um personagem fantástico. O João Dantas, quando eu comecei a fazer colunas em 1956, era um dono de jornal, o pai dele morreu, o Orlando Dantas, que foi diretor de O Jornal e depois do Diário de Notícias. Ele me dizia: “Hélio, eu gosto de ver a sua coluna e o seu artigo no dia seguinte”.

    A.D.Hélio, deixa eu voltar para a pergunta que eu fiz. Desses donos de jornal, você não trabalhou com ele mas foi convidado e foi uma grande figura, o Paulo Bittencourt.

    H.F. – Eu gostava muito do Paulo, realmente, e o Paulo Bittencourt me convidou em uma época em que eu estava no Diário de Notícias. E o Carlos Lacerda escreveu na Constituinte. Dezessete jornalistas cobriram a Constituinte de 1945, que prorrogou a Constituição de 1946 em 18 de setembro de 1946. Foram 7 meses e 18 dias, diários, diários, diários. E o Carlos Lacerda fazia a segunda página, às vezes a segunda página inteira, e às vezes nem olhava para a Constituinte. O título era: “Na tribuna da imprensa”, com letra minúscula. Ele hoje escreveria sobre a Síria, o Paquistão. Mas um dia ele escreveu sobre amigos intimíssimos do Paulo Bittencourt, e [sobreveio] um dos grandes conflitos do jornalismo. O Paulo Bittencourt resolveu não publicar os artigos do Carlos Lacerda. Não podia. Os Soares Sampaio, que eram os personagens, eram intimíssimos. O Paulo Bittencourt disse para o Carlos Lacerda: “Eles entram na minha casa sem perguntar nada, eu entro na deles, vou à geladeira”. É um dos grandes conflitos do jornalismo.

    A.G.Seria interessante, sobretudo para as novas gerações, apresentar esses grandes personagens da imprensa. Você já falou do Chateubriand, do Paulo Bittencourt. Seria interessante se você listasse um a um esses personagens que você conheceu. Você falou do Dantas e conheceu também o Horácio de Carvalho, Adolpho Bloch. Fala um pouco desses personagens. De quem nós estamos falando?

    H.F. – Eu fui diretor de Redação do Diário Carioca, do Horácio de Carvalho. Acima de mim tinha o Pompeu de Souza e acima do Pompeu, o Prudente de Morais Neto. Era um negócio fantástico. Naquela época, os vespertinos saíam às 12h. Fechava na redação às 11h e fechava na gráfica às 12h. Naquela época não tinha o trânsito de hoje. Hoje não pode lançar o jornal... como é que você vai distribuir o jornal às 12h?

    A.D.Não chega no Méier.

    A.G.Fica preso no engarrafamento.

    H.F. – Exatamente. Os matutinos rodavam às 23 horas e saíam à meia-noite. Então, eu, Prudente e o Pompeu, saíamos, e só tinha um café aberto no centro da cidade, que era o Café Colombo, nada a ver com a confeitaria. A gente ficava lá e naquela época havia três dancings no final da Avenida Rio Branco.

    A.D.Dancing Brasil...

    H.F. – O Prudente era uma figura maravilhosa. Quando o Maurício Azêdo foi preso e torturadíssimo, o Prudente era presidente da ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Ele se movimentou de todas as maneiras para tirar o Maurício, e conseguiu. Há uma foto, inclusive, que a ABI já publicou, o Maurício e o Prudente chorando, os dois chorando, é emocionante aquela foto. O Horacinho de Carvalho ia muito ao jornal, era o dono do jornal mas ia muito ao jornal. Um dia me chamou...

    A.G.Mas não era um jornalista, era um homem mais de negócios...

    A.D.De política...

    H.F. – Ele era muito rico, ele tinha muitas fazendas, muitas fazendas de café. E quem ia muito ao jornal era a mulher dele, depois mulher do Roberto Marinho, a dona Lily. Linda, foi miss França com 18 anos, linda, linda, linda mesmo. Um dia, o Horacinho me chamou e disse: “Hélio, o jornal está atrasando muito, não é possível”. E eu disse para ele tranquilamente: “Olha, Horacinho, vou te dizer uma coisa: enquanto a Lily vier ao jornal eu não me responsabilizo pelo horário. Porque ela vem aqui e para tudo!” Todos caíram na gargalhada.

    A.D.E agora, o Lacerda como dono de jornal? Você trabalhou com ele.

    H.F. – Olha, o Carlos Lacerda tem uma vida fantástica, realmente. Agora, ele não foi um extraordinário jornalista, ele foi um combatente fora de série, realmente. Ele botava apelido nas pessoas, quando era deputado, que o sujeito ficava arrasado.

    A.G.Ele não era jornalista, ele era um político no jornalismo. É isso ou estou errado?

    H.F. – Ele me disse uma vez – eu escrevia muito sobre Academia, quem ia ser eleito, quando tinha eleição: “Hélio, diz aos seus amigos intelectuais da Academia que eu não sou político não, eu sou um intelectual desviado para a política. Na verdade, eu sou um intelectual que está na política”. E ele, inclusive, escreveu vários livros. Ele deixou um depoimento, gravado com vários jornalistas, e perguntaram a ele: “E o seu relacionamento com Hélio Fernandes?” Ele falou: “Nosso relacionamento sempre foi muito bom. Nós fomos presos três vezes juntos. O problema do Hélio Fernandes é que ele adivinhava as coisas”. Por que ele dizia isso? Eu estava vendo o jornal por volta de 20h15, quando o [Alberto] Curi começou a ler o Ato Institucional nº 5 [em 13/12/1968]. Terrível, só de ouvir aquilo você já ficava apavorado. Aí, eu comecei a me vestir. A [minha mulher] Rosinha me disse: “Onde é que você vai? Você acabou de chegar!” Eu disse pra ela: “Você não ouviu esse ato? Eu provavelmente serei o primeiro a ser preso”. Quando eu ia saindo, eu era o diretor do jornal, tinha um telefone aqui na entrada. O telefone tocou e era o Carlos Lacerda. Ele já não era mais governador. Eu disse a ele: “Carlos, você talvez fosse a única pessoa que eu atendesse nesse momento, porque eu estou indo para o jornal porque eu tenho muita coisa pra deixar”. Ele me perguntou: “O que vai acontecer comigo?” “Olha Carlos, você vai ser preso e cassado.” Ele deu um grito do outro lado: “Você está acostumado a adivinhar, mas não vou ser preso nem cassado de maneira alguma”. “Está bem Carlos, eu tenho que ir embora.” Bom, fui o segundo a ser preso. O primeiro foi o Osvaldo Peralva, figura notável, meu amigo e grande figura. Ficamos ali conversando até de manhã, depois chegaram mais duas pessoas. Às 9h chegou o Carlos Lacerda. Aí ele me abraçou, generoso, e disse: “Está bem, você adivinhou mais uma vez. Não vou ser cassado”. “Está bem, você não vai ser cassado, te prenderam porque gostam muito de você.” Nesse dia mesmo chegou o Mário Lago, ele estava fazendo uma peça no teatro Santa Isabel, ele estava com roupa de escocês porque ele fazia um escocês. E o Mário Lago era uma figura notável. Eu já tinha sido preso com ele e o Carlos Lacerda, ele era extraordinário. E tinha umas pessoas que ele não conhecia. Ele disse: “Aqui eu só conheço o Hélio e o Carlos Lacerda. Eu estou vestido assim mas não sou veado, não”. Naquela época não tinha gay nem nada, era veado mesmo.

    A.G.Nessa prisão, o comandante do regimento era uma pessoa que tinha um grande carinho pelo Lacerda. E aí tentou tornar a prisão um pouco mais confortável, ao ponto de o Mário Lago dizer: “Vocês vão desmoralizar a prisão!”

    H.F. – Um dia chegou uma cesta da Lidador. Aí o Mário Lago não aguentou. O Carlos Lacerda estava discutindo muito nessa prisão porque ele mandou um filho falar com um cardeal que era muito amigo dele, o outro filho falar com alguém que tinha sido secretário de Segurança, que era comandante do Primeiro Exército, um outro filho falar com o Abreu Sodré, que era governador de São Paulo. E eu dizia: “Carlos, não pode fazer isso. Quem está preso não pede nem concede nada. Está preso, está preso. Você assume que está preso”. E ele foi solto no dia 22 de dezembro, antes do Natal. Eu, Mário Lago, Osvaldo Peralva, saímos no dia 6 de janeiro, que era Dia de Reis, e os ditadores geralmente são muito católicos... Então, no dia 6, nos soltaram.

    A.G.Você foi trabalhar com o Juscelino Kubitscheck. Como é que foi?

    H.F. – Eu conheci o Juscelino na Constituinte e me dei muito bem com ele. Eu estava fascinado pela conquista, pela democracia. Eu mocíssimo, ia todo dia e escrevia uma matéria. Como a revista era semanal, fazia uma para assinar Hélio Fernandes e escrevia mais três ou quatro matérias porque a Constituinte dava para fazer uma por dia ou mais.

    A.D.Essa revista era a Revista da Semana?

    H.F. – Não, era O Cruzeiro. A Revista da Semana foi bem mais tarde, depois Manchete, depois do Diário Carioca.

    A.D.Deixa eu puxar um pouquinho para trás. Você conheceu o JK como deputado?

    H.F. – Como eu disse, eu fiquei muito amigo de várias pessoas na Câmara dos Deputados porque eu ia todos os dias, durante sete meses. Eu gostava demais, realmente. E aí, quando o Café Filho assumiu, o Juscelino, que já era governador de Minas Gerais, se lançou candidato a presidente. O Getúlio [Vargas] assumiu em 1951 com uma posse tumultuadíssima. O Samuel Wainer, que tinha ficado três anos lá em Itu, sozinho, com o Getúlio, quando Getúlio ganhou a eleição ele saiu de lá e o Getúlio perguntou para o Samuel: “O que tu queres ter no meu governo?” O Samuel disse: “Presidente, não quero ter nada, quero fazer o meu jornal”. Aí ele disse: “Tu terás todos os recursos para fazer o teu jornal”. E o Samuel fez um jornal magnífico [Última Hora]. Ele fez um jornal muito grande que contrariou todos os outros donos de jornais, porque ele pagava salários magníficos. E foi um dos jornais mais charmosos do Rio. Naquela época os grandes jornais do Rio eram os matutinos. Vespertinos quase não tinha nenhum. Um dia o Horacinho de Carvalho me telefona e disse: “Hélio, o Juscelino quer conversar com você, então eu vou fazer um almoço na minha casa para você e ele”. Eu fui almoçar com o Juscelino e o Juscelino me disse: “Olha, Hélio, eu pedi ao Horacinho para fazer esse almoço porque eu queria convidar você para dirigir a parte de publicidade da campanha. Eu queria te dizer uma coisa: nós não temos dinheiro para nada, nem para te pagar, nada, nada, nada. Meu escritório só vai ser você e o Negrão de Lima. O Negrão vai ser o presidente do comitê e você vai ser o responsável da comunicação. Agora, eu não queria te dizer isso na frente do Horacinho”. Eu disse: “Olha aqui, governador. Só o fato de passar um ano correndo o Brasil todo, maravilha. Não precisa de dinheiro”. Dois ou três dias depois falei com o Carlos Lacerda que ia dirigir a campanha do JK. Ele ficou furioso: “Não pode aceitar, não pode aceitar de jeito nenhum!” Eu disse: “Carlos, eu já aceitei”. Depois, logo em 1956, passei para a oposição.

    A.D.E por quê?

    H.F. – Porque na campanha ele não havia falado sobre a mudança da capital. Assim que ele assumiu, ele começou a falar sobre a mudança da capital e realmente mudou a capital em 21 de abril de 1960, quase deixando o governo.

    A.D.Você conheceu o Jânio?

    H.F. – Muito bem.

    A.D.E o Jango?

    H.F. – Eu conheci o Jango em 1950. Em 1952 ele foi ministro do Trabalho, dobrou o salário mínimo e aí surgiu o famoso Manifesto dos Coronéis. A primeira assinatura do manifesto era do Assis Brasil, do Amaury Kruel – Assis Brasil foi o chefe da Casa Militar – exigindo a demissão do Jango.

    A nossa satisfação aqui, entre os exilados, é quando chega a Tribuna da Imprensa.”

    A.D.Na crise da posse do Jango, você foi a favor da solução parlamentarista?

    H.F. – Eu não fui a favor da solução parlamentarista, não. Brizola é que foi contra, eu fiquei escrevendo diariamente. O Jango estava em Cingapura e foi para Paris. E o Brizola conversando com ele. Os militares chegaram à conclusão de que não conseguiriam impedir a posse do Jango, mas aí então surgiu a ideia do parlamentarismo. Mas uma coisa que ninguém raramente falou: os militares queriam parlamentarismo com Tancredo [Neves]. O Brizola não queria parlamentarismo nenhum e o Jango dizia para ele: “Brizola, nós estamos no poder, o Tancredo é nosso amigo”. E o Brizola não queria de jeito nenhum. E ele tomou posse como parlamentarista. E ficou todo o ano de 1962...

    A.D.Maquinando...

    H.F. – Trabalhando. Você, com 32 anos, era editor-chefe do Jornal do Brasil no auge do Jornal do Brasil e conhece muito bem essa história. Então ele, o Jango, trabalhou para o presidencialismo. Na verdade, o presidencialismo era muito popular, mas houve também uma coleta de dinheiro – eu escrevi muito na época sobre isso – afrontosa. Não sei por que tanto dinheiro se o presidencialismo era tão popular. O povo nem sabia o que era parlamentarismo.

    A.D.Quem incomodava o Jango era o Lacerda, mas só que o jornal dele, que depois veio a ser o seu, a Tribuna da Imprensa, estava em dificuldades. Aí houve uma coisa que pouca gente se lembra, que o Jornal do Brasil comprou a Tribuna da Imprensa.

    H.F. – O Nascimento Brito fez esse negócio, entregou ao Mário Faustino, grande poeta, que morreu em um desastre de avião, com 27 anos. Então, convidou todo o mundo, convidou o Millôr. E o Millôr, no estilo dele, disse: “Eu aceito, mas eu quero escrever o primeiro artigo contra o D. Hélder Câmara”.

    A.G.E como você comprou esse jornal?

    A.D.Exatamente. Você comprou do Jornal do Brasil?

    H.F. – Eu assumi o ativo e o passivo. Não entrou nenhum dinheiro.

    A.G.Porque o jornal estava em crise...

    H.F. – Em uma crise muito grande...

    A.G.Porque não dava dinheiro...

    H.F. – Porque não dava dinheiro, nada, nada. O Nascimento Brito queria se firmar, naquela época estava no auge do dinheiro, mas depois foi entrando em queda.

    A.G.Você teve dinheiro para comprar a Tribuna?

    H.F. – Em 1962 eu tinha um grande amigo, o Miguel Lins, grande advogado, o pai dele foi ministro do Supremo. Ele me telefonou e disse: “Hélio, vamos almoçar?” Eu disse: “Vamos”. Logo nós sentamos e ele disse: “Hélio, olha aqui: o Nascimento Brito está querendo vender a Tribuna da Imprensa e ele acha que você é uma das pessoas que podem comprar o jornal”. Eu respondi a ele na hora: “Ô, Miguel, você viu a dificuldade com que eu comprei a minha casa, agora, há pouco tempo. Comprei do Horacinho de Carvalho, não tenho dinheiro para comprar o jornal de maneira alguma”. E aí ele me respondeu imediatamente: “Você pode comprar sem dinheiro”. E eu respondi para ele, na hora também: “Bom, Miguel, já estou começando a me interessar”. E aí ele me contou o seguinte: que eu assumiria o ativo e o passivo do jornal. O ativo eram as máquinas, aqueles edifícios da Rua do Lavradio e o título do jornal. Nós acabamos de almoçar e o Miguel disse: “Eu vou conversar com o Nascimento e volto a te telefonar”. No dia seguinte, me telefonou e disse: “Hélio, o Nascimento está inteiramente de acordo”. Ele estava querendo se livrar das dificuldades em que estava. O Jornal do Brasil já não estava naquele apogeu de dinheiro, naquela potência. Eu não tinha dinheiro para nada, nada mesmo. Mas, naquela época, eu fazia jornal sozinho. Duas, três pessoas, e eu fazia jornal. Começamos a fazer jornal e fiquei de 1962 até 2008, quer dizer, 46 anos dono daquela Tribuna da Imprensa.

    A.D.Naquela trincheira. Agora, me diz uma coisa: entre 1962, a compra da Tribuna, e o golpe de 1964 a Tribuna manteve a linha de oposição ao Jango, ou ainda não?

    H.F. – Não, manteve. Eu fui o único jornalista preso em 1963. Em 1963 eu fui preso em pleno regime democrático, porque em 6 de janeiro de 1963, o Jango retomou todos os poderes, então ele tentou por duas vezes fazer a intervenção do [então] Estado da Guanabara. Por que aquela intervenção? Na verdade, o Jango queria atingir o Carlos Lacerda, mas eu estava na oposição violentíssima, realmente.

    A.D.Deixa eu só arrumar a pergunta, que eu acho muito importante para o contexto histórico, todo o quadro de mudança. Em algum momento, grande parte daqueles que apoiaram a derrubada do Jango, eles perceberam que aquilo foi uma quartelada, não era uma revolução, não é?

    A.G.Isso aconteceu com você também? E quando foi?

    H.F. – Isso foi em meados de 1964. O Castelo tomou posse em 9 de abril de 1964, depois de longas conversas com Juscelino, na casa do Joaquim Ramos, irmão do Nereu. Primeiro foi o Negrão de Lima, levou o Castelo Branco para conversar com Amaral Peixoto, na casa do Joaquim Ramos, que morava em Copacabana, na Rua Constante Ramos, e aí conversou o Castelo. O Castelo queria conversar com o Juscelino. E aí fizeram algumas reuniões, com José Maria Alckmin. Na terceira reunião, o Juscelino foi. E o Castelo então disse a ele o que ele queria: “Olha, presidente, eu não quero ser chefe do governo provisório porque eu não terei força para coisa alguma, e eu só tenho um objetivo, que é manter a eleição de 1965”.

    A.D.Isso foi o Castelo que disse?

    H.F. – O Castelo disse para o Juscelino: “Agora, eu queria ser aprovado pelo Congresso e só o senhor pode conseguir isso”. Bom, aí o Juscelino ficou pensando, ele não podia, ele não sabia como ele ia pedir ao Congresso para aprovar o Castelo Branco. O Castelo disse para o presidente: “O senhor será o grande beneficiado se for mantida eleição em em 13 de outubro de 1965, o senhor já é candidato, outros estão tentando ser candidato, mas o senhor já é”. E disse para ele: “Para que o senhor tenha a certeza do meu compromisso, agora mesmo eu vou convidar seu grande amigo que está aqui, o José Maria Alckmin, para vice-presidente”. E convidou para ser seu vice. E aí o Juscelino falou com líderes do Congresso, que ficaram surpresos.

    A.D.Confirmaram.

    H.F. – Mas não disseram não. “O que a gente pode fazer? Nós não temos nenhuma força, nada, nada”.

    A.D.E essa foi a hora da verdade?

    H.F. – Essa foi a hora da verdade, realmente. O Juscelino começou a conversar também, isso levou o ano de 1964, aí houve a definição.

    A.D.Aí ficou uma quartelada.

    H.F. – Isso aí, ficou mesmo uma quartelada. Porque no primeiro dia foram logo presos o Miguel Arraes e o Seixas Dória, governador do Sergipe. O Seixas Dória, grande amigo meu, nem sei por que foi preso. Ele era ótima figura, não era atuante, nem nada.

    A.D.Ele era da UDN.

    H.F. – Ele era da UDN. E o Miguel Arraes foi preso no primeiro dia, foi levado para Fernando de Noronha no segundo dia já do golpe, antes de o Castelo tomar posse, e houve aquele episódio tremendo, do sargento Bezerra, o sargento amarrado na ruas de Pernambuco.

    A.D.Sargento Gregório Bezerra.

    H.F. – Oficiais fardados puxavam ele amarrado pelo pescoço, pelo meio da rua no Recife. O povo ficou sem saber o que fazer. E depois que [Castelo] tomou posse, chegavam notícias e mais notícias de torturas pelo Brasil todo. E aí ele mandou o Ernesto Geisel, que era chefe da Casa Militar, a Pernambuco. Ele ficou lá vários dias, ouviu gente de todos os lados, foi até às prisões e fez um relatório de 16 laudas para o Castelo. O Castelo ficou tão surpreendido que mandou arquivar. Mas, logo no meio de 1964, eu já estava na oposição e no início de 1965 eu lancei a Frente Ampla aqui em casa, exatamente. Aqui, nesta sala, eu juntei o Wilson Fadul, que tinha sido ministro da Saúde do Jango, o brigadeiro Teixeira, o Ênio da Silveira, que era o diretor da [Editora] Civilização Brasileira, tão comunista que tinha um filho batizado de Miguel Arraes da Silveira, ótima pessoa, o Flávio Rangel, figura maravilhosa...

    A.D.Diretor de teatro...

    H.F. – … e o Carlos Lacerda. Nunca nenhum deles tinha falado com o Carlos Lacerda.

    A.D.Era impossível juntar.

    H.F. – Era, realmente. Mas ficaram amigos, sentaram aqui nessa poltrona. Éramos seis pessoas, ficamos até 3h, bebiam e fumavam muito. Três ou quatro dias depois nós fizemos a segunda reunião. Ótima reunião, todos ficaram admirados...

    A.G.A ideia era...

    H.F. – Já era contra o golpe. A ideia era fazer uma união.

    A.G.E foi assim que nasceu a Frente Ampla?

    H.F. – Foi assim que nasceu, mas nós não usamos a palavra Frente Ampla. O Alberto Lee emprestou a casa para o Ênio da Silveira. Nós tivemos lá mais seis reuniões. Surgiram outras pessoas, e o Ênio da Silveira, toda vez que a gente entrava na casa, ele dizia: “Hélio, quando a gente tomar o poder, aqui vai ser a casa dos escritores do partido”. Bom, até que decidiram fazer o manifesto. O manifesto foi redigido por mim, não tinha nome, não tinha nome, nada. O José Gomes Talarico foi até ao Uruguai conversar com o Jango, o Jango aceitou o Carlos Lacerda ir visitá-lo, eu ia também mas não pude sair daqui, não deixaram eu sair. E o Carlos Lacerda, quando chegou lá, o Jango perguntou: “O Hélio Fernandes não vinha também com o senhor?” Aí o Carlos Lacerda disse: “Vinha, mas não deixaram ele sair”. E o Jango disse para ele: “A nossa satisfação aqui, nós temos mais de 60 pessoas exiladas aqui, é quando chega a Tribuna da Imprensa. A gente não entende como é que o Hélio pode fazer tal oposição sem sair do país”. E o Carlos Lacerda ficava insistindo muito para eu ir, dizia: “Hélio, o meu problema com o Jango a gente resolve, a gente faz política, o meu problema é que a gente esteja conversando numa sala com o Jango e a dona Maria Tereza chegue e diga: ‘O senhor está aqui conversando com o meu marido, você escreveu tanto dele!’”. Mas ela não apareceu nem nada. Em um determinado momento, depois de eles conversarem muito, o Carlos Lacerda me disse que empurrou o manifesto para ele assinar e disse: “Presidente, eu queria que o senhor assinasse porque eu tenho que ir lá onde o Brizola está para ele assinar também”. O Jango devolveu e disse: “Se esse senhor assinar, eu não assino”. Aí assinou, o Carlos Lacerda voltou e nós marcamos a leitura do manifesto que não tinha nome, nada, nada. Colocamos uma cadeira e um microfone para o Lacerda ler o manifesto. Havia mais de duzentas pessoas na rua, o Carlos Lacerda leu o manifesto e teve uma repercussão internacional. E os jornais passaram a chamar de Frente Ampla, e continuou sendo Frente Ampla.

    A.D.Colou.

    H.F. – O Juscelino, que estava na Europa, conversou com a Sandra Cavalcanti. O Juscelino não quis participar naquela época, disse: “Eu estou muito atento porque eu sou candidato a presidente”. Teria passado o cargo para o Jânio Quadros em 1961 e lançou a sua candidatura para 1965. O PSD ainda tentou um movimento para uma reeleição dele, mas não havia clima.

    A.G.O JK também aderiu ao movimento da Frente?

    H.F. – Aderiu. Se encontrou com o Carlos Lacerda na casa do Renato Archer.

    Os jornais têm que ter opinião.”

    A.D.Hélio, eu queria uns flashes de algumas figuras da imprensa, que são figuras importantíssimas. Por exemplo, Adolpho Bloch.

    H.F. – Adolpho Bloch, ele lançou a Manchete, no primeiro ano com 100 mil exemplares. E aí os Bloch, através do Leon Eliachar, o Adolpho me convidou para dirigir a Manchete e eu não queria ir. Os Bloch tinham a reputação de não pagar. Até que um dia fui conversar com o Bloch e acertamos tudo e uma das coisas que ficou acertado é que eles não entrariam na redação de jeito nenhum, iam ver a revista pronta. Aí levei todo mundo, aquele pessoal que estava começando, era 1952, 53: Paulinho Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlinhos de Oliveira, Fernando Lobo, pai do Edu, que tinha vindo de Pernambuco, Antônio Maria. Levei um grupo muito grande. O Paulinho Mendes Campo estava fazendo uma experiência com LSD, ele ficava me tentando muito. “Hélio, faz essa experiência. A ida é um pouco violenta, mas a volta é uma delícia”. Bom, mas aí fiquei dois anos dirigindo a revista. E um dia o Adolpho me chamou. Eles eram grandes gráficos. A revista já estava com 150 mil exemplares. E um prestígio político muito grande. A revista era minha cara, ela tinha de ser a minha cara, né Dines? Aí ele disse: “Eu não quero que você saia de jeito nenhum. Agora, a nossa gráfica tem muito cliente internacional, eles faziam aquele negócio da Gillette, e tudo mais e tal, e tem muita gente já reclamando, eu não quero, eu não quero...” “Não tem problema nenhum. Eu vou embora. Qualquer pessoa vai dirigir a revista.” Eu fui embora, realmente. Deixei a revista no auge, não briguei com o Adolpho, de jeito nenhum.

    A.D.Paulo Bittencourt?

    H.F. – Eu me dava muito bem com o Paulo Bittencourt. Um dia ele me chamou e disse: “Hélio, eu queria te entregar o Correio da Manhã, eu estou querendo parar um pouco, ficar um tempo na Europa, a Niomar também. Eu queria te entregar o Correio da Manhã.” Aí ficamos um tempo conversando porque, em 1955, na campanha do JK, quem escrevia os discursos da campanha era o Álvaro Lins, o editorialista, Augusto Frederico Schmidt e eu. E quem viajava era eu. Eu entregava os discursos ao Juscelino, ele dava uma olhada, botava no bolso e falava de improviso. Eu até chamava ele de mediúnico porque ele falava coisas inacreditáveis. Eu ia muito ao Correio da Manhã porque era [localizado], inclusive, atrás da Tribuna da Imprensa. Então, eu disse ao Paulo que eu não tinha condições, eu não conhecia ninguém.

    A.D.O Correio da Manhã foi um “jornal monumento” naquele momento, tanto que foi ele quem deu o primeiro editorial para a derrubada do Jango.

    H.F. – Era uma instituição, mas a orientação do Correio da Manhã era muito difícil. Quando o Adhemar de Barros lançou a sua candidatura para presidente, saiu um editorial no dia seguinte no Correio dizendo: “Ladrão, não”. Aí o Adhemar de Barros protestou, disse que iria processar o Correio da Manhã. Dois ou três dias depois o Correio da Manhã publicou um editorial: “Ladrão, sim”. Magníficos, os dois.

    A.D.Samuel Wainer?

    H.F. – O Samuel Wainer, nós fomos íntimos. Um dia nós estávamos almoçando na Maison de France e o Rubem Braga estava tomando um uísque no bar. De repente o Rubem Braga veio na mesa e disse: “Olha, não quero atrapalhar a conversa de vocês, não, mas eu pensei que as duas únicas pessoas que não pudessem conversar no mundo fossem vocês dois”.

    A.D.Há um grande folclore sobre o Chateaubriand. Inclusive, fazia chantagem. Com chantagem ele fez aquela campanha da aviação: “Asas para o Brasil”. Quer dizer, ele fazia chantagem mas deixava [um legado]. Eu queria a sua visão dele.

    H.F. – O Chateaubriand era uma grande personalidade. Isso que você diz é verdade. Mas são raros os donos de jornais que não fizeram isso, que não enriqueceram com jornal. Poucos não enriqueceram com o jornal. Agora, o Chateaubriand era um sujeito fantástico. Ele, com 22 anos, fez um concurso para a cátedra de Técnica da Filosofia no Recife e tirou o primeiro lugar. Não quiseram dar o cargo para ele, ele veio ao Rio para reivindicar esse cargo e acabou entrando no jornalismo. Comprou o jornal. E depois ele foi o maior proprietário de jornalismo, proporcionalmente. Ele chegou a ter 76 empresas jornalísticas: rádio, televisão, jornal e uma agência. A maior agência do mundo, a Meridional. O Chateaubriand foi senador pela Paraíba, depois foi senador por Pernambuco, foi embaixador em Londres, que tem a aristocracia mais arrogante e autoritária. Ele criou a Ordem dos Jagunços. Ele não botou aquela jarreteira na rainha porque não deu, botou no Churchill. Ele foi senador, foi embaixador, foi tudo.

    A.D.Mais um flagrante. Seu irmão Millôr. Você, profissional, com vê essa figura?

    H.F. – Millôr era genial. Ele nasceu genial. Millôr era fantástico. O Millôr lançou duas páginas centrais da revista Pif-Paf com os desenhos dele. Os desenhos dele eram maravilhosos. Ele me dizia: “Hélio, quando eu paro de desenhar eu volto melhor e com mais vontade de desenhar”. E o desenho dele é fantástico.

    A.D.Hélio, uma avaliação aos 93 anos. Mas de profissão intensa, setenta e poucos anos mais ou menos. Olhando para trás, você não foi só um jornalista, você teve uma militância, uma participação política muito intensa. Como é que você vê 1945, quando você arregaçou as mangas na profissão, e hoje, 2014. Valeu a pena? O que sobrou disso? As pessoas têm uma noção, os jovens? A sua neta que já é brilhante repórter. Ela sabe?

    H.F. – Nenhum arrependimento, nenhum constrangimento, nenhum ressentimento: eu quis fazer tudo isso. Em 1966, quando eu era candidato a deputado federal [pelo então MDB] estava todo mundo exilado ou asilado, não tinha praticamente ninguém aqui. Então, pelas pesquisas, eu ia ser o mais votado. Naquela época existia um negócio chamado “Comício em Casa”. Você juntava 100, 150 pessoas na sua casa e perguntavam tudo. E muita gente me perguntava: “Hélio, você é um grande jornalista, por que quer ser deputado?” “Eu não quero ser deputado”, eu dizia. Eu estava começando um projeto político. “Se agora, em 1966, eu tiver a votação que eu espero, em 1970 eu serei candidato a governador e em 1975 eu serei candidato a presidente porque me preparei para isso. Eu quero, realmente”. Então, é um projeto político, e era o que eu queria. E em 1976, quando eu fui cassado, quem tratava de tudo era o [general] Golbery [do Couto e Silva]. O Golbery falava com amigos meus. Falava com uma porção de gente e dizia que o presidente “não quer cassá-lo” [a mim], mas não admite de jeito nenhum que ele [eu] seja candidato a deputado. Porque, se com um jornal só, ele nos dá um trabalho muito grande, e ele está dizendo que vai falar todo dia, aí a gente não aguenta.

    A.G.Hoje, com essa tecnologia da internet, como você se sente sendo um blogueiro, tendo um blog, um site?

    H.F. – Hoje eu só converso através do blog.

    A.G.Mas como você se sente, você tem saudade da máquina?

    H.F. – Inclusive da redação. As redações eram centros de cultura. Como aquelas grandes damas da Europa que convidavam os escritores, assim eram os jornais. Você ia ao jornal e encontrava o Rui Barbosa, o João do Rio, uma porção de gente.

    A.G.Uma fauna, uma flora.

    H.F. – Hoje, você vai a uma redação e estão todos naquele buraco, com a cabeça ali. É a mesma coisa na Bolsa [de Valores], antigamente o sujeito andava. Agora você vê fotografias da bolsa funcionando aqui, em Nova York, em Cingapura, que são os grandes centros, o sujeito está olhando para aqueles negócios todos, é uma coisa incrível. As redações hoje não têm o menor appeal. Você fica ali...

    A.G.Não tem nem barulho.

    H.F. – Nada!

    A.D.Nós começamos com a sua profissão de fé, “jornal é combate”. Qual é o conselho que você dá para a sua neta, que é repórter?

    H.F. – Combater. O jornalismo não é outra coisa a não ser a manifestação sobre o poder que incide a respeito de todos os cidadãos. Nós temos 200 milhões de habitantes. Todos dependem de informação e de opinião. Agora, os jornais têm que ter informação e opinião. Não adianta os jornais, 30, 40 anos depois, fazerem uma revisão das suas posições, dizerem que o apoio à ditadura foi um equívoco, dizerem que não fizeram nada contra o Brizola em 1982, dizerem que em 1989 não denunciaram que o Lula tinha uma filha fora do casamento e editaram o debate Collor e Lula como se o Collor tivesse dado um banho no Lula. Os jornais têm que ter opinião. Agora, os jornalistas verdadeiros que não são donos dos jornais, são donos da sua própria opinião? Essa que é a grande pergunta. A internet, na verdade, favoreceu muita gente, porque hoje o sujeito que antigamente, para publicar um artigo, tinha que conhecer alguém do jornal, ele hoje publica até exageradamente porque você não sabe o nome do sujeito, onde ele mora; bota “Augusto Azevedo”, qualquer coisa, ele vai lá e dá a opinião dele.

     

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    Pgm 720 - Estupro na Mídia - 15/04/2014

     

    Um em cada quatro brasileiros acredita que se uma mulher usa roupas provocantes merece ser atacada. O dado é muito abaixo dos 65% divulgados inicialmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) na pesquisa “Tolerância Social à Violência contra Mulheres”, mas ainda é alarmante: 58,5% dos entrevistados pelo Ipea afirmam que se as mulheres soubessem como se comportar haveria menos estupros. O estudo ganhou destaque na mídia e levou a um intenso debate sobre a violência sexual contra mulheres no Brasil.

    Somente em 2009 o estupro deixou de ser crime contra os costumes e passou a ser tipificado como crime contra a dignidade e a liberdade sexual. Em 2012, mais de 500 mil casos de estupro foram notificados no Brasil. O Ipea estima que apenas 10% dos casos sejam reportados à polícia. Mais da metade das vítimas que procuram atendimento médico têm menos de 13 anos. O impacto físico e emocional do abuso sexual costuma ser duradouro e inclui estresse pós-traumático e transtornos de comportamento. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (15/4) discutiu o comportamento da mídia diante dos alarmantes índices de ataques contra mulheres.

    Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo a socióloga e pesquisadora Fátima Pacheco Jordão. Especializada em pesquisa de opinião, é diretora da Fato, Pesquisa e Jornalismo e integrante do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Vladimir Herzog. O jornalista Leonardo Sakamoto também participou no estúdio de São Paulo. Voltado para a área de Direitos Humanos, é professor de Jornalismo na PUC-SP e diretor da ONG Repórter Brasil. No Rio de Janeiro o programa contou com a presença da jornalista Flávia Oliveira, de O Globo. Repórter de Economia, assina a coluna Negócios&Cia, uma coluna na editoria Sociedade e é comentarista do Estúdio i da GloboNews.

    Erros e acertos

    Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines sublinhou que os erros podem levar a lições que não seriam aprendidas de outra forma. “A extraordinária repercussão tanto da pesquisa como da errata, graças à adesão das redes sociais, está oferecendo à sociedade brasileira um debate com inédita dimensão. Esta inesperada conscientização tornará mais efetivas as políticas públicas e a legislação em vigor em defesa da mulher. Os 26% de brasileiros que justificavam os estupros como resposta à provocação causada pelo uso de roupas sensuais, se ouvidos novamente, poderão ter mudado de opinião. Perceberam que nenhuma violência pode ser justificada, a não ser em sociedades que fizeram opção pela tirania e pela brutalidade”, disse Dines. Para ele, é importante que o debate não se limite à questão do vestuário feminino.

    O programa entrevistou o presidente do Ipea, Marcelo Neri, que explicou o erro: “Nós tivemos um pequeno grande erro, pequeno porque foi uma troca de dados, tabelas, foi uma coisa que aconteceu, não deveria acontecer, estamos revisando os nossos procedimentos de checagem. Uma em cada quatro pessoas ter uma visão individual tolerante em relação ao ataque interpretado como estupro é algo muito grande, de qualquer maneira”. Neri acredita que é importante ter um olhar sobre a clientela das políticas públicas e tentar entender a cabeça das mulheres e homens envolvidos nessas situações. É necessário causar a mudança, de valores e de tolerância.

    Para Junia de Vilhena, do Instituto de Psicologia da PUC-Rio, é preciso discutir o assunto sem tabus. “Tem que discutir, sim, tem que debater, sim. Acho que é um avanço monstruoso você falar isso, sem banalizar, mas colocar na pauta, colocar para as mulheres: ‘Olha, você não é culpada, você é vítima’.” Ela explicou que o estupro não está ligado somente ao sexo, é o crime do patriarcado. “Tem a ver com poder. ‘O seu corpo me pertence. Você não é nada, você é um objeto e eu vou usufruir dele da melhor maneira que eu quiser’. É uma sociedade que objetifica muito a mulher. Para vender qualquer coisa, você está lá colocando uma mulher. É o país da bunda. Você tem medidas que pode tomar. Agora, precisa ser uma decisão política. É importante as mulheres serem donas de seus corpos? É importante elas não serem mais submetidas a essas situações degradantes? Se for, vamos trabalhar em cima disso”, propôs a psicóloga.

    O coro das redes sociais

    A jornalista Nana Queirós, idealizadora da campanha “Eu não mereço ser estuprada” nas redes sociais, explicou que decidiu fazer o protesto virtual porque não é seguro para as mulheres se manifestarem nas ruas. “Eu achei também que seria mais fácil encorajar as mulheres a mostrarem que o seu corpo é um objeto político e não um objeto social nas redes sociais. Eu acho que a coisa mais importante que a gente conseguiu com essa campanha foi quebrar um tabu. Pela primeira vez, nós temos mulheres falando sobre abuso sexual, sobre sexo, sobre como elas enxergam o próprio corpo”. Nana acredita que o brasileiro ainda culpa a vítima pelo estupro: “Isso é um absurdo. O único culpado pelo estupro é o psicopata que se excita pelo medo alheio. A questão no Brasil é falta de educação. Os meninos de 15 anos estavam achando que estuprar era um tema engraçado para fazer piada. E a gente quer mostrar que não: estupro não tem graça, ninguém está rindo”.

    O Observatório exibiu o depoimento da jornalista Clarissa Thomé, que teve a mãe morta, no Rio de Janeiro. “Eu sou filha da jornalista Silvia Thomé. A minha mãe foi assassinada na praia de Piratininga. Ela foi atacada por um maníaco sexual a 600 metros da nossa casa. E a minha mãe não merecia ser estuprada”, relembrou Clarissa. Para ela, a roupa não pode servir de desculpa para que mulheres sejam abordadas: “A pessoa quando sai, sai como ela quiser. Ela pode andar de saia curta, ela pode andar de sutiã, ela pode andar sem sutiã, ela pode andar de biquíni e as pessoas não podem ser atacadas pela forma como elas se vestem. Senão, o que sobra para a gente? Sobra uma sociedade bárbara”.

    Inicialmente, Clarissa não iria tornar a sua história pública, mas acabou mudando de ideia quando tomou conhecimento da campanha na internet. “Eu não pensei em me manifestar porque é uma história muito íntima, que me marca muito. Mas quando eu vi o depoimento daquela professora de Brasília, Daiara Figueroa, e no cartaz estava lá ‘Eu não mereci ser estuprada’, eu fiquei muito emocionada como ela se expôs. Isso era uma história que ninguém conhecia e ela se expôs daquela maneira. Eu quis ser solidária, ‘não é só você, você não está sozinha, nós somos muitas’.”

    Para ela, a mídia não pode silenciar diante do tema. “Eu acho que a imprensa tem que falar, sim, sobre esse crime sexual. Muitas vezes a gente vê uma matéria dessa e fala ‘que mundo cão!’. Mas é importante falar que isso existe, é importante falar que essa é a nossa realidade. O lado bom dessa pesquisa é que todo mundo pôde falar: ‘Nós não queremos mais essa sociedade, nós estamos dando um basta nisso’. É claro que continuam encoxando as moças no metrô, mas também está claro que a gente não suporta mais. Foi uma voz só, todo mundo se uniu numa voz só para dizer que a gente não quer mais essa sociedade”, disse Clarissa.

    De olhos fechados para a realidade

    No debate ao vivo, Dines comentou que profissionais da Comunicação contribuem para piorar a situação ao usar a imagem das mulheres para alavancar vendas de produtos como carros e cervejas. Para Fátima Pacheco Jordão, o tema é relegado à invisibilidade e ganha notoriedade apenas em situações pontuais, como ocorreu a partir do erro do Ipea. “Na verdade, o jornalismo, com algumas exceções de colunistas e observadores, não oferece à sociedade uma visão absolutamente verdadeira, correta. Prevalecem, de longe, as representações enviesadas, masculinas, patriarcais, que tornam a mulher, de fato, não só o objeto, mas também a vítima.” Para ela, o erro do Ipea serviu para a sociedade perceber que a situação precisa ser alterada.

    Há um ano, o Instituto Patrícia Galvão e a Secretaria de Políticas para as Mulheres realizaram uma pesquisa que revelou que 80% dos brasileiros admitem que a mulher que apanha seguidamente corre alto risco de ser assassinada. “Nós já estamos até começando a ter uma certa complacência com relação a um crime muito mais complicado do que uma série de violências”, criticou a socióloga. Ela acredita que há décadas as políticas para as mulheres são negligenciadas enquanto as delegacias especializadas preparam melhor a sociedade para lidar com a violência sexual contra mulheres.

    A sociedade brasileira está repleta de exemplos de tolerância à violência contra mulheres, de acordo com a jornalista Flávia Oliveira. “Só não vê quem não quer. Tem na música, tem na propaganda. Tem em cada esquina, como o assédio que sofrem, muitas vezes, de homens fardados. O que eles chamam de cantada, de galanteio, se não for bem recebido pela mulher é replicado como uma ofensa de conotação gravíssima. Meninas e mulheres convivem com isso historicamente, é secular essa tolerância à violência contra a mulher”, analisou Flávia. Ela ressaltou que parte das mulheres acaba contribuindo para perpetrar este comportamento ao criar seus filhos homens sob o filtro do preconceito.

    Dines questionou se as jornalistas não deveriam reagir de forma mais veemente, uma vez que estão em maior número do que os homens nas redações. Flávia Oliveira afirmou que a pauta foi contagiada pelo movimento das redes sociais. “Todo debate é bem-vindo, mesmo que ele não seja exatamente uma grande contribuição à causa, mas à medida que alguém se manifesta publicamente sobre uma determinada mazela social, a reação que esse pensamento equivocado vai causar vai ser muito positiva para o debate”, avaliou a jornalista. Ela disse que nas redações há debates ferrenhos entre homens e mulheres, sobretudo a respeito de cantadas e galanteios, usados para justificar comportamentos agressivos em relação às mulheres.

    Machismo disseminado

    Leonardo Sakamoto ressaltou que os homens são criados para serem inimigos das mulheres por instituições como igrejas, escolas, famílias, governos e a mídia. “Entre a pesquisa do Ipea e a correção – e eu acho que isso talvez tenha sido um dos maiores desgostos que eu tive –, uma série de jornalistas de grandes veículos de São Paulo, Rio e Brasília, fizeram um esforço, um malabarismo mental para tentar deslegitimar a pesquisa do Ipea em qualquer circunstância”, criticou Sakamoto. Diante do erro do Ipea, jornalistas homens assumiram o papel de reprodução do machismo e do patriarcado.

    Professor universitário, Sakamoto contou que frequentemente alunas são submetidas à violência sexual em festas da universidade. E os rapazes acreditam que este comportamento é biologicamente justificável nos homens. “Se ele como estudante faz isso, ele vai ser daquele mesmo grupo de jornalistas que acabaram atacando a pesquisa e dizendo que a pesquisa é uma grande besteira”, lamentou Sakamoto. Para ele, a geração fruto da Constituição de 1988 não foi educada para entender os direitos fundamentais. Apesar de ter acesso à informação, o caldo de cultura onde foram criados impede que evoluam.

     

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    Pgm 719 - Aprovação do Marco Civil da Internet - 08/04/2014

     

    Depois de três anos de uma tumultuada tramitação na Câmara dos Deputados, o Marco Civil da Internet foi aprovado e encaminhado ao Senado Federal. A expectativa do governo é de que o texto seja apreciado rapidamente e não sofra alterações. Direitos e deveres de usuários, provedores e do poder público estão em jogo. Um dos artigos que atrasou a votação previa a guarda de dados em data centers sediados no Brasil, mesmo no caso de empresas estrangeiras. O assunto ganhou importância com a revelação da rede de monitoramento de comunicações em escala mundial montada pelos Estados Unidos. Depois de intensa negociação, o ponto foi retirado. O texto assegura que, mesmo com os dados armazenados fora do país, as leis brasileiras deverão ser respeitadas.

    O princípio da neutralidade da rede desagradou às empresas de telecomunicações e também atrasou o andamento do projeto de lei. De acordo com o texto, todos os pacotes de dados devem trafegar na mesma velocidade, sem distinção de conteúdo, destino ou origem. As exceções serão definidas pela Presidência da República em conjunto com a Anatel e o Comitê Gestor da Internet. O Marco Civil estabelece que provedores de conteúdo só serão responsabilizados por postagens de terceiros se não cumprirem ordem judicial que exija a retirada do material. A simples notificação do usuário ao provedor não é suficiente para que uma postagem considerada ofensiva seja removida. O artigo garante a liberdade de expressão, mas pode deixar o usuário vulnerável aos trâmites da Justiça.

    O projeto estabelece também regras para a guarda de informações dos usuários. Provedores serão obrigados a armazenar dados do acesso por seis meses e deverão manter o material sob sigilo. As páginas visitadas por usuários, mensagens trocadas ou preferências dos internautas não poderão ser monitoradas, o que evita o marketing dirigido. O texto é considerado pioneiro no mundo e foi elogiado pelo criador da web, Tim Berners-Lee. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (8/4) discutiu os avanços e os pontos polêmicos da chamada Constituição da Internet.

    Alberto Dines recebeu no estúdio de Brasília o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), relator do projeto do Marco Civil da Internet na Câmara dos Deputados. Professor de Direito na PUC-Rio, também foi relator, na Comissão de Constituição e Justiça, da Lei das Biografias. No Rio de Janeiro o convidado foi Carlos Affonso Souza, que dirige o Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS). O instituto é voltado para pesquisas sobre tecnologia, governança da internet e direitos fundamentais. É professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e na PUC-Rio. Em São Paulo, o programa recebeu o jornalista Caio Túlio Costa, que é consultor de mídias digitais. Foi um dos fundadores do UOL, do qual foi diretor geral, e presidente do iG. Foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira e trabalhou na Folha de S.Paulo durante 21 anos.

    Liberdade e limite

    Antes do debate ao vivo, em editorial, Dines ressaltou que o caminho para a aprovação do Marco Civil foi longo, mas resultou em um texto avançado: “A tramitação do projeto do deputado Molon levou três anos, mas antes de diagnosticar a nossa velocidade reformista, convém registrar que o Marco Civil recém-aprovado é um dos mais completos. Em outras palavras, as mudanças devem ser obrigatoriamente para melhor. E o melhor só se alcança com o tempo, sobretudo quando se trata de um sistema dinâmico, vivo, global, organicamente inovador e libertário”.

    A reportagem exibida pelo programa entrevistou Demi Getschko, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI), que falou sobre as brechas no conceito de neutralidade da rede: “A neutralidade diz que todos os pacotes devem ser aceitos independente da origem e destino. No caso de ataque, com a negação de serviço, você pode ter que filtrar pacotes enquanto o ataque dura. O que o projeto diz é que o CGI e a Anatel serão ouvidos no caso de ter que se abrir uma exceção casual, e provavelmente temporária, na neutralidade que é garantida no projeto”. Para ele, o Marco Civil prevê formas de proteger a rede e prevenir uma eventual legislação dura. “Eu não gostaria que a internet fosse manietada por uma legislação pesada. O Marco Civil vem como uma espécie de vacina contra possíveis doenças. Não é em si algo que cure alguma coisa, até porque nós não temos problemas na rede, mas podemos vir a ter”, disse o conselheiro do CGI.

    O editor executivo do jornal O Globo Pedro Doria lembrou da reação do Poder Executivo quando as implicações do caso Snowden no Brasil foram reveladas. “Logo que essas informações vieram à tona, o governo brasileiro imediatamente ligou um alerta: ‘se estiverem em provedores brasileiros nós teremos como garantir a segurança desses dados, é uma questão de segurança nacional para o Brasil’. O problema é que não funciona assim. Primeiro porque o fato de estar em servidores brasileiros não necessariamente te garante esse tipo de segurança. Imagina, hacker entra em qualquer lugar. Em segundo, e mais importante, porque isso não leva em consideração o custo”, disse o jornalista.

    Quem responde?

    Doria comentou a polêmica em torno da retirada do conteúdo postado por terceiros: “O barato da internet é justamente essa liberdade de publicação. É o veículo onde tudo quanto é usuário, tudo o que é leitor pode publicar o que quiser para ser lido por todo mundo. Essa liberdade só funciona se ela existe. Agora, se essa liberdade existe e você impõe a quem, no fim das contas apenas oferece o espaço de publicação, a responsabilidade por tudo o que é publicado, você vai acabar quebrando todo mundo. A única maneira de garantir a liberdade de expressão plena na internet é tirar o peso dessa possibilidade de litígio, a não ser, evidentemente, que exista uma ordem judicial. Aí entra um outro dado: a Justiça vai ter que ser mais rápida”.

    O jornalista comentou que, se a neutralidade da rede fosse quebrada, as empresas de telefonia poderiam cobrar especificamente de acordo com o conteúdo – e o preço para o consumidor aumentaria. “Você na verdade favorece, de certa forma, os grandes, em detrimento de quem queira se lançar. Agora, você prejudica os grandes em produção de conteúdo porque os custos deles também aumentam. É um negócio que no fim das contas só é bom para a empresa telefônica. O que o Marco Civil estabelece é isso: se você vendeu uma quantidade ‘x’ de banda larga, você entrega. E essa banda é neutra, não importa o que está passando ali”, afirmou Doria.

    Para o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Marivaldo Pereira, o texto deve ser aprovado sem mudanças importantes: “Nas próximas semanas o texto deve ser aprovado [pelo Senado] na mesma forma como foi aprovado na Câmara tendo em vista o alto amadurecimento, a ampla discussão que já foi feita em relação ao tema. Essa é a nossa expectativa. Temos conversado com as lideranças no Senado para que ele se viabilize e que o Brasil seja pioneiro”. Marcelo Bechara, membro do CGI, ponderou que este é o projeto “possível” para o momento político do Brasil e foi aprovado no período pré-eleitoral, por isso, não é possível dissociar o projeto de negociações partidárias.

    Referência mundial

    No debate ao vivo, Alessandro Molon comentou que antes de chegar ao estúdio esteve no Senado conversando com lideranças dos partidos para tentar que o projeto seja votado antes da Reunião Multissetorial Global sobre o Futuro da Governança da Internet, que será realizada no fim de abril, em São Paulo. “Não é fácil, mas também não é difícil. Eu estou trabalhando com essa meta de aprovar o Marco Civil no Senado do jeito que ele veio da Câmara, e a tempo de poder chegar ao evento e poder influenciar positivamente a internet mundial sobre uma legislação nos moldes do nosso Marco Civil”, disse o deputado.

    Molon explicou que alguns pontos complexos do projeto de lei precisaram ser deixados de lado para não emperrar a tramitação. Um deles foi o artigo que disciplina o direito autoral na rede. “Ele joga esse debate para a frente, para a reforma da Lei de Direitos Autorais”, disse o deputado. O adiamento do debate atendeu a um pedido da ministra da Cultura, Marta Suplicy.

    O deputado explicou que hoje não há lei no Brasil sobre a remoção de conteúdo postado por terceiros. “Em regra, os provedores de aplicação – como blogs, sites, portais – tendem, por uma questão de segurança, a retirar o conteúdo para evitar que uma futura condenação em um processo judicial leve a prejuízos esse site, rede social ou blog. Para alterar isso é que o Marco Civil diz que só passam a responder pela disponibilização de conteúdo gerado por terceiros, por seus usuários, a partir do momento em que um juiz disser que aquele comentário é ilícito e deve ser removido. Portanto, a regra deixa de ser a possível responsabilização a partir da notificação e passa a ser a partir da decisão de um juiz. Isso dá muito mais liberdade de expressão. Censura prévia é o que a gente tem hoje”, detalhou Molon. Para ele, o projeto levará a uma maior segurança jurídica para os comentários postados.

    Notícia protegida

    Essa regra não se aplica a conteúdos jornalísticos. Crimes contra a honra ficaram restritos a juizados especiais para proteger as vítimas. “Exigir que esta decisão possa ser dada apenas por um juiz comum, juiz de direito, e não um juiz especial, significa obrigar a vítima a ter que contratar um advogado”, disse Molon. Nesse sentido, quem sofreu o ataque seria punido duplamente. “A grande mudança do Marco Civil é que ele reduz o poder de ameaça da notificação e coloca no lugar de julgador quem deve julgar o que é lícito ou ilícito”, argumentou. Molon acredita que neste ponto o projeto está em sintonia com a garantia dos direitos humanos.

    Caio Túlio Costa ponderou que o projeto diferencia o Brasil na comunidade internacional e representa importantes avanços. Para ele, a criação de juizados especiais pode facilitar a censura prévia. “O fato de um juizado não ouvir um advogado de defesa e mandar retirar um determinado conteúdo porque alguém acha que não está de acordo pode ser muito ruim para a imprensa, que pode se ver censurada de maneira injustificada”, avaliou o jornalista. “Ao mesmo tempo, é um paradoxo porque a própria internet veio mostrar que apesar de o jornalista ser um técnico, conseguir realizar o seu trabalho de forma técnica, o seu trabalho se coloca par a par com qualquer opinião, informação, com qualquer comentário que o internauta, qualquer instituição ou empresa coloca na internet. Então, nós temos ainda um paradoxo importante que ao mesmo tempo redefine a figura do jornalista e redefine o próprio poder de mídia que qualquer cidadão tem.” Caio Túlio acredita que deveria haver uma saída jurídica para essa questão ser aperfeiçoada.

    Carlos Affonso Souza lembrou que a questão da retirada de conteúdo na rede sempre foi polêmica desde as primeiras consultas públicas a respeito do Marco Civil. A grande reação negativa sobre a necessidade de notificação para a exclusão de uma postagem ofensiva deu origem à redação atual. O objetivo do novo formato, de acordo com o diretor do ITS, é evitar que os provedores se tornem instrumento de censura privada e que não seja possível o contraditório. No entanto, o Marco Civil impõe um desafio para o Poder Judiciário, que precisará absorver um grande número de ações e compreender os debates técnicos que envolvem a retirada de conteúdo.

    “A internet é um recurso global cuja substância última são os dados que trafegam na rede. Ela trabalha com vários regimes de coleta, armazenamento, utilização de dados. Estamos falando no final das contas de uma legislação sobre dados. É interessante perceber, fácil constatar, que a internet é uma rede global de tráfego de dados, só que embora seja um recurso global, existem leis e as jurisdições nacionais”, chamou a atenção Carlos Affonso Souza.

     

  • Transcrições

    Pgm 718 - Chumbo Quente - 50 anos do golpe de 64 - parte 1 - 01/04/2014

     

    No dia em que o golpe militar de 1964 completa 50 anos, o Observatório da Imprensa exibido pela TV Brasil levou ao ar o primeiro episódio da série “Chumbo Quente”. Na terça-feira (1/4), o programa examinou o papel da mídia na queda do presidente João Goulart e na instalação do regime de exceção. A imprensa foi uma das protagonistas daquele que se converteu em um dos mais dramáticos e conturbados períodos da história brasileira. Nos pouco mais de 30 meses de governo Jango, grande parte dos jornais cuspiu fogo contra o presidente enquanto poucos serviram de sustentação à política reformista. Nas bancas de jornal de todo o Brasil, em preto no branco, as várias faces da mesma realidade. Retrato de uma imprensa ainda em processo de profissionalização, as publicações dos anos 1960 não escondiam sua ideologia e seguiam a corrente política de seu proprietário. Mesmo que o preço fosse a imparcialidade.

    O programa entrevistou uma série de testemunhas daquele período e especialistas no golpe militar, a saber:

    >> Alzira Abreu – coordenadora do Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

    >> Ana Arruda Callado – jornalista e viúva do escritor Antônio Callado. Trabalhava no jornal Panfleto, de Leonel Brizola.

    >> Carlos Chagas – comentarista político. Era repórter em O Globo.

    >> Carlos Fico – professor de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    >> Carlos Heitor Cony – escritor. Era editorialista e colunista do Correio da Manhã.

    >> Daniel Aarão Reis – professor de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense (UFF).

    >> Ferreira Gullar – poeta. Era copidesque na sucursal carioca de O Estado de S.Paulo e presidente do Centro Popular de Cultura da UNE.

    >> Fuad Atala – jornalista, autor de Réquiem para um leão indomado, sobre o Correio da Manhã, onde trabalhava na época do golpe.

    >> Hélio Fernandes – diretor-responsável do jornal Tribuna da Imprensa.

    >> Gilles Lapouge – correspondente de O Estado de S.Paulo em Paris há mais de seis décadas.

    >> José Maria Mayrink – repórter especial de O Estado de S.Paulo. Trabalhava em O Globo.

    >> Marco Antônio Coelho – em 1964 era dirigente do Partido Comunista Brasileiro e deputado federal.

    >> Maria Celina D'Araújo – professora de Ciência Política da PUC-Rio.

    >> Milton Coelho da Graça – jornalista, foi diretor de Redação da Última Hora.

    >> Milton Temer – jornalista e político, oficial da Marinha cassado em 1964.

    >>Moniz Bandeira – cientista político e escritor. Foi asilado no Uruguai, onde conviveu com João Goulart por conta de sua atividade política.

    >> Pinheiro Júnior – era repórter da Última Hora e acompanhou a movimentação das tropas de Minas Gerais para o Rio de Janeiro.

    >> Wilson Figueredo – era editorialista e chefe de Redação do Jornal do Brasil.

    A seguir, a transcrição integral do programa:

    Alberto Dines – Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Com uma liga de chumbo, Gutenberg fez os primeiros tipos móveis e, nos cinco séculos seguintes, o chumbo derretido foi a matéria-prima da tipografia, o antigo sistema de impressão. Com chumbo, fundiam-se letras, palavras, ideias e também se faziam balas, projéteis. Seu peso converteu o chumbo em sinônimo de opressão. Para lembrar os 21 anos de chumbo da ditadura militar e a aviltante censura por ela instaurada, trazemos a imagem do chumbo quente, o perigo liquefeito, enganosamente molhado, mortal. No início, todos os golpes se parecem. Como já acontecera três vezes antes, o golpe de 1964 começou como uma quartelada para depor um legítimo chefe de Estado e, poucos dias depois, já era uma ditadura: acanhada nas primeiras horas, logo ostensiva e em seguida esticada ao longo de 21 anos.

    Este golpe diferencia-se dos anteriores porque ocorreu em plena era da informação – ou da desinformação – foi um golpe preparado e apoiado majoritariamente pela imprensa, logo depois transformada em sua vítima e dócil escrava. Quando, no ano passado, o jornal O Globo surpreendeu a sociedade brasileira ao reconhecer como equivocado o apoio ao golpe de 1964, admitia implicitamente que grande parte da imprensa brasileira, além de apoiar a derrubada do presidente João Goulart, apoiou a ditadura nela incubada. Gesto ímpar, infelizmente sem seguidores, que, no entanto, poderá inaugurar o capítulo da diversidade na história da nossa imprensa.

    A unanimidade, além de burra, foi a causadora desta tragédia. Estas edições especiais sobre o golpe de 1964 tentam o modelo de história oral, cruzamento de depoimentos pessoais para reconstituir um período em que a imprensa, além de testemunha, foi também participante.

    Ferreira Gullar – Tem que apurar o que aconteceu e fazer parte da história do Brasil para as gerações que vêm aí [conhecerem] a verdade desse regime abominável.

    Maria Celina D’Araújo – As Forças Armadas ficaram com essa mancha, com esse estigma de que assassinaram e torturaram pessoas em nome de alguns ideais políticos.

    Carlos Fico – O golpe não previa a ditadura militar, mas houve um processo que transformou o golpe em ditadura.

    A história política do Brasil se confunde com a história militar. E ambas atropelam a história da imprensa. Até mesmo a Independência tem sido fantasiada como façanha de soldados e o resultado é um tripé desigual, capenga. Incluindo a Proclamação da República até 1964, temos um total de 12 motins, vetos dos quartéis, golpes, contragolpes com quatro derrubadas de chefes de Estado. A imprensa sempre tomou partido, sempre participou e sempre foi punida com empastelamentos, atentados e censura. Nunca havia conspirado. Então veio 1964. Herdeiro do getulismo, João Goulart tem a imagem atrelada às reivindicações sociais e sindicais. Enquanto foi vice de JK, Jango sempre se relacionou bem com jornalistas e donos dos jornais. Quando Jânio Quadros renuncia, em agosto de 1961, Jango está em viagem à China.

    Wilson Figueiredo – Nem o próprio Jânio Quadros contava que ia renunciar. Ele renunciou por uma distração. Um ato de distração. Acreditou que ninguém ia acreditar, todo mundo acreditou, levou ao pé da letra e o resultado foi o que se viu.

    A presidência da República é ocupada pelo presidente da Câmara dos Deputados. Instala-se uma crise política porque os ministros militares são contrários à posse do vice.

    Wilson Figueiredo – O Jango não era da corrente que ganhou a eleição, pelo contrário, ele era o perdedor. Então, essa inversão súbita abalou o país e o país ficou meio sem saber o que fazer, qual era o caminho.

    Diante da perplexidade que toma o país após a renúncia de Jânio Quadros, a maior parte da imprensa defende o respeito à Constituição e endossa a posse do vice.

    Fuad Atala – O Correio da Manhã tomou a posição, defendeu a legalidade da posse e assim permaneceu até, realmente, se concretizar. Acompanhou todo o processo daquela viagem que ele fez da China e para o Uruguai, até que ele entrou no Brasil. E o Correio da Manhã sempre defendendo a posse legal.

    O Globo pede ao povo que aguarde tranquilamente a normalização da vida republicana e assegura que as Forças Armadas têm a situação sob controle. Abertamente anticomunista, o jornal em pouco tempo começará a questionar se Jango representa uma ameaça. O Diário de Notícias, com enorme penetração no meio militar, também levanta a bandeira da Constituição, mas desconfia da capacidade de governo de Jango. O Estado de S.Paulo é mais radical: contrário à posse de Jango, pede a convocação das Forças Armadas para evitar possíveis golpes subversivos.

    Carlos Fico – Em 1961, a própria Rede da Legalidade, gerada pelo Leonel Brizola, tinha esse argumento fundamental, que era um argumento que demonstrava a absoluta inconstitucionalidade, a ilegalidade da ação dos ministros militares, porque se o presidente renuncia, assume o vice e ponto final, não há como discutir isso.

    O Congresso aprova uma emenda que garante a posse de Goulart sob a condição de que o regime passe a ser parlamentarista. A imprensa vê a solução como uma demonstração de maturidade da democracia brasileira, mas alguns jornais são contrários ao novo sistema. Jango é empossado com poderes limitados. Vai fazer tudo para recuperar o poder total e o plebiscito de 1963 para a escolha do regime de governo será o seu primeiro desafio.

    Jango sabe explorar as razões da inoperância do Executivo, o argumento convence a grande imprensa que logo esquece o charme do parlamentarismo e embarca num retorno ao presidencialismo. Um dos maiores presentes oferecidos a João Goulart naquele momento foi a oportunidade de calar Carlos Lacerda, governador da Guanabara.

    Alberto Dines – Neste velho sobrado construído na Rua do Lavradio estava a Tribuna da Imprensa. Fui testemunha e mensageiro de um significativo presente oferecido pela grande imprensa ao presidente Jango: diante da difícil situação financeira em que se encontrava, o Jornal do Brasil comprou de Carlos Lacerda a sua fogosa Tribuna da Imprensa. Fui incumbido pelos donos do JB a fazer a transição entre a equipe que tocava o jornal e a nova. Recomendação expressa: o habitual ataque de Carlos Lacerda não poderia ser publicado. Em junho de 1962 vim a este prédio para iniciar a transição. Só houve um problema: o artigo de Lacerda com o habitual petardo contra Jango. Fui ao diretor do jornal, Sérgio Lacerda, e lhe passei a recomendação dos novos proprietários: “Lacerda, não”. Mas a “nova” Tribuna sem Lacerda não deu certo e o JB revendeu-a a Hélio Fernandes.

    João Goulart tem a aprovação da maior parte dos jornais durante os primeiros meses do mandato. Até mesmo críticos da política de Getúlio Vargas, como o Diário Carioca e o Diário de Notícias, mudam de tom e apoiam Jango.

    Alzira Abreu – A gente devia lembrar que os jornais tinham uma isenção fiscal de praticamente 70% na importação de papel, e o Jânio Quadros tinha cortado essa isenção. Então os jornais tiveram prejuízos enormes, tiveram que assumir esses 70% a mais para comprar papel no exterior. E o Diário Carioca apoiou João Goulart, inclusive como uma forma para obter recursos do Banco do Brasil para se manter. Da mesma forma, o Diário de Notícias também foi um jornal que apoiou Goulart quase até o final do seu governo.

    A mais importante bandeira do governo é o projeto das Reformas de Base, que causa desconforto nas classes dominantes. O carro-chefe é a reforma agrária, que os jornais simpatizantes não engolem. Cresce o medo de que o Brasil siga o exemplo de Cuba e se torne comunista. Recuperado o poder, Jango não consegue exercê-lo, pressionado pelos setores mais radicais.

    Maria Celina – A partir do momento que o João Goulart passa a concentrar poderes de um presidente, de chefe de Estado e de chefe de governo, ele se torna um alvo muito maior das críticas, da oposição e, ao mesmo tempo, a gente vai ter algumas dificuldades econômicas, de crescimento, de inflação, e que vão ser atribuídas, obviamente, a ele.

    A radicalização política é agravada em setembro de 1963, com a Revolta dos Sargentos, em Brasília. O movimento reivindica o direito de sargentos, suboficiais e cabos exercerem mandato parlamentar, o que contraria a Constituição. Para a oposição, o presidente não é suficientemente firme ao enfrentar a revolta. A trégua na Tribuna da Imprensa dura pouco. O jornal volta a ser o adversário mais combativo de João Goulart. No início de outubro, Jango é convencido a calar o governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Malogrado o plano de prendê-lo, Jango tenta intervir no Estado da Guanabara, impondo o estado de sítio. Não encontra respaldo nem no seu próprio partido, o PTB.

    Daniel Aarão – E o Jango, sentindo que ia ser derrotado, se retirou. Retirou a proposta. Mas ali ficou muito evidente que ele namorava a hipótese da permanência no poder com instrumentos de exceção.

    Confronto aberto, ostensivo. A imprensa está alinhada contra o governo.

    Moniz Bandeira – Tinha jornalistas, não vou citar os nomes deles, mas que eu sei que recebiam dinheiro, que eram agentes. E sei da influência que era exercida através das agências de notícias, das agências de publicidade.

    A Última Hora é a última trincheira pró-Jango e dá amplo espaço aos seus projetos. Reforça o apoio popular às mudanças e denuncia a movimentação da oposição para derrubar o presidente antes que as reformas fossem executadas.

    Pinheiro Jr. – Samuel Wainer era visto como uma espécie de eminência parda do governo do Jango. Portanto, tudo que o Jango queira fazer, inclusive as Reformas de Base, que são vistas como as verdadeiras causas desencadeadoras do golpe, a Última Hora deu o mais completo apoio possível.

    O Diário Carioca centra a cobertura nos benefícios das reformas e no esforço do Executivo para promover as alterações constitucionais que viabilizam o projeto. Não há jornais moderados, tentando esvaziar a radicalização. Não acalma os ânimos a ideia do governo de iniciar uma série de grandes manifestações populares em vários pontos do país para forçar a aprovação das reformas de base. O primeiro comício será na Central do Brasil, coração do Estado da Guanabara, onde Jango pouco antes tentara intervir.

    Wilson Figueiredo – Eu me lembro, na Avenida Rio Branco, no dia do comício, 13 de março, aquela multidão compacta que passava rumo à Central do Brasil onde ia haver o comício. Passavam uma agressividade terrível. Acenando para o Jornal do Brasil com ameaças – o que era natural: o clima político estava exaltado.

    A Tribuna da Imprensa denuncia a convulsão das massas durante o discurso na Central do Brasil e acusa o presidente de querer se reeleger. Partidário da reforma agrária, o Correio da Manhã critica a radicalização tanto da direita quanto da esquerda. Defende as Reformas de Base, mas diz que o governo promove intranquilidade institucional ao agir de forma leviana e demagógica.

    Fuad Atala – O Correio da Manhã chegou inclusive a apoiar as reformas de base que ele anunciou no início, mas foi chegando o momento em que começou a se radicalizar e perder um pouco o rumo do controle do governo. Aquele ambiente, realmente convulsionado, assustou o Correio da Manhã. O Correio da Manhã começou a sentir então que o Jango estava perdendo as rédeas do poder.

    Daniel Aarão – Havia muito medo de que aquelas reformas, se fossem implementadas, iriam mudar completamente o Brasil. Iam virar o Brasil pelo avesso. Era um conglomerado muito heterogêneo e o que cimentava esse conglomerado da espada, da cruz e do dinheiro e com os esses segmentos populares – as Marchas da Família com Deus pela Liberdade são um grande movimento de massa no Brasil – o que cimentava aquilo tudo era o medo.

    Milton Coelho – Olha o nome que eles deram para a marcha: ela botou quinhentas mil pessoas na rua em São Paulo. Se vê que a insatisfação da classe média, especialmente, era muito grande contra o governo do João Goulart.

    Daniel Aarão – A imprensa entrou muito porque ela foi contaminada por isso; ela tinha receio, os jornais progressistas acabaram entrando no processo golpista, alguns apoiaram, para logo depois sair fora.

    Uma nova revolta nas bases das forças armadas contribui para isolar o governo. Concentrados na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, integrantes da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais comemoram o aniversário da entidade, considerada ilegal. Dois mil revoltosos são liderados pelo Cabo Anselmo. Jango se recusa a punir os marinheiros. O Correio da Manhã alerta para a necessidade de acabar com a intranquilidade causada por medidas demagógicas. Pede que as Reformas de Base não sirvam de pretexto para uma série de aventuras que poderão conduzir a quarteladas e à guerra civil.

    Milton Temer – Era um embate entre a Última Hora de um lado, O Globo de outro. O Correio da Manhã (era aquele jornal mais intelectualizado) e o Jornal do Brasil eram os jornais que estavam contra o governo, evidentemente, estavam contra o governo Jango, mas não tinham a radicalidade golpista da Marcha com Deus e a Família que O Globo patrocinava. E nem tinham o grau de combatividade, não estavam no contraponto do Última Hora.

    A Folha de S.Paulo vê na constante insubordinação das Forças Armadas um fator importante para o agravamento da crise do governo João Goulart. A Tribuna da Imprensa não dá descanso ao governo e explora a quebra de hierarquia nas Forças Armadas e a tensão entre governo e militares. Ninguém estranhou o repentino aparecimento do Cabo Anselmo como líder dos marujos nem as diferenças entre a sua retórica articulada com a dos companheiros marinheiros.

    Milton Coelho da Graça – O Cabo Anselmo era claramente uma pessoa infiltrada na Associação de Marinheiros e Fuzileiros. Porque tudo que ele fazia ele radicalizava, era tendente para irritar os militares. Ele esteve lá em Pernambuco e fez uma palestra para todos os funcionários. Modéstia à parte, eu virei para os companheiros e disse: “Esse cara é da polícia”.

    A combalida base militar do governo João Goulart rui definitivamente em 30 de março. Como convidado de honra, o presidente vai a uma reunião da Associação dos Sargentos e Suboficiais da Polícia Militar, no Automóvel Clube do Rio de Janeiro. A presença do presidente é vista pela cúpula militar como provocação. Para grande parte da mídia, é o último ato do governo Jango.

    Milton Temer – Achar que a mídia tem só um papel de observadora e registra a história é muito difícil de imaginar nos grandes momentos. Porque ela desempenha um papel fundamental sobre o senso comum, que é a maior parte da população, que é aquela que não está no comício, que é aquela que não está na militância, mas é aquela que constitui a massa crítica eleitoral e a massa crítica da base social.

    O governo Jango só investe contra a imprensa uma única vez. No dia 31, às vésperas do golpe, o contra-almirante Cândido Aragão tenta intimidar os jornais com a sua habitual truculência. Sem o conhecimento de Jango. Acompanhado por 30 praças, paralisa a redação de O Globo e sitia o prédio. Empunhando uma metralhadora, vai ao gabinete da direção e avisa que suas ordens devem ser cumpridas. O jornal não circula no dia seguinte. Outro grupo toma a Tribuna da Imprensa, onde Aragão passa algumas horas. O Diário de Notícias também recebe a visita do contra-almirante.

    Alberto Dines – Aqui na Biblioteca Nacional estão guardadas as coleções do Jornal do Brasil. Na tarde do dia 31, um pelotão de fuzileiros navais, em uniforme de combate e pesadamente armado, chegou ao velho prédio do JB na Avenida Rio Branco e deu alguns tiros para o ar. Queriam os cristais, usados nos transmissores da emissora, para tirar a rádio do ar. Não acharam. Enquanto isso, o Contel [Conselho Nacional de Telecomunicações] informa às rádios e às TVs que o governo federal não admitirá notícias falsas ou alarmistas.

    O Correio da Manhã dá um ultimato ao presidente com dois editoriais, publicados na primeira página, que entram para a história política.

    Basta! – “Se o Sr. João Goulart não tem a capacidade para exercer a Presidência da República e resolver os problemas da Nação dentro da legalidade constitucional, não lhe resta outra saída senão a de entregar o governo ao seu legítimo sucessor”. (Correio da Manhã, 31/3/1964)

    Fora! – “O Sr. João Goulart não pode permanecer na Presidência da República, não só porque se mostrou incapaz de exercê-la, como também conspirou contra ela; como se verificou pelos seus últimos pronunciamentos e seus últimos atos”. (Correio da Manhã, 1/4/1964)

    Fuad Atala – Ele se comportou de maneira a encontrar uma saída para o Jango. Concluiu que o Jango não tinha mais condição de governar, então propôs ou a renúncia dele ou que o Congresso fizesse o impeachment dele.

    Os contundentes textos são escritos pelo grupo de editorialistas comandados pelo veterano Otto Maria Carpeaux e aprovados pela dona do jornal, Niomar Muniz Bittencourt.

    Carlos Heitor Cony – Eu colaborei, colaborei porque o Edmundo Muniz, que estava como redator chefe, me telefonou e disse: “Eu quero ler para você, para você tomar conhecimento”. Ele leu para mim. Eu disse: “Tá, muito bem, concordo, é o espírito do Correio da Manhã, como bateu violentamente em João Goulart”. Então eu tirei duas ou três coisas, mudei uma vírgula, só. O Edmundo Muniz captou a coisa e o tom; o tom, o conteúdo, propriamente dito, veio do Carpeaux. Não foi uma análise política, foi, realmente, panfleto: “Basta!” e “Fora!”.

    Na madrugada do dia 31, tropas deixam Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro. A base militar de João Goulart não reage e o presidente é incapaz de articular resistência ao movimento militar. A Câmara dos Deputados declara a Presidência da República vaga.

    Ana Arruda – Essa sessão da Câmara foi inesquecível. Porque o Doutel de Andrade, que era um líder do governo, estava discursando, dizendo que esse golpe não ia adiante porque os militares estavam com o Jango. Quando o Adauto Lucio Cardoso pediu um aparte, com aquela elegância do Adauto. “Não dou aparte a udenista nenhum”. O Adauto insistiu. “Meia noite e dois, já estamos em primeiro de abril, pode falar à vontade, deputado”, gozando. Aí o Adauto disse: “Eu queria avisar aos meus colegas da bancada do governo que o general Amauri Kruel já aderiu ao movimento militar e que o presidente João Goulart está saindo do país. Era isso que eu queria dizer, sr. Deputado”. Aí deu aquela loucura. Nós saímos correndo.

    Moniz Bandeira – O presidente João Goulart, ao chegar ao Rio Grande do Sul, a Porto Alegre, conversou com o general Ladário Telles, que lhe disse não haver condições de resistência. Ele resistiria, mas não garantia a vitória. Jango tomou um avião, passou por outra fazenda dele e depois foi para o Uruguai. Ele sabia que não adiantava, que o golpe viria. Os americanos iam intervir. Seria uma sangreira, o nome que ele usou. “Não, Moniz, não dava para resistir, seria uma sangreira”. O Brasil seria arrasado, desindustrializado, a mortandade imensa. Os americanos estavam dentro do Brasil.

    Marco Antônio Coelho – Nós, o PCB, éramos oposição ao Jango. Eu lutei contra aquilo, mas aquilo dominou o Plenário do Comitê Central. Portanto, mesmo aqueles que combatiam o golpe de Estado não tinham uma posição correta porque naquele instante o que nós deveríamos fazer seria assumir uma posição frontal de defesa do Jango. Mas, não. Surgiram então vários argumentos: “O Jango está conciliando, é um conciliador, ele não é um revolucionário”. Essa ilusão foi o grande erro da esquerda.

    A articulação para derrubar o presidente encontra abrigo em um dos jornais mais tradicionais do país, O Estado de S.Paulo.

    José Maria Mayrink – Os Mesquita, donos do jornal, conspiraram para derrubar o Jango. Isso começou com o Julio Mesquita Filho, que na época era um dos diretores do jornal. Havia reuniões de civis e militares na casa dele e havia também na casa do Ruy Mesquita.

    Alberto Dines – A partir de agosto de 1961, os repórteres que cobriam as forças armadas, sem saber, passaram por um intenso aprendizado técnico. Antes, cobriam as solenidades, discursos. Neste final de março de 1964 já eram experts em questões militares. A movimentação de blindados era crucial, tanques só saíam da Vila Militar quando a situação era grave. Na manhã de 31, todos os indicadores apontavam para o regime de prontidão máxima. Mas quem nos deu a notícia da descida da tropa mineira do general Olímpio Mourão Filho foi o repórter Márcio Moreira Alves, que embora trabalhasse para um concorrente, o Correio da Manhã, era querido por todos. Entrou na Redação excitadíssimo, aos berros: “Titio telefonou, Minas está descendo, já estão em Juiz de Fora!”. O “titio” era Afonso Arinos de Melo Franco, recém-empossado como [secretário] do governo de Minas. Dias depois, quando a quartelada assumiu-se como ditadura, Márcio estava na oposição.

    No dia 2 de abril, o país já está mergulhado no regime militar que duraria 21 anos. Em poucos dias, Castelo Branco é eleito pelo Congresso Nacional.

    Carlos Fico – Eles aí já tentam levar a cabo seus desígnios através de uma argumentação, supostamente legal, constitucional. E daí toda essa preocupação que houve no golpe de encontrar uma forma aceitável do ponto de vista constitucional. A posse do Ranieri Mazzilli, a eleição pelo Congresso do Castelo Branco, aquele ato institucional com uma aparência de juridicidade, tudo isso denota uma preocupação com o erro que foi cometido em 1961.

    Maria Celina – Conseguiu-se atrair para o movimento golpista os principais chefes militares, Castelo Branco, Costa e Silva, enfim, é tomar o poder sabendo que não havia facções militares que competiriam entre si. O que é surpreendente é que o golpe não foi o golpe, o golpe foi o início de um outro governo. A rigor, a ditadura militar não estava contida no golpe.

    Com o golpe, os últimos pilares de sustentação do governo Jango são atacados pelas alas mais radicais. Ao som do Hino Nacional, o prédio da União Nacional dos Estudantes é incendiado.

    Ferreira Gullar – Eu, naquela época, era presidente do Centro Popular de Cultura da UNE, o CPC. Peguei o telefone e liguei imediatamente para o Vianinha [Oduvaldo Vianna Filho], que era uma das principais figuras do grupo, para ver o que a gente deveria fazer em face daquilo, daquela notícia, que ele apurasse direito. Combinamos que iríamos convocar a intelectualidade de esquerda, os artistas, as várias áreas de música, de teatro, de cinema, para nos reunirmos na sede da UNE, que era onde funcionava o CPC, para discutir o assunto e também tomar uma posição diante do que estava acontecendo.

    A redação da Última Hora é depredada. Munidos de pedras e paus grupos antijanguistas tomam a garagem do jornal, disparam tiros e incendeiam carros.

    Pinheiro Jr. – Quando eu cheguei na Última Hora, voltando de Juiz de Fora, quem estava no comando era o diretor de Redação Moacyr Werneck de Castro, a quem eu disse: “Estou com um material muito interessante sobre os acontecimentos de Juiz de Fora, o que você quer que eu faça?”. Ele falou: “Olha, você não faz nada não, vai embora para casa porque o Carlos Lacerda está na TV Rio incitando o pessoal a vir quebrar a Última Hora. Escrevi a matéria, juntei o filme e coloquei numa gaveta. Quando eu estava descendo e cheguei à Praça da Bandeira, encontrei com a turma que tinha vindo quebrar a Última Hora.

    A Tribuna da Imprensa não esconde seu apoio ao movimento golpista. Comemora a queda de Jango e destaca a atuação do governador do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda.

    Hélio Fernandes – No começo, a visão de todo mundo, inclusive minha, era deturpada. Realmente eles lançaram a ideia de que o país estava à beira de cair no regime comunista. A edição de 1º de abril, nós ficamos como todo mundo. Nós não sabíamos bem o que era. Ninguém sabia bem o que era. Todo mundo apoiou, não apoiou. Depois, todo mundo ficou contra, não ficou contra. Então, muita gente apoiou depois, muita gente apoiou muito, cresceu muito, enriqueceu muito, ganhou muitos canais de tudo.

    O vespertino muda de tom a partir de julho, quando Carlos Lacerda critica a prorrogação do mandato de Castelo Branco e exige eleições para o ano seguinte. A Tribuna diz que o movimento está desmoralizado e se coloca claramente na oposição.

    Daniel Aarão Reis – Muita gente, a meu ver, aceitou aquela derrota imaginando que, quando a poeira abaixasse, as coisas se restabeleceriam. Muitos políticos de direita estavam convencidos que as eleições presidenciais de 1965 seriam preservadas. Isso inclusive fez parte do acordo que o Castelo Branco fez com o JK. O JK mobilizava o PSD para apoiar o Castelo com o compromisso da manutenção das eleições em 1965. E muita gente que aceitou a derrota, aceitou “não, não vou lutar porque se eu lutar vou perder, e no final das contas essa coisa toda vai se restabelecer e no ano que vem as coisas voltam à normalidade”.

    Alzira Abreu – A imprensa pede a subida dos militares, que os militares venham restabelecer a ordem; mas a imprensa, eu estou falando só da imprensa, mas grande parte da intelectualidade pediu, que eram pessoas mais à direita, pediram a vinda dos militares para restabelecer a ordem, não para impor uma ditadura. Depois que os militares assumiram o poder, eles resolveram permanecer no poder. E começa o período da censura, das prisões arbitrárias, isso vai levando os jornais a se afastarem dos militares.

    A Folha de S.Paulo, opositora do presidente desde o impasse da posse, apoia a derrubada de Jango. E relembra que advertiu que a postura do presidente, ao se aproximar dos setores mais radicais, deflagraria uma profunda crise político-militar. O jornal endossa a decretação de um ato institucional. Para o jornal, os militares restabeleceram a ordem e a legalidade.

    Editorial – “E isto se fez, note-se, com um mínimo de traumatismo graças ao discernimento das nossas Forças Armadas que agiram prontamente para conter os desmandos de um político que, cercado de assessores comunistas, procurava manobrar o país”. (Folha de S.Paulo, 5/4/1964)

    O Globo segue a mesma linha e respira aliviado com a saída de João Goulart. Graças aos militares, o país está a salvo da “comunização”.

    Carlos Chagas – O Roberto Marinho, desde de manhã cedo, estava informado de que estava havendo uma revolução. Mas esqueceu-se, ou não quis, falar para os seus repórteres. Ficou fechado lá na sala dele, até que a secretária dele veio na minha mesa e disse: “O que está havendo em Juiz de Fora?”. Eu disse: “Acho que nada, né?”. Ela disse: “Liga o rádio aí porque tem alguma coisa em Juiz de Fora”. E aí é que nós começamos, já ao entardecer, a ligar o rádio e pegar, em ondas curtas, emissoras de Juiz de Fora, que estavam naquela euforia dizendo: “Juiz de Fora, capital revolucionária do Brasil. Os generais Mourão e Guedes estão na rua, estão já descendo sobre o Rio de Janeiro”. Mas foi uma perplexidade geral porque ninguém sabia de nada.

    O Globo vê com entusiasmo a rápida vitória do movimento sem derramamento de sangue e diz que a revolução triunfante deve impedir a infiltração de agitadores comunistas na vida pública.

    José Maria Mayrink – Eu trabalhava no O Globo. Eu lembro que um colega falou: “Os nossos tanques estão avançando”, eram os tanques que viriam de São Paulo para enfrentar o Jango. E não eram os meus tanques, eu estava torcendo na verdade pelo Jango.

    Contrariado por ter um artigo contra Carlos Lacerda vetado, Gilles Lapouge, correspondente de O Estado de S.Paulo em Paris, pede demissão logo depois do golpe. Lacerda é amigo de longa data da família Mesquita. O jornal não aceita a demissão e a celeuma vai parar nas páginas da publicação.

    Gilles Lapouge – Carlos Lacerda estava em Roma, voltou por Paris e no aeroporto ele falava com os jornalistas franceses. Então, todo mundo compreendeu muito bem que havia qualquer coisa que está se fazendo lá, uma espécie de golpe. Eu disse ao jornal: “Não vou falar daquela conferência da imprensa do Carlos Lacerda porque, primeiro, não gosto muito daquele personagem”. O jornal me disse: “Mas você tem que fazer isso”. Pouco tempo depois, uns dias apenas, o golpe. Então, amigos do Brasil, do jornal, deram detalhes sobre isso e compreendi que era verdadeiramente um golpe militar de tendência fascista. Ora, isto eu não posso aguentar.

    José Maria Mayrink – O Ruy [Mesquita], por consideração a ele, pela amizade que tinha a ele, mandou um telegrama dizendo por que não tinha publicado a entrevista do Lacerda. Aí o Lapouge escreveu uma carta ao Ruy em que dava as razões dele, e o Ruy respondeu com outra.

    Gilles Lapouge – Ele me mandou um telegrama para dizer: “A direção não aceita a sua demissão, mas de todo modo você tem que esperar o número de domingo. Vamos responder publicamente à demissão”.

    José Maria Mayrink – Os Mesquita defendiam o movimento e falavam que era uma coisa que iria durar pouco.

    Gilles Lapouge – Ele fez talvez 10, 15 páginas com grande conceito sobre a revolução, a ideologia, a práxis, o comunismo, coisa assim. No final da carta dele, ele dizia: “Pedimos a você não ficar demitido, mas você tem que saber – aliás você já sabe, porque tem a lembrança da história de O Estado de S. Paulo – que no dia em que [o movimento militar] atacar o direito do homem, o Estado vai passar para a oposição”.

    José Maria Mayrink – O Estado rompeu no ano seguinte, em 1965, quando o Castelo Branco, que esperava devolver o poder aos civis com as eleições de 65, então ele se retiraria, e o movimento convocaria eleições diretas para eleger um candidato, certamente de confiança, mas civil.

    O Jornal do Brasil não era um jornal de colunistas, era um jornal de informação. Na página de Opinião, três artigos de fundo, sem assinatura, de responsabilidade da direção da empresa. Ao lado, os artigos de Tristão de Athayde e Barbosa Lima Sobrinho, que opuseram-se ao golpe desde os primeiros momentos e jamais foram censurados pela direção. Eram instituições intocáveis. Por isso, em abril de 1965, respondendo a um protesto de Tristão de Athayde, Castelo Branco, já como presidente, telefonou para oferecer satisfações. O pensador agradeceu ao presidente em um bilhete manuscrito.

    A extensão da cobertura daqueles 19 dias e a necessidade de oferecer ao leitor uma conexão entre tantos episódios sugeriram um complemento em formato de livro capaz de reproduzir o clima trágico que se prenunciava. O título Os Idos de Março foi emprestado por Shakespeare, com trechos da tragédia inseridos no final. Os relatos vão até 15 de abril, o livro saiu no início de maio. O perfil de Jango escrito por Antônio Callado é arrasador:

    “E quando, eventualmente, chegar à Presidência de República um homem de esquerda, Jango talvez reapareça. Como vice”. (Antônio Callado, Os Idos de Março)

    Ana Arruda – Eu acho muito severo com o João Goulart. Se a gente ler direito, os pecados do João Goulart eram muitos também. Mas, evidentemente, que apontar pecados do João Goulart não significa querer uma ditadura militar. Longíssimo disso.

    Alberto Dines – Onde é que a imprensa errou? Antes de 31 de março, errou ao adotar o uníssono. Errou ao submeter-se a um cronograma militar sem deixar aberturas políticas para recuos, ajustes e negociações. Jango tinha a seu lado vozes e forças moderadas. A pressa não deixou que fossem ouvidas. A grande imprensa impregnou-se com o clima do “manda brasa” que tanto criticava nos radicais próximos ao presidente. Os dois editoriais na capa do Correio da Manhã, que sinalizaram o início da operação militar, foram disparados por quem não entende de política. Ou de jornalismo. Antes do ultimatum, entre o “Basta!” e o “Fora!” não se ofereceram opções. E, em seguida, quando o Correio da Manhã deu a entender que não concordava com a violência e não admitia uma ditadura, um mínimo de solidariedade corporativa teria abortado o ímpeto da linha dura comandada pelo general Costa e Silva.

     

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    Pgm 717 - Mídia e segurança pública - 25/03/2014

     

    O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (25/3) pela TV Brasil discutiu o papel da mídia diante do enfrentamento entre as forças de segurança pública e o crime organizado. No Rio de Janeiro, cinco anos após as primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) serem implantadas em comunidades marcadas pelo domínio do tráfico de drogas e das milícias, uma série de ataques desestabilizou a retomada dos territórios. Em São Paulo, uma poderosa facção criminosa comanda, de dentro de presídios, a distribuição de drogas pela cidade e confronta a polícia. A situação se repete por todo o país, sobretudo na região Nordeste, onde os índices de violência são alarmantes.

    Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro os sociólogos Jaqueline Muniz e Michel Misse. Jacqueline Muniz é doutora em Ciência Política, professora da Universidade Cândido Mendes (UCAM) e sócia fundadora da Rede de Policiais e Sociedade Civil da América Latina. Professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Misse estuda o processo de criminalização no Rio de 1950-2000. Em São Paulo o debate contou com a presença do cientista político Guaracy Mingardi, especializado na área de segurança pública, que foi secretário de Segurança de Guarulhos.

    Antes do debate no estúdio, em editorial, Dines sublinhou que a escalada da violência no Brasil é disseminada: “O Estado brasileiro não admite esta ameaça à integridade do seu território e à segurança do seu povo. No início de abril, um contingente de quatro mil homens do Exército ocupará o estratégico Complexo da Maré, no Rio, e lá permanecerá o tempo necessário. O reforço dará às polícias militar e civil a oportunidade para corrigir-se, livrar-se da banda podre e retomar a iniciativa. Não se pode esquecer que o crime organizado é o filho bastardo dos políticos sem escrúpulos e das milícias paramilitares. E este aviltante casamento só pode consumar-se quando a mídia se distrai e esquece sua função de fiscalizar poderes, denunciar abusos e proteger a cidadania”.

    Entre o sonho e a realidade

    O programa entrevistou o ex-secretário nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, sobre os motivos que levaram à deterioração das UPPs e fizeram com que a corrupção, a brutalidade e a disputa pelos territórios voltassem às comunidades. “Nós podemos ter um salto de qualidade. Nem abandono, nem truculência. Mas a tal política de proximidade se mostrou política de abalroamento porque não se improvisa uma mudança cultural nas práticas policiais, nem transformações na sua estrutura organizacional. E não houve, de fato, um investimento nesse ponto fundamental. Aquilo que precisamos – para que os valores mais importantes que um dia parecia que a UPP talvez representasse sejam preservados e cultuados – é de uma transformação profunda nas instituições policiais. Isso passa por iniciativas do governo, mas também por mudanças constitucionais, a começar pela desmilitarização”, propôs o sociólogo.

    Na opinião de Luiz Eduardo Soares, parte da imprensa perdeu o distanciamento crítico para abordar o projeto das UPPs. “A mídia mais relevante nesse caso estava associada ao projeto como coautora. Esse foi um projeto que veio da sociedade civil, da área empresarial, com o apoio de grandes grupos de mídia. Não nasceu da polícia. Ao contrário, a polícia sempre reagiu a iniciativas desse tipo, particularmente a Polícia Militar. Isso não nasceu da Secretaria de Segurança Pública. Isso nasceu de grupos empresariais que se associaram e discutiram o problema. Eu não digo isso criticamente. Acho que é um direito que a sociedade civil tem. Que bom que haja ideias e propostas e que elas sejam discutidas. Quando, no entanto, a mídia se torna parte envolvida diretamente na confecção do projeto, e da sua implementação, é claro que se paga um preço na objetividade”, ponderou Soares.

    Paulo Motta, editor executivo de O Globo, disse que é uma surpresa que o crime organizado tenha demorado tantos anos para reagir às UPPs. “O tráfico está há 40 anos dominando as favelas, assim como as milícias. São negócios milionários que envolvem vans, mototáxis, ‘gatonet’, distribuição de gás. São interesses prejudicados, interesses por onde havia também políticos associados. O que me espanta é que só agora tenha ocorrido essa reação. Quanto à polícia, a polícia é despreparada há muito tempo”, disse.

    Motta discorda de que os jornais tenham perdido a objetividade: “A imprensa tem que estar próxima de um projeto, de uma política pública; eu acho que é inquestionável que [a UPP] seja um caminho diferente, inovador, nesses 30, 40 anos, quando o tráfico e a milícia tomaram conta de 1/3 do Rio de Janeiro. Eu acho importantíssimo que a discussão seja feita sem envolvimento político por trás disso. O que estávamos discutindo era o esvaziamento econômico do Rio de Janeiro, o esvaziamento turístico do Rio, as empresas fugiam. E o que os secretários de Segurança faziam na época? Enxugavam gelo. Dizer que a imprensa tem um envolvimento nisso? Ao contrário. A gente publicou todas as críticas, nós próprios fizemos críticas. Agora, é um processo que vai ter vai-e-volta, vai ter críticas, acertos, erros. Desqualificar isso por questão política eu acho que é um desserviço ao Rio de Janeiro”.

    A voz da comunidade

    No debate ao vivo, Dines perguntou o porquê de a reação do tráfico ter ocorrido apenas cinco anos depois do início do projeto das UPPs. Na opinião de Jaqueline Muniz, os ataques não podem ser encarados como uma ação orquestrada do crime organizado. Seria uma espécie de publicidade negativa, já que um ataque pontual gera uma contraofensiva, como ocorreu na ocupação da favela da Maré. Ela classificou os fatos recentes como “ataques de terror” porque o crime não tem força suficiente para resgatar os territórios ocupados pelas UPPs, nem base social de sustentação que torne possível a organização de guerrilhas. “Só sobram atos de terror porque estes são baratos, porque basta ter vontade, disposição, uma arma na mão e nenhuma inteligência por trás”, explicou a socióloga. Os recentes ataques podem estar apontando para conflitos ligados a práticas ilegais estabelecidas nas comunidades, como o “arrego”.

    “O problema das UPPs é que elas não são uma ‘andorinha sozinha da PM que faz o verão da pacificação’. O grande desafio das UPPs sempre foi, desde o início, de um lado a resistência social da população em função de um histórico, de uma memória dramática de encontros com a polícia nos últimos 30 anos nas comunidades populares, e de outro a recalcitrância armada que encontra guarida nessa resistência social. E isso é previsível, estava no planejamento das UPPs”, explicou Jaqueline Muniz. Para que o projeto pudesse ser implantado com sucesso, deveriam ocorrer ações de inteligência e investigação antes, durante e depois da retomada das comunidades – o que não ocorreu.

    Não houve, na opinião de Jaqueline Muniz, um grande ataque à pacificação: “Vários meios de comunicação ultrapassam o seu lugar e querem exercer o governo pautando uma agenda. E o medo é sempre péssimo conselheiro. Diante do medo, nós optamos por agendas ocultas, implícitas ou subentendidas”. A socióloga ressaltou que o projeto das UPPs não tinha como finalidade eliminar o tráfico de drogas das comunidades, mas sim administrar a ordem pública e a libertação dos territórios do domínio armado ilegal. Agora, as práticas criminais estão menos visíveis. À medida que o trabalho da mídia é seletivo e arbitrário na tradução de atos de violência em fatos jornalísticos, ele acaba contribuindo para o agravamento do terror. Seja quando exerce a censura a informações, maquia a realidade ou dá toques ufanistas e oficialistas ao seu discurso.

    “Apelidaram-se os jovens policiais saídos direto da Academia para as UPPs de ‘smurfs’, porque se tratava de ‘azulzinhos’, uma espécie de autoridade de brinquedo. Não são os déspotas, os tiranos, os senhores da guerra do passado. E os traficantes que ficaram não são mais os donos do morro, são apelidados de ‘pulga de bunda’. Há microautoridades, uma disputa de autoridades em busca da legitimidade de consentimento”, afirmou Jaqueline Muniz. Ela disse que o efeito ostensivo de polícia nos territórios é provisório e limitado no tempo. É preciso reconstruir a legitimidade da polícia diante dos moradores. No contexto atual, a polícia está englobando o trabalho social de outros agentes públicos.

    Quem comanda o submundo?

    Guaracy Mingardi explicou que, a partir da ascensão da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, no início dos anos 2000, o crime foi se aglutinando. “Não há disputa entre o tráfico. O que acontece é uma guerra surda entre setores da PM e setores do PCC, que se matam nas ruas como aconteceu em 2012, 2006, 2002, 2001”, relatou o cientista social. Já no Rio de Janeiro, o grau de organização do crime não é tão forte que possa enfrentar o Estado como um bloco único.

    Dines pontuou que a imprensa é o elo entre a sociedade e as forças de segurança pública. Para Guaracy Mingardi, a mídia sempre pecou na cobertura da área de polícia. “O repórter policial sempre trabalhou com o dado oficial, com a entrevista. Quando ele conversa com o criminoso, é com o criminoso preso, é com outra pessoa. Não é mais o criminoso solto. Isso traz restrições muito grandes”, afirmou. Uma delas, é quando a imprensa noticia que um suspeito confessou determinado crime espontaneamente, quando, na verdade, foi forçado pela polícia a assumir a culpa. “Isso é papo furado e a imprensa engole com a maior tranquilidade. Quando você aceita isso, porque a sua fonte disse, você está distorcendo os fatos e esse, para mim, é o principal erro da imprensa na área policial: aceitar o oficial como real e misturar as duas coisas”, disse Mingardi.

    Michel Misse considera que houve exagero na cobertura da reação do tráfico no Rio de Janeiro. “Houve uma coincidência entre esses ataques e as manifestações populares que ocorreram também nessas áreas. E, provavelmente, houve também algum grau de confusão na população. O grau de informação do que ocorreu ali é baixo”, avaliou. Ele ressaltou que os relatórios oficiais ganham mais espaço do que o relato dos moradores das regiões em conflito. O governo do Rio de Janeiro se aproveitou desse exagero para pedir que tropas federais se instalassem em pontos estratégicos da cidade. Para ele, há dividendos políticos tanto para o governo federal quanto para o estadual nesta operação.

    “O tráfico não acabou em nenhuma das UPPs. Portanto, não haveria razão muito grande para essa resistência porque o tráfico continua funcionando. Na verdade, o que acabou foi o controle armado da comunidade. Só que esse controle armado está sendo feito agora pela própria UPP, que mantém, portanto, de certa maneira, independentemente de suas intenções, a proteção ao tráfico, que agora não precisa mais se preocupar com isso”, criticou Misse. Mais do que operar como mediadora, a imprensa tem atuado como ator na área de segurança pública, na opinião de Michel Misse. “Nós temos a bandidagem, a polícia, e nós temos também a mídia. São os diferentes atores que compõem isto que é representado como a violência urbana”. Para ele, é preciso compreender melhor qual é a participação da mídia e o quanto ela tem contribuído para o controle social ou para a sensação de insegurança.

     

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    Pgm 716 - Publicidade e celebridades - 18/03/2014

     

    O rentável segmento de propagandas estreladas por celebridades e jornalistas foi sacudido pelo novo posicionamento da marca JBS-Friboi. A maior empresa de comércio de carnes do mundo contratou nomes de peso para emprestar a imagem aos seus produtos. No anúncio “Eu voltei”, o cantor e compositor Roberto Carlos, que deixou de ser vegetariano recentemente após três décadas, troca um prato de massa por um suculento filé. No anúncio, o artista não dá nenhuma garfada no bife e o assunto virou piada nas redes sociais.

    A campanha do frigorífico ancorada por estrelas começou no ano passado, com o veterano ator Tony Ramos. As vendas aumentaram em R$ 300 milhões. Associar um artista de prestígio a um produto comercial é uma estratégia antiga. Atores, cantores e atletas faturam altas somas com publicidade. O retorno para a imagem do produto é garantido. A ética entra em pauta quando o protagonista é um nome de peso do jornalismo. A apresentadora Fátima Bernardes, por exemplo, é a nova garota-propaganda da Seara, ramo da Friboi que comercializa frangos e embutidos.

    A ideia da campanha é mesclar a persuasão da propaganda e a credibilidade do jornalismo. A apresentadora deixou o Jornal Nacional há dois anos e hoje comanda um programa de variedades. Ela é coautora da peça e esta é a primeira vez em que aparece em campanhas publicitárias. Outros jornalistas já trocaram temporariamente as bancadas pelos intervalos comerciais, como a apresentadora Marília Gabriela. Fontes do setor especulam que, com as três campanhas, a JBS-Friboi aumentará em 20% o faturamento. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (18/3) pela TV Brasil examinou a ética na publicidade.

    Para discutir o tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o jornalista Paulo Cesar de Araújo e o publicitário Adilson Xavier. Autor da biografia Roberto Carlos em detalhes, cuja venda foi proibida pelo cantor, Araújo é professor de História e lançou outras obras sobre música brasileira. Adilson Xavier foi integrante do grupo FCB e presidente da Associação Brasileira de Publicidade (ABP). Recebeu diversos prêmios na área de publicidade e recentemente lançou o seu terceiro livro. Em São Paulo o programa contou com a presença de Cristina Padiglione, crítica de TV do jornal O Estado de S.Paulo. A jornalista mantém o blog Teleguiados, no site do jornal.

    Criador e criatura

    Antes do debate no estúdio, em editorial, Dines ponderou que a “figura humana convertida em anúncios” é comum desde a Revolução Francesa: “O garoto-propaganda e a garota-propaganda da televisão pertencem à última geração de vendedores que, num mundo atravancado de apelos, para chamar a atenção e sobressair, precisam ser conhecidos, acreditados e sobretudo, admirados. Pergunta-se: quem fabrica as admirações? Os meios de comunicação, a mídia, sobretudo a mídia eletrônica. E o que é a mídia eletrônica? Uma concessão pública. Significa que, às custas da sociedade fabricam-se notoriedades que logo acionarão as caixas registradoras dos famosos e célebres”. Dines ressaltou que o caso dos jornalistas que migram para a publicidade é ainda mais grave do que o de artistas.

    No debate ao vivo, Paulo Cesar de Araújo destacou que foi surpreendente a contratação de Roberto Carlos por um frigorífico de projeção internacional. O artista, ao longo da carreira, sempre se mostrou sensível ao sofrimento dos animais. O “rei”, como é apelidado o cantor pelos seus fãs, já dedicou uma canção à preservação das baleias, criticou as touradas e a caça aos pombos. Assim, há uma contradição entre o legado artístico de Roberto Carlos e a sua atuação no comercial. “Isso chocou, causou um descontentamento em vários setores da sociedade e com razão. E fazer isso por quê? Para que, a essa altura do campeonato?”, questionou o biógrafo. Ele relembrou que esta não é a primeira vez que o artista é visto em propagandas. Marcas de cerveja, cigarro e cartão de crédito já foram vendidas pelo cantor.

    Dines chamou a atenção para o fato de que, no comercial, Roberto Carlos expõe a sua intimidade. Está cercado pelo filho e o empresário, acompanhados de suas mulheres. Isto é outra contradição, uma vez que o artista andou frequentando os noticiários por conta da polêmica em torno da proibição de biografias sem autorização prévia. “É um artista que foi líder de uma campanha contra a liberdade de se escrever livros no Brasil, em nome de uma tal privacidade que ele queria preservar”, criticou Paulo Cesar de Araújo. E é justamente esse artista que “vende” a sua decisão de comer ou não comer carne vermelha. Para ele, o cantor comercializa sua privacidade quando surge uma boa oportunidade.

    O limite da exposição

    Paulo Cesar de Araújo criticou o excesso de merchandising em programas jornalísticos ligados a esportes. Ele disse que não consegue mais assistir aos debates porque os apresentadores “perderam a noção” de limite. Na ânsia de aumentar o lucro, os canais vão acabar perdendo espectadores, na opinião do escritor. Esta naturalidade com que a propaganda é aceita deve ser contestada para não banalizar a publicidade. O escritor criticou a falta de rigor dos artistas que mudam de opinião de acordo com o produto. Um exemplo de incongruência é o ex-jogador de futebol Romário. Hoje deputado federal, o esportista coloca sua reputação em jogo quando aceita aparecer em comerciais de marcas de cerveja.

    Dines perguntou como a crítica de TV Cristina Padiglione avalia o dilema ético que envolve a participação de jornalistas em comerciais. Para ela, se o profissional não atua em hard news, como a apresentadora Fátima Bernardes, a situação é menos grave do que a de Marília Gabriela, por exemplo, que comanda um programa de entrevistas. “Estando em uma bancada, eu acho impossível, inviável, acho realmente comprometedor, conflitante até o último fio de cabelo”, avaliou Cristina. A colunista enfatizou que, mesmo fora do jornalismo factual, é importante observar um possível conflito entre os interesses dos anunciantes e a notícia veiculada.

    Para Cristina, é curioso que Roberto Carlos defenda de forma tão veemente a sua privacidade e aceite ser pago para dizer que voltou a comer carne. Da mesma forma, jogadores de futebol ficam indignados quando a imprensa noticia com destaque seus excessos em noitadas, mas aceitam aparecer fazendo a barba em uma propaganda de produtos de higiene. “Existe um interesse público em cima daquela figura que vai além do que o que ela faz profissionalmente”, sublinhou a jornalista. A postura de artistas como Chico Buarque é mais coerente. O compositor e cantor preserva a sua vida pessoal e não aceita propostas para estrelar campanhas publicitárias.

    “O sujeito quando se submete a um bom cachê para fazer alguma coisa fora do palco, fora da cena ou fora da bancada da entrevista, ele chama muito mais a atenção do público. Isso vai vender mais revista, como vende mais carne. Uma coisa está ligada à outra”, explicou Cristina Padiglione.

    Dines ponderou que a postura dos jornalistas merece ser examinada com mais profundidade porque os mesmos princípios deontológicos são usados para diferentes atividades do jornalismo, incluindo programas de entretenimento. A crítica de TV ressaltou que, ao aceitar participar de comerciais, o jornalista acaba restringindo o seu campo de atuação.

    Ideologia vs. cachê

    Outro ponto delicado, na opinião de Cristina Padiglione, é a veiculação de campanhas políticas com celebridades. Depois de um período em que diversas figuras públicas apareciam de forma espontânea, como a emblemática campanha do ex-presidente Lula em 1989, houve um momento em que os showmícios viraram moda e grandes cachês ditavam o rumo dos eventos. “A pessoa que vende a sua ideologia merece que a gente vote no candidato oposto”, disse a jornalista. Ela defendeu que o apoio seja genuíno e que o artista tenha certeza do “peixe que está vendendo” ao embarcar em um projeto de propaganda política.

    De sua parte, Adilson Xavier afirmou que as agências de publicidade contratam pessoas famosas para protagonizarem comerciais justamente para causar impacto nos espectadores e, dessa forma, gerar novidade. Assim, o caso da campanha da Friboi, mesmo cercado de polêmica, pode ser considerado um sucesso. As vendas aumentaram consideravelmente após a contratação dos artistas. O trio escolhido pelo frigorífico passa credibilidade e desperta simpatia no público. Xavier condenou qualquer tipo de excesso na publicidade: “O mau gosto incomoda todo mundo. E a falta de bom senso no uso das estratégias e das formas de interpretação, também. Se você tem uma novela cheia de merchandising mal feito, aquilo é uma agressão. Está atrapalhando a história”. Para ele, existem inúmeros exemplos de integração de produtos comerciais à dramaturgia sem que a obra seja prejudicada.

    O excesso de racionalização da propaganda, que leva ao merchandising exagerado, tira o refinamento da propaganda, de acordo com a experiência de Adilson Xavier. A vida é cercada de propaganda. “As pessoas são marketing, querendo ou não. O tempo todo, quem nos observa está criando imagens nossas. Se você vai a uma rede social, hoje, está todo o mundo ali vendendo uma estratégia de marketing”, disse Xavier. Ainda mais grave é a ética por trás dos programas eleitorais para construir marcas pessoais: “Isso interfere nos destinos do país e se confunde com a vida real. Quando você entra em um break comercial, todo mundo sabe que aquilo é propaganda. Agora, quando você está se fingindo, durante a vida, de alguma coisa, é mentira”. Assessores de marketing hoje definem até a hora em que os candidatos devem “beijar criancinhas” no corpo a corpo.

     

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    Pgm 715 - A mídia nas manifestações - 11/03/2014

     

    O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (11/3) pela TV Brasil, o primeiro programa da temporada de 2014, trouxe de volta à pauta um assunto discutido em diversas edições de 2013: a violência nos protestos de rua e o papel da mídia diante da clara tensão entre manifestantes e forças de segurança pública. A violência como recurso para chamar a atenção nos protestos voltou às páginas dos jornais em fevereiro, quando o cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes, foi morto por um rojão atirado durante um ato contra o aumento das passagens no Rio de Janeiro.

    Para discutir este assunto, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro a filósofa Viviane Mosé e o professor emérito de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), jornalista e escritor Muniz Sodré. Viviane é doutora em Filosofia pela UFRJ, especialista em Elaboração de Políticas Públicas, comentarista da rádio CBN e escritora. Muniz Sodré é colunista do Observatório da Imprensa online, foi presidente da Fundação Biblioteca Nacional e publicou mais de 30 livros sobre Comunicação. Em São Paulo, o programa contou com a participação do jornalista Bruno Torturra, fundador do Mídia Ninja e do Pós-TV e ex-diretor de Redação da revista Trip.

    Em editorial, Dines propôs que a mídia assuma o papel de negociadora de conflitos: “As manchetes de toda a imprensa são testemunhas da situação: quanto mais nos aproximamos da Copa do Mundo, mais aumentam as tensões. O mutirão e a empolgação que se esperavam deram lugar a um preocupante cronograma de conflitos. O que está errado não pode ser ignorado, malfeitorias precisam ser identificadas e punidas. Mas a truculência precisa ser abortada. A primeira providência consiste em evitar que o debate sobre a violência seja contaminado pela própria violência”.

    O que querem os manifestantes?

    No debate ao vivo, Viviane Mosé admitiu que a sua opinião é controversa. A filósofa ressaltou que o mundo passa por um período de profundas mudanças nas mídias e hoje é possível conversar por meio de um clique. Esse novo paradigma permite o rápido encontro de pessoas, inclusive das que têm uma indignação justa com a qualidade do serviço público. O inconformismo ganhou força nas redes sociais e a população foi para as ruas de forma desordenada. Viviane lembrou que os manifestantes, desde o princípio, usaram recursos como queimar lixo, incendiar carros e confrontar a polícia.

    “Quando as pessoas vão para a rua movidas pela indignação justa, mas sem nenhum conceito, sem nenhuma direção, dizendo ‘vem você também’, elas estão chamando todo mundo para a rua? Estão chamando os neonazistas, os fascistas, os antissemitas, os pedófilos, os bandidos, os violentos, os traficantes?”, questionou a filósofa. Viviane disse que os protestos não têm propostas e nem um alvo específico. Para ela, as reportagens tratando dos protestos que reuniram milhares de pessoas não tinham profundidade e não questionavam o comportamento dos manifestantes. As consequências das manifestações poderiam ter sido ainda mais graves, com pisoteamentos e até um maior número de mortes. A mídia também não mostrava, de acordo com Viviane, a atitude provocadora dos manifestantes em relação à polícia.

    Viviane Mosé ponderou que a vida é, naturalmente, violenta, mas é preciso criar limites para conter os impulsos dos indivíduos. A violência é especialmente perigosa em grupo, como em casos de linchamento. “Se as pessoas vão para as ruas, têm que ter limite, distribuição, têm que saber o que estão querendo. Não [se] pode colocar todo mundo na rua dessa maneira, à toa. Não pode. Isso é uma coisa básica de sociedade: o nome disso é lei e limite.”

    Na opinião da filósofa, pedir melhorias na Saúde e na Educação de forma genérica não é ter uma pauta de mudanças concretas. É preciso antes ter uma noção dos problemas e do funcionamento dos setores em questão. Não basta apenas levantar uma faixa em um protesto: “Se você quer mudar o Brasil dá um pouco mais de trabalho. Tem um processo e investimento humano, o que não acontece, especialmente nas redes”. De acordo com a filósofa, a internet, ao invés de contribuir para o debate democrático, livre de afetos e cumplicidades silenciosas, tem proporcionado atuações maniqueistas e manipuladoras. Viviane Mosé sugeriu que a universidade e a imprensa se coloquem como espaços para reflexão. “Temos que reaprender a fazer política. E isso, na sociedade do conhecimento, não é quebrar, é pensar de uma forma ampla, complexa e corajosa”, propôs a filósofa.

    Mais palavras, menos pancadas

    Muniz Sodré relembrou a primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, que trata da liberdade de expressão justamente porque seus fundadores tinham em mente que a democracia é sempre um espaço de tensões e explosões. Para eles, a liberdade de opiniões deveria ser mediadora dessas tensões. “Com a comunicação eletrônica e com a internet, nós não estamos mais em uma democracia de opiniões. A democracia hoje talvez seja uma democracia de emoções. Ninguém está muito interessado na argumentação, na reflexão e nem nas opiniões, mas na manifestação de seus afetos e emoções”, disse Sodré. Quando as palavras faltam, a violência aparece como uma contralinguagem ambígua e perigosa.

    O professor ponderou que, uma vez desencadeada, a violência, não “comporta a ideia do acidente”. Por outro lado, ela tem um “caráter fundacional”, por isso é compreensível que ocorra: “Não há nada socialmente que façamos sem uma certa agressividade. A criança aprende a andar agressivamente, bate na outra”. Sodré chamou a atenção para o fato de que os atos de vandalismo ocorridos nas manifestações têm, em geral, um comportamento infantil.

    Na opinião de Muniz Sodré, as ruas sempre foram um espaço alternativo interessante no Brasil, desde a ditadura. Mas durante o regime de exceção havia uma finalidade nas manifestações. Hoje, há dúvidas sobre o teor das pautas apresentadas nas ruas e o objetivo dos protestos. “Eu gostaria de ver manifestantes nas ruas para alguma coisa”, afirmou o professor. Para ele, é preciso que se crie um outro espaço que não seja o da democracia representativa, que já está combalida, para essas discussões. As pautas que geram a indignação das massas, de acordo com a percepção de Sodré, deveriam ter um lugar próprio para um encaminhamento institucionalizado. “Por que não as universidades? O Estado banca as universidades públicas sem um fórum capaz de repercutir questões nacionais e questões urbanas importantes. A universidade está afastada disso”, lamentou Muniz Sodré.

    Ao invés de o jornalismo seguir um modelo no qual alguém reporta uma notícia e o público aceita, poderia ser uma “conversa social”, na opinião de Sodré. Assim, temas importantes viriam para o debate público. As redes sociais, na sua opinião, ainda não estão aptas para este tipo de debate porque disseminam a polarização do pensamento. “Essa reflexão é universitária, é política e não é certamente da política velha, tradicional, porque a política representativa, dos partidos, do parlamento, não tem mais nada a dizer”, analisou Sodré. Por outro lado, a “política das emoções” que tem sido vista nas ruas pode se tornar violenta e precisa de limites.

    O professor contou que na época em que os primeiros protestos de maior adesão foram organizados, em junho de 2013, ele estava fora do Brasil. Ao chegar ao país, procurou entender qual era a finalidade dos protestos: “Eu lembrei de um poema de Ascenso Ferreira [sobre o gaúcho] que diz: ‘Riscando os cavalos!/ Tinindo as esporas!/ Través das coxilhas!/ Saí de meus pagos em louca arrancada!/ – Para quê?/ – Para nada!’. Eu gostaria de ver um ‘para alguma coisa’ nas manifestações”, afirmou o professor.

    A violência do Estado

    Dines perguntou a Bruno Torturra qual tem sido a atuação da Mídia Ninja nos últimos meses. O jornalista explicou que o coletivo continua transmitindo ao vivo, mas agora, além das ruas, cobre os gabinetes. Alguns exemplos de trabalhos recentes são o debate do Marco Civil da Internet e a greve dos garis no Rio de Janeiro. O jornalista discorda de que as consequências dos tumultos nos protestos poderiam ter sido mais graves por conta dos manifestantes: “Eu estou na rua desde o começo e havia muita consciência política, havia uma causa muito clara e havia uma disciplina muito grande na maioria esmagadora das pessoas que [ali] estavam”. Para ele, a mídia condenou as manifestações até 13 de junho de 2013, quando a polícia de São Paulo atacou brutalmente pessoas que participavam do movimento.

    O representante da Mídia Ninja ponderou que é contra a violência nos protestos e que os implicados na morte do cinegrafista Santiago Andrade têm que ser punidos. Mas a morte acidental de Santiago não pode ser comparada à violência institucionalizada do Estado, como ocorreu durante a ditadura militar e como acontece hoje, quando a polícia atua nos protestos. A ação das forças de segurança poderia ter matado mais pessoas nas ruas do que o vandalismo dos manifestantes: “Uma coisa é um jovem irresponsável, avulso, atirando algo em um policial, quebrando vidros. Outra coisa é a força do Estado agindo em nosso nome, dando tiro, jogando bomba em pessoas indefesas que estão, de maneira responsável ou às vezes irresponsável, exercendo o direito de livre manifestação”, disse o jornalista. Para Torturra, a polícia “põe o sangue nas mãos da sociedade” quando age de forma violenta em nome dela.

    Alvo de parte da indignação dos que foram às ruas, a mídia se tornou protagonista do processo. Para Bruno Torturra, isso impede que os meios de comunicação consigam cobrir os movimentos de forma imparcial. Torturra acredita que as grandes massas agem mais pautadas pela emoção do que pela racionalidade, o que impede uma reflexão mais profunda: “Eu vejo também, em muitos grupos, um novo pensamento emergindo da capacidade de a gente se informar sem tanta mediação. O que antes era uma exclusividade de quem estava na faculdade ou tinha acesso a livros, assinatura de jornais, hoje todos podem ter acesso. A gente está na infância desse processo. Eu tenho que ser otimista de que [vamos] sofisticar o nosso pensamento, senão em massa, mas pelo menos em número suficiente para que a reflexão se torne um pouco mais complexa”.

    Torturra acredita que os protestos têm um objetivo definido: “Eu vejo que há uma falta de foco muitas vezes, mas eu acho que outras vezes é miopia de quem está olhando de fora. Estão acontecendo muitas manifestações com pautas específicas. Essa manifestação que tragicamente acabou na morte do cinegrafista da Band era contra o aumento das passagens no Rio. A gente acabou de ver uma greve histórica dos garis que foi conquistada com uma pauta específica”. Para ele, é preciso compreender que as manifestações têm um novo formato. Não existe uma liderança clara, nem um movimento social clássico arregimentando, sequer um manifesto único.

     

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    Pgm 714 - Reflexões 2013 / Projeções 2014 - 17/12/2013

     

    O Observatório da Imprensa exibido pela TV Brasil na terça-feira (17/12), o último programa inédito do ano, levou ao ar uma edição especial com os fatos mais marcantes de 2013 e uma reflexão sobre o que esperar de 2014. Este modelo já se tornou uma tradição: é a sexta vez consecutiva que o programa encerra o ano com esse exercício informal de futurologia. No plano internacional, ainda repercutem as revelações do caso Snowden, os desdobramentos da Primavera Árabe e a crise financeira de 2008. Por aqui, o histórico julgamento da Ação Penal 470, que levou para a cadeia figuras importantes do cenário político, e as jornadas de junho dominaram as manchetes. E o que esperar de 2014, ano de eleições presidenciais, da Copa do Mundo no Brasil e dos 50 anos do golpe militar de 1964?

    Para analisar estas questões, Alberto Dines recebeu três convidados no estúdio do Rio de Janeiro: o cientista político Renato Lessa, o economista e ecologista Sérgio Besserman e o escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Lessa é presidente da Fundação Biblioteca Nacional, foi professor titular de Teoria Política da Universidade Federal Fluminense, presidente do Instituto Ciência Hoje e pesquisador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Affonso Romano de Sant’Anna também presidiu a Biblioteca Nacional. Poeta, ensaísta e cronista, criou o Proler e o Sistema Nacional de Bibliotecas e é autor de vários livros. Sérgio Besserman é presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro. Professor de Economia da PUC-Rio, estuda as consequências econômicas e sociais da mudança climática, foi diretor de Planejamento do BNDES, presidente do IBGE e do Instituto Pereira Passos.

    Em editorial, Dines destacou a importância de relembrar a mensagem de diálogo do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, morto em 5/12: “Num mundo cada vez mais fanatizado e radicalizado, as perspectivas para 2014 eram, até o dia 5 de dezembro, igualmente desanimadoras. Exceto na Ásia Central, com as perspectivas da distensão entre Estados Unidos e Irã, no resto do mundo, inclusive no Brasil, os indícios de tensão eram mais visíveis do que as possibilidades de distensão. De repente, nos quatro cantos do mundo, ficou claro que confrontos e desforras não produzem paz, só produzem mais confrontos e desforras. Nelson Mandela, o Madiba, operou um segundo milagre: ao morrer, aos 95 anos, lembrou à humanidade sua extraordinária trajetória de conciliação e reconciliação. A tranquila morte do líder trouxe, ironicamente, a paz e o entendimento para a ordem do dia”.

    Ecos da voz do líder

    No início do debate no estúdio, Dines pediu para os participantes comentarem o legado de Nelson Mandela para as causas da paz. Para Renato Lessa, discutir a trajetória de Mandela significa pensar em alternativas imaginárias e referências de valor para os dilemas contemporâneos. Mandela protagonizou uma história de luta contra um regime de severa segregação e com capítulos de atuação violenta. “Mas o período que Mandela passa preso, os 27 anos, foi um período no qual o entendimento do significado da luta dos negros sul-africanos ficou muito mais cristalizado. Ele sai da prisão com um capital político, moral, cultural, de proporções planetárias”, avaliou Lessa. Ao deixar o cárcere, Mandela coloca sua trajetória a serviço de movimentos de conciliação e de refundação da África do Sul. Sérgio Besserman sublinhou que Mandela representa a recuperação da política como fator de transformação e de diálogo, e Affonso Romano de Sant’Anna acredita que rediscutir a trajetória do líder abre espaço para a esperança no futuro.

    Em seguida, o tema foi a onda de protestos que varreu o Brasil a partir de junho. De início pacífico e reunindo milhares de brasileiros, as manifestações tornaram-se palco para a violência concentrada dos adeptos da tática black bloc. Romano detectou que a geração dos anos 1960 ficou atônita diante das novas formas de manifestação. “Eu tenho a impressão de que o pessoal que foi para a rua não estava entendendo completamente o que estava acontecendo. Não esperavam o alcance e a quantidade de pessoas. Ninguém sabia o que era black bloc. De repente, surgiram personagens que não estavam no nosso cardápio”, avaliou o escritor.

    Renato Lessa lembrou que, no início, as jornadas se apresentavam como um movimento amplo que reivindicava do Estado qualidade e eficiência na gestão pública, sobretudo em quesitos como educação, saúde, transporte e direitos humanos. Em semanas, os protestos passaram a fugir desse padrão e adotaram uma política de recusa da reflexão e da ideia de mediação. “A desconfiança em relação à imprensa, porque ela é mediada, a desconfiança da representação política, porque ela é tipicamente uma forma mediada de fazer política. Uma recusa a qualquer cenário ‘mandeliano’ no qual nós pudéssemos conversar e produzir direções”, disse Lessa. Do outro lado, o sistema político mostrava-se impermeável e incapaz de fazer mudanças políticas com rapidez.

    Como os acontecimentos ainda estão recentes, não há o distanciamento necessário para analisar as jornadas de junho com maior profundidade, na avaliação de Sérgio Besserman. “A mensagem mais básica de tudo foi: ‘O rei está nu’. Não tem aqui nenhum viés político-partidário, isso é normal em qualquer força política. Pegou tudo quanto é tipo de governador. Meses antes se falava em ‘Brasil desenvolvido’, ‘a quinta economia’. Uma farsa burlesca. Pelo menos essa mensagem era unânime: ‘Não é que seja uma desgraça, mas desçam do salto alto e vamos discutir o que está acontecendo de verdade na nossa sociedade’”, afirmou o economista.

    Espionagem na terra de Obama

    Um dos assuntos de maior destaque em 2013 foi a revelação do ex-consultor da Agência de Segurança Americana (NSA), Edward Snowden, de que os Estados Unidos montaram uma rede internacional de monitoramento de comunicações que atingiu dezenas de países, inclusive o Brasil. Após revelar a espionagem, Snowden partiu para o exílio e, no momento, está abrigado na Rússia. “Os Estados Unidos estavam espionando tudo. Qual é a novidade disso? A França também está, a Grã-Bretanha também está. Estava antes, está agora e vai continuar depois porque informação é poder”, relativizou Besserman. “É uma ingenuidade achar que eles são donos do mundo de graça”, completou Affonso Romano. Para Renato Lessa, a maior revelação do caso Snowden é que uma pessoa pode mostrar ao mundo o esquema de vigilância e criar um mecanismo de contra poder.

    A polêmica das biografias, que foi largamente discutida no Brasil ao longo do ano, também foi tratada no programa. Renato Lessa explicou que o receio dos biografados não tem relação com possíveis erros factuais nas publicações porque estes podem ser resolvidos na Justiça. O medo está ligado à interpretação da narrativa: “A interpretação é um dado da nossa inserção no mundo. Como eu posso produzir restrições à capacidade interpretativa?”, questionou o cientista político. Besserman ressaltou que a discussão acerca dos limites da privacidade terá que ser travada. Para ele, o moralismo está condenado: “Essas preocupações com revelar aspectos da vida pessoal, que está muito na origem [da polêmica], deixarão de existir não pelo lado da revelação ou não, mas pelo lado de que o impacto moral de o sujeito ter feito isso ou aquilo, como já acontece com a garotada, vai se diluir e deixar de existir”.

    Dines colocou em pauta os diversos casos de corrupção envolvendo partidos políticos no Brasil. “Uma vez eu resolvi ler a história da corrupção e [existem] vários livros que começam na Grécia. Não há cultura sem corrupção. Isso não significa que estejamos a favor da corrupção. Temos que entender o papel dela dentro do sistema. No sistema democrático, onde as coisas vêm para o jornal, ao conhecimento do público, nós estamos dentro dessa situação: não há mais partido incólume, inatacável. E todos cometem erros. Esses erros têm que ser examinados”, disse Affonso Romano. Sérgio Besserman ressaltou que a questão no Brasil é séria e envolve grandes quantias. No nosso sistema político, o dinheiro – e não ideias ou carisma – dita quem irá ocupar o poder. Além disso, o povo brasileiro é patrimonialista e pressiona os políticos a concederem benefícios a determinados grupos.

    “Isso tem a ver com uma cultura política que está em todo lugar, ela é ubíqua. Ela está escrita na gramática básica da política brasileira, é uma forma de operar a vida pública brasileira. Isso tem a ver com a relação entre política e dinheiro. O Supremo [Tribunal Federal] agora está discutindo uma coisa que pode ter um impacto fundamental nisso, que é a inconstitucionalidade do financiamento de campanhas por parte de pessoas jurídicas”, disse Renato Lessa. Na opinião do cientista político, a discussão sobre reforma política melindrou os parlamentares. Para eles, o Poder Judiciário não deveria interferir em assuntos do Legislativo. Lessa acredita que, se o projeto passar, a corrupção terá um freio, mas não significa que irá acabar porque outros métodos podem surgir. A barganha irá ser desestimulada na prática política.

    A violência invade os campos

    Recentemente, a violência nos estádios de futebol ocupou as manchetes dos jornais. “A violência nos estádios é uma demonstração muito grande da incompetência do Brasil em lidar com o problema”, criticou Sérgio Besserman. Para ele, após a briga entre as torcidas do Vasco e do Atlético Paranaense (no domingo, 8/12), o jogo deveria ter sido interrompido: “A nossa passividade frente a uma violência inaceitável é mais grave do que a ocorrência violenta em si”. Ao ver cenas como a desse jogo, Renato Lessa tem a sensação de que o processo civilizador falhou. “Ele está associado à capacidade que temos em lidar com as nossas diferenças em termos pacíficos. Esse é o desenho geral do nosso processo civilizador. A sensação que se tem no Brasil é a de que em alguns lugares esse processo colapsou e as energias naturais mais brutais têm espaço para a manifestação. Os estádios têm sido isso”, afirmou Lessa.

    No panorama internacional, Dines comentou que a crise econômica está ligada ao ressurgimento de movimentos xenófobos e ao crescimento de partidos políticos de extrema-direita. Sérgio Besserman chamou a atenção para o fato de que os fatores que desencadearam a crise financeira de 2008 ainda não foram resolvidos e que os seus efeitos ainda poderão ser sentidos por muitos anos. Renato Lessa ponderou que o espaço encontrado pelos partidos mais radicais está ligado ao desenho que se imagina para o futuro da Europa, levando-se em conta a integração dos milhares de imigrantes que chegam ao continente todos os anos.

    Affonso Romano de Sant’Anna falou sobre boas notícias que espera para 2014: “O acordo que os Estados Unidos estão fazendo com o Irã e a questão de Cuba. Resolvidos estes dois problemas, sob a égide de Mandela, seriam dois presentes incríveis para a humanidade”.

     

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    No ano das biografias, uma está estourando: não é autorizada

    Por Alberto Dines

    Das milhares de figuras humanas que saltam das páginas do Velho e do Novo Testamento, a que desperta maior curiosidade e fascinação é a do Nazareno, Ioshua, conhecido pelos romanos como Iesu, justamente porque é apresentado como Filho de Deus.

    Abrahão, o patriarca, o líder Moisés e as dezenas de profetas, maiores e menores, ouviam as advertências divinas, levavam-nas aos governantes e ao povo, mas a nenhum deles atribuíram-se poderes sobrenaturais (mesmo Elias levado para o céu em carruagem de fogo).

    A busca do Jesus Histórico é quase tão antiga quanto os relatos sobre o Jesus Teológico. Logo no início do seu evangelho (o penúltimo a ser escrito), num pequeno prefácio – quase um lead – Lucas atesta que obteve as informações de testemunhas que presenciaram os fatos e assume que procurou informar-se minuciosamente de tudo, desde o princípio (Lucas, 1;1-4).

    Reza Aslan, historiador americano, especialista em ciência das religiões, nascido no Irã e formado em Harvard, desmonta o relato biográfico de Lucas e dos demais evangelistas, também a carta de Tiago, irmão e sucessor de Jesus, e as 14 epístolas do apóstolo Paulo num livro-reportagem de 300 páginas apaixonantes e que está causando furor nos Estados Unidos.

    Historiador e biógrafo

    Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré (recém-lançado no Brasil pela Editora Zahar) está há semanas na lista dos best-sellers dos EUA. Parte deste furor foi causado pela repercussão da entrevista em que a apresentadora Laureen Green, da hiperreacionária Fox News, tentou desqualificar o extraordinário trabalho investigativo de Aslan só pelo fato de que sua família é muçulmana secular (ver aqui).

    Mme. Green sequer leu o release da editora americana, Random House, ou um resumo da obra. Não lhe disseram que Zelota é uma obra ostensivamente filossemita, nacionalista e “sionista”, violentamente antirromana, admirável recuperação do messianismo judaico na Terra Santa que os primeiros cristãos preferiram ignorar para que Roma não descarregasse sobre eles o mesmo ódio que a levou a arrasar Jerusalém e massacrar a maior parte dos seus habitantes como castigo pelo levante do ano 70 d.C.

    A reconstrução histórica magistralmente narrada por Aslan nada tem de iconoclasta. Não quer destruir a fé, oferece pontes, tenta somar. Seu objetivo não é político, ideológico ou religioso. Não está a serviço de nenhuma seita ou facção, a não ser a daqueles que se engajaram na tarefa de desencavar os fatos.

    Aslan parte do pressuposto que o Jesus Bíblico existe há dois mil anos e jamais será abandonado. Sua paixão está dirigida à forma de buscar um relato alternativo, complementar, humano. Portanto, humanista. É o jornalista que oferece ao leitor duas versões e deixa que ele próprio faça as escolhas.

    Aos 41 anos, com um completo domínio das Escrituras Sagradas e do formidável acervo de pesquisas acumulados desde o Iluminismo (um dos primeiros pesquisadores modernos foi o alemão Reimarus, 1694-1768), suas fontes são as mais atualizadas (a bibliografia é impressionante).

    Não revela novos documentos nem anuncia descobertas arqueológicas, tudo o que descreve é conhecido. Sua maestria está na capacidade de articular, comparar, adensar e, sobretudo, despojar-se de preconceitos. E justamente por isso, um dos seus colaboradores mais presentes é o historiador judeu, depois cidadão romano, Flávius Josephus (37 d.C.-100 d.C.), que chefiou uma das revoltas dos patriotas judeus na Galileia, escapou do cerco da fortaleza de Massada sem suicidar-se e depois foi perdoado pelo futuro imperador Vespasiano.

    Testemunha privilegiada, observador atento e descompromissado, Josephus teve contra ele o fato de buscar a isenção: os romanos o viam como judeu, os judeus o consideravam perjuro, simpático ao cristianismo, os cristãos mantiveram-no sob suspeição porque continuou judeu observante.

    Reza Aslan não teve problemas em resgatar Josephus do ostracismo porque como historiador e biógrafo está comprometido unicamente com a busca da verdade.

    Alvo seletivo

    Buscar a verdade em matéria religiosa é complicado. Mesmo na esfera racional da ciência das religiões. A edição brasileira de “Zelota” está sendo bem recebida. Mas a recepção é visivelmente cautelosa. Nossa imprensa não se sente à vontade em ambientes secularistas. Em matéria de biografias de santos, prefere as autorizadas.

    Há exatos 40 anos, este observador foi malhado furiosamente pelo pensador Gustavo Corção (1896-1978) por conta de um texto sobre Jesus histórico publicado na edição natalina do Jornal do Brasil, de autoria de Albert Schweitzer (1875-1965, teólogo, músico, médico e humanista franco-alemão). Corção não teve coragem de investir contra Schweitzer, Nobel da Paz, preferiu investir contra o jornalista que teve a ousadia de publicar um estudo psicológico do Nazareno.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

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