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    Burguesa é a sociedade

    Por Alberto Dines

    Não foi a “imprensa burguesa” a responsável pela prisão de 11 réus condenados pelo escândalo do mensalão no último fim de semana. Mesmo como desabafo indignado ou recurso retórico a denúncia é equivocada. Repetida pelos encarcerados que faziam parte da direção do PT na época em que o caso veio à tona, revela surpreendente inabilidade e falta de inspiração. A explicação de Henrique Pizzolatto, ex-dirigente do Banco do Brasil que escapou para a Itália, é mais lógica e pertinente – alegou ser vítima de um erro judiciário, queria um julgamento justo. Mandou-se.

    A “imprensa burguesa” é culpada de inúmeros pecados, aberrações e desatinos, mas o fato de ser burguesa não é sua culpa: burguesa é a sociedade que a criou e sustenta. O país que lhe fornece valores e mentalidades é espiritualmente burguês. Mais do que isso: pequeno-burguês. Inclusive algumas de suas vanguardas.

    O exemplo mais recente e dramático dessa insopitável vocação para o reacionarismo foi a tentativa de um grupo de astros da música popular de embargar a publicação de biografias não-autorizadas. O caso é antológico, paradigma da amnésia burguesa que esquece compromissos do passado em troca do sossego futuro.

    Esse burguesismo incrustado nos recônditos do nosso inconsciente resulta das contradições de uma elite incapaz de perceber o seu papel. A submissão ao “rei” Roberto Carlos – ícone de uma pequena burguesia clerical e medíocre – é uma brutal exibição das confrarias e lealdades desprovidas de ideais, assentadas apenas em interesses.

    Auto de fé

    O próprio objetivo do mensalão – garantir um esquema de sustentação parlamentar na base de compra regular de votos – foi um desvio burguês, reacionário. O certo seria buscar apoios a um projeto de governo, reformista ou revolucionário, cujo sucesso seria a legítima moeda de troca. Pagar em espécie por alianças políticas é um aviltamento do qual só participa quem não acredita no contrato social nem nos deveres democráticos.

    Ignorar a exemplaridade do caso do mensalão – pela esfera onde ocorreu, por suas dimensões e dinâmica – para concluí-lo levianamente seria uma opção permissiva, frívola, burguesa. Esta condição dolorosa, trágica, não pode ser abortada, descartada ou contornada. A catarse seria uma solução: se produzir gestos de grandeza, reforçar consciências e criar a noção de reparação.

    O que confere à nossa imprensa um ar terrivelmente burguês, falacioso, algo cínico, é a sua irresistível compulsão para comportar-se como um auto de fé. Ou patíbulo. Deveria ser a arena – ou foro – de onde se descortinam, em toda a extensão, a generosidade e miséria da condição humana.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

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    Pgm 708 - O crescimento da violência - 05/11/2013

     

    Uma onda de violência com diferentes motivações espalha-se pelo país. Conflitos com as forças de segurança pública têm dominado as manchetes dos jornais. Há pouco mais de uma semana, a morte de um adolescente por um policial elevou a temperatura na Zona Norte de São Paulo. Moradores da região interditaram a rodovia Fernão Dias e lojas foram saqueadas. Há denúncias de que o narcotráfico estaria por trás de ações violentas na região. Os protestos pacíficos que reuniam milhares de brasileiros tornaram-se um confronto direto entre uma minoria e as forças de segurança pública. Após uma manifestação convocada pelo Movimento Passe Livre em São Paulo, o coronel Reynaldo Rossi, da Polícia Militar, foi agredido com socos e pontapés. Até mesmo uma chapa de metal foi usada na agressão. Socorrido por seu motorista, o coronel pediu calma à tropa. O Terminal D.Pedro II ficou completamente destruído.

    A presidente Dilma Rousseff repudiou a violência nas manifestações e classificou os atos de vandalismo como “fascismo” e “barbárie” antidemocrática que precisam ser coibidos pelo Poder Executivo. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que os setores de inteligência das polícias do Rio e de São Paulo vão atuar em conjunto para investigar os grupos responsáveis pelas depredações e agressões nos atos de protesto dos últimos meses. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (05/11) pela TV Brasil discutiu como as forças de segurança e os meios de comunicação se posicionam diante dos fenômenos de violência.

    Para debater este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo o tenente-coronel reformado Adilson Paes de Souza e o desembargador Wálter Maierovitch. Paes de Souza é mestre em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Foi finalista do prêmio USP de Direitos Humanos. Maierovitch é desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Fundou e preside o Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais e foi secretário Nacional Anti-drogas da presidência da República. Em Brasília, o programa contou com a presença de João Bosco Rabello, que é colunista do jornal O Estado de S.Paulo e da Agência Estado. Rabello também trabalhou no Correio Braziliense, no Jornal do Brasil e em O Globo e foi diretor da sucursal de O Estado de S.Paulo em Brasília.

    Respostas urgentes

    Em editorial, Dines ressaltou que a presidente Dilma foi veemente ao criticar os atos de vandalismo. “A um ano das eleições presidenciais, esta turbulência corre o risco de agravar-se. Por outro lado, a nova dimensão dos conflitos de rua desvenda uma sucessão de problemas crônicos no tocante à violência e segurança. Numa democracia, a truculência não se combate com truculência. Mas, se o Estado e a sociedade não exibem um mínimo de determinação, tudo desanda. No entanto, se a população vai à rua para protestar é porque não tem outros canais para se manifestar, não tem a quem recorrer. Não estamos à beira de um vulcão, nem corremos o risco de terremotos ou tsunamis. Mas convém não enfiar a cabeça na areia e fingir que nada está acontecendo”, advertiu Dines.

    A reportagem exibida antes do debate ao vivo entrevistou Michel Misse, professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para o sociólogo, uma parte dos manifestantes recorre à violência para chamar a atenção. “Eles não estão recorrendo à violência para fins privados, mas para fins políticos. E essa é uma distinção muito importante que se faz no mundo inteiro entre a violência para fins privados, que é o crime, e a violência para fins políticos, que vai buscar legitimidade. O que há em comum é a polícia. É a única forma em comum que está presente nessas diferentes manifestações. Portanto, a meu ver, é preciso que se pense, que se reflita o papel da polícia no controle ou, pelo contrário, no estímulo à forma como essas manifestações vêm ocorrendo”, analisou.

    Misse acredita que o argumento segundo o qual na democracia não se pode usar de recursos de força é falho porque a desobediência civil é um traço da democracia. “Evidentemente tem um custo, evidentemente incorre em crimes, sem dúvida nenhuma, mas é algo que ocorre em todos os países democráticos. É preciso um certo equilíbrio no tratamento dessas questões que eu não tenho visto na imprensa brasileira. Há uma ânsia em criminalizar esses grupos que são grupos pequenos, são grupos que não chegam, efetivamente, a constituir um perigo à ordem democrática”, comentou o professor.

    Diálogo inexistente

    Renato Sérgio de Lima, representante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, acredita que as manifestações, hoje, revelam um profundo estranhamento entre governos, polícias e sociedade. “A violência em algum momento passou a ser o tom das manifestações, tanto da reação das polícias como da parte dos manifestantes”, ressaltou, lembrando que o principal desafio é avaliar como é possível evitar que a violência seja a tônica. Para Renato Sérgio, é preciso pensar em “como desfazer esse estranhamento entre sociedade e governo”.

    “A violência é hoje um problema sério não só nas manifestações, mas na sociedade brasileira e, sem dúvida, para que a gente consiga reduzir esse estranhamento e avançar numa agenda de reforma das instituições de segurança, para que nós as tornemos mais eficientes, mais garantidoras de paz e tranquilidade, enfim, que a gente consiga reduzir o medo, insegurança e o crime, tem toda uma tarefa pela frente, que é exatamente a tarefa de sentarmos, conversarmos com diferentes esferas de governo, governo federal, governos dos estados, dos municípios, em especial com o Congresso. A gente também não pode ficar esperando que as reformas aconteçam, a gente precisa modernizar a gestão das políticas de segurança”, propôs o representante do fórum. Ele acredita que, ao aliar prioridade política de gestão a reformas estruturais, as estatísticas de violência vão cair.

    Fernando Lattman-Weltman, sociólogo e cientista político da Fundação Getúlio Vargas, ponderou que a violência é frequente na história do país: “Saques, ações violentas, reação à violência policial, ao abuso de poder, isso infelizmente está na nossa história, há vários exemplos datados sobre isso. Não tem nenhuma novidade aí. O fato de que a violência às vezes se mistura com questões de ordem política e com questões de ordem pura e simplesmente criminal não é nenhuma novidade, isso também já aconteceu várias vezes e infelizmente vai continuar acontecendo”. Na avaliação de Lattman-Weltman, há um “efeito demonstração” quando vários movimentos com forma de ação parecidos ocorrem com pouco tempo de diferença. “Alguém toma consciência que é possível determinado tipo de prática, de manifestação e, por qualquer motivo, qualquer motivação, diz: ‘eu também posso fazer isso’”.

    Mídia cega?

    O escritor João Paulo Cuenca criticou a violência policial e a pouca atenção que a mídia dá ao fato. “Quando acontece alguma coisa como essa em Jaçanã, que matam um garoto de 17 anos e as pessoas ocupam a rodovia da cidade para protestar, isso só vira notícia porque fecham o trânsito. Você vê a matéria no jornal e na televisão e eles vão ficar falando dez minutos sobre o trânsito, dez do ônibus que queimaram, dez sobre as providências que a PM vai fazer, vai continuar aterrorizando aquela população, e o fato do garoto inocente que morreu fica no cantinho. É uma questão de edição do que tem peso e do que não tem peso. E de contar a ordem causal. São inúmeras as manifestações em que as pessoas só começam a quebrar as coisas depois de apanharem da polícia. No dia seguinte, a edição é ao contrário. Parece que as pessoas quebraram as coisas e depois apanharam da polícia”, relatou o escritor.

    No debate ao vivo, Dines comentou que a entrevista que o tenente-coronel reformado Adilson Paes de Souza concedeu à Folha de S.Paulo no fim de semana gerou polêmica. Nela, o tenente-coronel defendia os Direitos Humanos, criticava a polícia e o sistema. Para ele, a população não tem outros canais para se expressar e, por isso, as manifestações com atos de vandalismo têm sido frequentes. Ele afirmou que segue a teoria de que não há movimentos espontâneos, mesmo quando a pauta de reivindicações dos movimentos é difusa.

    “Nós temos que avaliar o contexto em que surgiram essas manifestações e o contexto em que se tornaram violentas. Em nenhum momento nós devemos justificar o uso da violência como meio legítimo de fazer valer qualquer pretensão. Isso vale para os manifestantes e também para as forças que representam o Estado”, propôs Paes de Souza. O convidado ressaltou que as três esferas do Estado brasileiro são criticadas, inclusive no âmbito internacional, quanto à ação de agentes públicos. Por outro lado, parte dos manifestantes escolhe a violência para expressar sua opinião. “Há um distanciamento entre o palácio e a praça, ambos essenciais para a vida democrática. Nos parece que o palácio não está ouvindo os clamores da praça e a praça não está se vendo representada pelo palácio. Isso é perigoso”, advertiu.

    Menos paixão, mais ação

    Para ele, é preciso construir canais de diálogo entre sociedade e governo urgentemente. O entrevistado ressaltou que toda intervenção policial e estatal deve ter como objetivo a mediação de conflitos de forma pacífica, como está previsto na Constituição Federal. Neste momento, é fundamental que Estado e sociedade reflitam sobre seus erros para poder avançar. “Somente um diálogo franco e aberto poderá levar a uma solução para o problema”, sublinhou o tenente-coronel. Em um momento como este pelo qual passa o Brasil, com “paixões” exacerbadas, as discussões acabam infrutíferas e as soluções adequadas são postergadas. Paes de Souza comentou que uma pesquisa realizada no primeiro trimestre do ano mostra que o grau de confiança da sociedade na Justiça brasileira despencou para 23%. Os pesquisadores envolvidos no estudo asseguraram que o dado já mostrava uma instabilidade. Logo depois surgiram as manifestações contra a atuação do Estado, incluindo a ação da polícia.

    O desembargador Wálter Maierovitch ponderou que as forças de segurança pública no Brasil não foram educadas para conviver com legalidade democrática e que o caminho para que isto aconteça é longo. Por outro lado, o sistema penal brasileiro é anacrônico, com a possibilidade de muitos recursos, o que leva à falta de respostas para as demandas da sociedade. A polícia truculenta gera medo na população. “Nós precisamos mudar efetivamente tudo e, inclusive, tirar essa adjetivação de polícia ‘militar’. Nós temos uma polícia que deve ser para a garantia de uma paz social dentro da legalidade”, sugeriu o desembargador.

    Maierovitch rebateu o argumento de que a tática Black Block é nova e, por isso, o poder público ainda não sabe como controlá-la. Ele lembrou que as primeiras ações com esse perfil surgiram na Europa nos anos 1980. “O BB não é uma tática, como se diz e se quer dourar a pílula, é uma organização parasitária porque gruda em movimentos outros e pacíficos. Na marcha, se desloca para quebrar e atuar de surpresa”, disse. O entrevistado afirmou que, na Itália e na Espanha, a legislação é muito mais rigorosa do que a brasileira para coibir a atuação dos Black Blocs. Nestes países, a tática é enquadrada como terrorismo. Maierovitch defendeu mudanças rápidas e efetivas para inibir os Black Blocs e contra o tráfico que se infiltra em manifestações.

    Os protestos na pauta eleitoral

    Para o jornalista João Bosco Rabello, se não houver desmobilização dos grupos mais violentos, distúrbios sociais ainda mais graves podem ocorrer. “Todos os atores políticos já estão orientados eleitoralmente. O comportamento deles agora é ditado pela conveniência eleitoral. Isso desde o governo. É extensivo aos partidos políticos, às próprias personagens, deputados, senadores. E é por isso que eles têm uma certa cautela em relação ao assunto, porque não sabem, também, como enfrentá-lo”, analisou. Rabello destacou que o pronunciamento da presidente sobre a necessidade de punir atos de vandalismo foi dirigido às pessoas que condenam a violência nos protestos. Enquanto isso, o secretário-geral da presidência, Gilberto Carvalho, preferiu aproximar-se de alas da esquerda e dos movimentos sociais ao pedir mais diálogo com os Black Blocs.

    O jornalista ponderou que parte das dificuldades da polícia em lidar com o movimento pode estar ligada ao fato de que a logística destes eventos é inédita no Brasil. Sem conseguir localizar e monitorar os grupos, a polícia fica restrita à batalha nas ruas. “Está faltando um trabalho de inteligência, de investigação que preceda as ações de campo para identificar realmente os participantes da violência e chegar onde esta articulação está”, definiu Rabello, ressaltando que tem dúvidas se até as eleições haverá tempo para esta ação.

     

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    Pgm 707 - Jornalismo investigativo - 29/10/2013

     

    Principal ferramenta do jornalista, a investigação é a base de reportagens que mudaram o rumo da História. Revelações de fraudes, má gestão de recursos públicos e outros crimes abalaram governos e instituições. O instinto aguçado para farejar pistas em meio a um emaranhado de informações é fundamental, mas paciência e uma boa dose de coragem também são essenciais em apurações que podem durar anos. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (29/10) discutiu o jornalismo investigativo hoje e os desafios que as novas mídias impõem às investigações mais aprofundadas.

    Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro os jornalistas Chico Otávio, repórter especial de O Globo, Elvira Lobato, que trabalhou na Folha de S.Paulo, e Claudia Antunes, editora da revista Piauí. Chico Otávio é professor da PUC-Rio, recebeu cinco vezes o Prêmio Esso. É autor de reportagens de destaque como o escândalo da LBV, a Máfia do INSS, o caso Riocentro e fraudes nas importações. Claudia Antunes foi editora da seção Mundo da Folha, editora de Internacional, de Cidade e de Política no Jornal do Brasil e chefe de reportagem da sucursal da Folha no Rio. Elvira Lobato atuou como repórter por quatro décadas. Foi especialista em telecomunicações e radiodifusão da Folha de 1993 a 2011, quando se aposentou. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Elvira recebeu, entre outros prêmios, o Esso de Jornalismo, em 2008, e o Embratel, em 2004.

    Antes do debate no estúdio, em editorial, Dines pontuou que as agressões a jornalistas são proporcionais ao incômodo que o seu trabalho causa: “Liberdade de expressão é a primeira vítima dos tiranos e tiranetes e, à medida que jornalistas se tornam mais atuantes, mais competentes e competitivos – e, portanto, mais investigativos –, maior é a violência contra eles”. Dines afirmou que reportagem e investigação são sinônimos e destacou a necessidade de investimentos nos meios de comunicação: “Ficou evidente que a crise de identidade que assola a mídia dita ‘tradicional’ só poderá ser superada quando mais recursos e mais empenho forem transferidos para investigações extensivas, de longo prazo. O dia a dia é atendido pelas diversas modalidades que circulam na internet, mas o cidadão do mundo já não se contenta com fragmentos, quer informações consolidadas, inteiriças e principalmente novas”.

    Denúncia vs. poder

    O programa entrevistou uma série de participantes da Conferência Global de Jornalismo Investigativo, realizada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) de 12 a 15/10, no Rio. O premiado jornalista escocês Andrew Jennings acredita que é possível realizar grandes reportagens mesmo fora da mídia convencional. “Os jornais estão sem dinheiro, mas ninguém disse para parar de investigar, porque o verdadeiro jornalismo investigativo está no coração e achamos um jeito. Se você tiver que viver com seus pais por mais alguns anos e escrever seu blog e fazer suas investigações em mesas de restaurantes, esse é o novo mundo chegando. Acho que se você é um jornalista determinado e sabe que tem uma história cheirando mal, e sabe que deve investigar, você acha um jeito”, disse Jennings.

    Um dos principais combustíveis do jornalismo investigativo é adrenalina. Andrew Lehren, repórter do New York Times, que cobriu o caso WikiLeaks, investigou telegramas diplomáticos e processos de detentos de Guantánamo e ponderou que o risco faz parte da atividade: “Sempre existem pressões que os jornalistas enfrentam. Nós enfrentamos pressões de ações judiciais, de pessoas que podem querer nos agredir se nós escrevermos certos tipos de histórias, enfrentamos todo tipo de pressão. Alguns jornalistas veem essa pressão e dizem que não querem fazer esse tipo de jornalismo, preferem cobrir uma partida de futebol ou um concerto de música. É necessário todo tipo de jornalismo para se fazer um jornal, uma rádio ou um canal de televisão”. Para ele, as pessoas que atuam como jornalistas investigativos tendem a ser destemidas.

    Com a experiência de investigar casos de corrupção e de violações de direitos humanos no Paraguai, a jornalista Mabel Rehnfeldt, do diário ABC Color, chamou a atenção para a acomodação dos jornalistas diante das pressões. “Em sociedades como a paraguaia, o jornalismo também pode estar refém sem a necessidade de que alguém morra. E como se mata? Subornando, dando dinheiro aos jornalistas para que calem ou para que falem. E isso é tão lamentável como sofrer ameaças e outros tipos de riscos. Cada vez que um jornalista entrega a sua voz ou seu silêncio ao dinheiro, ao poder, ou à política, estamos matando o jornalismo e matando a oportunidade de um país melhor, com mais saúde, mais educação”, afirmou a jornalista.

    O jornalista bósnio Drew Sullivan, que coordena um consórcio de centros de investigação que conta com 80 profissionais de vários países, ressalta a importância de critérios de segurança para cobrir o submundo. “Jornalismo investigativo sobre crime organizado no Leste Europeu é muito perigoso. É extremamente perigoso reportar sobre essas pessoas porque não há muita informação. Quando essas pessoas descobrem que você está escrevendo sobre elas, é muito perigoso – elas já mataram várias vezes antes. Então, é um jornalismo muito cuidadoso e cauteloso, que se baseia em ser muito bom, em ser capaz de documentar a informação cuidadosamente, porque se você não reportar a história corretamente isso pode te colocar em perigo”, disse Sullivan.

    O preço da notícia

    A crise financeira que abalou o mundo a partir de 2009 acertou em cheio as empresas de comunicação. Já combalida pela concorrência com as novas mídias, a imprensa tradicional precisou reestruturar seu modelo de negócio. Para se reinventar, jornais cortaram custos. E a primeira vítima, muitas vezes, foi a investigação mais aprofundada. Para Tom Gilles, editor do programa Panorama, da BBC, as reportagens investigativas são insubstituíveis. “Tem sido difícil financiar jornalismo investigativo, mas, ao mesmo tempo, devido à necessidade, ainda acho que o jornalismo investigativo tem um bom futuro. Custa muito dinheiro realizar jornalismo sério na televisão. Ao mesmo tempo, estranhamente, tem mais demanda e interesse do que já tinha. De certa forma, por causa da crise financeira, do senso de injustiça, de uma crescente necessidade das pessoas, talvez um ceticismo sobre os governos e corporações”, disse Gilles. Especialmente na televisão, na sua opinião, a investigação é essencial.

    Mesmo diante da crise, o diário britânico The Guardian investe pesado na apuração de grandes reportagens. David Leigh, editor de investigações do jornal, ressalta que a profundidade das reportagens é um diferencial. “Todos os jornais da Europa e da América estão enfrentando grandes crises financeiras e obviamente o jornalismo investigativo está em perigo porque é caro, é perigoso, utiliza muitas pessoas e muito tempo para ser feito. Porém, o interessante é que o The Guardian, embora esteja enfrentando uma crise financeira, assim como todos os outros, decidiu, deliberadamente, fazer do jornalismo investigativo uma característica e injetou recursos nele”. Leigh ressaltou que o jornal está usando justamente a investigação para se diferenciar do conteúdo encontrado na internet, principalmente em blogs.

    Andrés D’Alessandro, editor do Fórum de Jornalismo da Argentina, destaca o alto custo das reportagens com apurações longas. “O jornalismo investigativo é o jornalismo mais caro de se realizar em todos os formatos. Mais caro do que o jornalismo gráfico, do que jornalismo de documentários para o cinema. A crise financeira que o mundo atravessa – em particular, a crise que atravessam os meios de comunicação tradicionais em todo o mundo – gera algum problema para o desenvolvimento do jornalismo investigativo”. Para D’Alessandro, é fundamental que se trabalhe em plataformas de colaboração jornalística. Com o avanço tecnológico, ele acredita que seja cada vez mais fácil compartilhar conteúdos apurados em diversas partes do mundo para produzir reportagens.

    Financiamento como arma

    Historiador e comentarista do canal ESPN, Lúcio de Castro tem uma série de reportagens investigativas premiadas em seu currículo. Para ele, o financiamento ainda é um problema. “Ainda falta a gente caminhar muito. As novas mídias, sem dúvida, são um caminho maravilhoso para o jornalismo investigativo, mas falta ainda saber como vai financiar isso tudo. Se a forma de financiamento vier do Estado, você também não tem independência. Então, esse caminho a gente vai ter que encontrar ainda, mas vamos caminhar para depender cada vez menos das grandes empresas”.

    Andrew Lehren destacou que investigações longas exigem investimento das empresas: “Bom jornalismo demanda tempo e dinheiro. Eu trabalho para o New York Times e eles têm um comprometimento real em acreditar que o jornalismo investigativo é importante, que é uma marca do jornal. Existem outras organizações de mídia que acreditam nisso também. Atualmente, são as [entidades] sem fins lucrativos, como a ProPublica”. Drew Sullivan contou que doadores internacionais injetam dinheiro no consórcio de jornalistas de que fazem parte. “Isso é algo comum em jornalismo investigativo nos dias atuais. Sem fins lucrativos é uma boa maneira para conseguir dinheiro para esses tipos de temas que não são de grande interesse para um grande número de pessoas”, sugeriu o jornalista. Mas, por outro lado, Sullivan ressaltou que há um problema constante, que é “achar” o dinheiro.

    Repórter da revista semanal alemã Stern, Nina Plonka é otimista quanto ao jornalismo investigativo produzido em seu país. “É verdade que nós temos menos dinheiro para gastar, mas no geral você não pode comparar com outras mídias. Nós podemos fazer as reportagens que nós queremos, temos todo o tempo de que precisamos. Na Alemanha, muitas mídias investem no jornalismo investigativo. Gastam dinheiro na investigação porque elas querem a verdadeira e exclusiva história que ninguém tem.”

    Mabel Rehnfeldt disse que durante os momentos de crise, o primeiro passo das empresas é, geralmente, diminuir os investimentos na apuração: “É, ironicamente, o tipo de jornalismo que o nosso país mais necessita para encontrar tudo aquilo que está oculto, que rouba dinheiro da Saúde, da Educação, das crianças. São os primeiros recursos que são cortados e são os de que mais se necessita”.

    Tecnologia como aliada

    Pinçar informações valiosas exige faro apurado e persistência. Recentemente, nomes como Bradley Manning, do caso WikiLeaks, e Edward Snowden, que prestava serviço para a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA), ganharam destaque ao vazar informações sigilosas que foram o pontapé para o trabalho de jornalistas investigativos. Nos anos 1970, 14 mil páginas ultrassecretas do governo norte-americano sobre a guerra do Vietnam, os Papéis do Pentágono, foram entregues clandestinamente ao New York Times. Para Andrew Lehern, o material era semelhante ao vazado por Manning, no caso WikiLeaks.

    “Os Papéis do Pentágono tinham muito menos páginas, menos palavras, mas eram informações e segredos similares sobre o que o governo sabe e está fazendo. A mudança foi que os Papéis do Pentágono eram em papel e WikiLeaks numa base de dados, em arquivos eletrônicos. Dados são apenas mais uma fonte de informação. Nós, jornalistas, falamos com as pessoas, nós olhamos documentos, lemos relatórios, olhamos mapas e fotos que podem nos fornecer informação. Nós estamos acostumados a olhar todo tipo de informação e os dados são apenas mais uma forma de informação. O nosso trabalho, como jornalistas, é coletar a informação e tentar achar as histórias importantes para as pessoas”, disse o jornalista.

    Dines abriu o debate no estúdio questionando se todo jornalismo é investigativo. Elvira Lobato comentou que o termo sempre gera polêmica, principalmente nas universidades. A jornalista disse que, de acordo com os dicionários, investigação e apuração têm o mesmo significado. Mas, em sua opinião, a investigação pode trazer à tona fatos que incomodam, que são de interesse público e estavam ocultos. Para isso, é preciso que o profissional tenha características específicas: “Não se aprende na universidade a fazer jornalismo investigativo. Eu acho até que o repórter precisa ter um dom, um inconformismo, uma curiosidade que não estará nos demais. Ele vai desconfiar que alguma coisa que parece normal não é normal”, definiu Elvira. Geralmente, segundo ela, são pessoas arredias, solitárias e obcecadas pelos temas em que trabalham. Tudo começa com o olhar do repórter, que identifica quando há algo que precisa ser apurado.

    Transparência no setor privado

    Na avaliação de Elvira Lobato, jornalismo investigativo é caro porque a mão de obra fica retida em um assunto por um longo tempo e requer uma grande qualificação do profissional. É preciso que o jornalista conheça profundamente um assunto para avaliar o que pode estar escondido por trás das informações, sobretudo em emaranhados burocráticos. “O mais difícil de ser feito é investigar empresas privadas. Há muita investigação na área de política, porque você vai ter as diferentes correntes políticas ajudando, adversários expondo o outro, informações que de alguma maneira você consegue ter acesso; mas no mundo privado, não”, disse Lobato. Concessionárias de serviços públicos estão entre as que impõem mais barreiras para os jornalistas.

    Dines chamou a atenção para o fato de que os veículos de comunicação são empresas e que pode haver o temor de enfrentar ações e processos decorrentes de denúncias. Elvira Lobato disse que o escudo de proteção do jornalista é a verdade e a reportagem bem apurada. O conteúdo não pode deixar margem para dupla interpretação e deve estar calcado em provas. “Eu nunca tive nenhum problema de o jornal falar ‘esse assunto não pode ser apurado’”, contou a repórter. Para os pequenos jornais, as ações judiciais podem intimidar os profissionais e ser fatais para a saúde financeira.

    Chico Otávio confessou que é um obcecado pelas pautas que está apurando. “Todos os dias a revolução tecnológica agrega uma plataforma nova de investigação às redações, os repórteres estão se tornando super-repórteres, com ‘n’ funções e atribuições nessa era do tempo real e da velocidade. Por isso mesmo, eu acho que quando você consegue convencer o seu editor a sair da rotina e se dedicar a algo especial, específico, que demanda mais tempo, mais investimento, mais espaço, mais checagem, mais tudo, eu acho que isso é um momento muito especial”, disse o repórter de O Globo.

    Após a publicação das denúncias, muitas vezes os fatos deixam as manchetes dos jornais. Chico Otávio afirmou que o tempo da imprensa é diferente do tempo do policial e do juiz: “Nós publicamos a denúncia e tentamos desdobrá-la até um certo limite. Mas chega um ponto em que você tem que esperar o desdobramento natural nas instituições, porque senão vira campanha – e não pode ser campanha. A gente tem que esperar a coisa acontecer para voltar a abordar aquele assunto”, explicou Chico Otávio.

    Claudia Antunes assegurou que todo jornalismo é investigativo e, por isso, é diferente de uma simples “venda” de informação. “A gente vê muita gente transmitindo na internet, no Facebook, informações mentirosas, sem checar, vídeos manipulados. Isso aconteceu muito desde junho no Brasil”, disse a jornalista. Os jornais têm destacado um grande número de profissionais para abastecer as notícias na internet, onde a concorrência é acirrada, e há dificuldade em manter os jornalistas em pautas mais profundas. Para ela, a sensibilidade do repórter na cobertura do fato é importante para a qualidade do jornal.

     

  • Transcrições

    Pgm 706 - Entrevista com o jornalista Fernando Gabeira - 22/10/2013

     

    Na edição do Observatório da Imprensa exibida pela TV Brasil na terça-feira (22/10) Alberto Dines entrevistou o jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Depois de um longo período mergulhado na política, Gabeira volta ao jornalismo e agora em uma plataforma inédita em seu currículo: a televisão. Como repórter de rua, ele comanda um programa que leva o seu nome na GloboNews. Da letra impressa para o vídeo, aos 72 anos, Gabeira mostra a empolgação de um jovem iniciante. Ícone da luta contra a ditadura militar no Brasil, Gabeira ingressou na luta armada, foi preso e passou anos no exílio. Publicou 15 livros, entre eles o best seller O que é Isso, Companheiro?, que foi para as telas de cinema. Foi deputado federal por quatro mandatos.

    Na abertura do programa, Dines perguntou a Fernando Gabeira que motivos o levaram a voltar para o trabalho de rua. “Eu não recomeçaria com outra coisa que não fosse como repórter porque é o tipo de trabalho que sempre me fascinou, sempre esteve à altura da minha curiosidade, da minha vontade de buscar outras coisas. E não há uma atividade no jornalismo que seja tão estimulante quanto a do repórter”, disse Gabeira. Dines comentou que as novas gerações, apesar de serem capacitadas, não têm tanta curiosidade. Para o entrevistado, a sua geração parece mais eclética. Como os jornalistas de hoje são mais especializados, não têm a característica de “navegar” por temas diferentes.

    Novos desafios para um jornalista experiente

    Dines perguntou o que levou um jornalista consagrado no papel impresso a se aventurar na televisão. Gabeira contou que a revolução tecnológica foi a grande responsável pela mudança porque alterou as bases da profissão. Gabeira acredita que, embora hoje o texto continue sendo importante, os jornais impressos passaram a oferecer imagens em movimento, entrevistas em vídeo, animações gráficas. Em função do fascínio pela imagem, o texto tornou-se um elemento subordinado. Antes, a palavra impressa dominava as redações e a fotografia servia apenas para ilustrar o texto.

    “Para me reintegrar ao jornalismo eu queria passar por isso”, explicou Gabeira. Ele ressaltou que a profissão, nos anos 1960, era bem remunerada, mas hoje as empresas sofrem com o impacto da revolução digital. No entanto, as possibilidades para contar uma história são muito mais ricas. “Isso é um fascínio muito grande. Por mais complexo que seja o tema, os mecanismos à disposição para apresentá-lo são formidáveis”, disse o jornalista. Por outro lado, o trabalho de um repórter cinematográfico é mais pesado porque envolve diversos equipamentos. Para produzir um texto, papel e caneta são suficientes.

    Gabeira se mostrou preocupado com a fragmentação das audiências. “Hoje, cada vez mais, você trabalha com audiências especializadas. Nós tivemos um grande período da televisão aberta, depois [vieram] os canais fechados, agora têm os canais na internet. Então, você tem uma multiplicidade de canais de forma que uma pessoa que se interessa por gatos possa passar o dia inteiro vendo temas de gatos na televisão ou no computador. Isso é um dado novo: com a revolução digital, alguma coisa se quebrou dentro da cabeça do editor”, afirmou. Se antes os editores eram encarregados de apresentar ao cidadão o “menu” de informações escalonadas de acordo com a importância, hoje, cada pessoa monta o seu cardápio de notícias.

    A política como alternativa

    Dines comentou que a trajetória de Gabeira começou no jornalismo, passou para a política, de lá para a ecologia e, depois, voltou ao jornalismo. Insatisfeito com as poucas possibilidades para o jornalismo após a decretação do AI-5, quando a censura se instalou fisicamente nas redações, Gabeira viu na política uma forma de resistência à ditadura militar. “Quando fui para o exílio e vi que aquele processo político, por mais bem intencionado que fosse, fracassou – nós perdemos o combate, estávamos esperando a volta –, eu percebi que com o fracasso daquele processo era preciso também questionar os fundamentos teóricos dele. Era preciso encontrar outros elementos de progresso que não fosse a chamada luta de classes, que era onipresente. E, nesse tempo, surgiu a questão da ecologia como uma possibilidade de renovar o processo político”, lembrou Gabeira.

    Fernando Gabeira chegou à Suécia em 1973, um ano após a primeira grande reunião mundial sobre o clima. Já naquele período, havia grupos em Estocolmo que militavam no campo da ecologia. Um deles lutava para que os carros não trafegassem no centro da cidade. “Eu fiquei impressionado com aquilo. Simultaneamente, começaram a surgir na cidade algumas lojas vendendo alimentação orgânica, alimentação natural. Aquela visão de mundo que começou a aparecer ali, junto com os debates internacionais, me serviu muito”, disse o jornalista. Gabeira contou que a visão que o Brasil tinha da questão ambiental era “estapafúrdia”. Na época da conferência, o governo militar fez um anúncio dizendo “bem-vinda, poluição!”, porque acreditava que ela significava o progresso.

    Dines comentou que, atualmente, o cidadão brasileiro se sente no direito de aumentar o padrão de consumo, o que é um risco para o ambiente. Por isso, é complicado despertar a consciência ecológica. “Em um país emergente, você tem que buscar uma combinação, que é reduzir o consumo onde ele for supérfluo, mas estimular onde ele é aquém das necessidades da dignidade humana”, sublinhou o jornalista. No Brasil, é preciso orientar os hábitos de consumo porque os modelos atuais são inviáveis. Um dos exemplos que se deve estimular, na opinião de Gabeira, é o uso do transporte coletivo de qualidade no lugar do carro particular.

    “Uma outra coisa que preocupa muito em escala global, não só em países emergentes, é que a redução do consumo é algo muito difícil de você pedir. A maneira como eu vejo, e talvez a humanidade se safe por aí, é você continuar consumindo muito, mas produtos não materiais. Estimular cada vez mais o produto não material, mas manter uma certa estabilidade nos produtos materiais. Quando eu era garoto, chegava a Juiz de Fora um filme de quinze em quinze dias. Hoje são quinhentos filmes por dia à disposição para utilizar como você quiser. O espectro do consumo aumentou muito nesse campo não material”, constatou o entrevistado. Gabeira acredita que, em países onde a dignidade humana já está assegurada, soluções como esta podem ser postas em prática para frear o consumo não sustentável.

    O mundo em ebulição

    Dines pediu para Fernando Gabeira relembrar outras experiências fora do Brasil. O jornalista destacou o período que esteve em Cuba, logo após a tomada de poder por Fidel Castro, em 1959, onde pôde acompanhar os avanços e retrocessos na ilha; em seguida, pôde conhecer a Social Democracia europeia, principalmente a sueca e a alemã; acompanhou a queda do presidente chileno Salvador Allende, em 1973; o fim do Muro de Berlim, em 1989 e a fragmentação da Iugoslávia. “Eu estava no Chile no dia do golpe. Eu estava em frente ao [palácio presidencial] La Moneda quando os aviões começaram a bombardear. Aí eu saí e vivemos um processo difícil, que foi a colocação dos brasileiros nas embaixadas. Éramos muitos brasileiros, todos precisando fugir”, contou o jornalista.

    Dines levou para o debate as manifestações que tomaram o país a partir de junho. Fernando Gabeira ressaltou que é simpático ao movimento: “Em um país em que aparentemente tudo ia muito bem, em que todos estavam muito felizes, surgiu de repente aquele movimento para dizer uma coisa muito simples - embora as mensagens sejam múltiplas, era o seguinte: ‘Nós pagamos imposto e os serviços que nós estamos recebendo não estão razoáveis, não são bons. Nós não achamos que a Saúde esteja bem, que a Educação esteja bem e nem que os Transportes estejam bem’. Isso era o tema central, mas outros componentes vieram”, avaliou Gabeira. O jornalista relembrou que o anarquismo invocado por parte dos manifestantes havia recebido um impulso a partir dos movimentos antiglobalização.

    Desde os primeiros protestos, Fernando Gabeira identificou que a violência poderia afastar rapidamente as grandes massas das ruas. O jornalista cobriu as manifestações do dia 7 de setembro para o seu programa na GloboNews. “Eu senti que já não havia mais aquele impulso. E percebi que, se a violência não esvaziou as ruas, ficou claramente demonstrado que ela não foi capaz de trazer as pessoas de novo”, avaliou o jornalista. Dines comentou que em momentos de tensão, como os que o Brasil tem vivido por conta das manifestações, a sociedade não evoca o pensamento pacifista de figuras emblemáticas, como Mahatma Gandhi e Martin Luther King. “A paz não é uma grande notícia, a não ser quando ela vem do término de uma grande guerra”, constatou o entrevistado. Gabeira lembrou que o legado desses líderes só é valorizado em efemérides. Um exemplo foi a comemoração de 50 anos do histórico discurso de Luther King nos Estados Unidos.

    “A questão da violência ou da paz esteve presente em quase todos os movimentos. Você vai a Israel e vê que houve essa discussão lá. Vai ao movimento negro e teve o Malcolm X. Até o Dalai Lama me confessou: ‘Olha, tem uma garotada no Tibet que quer a independência, mas eles acham que eu sou muito tranquilo. Eles querem pegar em armas’. Então, essa discussão entre o caminho armado e o caminho pacífico é uma tensão permanente. Tanto Luther King quanto Gandhi eram líderes de um movimento que tinha um objetivo. Hoje, na verdade, você discute violência ou paz sem que haja objetivo nos movimentos”, ponderou Fernando Gabeira. O jornalista ressaltou que é preciso ter uma visão clara do seu objetivo para que a não-violência se constitua em uma alternativa viável.

     

  • Geral

    Mais jornais, melhor jornalismo

    Por Alberto Dines

    Em 2012, segundo dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ), havia 727 diários impressos no Brasil.

    É razoável? É pouco?

    Pouquíssimo: deveríamos ter, no mínimo, o dobro – 1454. Sem contar os digitais, os bissemanais e trissemanais. Com 5.570 municípios, deveríamos alcançar ao menos a média de um veículo jornalístico por município.

    O fenômeno da concentração da imprensa não se resume ao número reduzido de grandes empresas de comunicação e à forte tendência para a formação de oligopólios regionais. O mais grave são os vazios, os bolsões de silêncio, as manchas cinza, ocas, espalhadas entre as 727 ilhas do Arquipélago Gutenberg.

    Proativo e cobrador

    O jornal diário impresso ainda é uma referência básica para efeitos estatísticos, sociais e políticos. Portais digitais, rádios, repetidoras de TV e emissoras comunitárias são importantes fontes de informação, mas cuja identidade, periodicidade, alcance e volume são mais difíceis de ponderar. Pelo menos com os recursos de que dispomos agora.

    Quando o megainvestidor Warren Buffet, hoje convertido em guru da imprensa comunitária, afirma que ela é a única efetivamente indispensável, está se referindo ao seu poder de catalisar interesses vitais e oferecer um repertório de notícias essenciais (ver aqui a entrevista de Buffet ao Observatório da Imprensa na TV).

    O jornal local é, além disso, um formidável acionador de trocas e de circulação de riqueza. Qualquer que seja o seu modelo estatutário (sociedade não lucrativa ou comercial), o diário comunitário fala com todas as partes daquele universo comum. E cria um tipo de leitor com níveis de exigência muito maiores do que o metropolitano, geralmente mais distraído, sujeito a pressões e interesses diversificados.

    O leitor da imprensa local é focado, proativo, cidadão mais consciente, respondente, cobrador. Lidar com ele é mais complicado e mais gratificante. Razão pela qual no currículo de muitas estrelas da grande imprensa americana encontra-se sempre uma temporada de exercícios na pequena imprensa.

    O novo poder

    A capilaridade do sistema democrático se sobrepõe à capilaridade combinada das audiências da pequena imprensa formando um contingente que, ao menos teoricamente, é mais sólido e menos vulnerável ao caciquismo. Esta a razão pela qual designamos o projeto do Instituto Projor (entidade mantenedora deste Observatório) como a Grande Pequena Imprensa.

    Seu primeiro evento público (ver aqui) desvendou um formidável elenco de oportunidades para associações dos jornais locais com ONGs, movimentos sociais, OAB, Ministério Público, universidades, empresas públicas e agências de fomento.

    “Small is beautiful” era o slogan algo nostálgico dos anos 1960. Agora, na era dos chips, pode-se dizer “small is powerful”.

     

    Em busca do pluralismo

    Comunicação de Alberto Dines ao painel “O papel do jornalismo local – Como estruturar uma operação sustentável” do seminário Grande Pequena Imprensa (São Paulo, 8-9/11/2013)

    Imagino que me enquadro na antiga definição sobre jornalistas: especialistas em ideias gerais. A última profissão romântica fez da imprensa uma formidável ferramenta para a transmissão de conhecimentos.

    Fomos treinados para dirigir grandes organizações, mas no fundo acalentamos o mesmo sonho de dirigir um pequeno jornal numa sossegada comunidade interiorana. A fantasia parece bucólica, mas exprime o desejo de fazer jornalismo numa escala humana.

    A primeira vez em que me envolvi com a chamada “pequena imprensa” foi no início dos anos 1960, quando o Jornal do Brasil começou a planejar o seu crescimento. Ao lado da melhoria do jornal, eu pretendia uma cadeia de jornais-satélites acompanhando os eixos rodoviários que chegavam ao Rio. Vivíamos os primeiros efeitos da explosão rodoviária iniciada nos anos JK.

    De volta ao tema que nos reúne aqui, queria compartilhar com vocês um segredo profissional que procuro adotar há algumas décadas: na dúvida, a melhor solução será sempre aquela que resolve ao mesmo tempo mais de um problema. Dificuldades não existem isoladas na Natureza, são encadeadas. Ao trabalhar com propostas mais amplas, não apenas evitamos efeitos colaterais como também criamos dinâmicas espontâneas, convergentes. No mundo multidisciplinar em que vivemos, a solução distendida e ampliada, além de mais eficaz, tem a vantagem da maior durabilidade.

    Como começar

    As novas tecnologias não resolvem tudo. Os velhos valores não podem ser oferecidos apenas às pequenas elites. Novas ferramentas combinadas aos valores permanentes é uma solução holística.

    O processo informativo deste início do século 21 é simultaneamente fragmentado e concentrado. As novas mídias digitais favorecem a pulverização e a dispersão, mas o sistema informativo como um todo continua tendente à concentração das empresas em grandes grupos, num processo que vem se consolidando há quatro séculos. Reverter repentinamente a concentração dos meios comunicação através do uso da violência – como está sendo tentado na Argentina – significa colocar em risco a própria estrutura democrática. Não se chega ao pluralismo com golpes de força.

    E o que nos reúne hoje aqui é essencialmente a busca do pluralismo. Pela via mais natural possível. Tentando equacionar binômios e, se possível, trinômios.

    Um país com as dimensões e as desigualdades do Brasil necessita de mais vozes e mais eco, maior participação e melhor entendimento. Em outras palavras, mais jornais e melhor imprensa.

    Por onde começar? Criando artificialmente novos e poderosos grupos jornalísticos? Com que recursos e para atender quais mercados? Convocar os governos para construir uma nova imprensa cuja tarefa primordial será a de vigiar livremente futuros governos? Impossível.

    Foco na democracia

    Ao iniciar o nosso projeto na Universidade de Campinas (Unicamp), no início dos anos 1990, sob o comando do seu reitor Carlos Vogt, pretendíamos introduzir um novo item na agenda nacional: o debate sobre a imprensa. Não exigimos leis, estatutos ou códigos. Optamos por algo mais simples e mais orgânico. Sabemos que ao observar um fenômeno intervimos nele – então, ao observar a imprensa, estimulamos um movimento por mudanças. Interno, endógeno.

    Começamos como media watchers, mas o media watching não é um fim em si mesmo, é um meio de buscar a excelência e excelência não pode ser alcançada por decreto. A excelência é uma solução para diversos problemas conjugados.

    Nosso projeto de estimular a ocupação dos grandes vazios informativos do interior do país tenta reproduzir o que foi feito nos Estados Unidos no início do século 19, quando junto com o trem vieram os serviços e o serviço mais elementar é a troca – troca de mercadorias, troca de informações. Conhecimento.

    Mercúrio era na antiguidade o deus do Comércio; Mercúrio foi o nome dos primeiros jornais em muitos países (Inglaterra, França, Portugal, Chile). Um jornal é um motor de trocas que faz circular riquezas. E a circulação de riquezas faz circular o poder.

    O primeiro veículo jornalístico a circular sem censura no Brasil era escrito e impresso em Londres quando éramos uma colônia portuguesa. No Brasil ou em Portugal, seria desmantelado pela Inquisição. Em apenas 14 anos, aquele mensário que levava 90 dias para trazer as primeiras notícias até aqui dava a partida ao processo que culminou com a nossa emancipação.

    A pequena imprensa é uma grande solução: comunidade e comunicação são substantivos com a mesma raiz, communis. Rigorosamente afins. A comunidade se forma através da comunicação, a comunicação só floresce onde há uma comunidade.

    Para iniciar o nosso projeto, em abril deste ano fui a Omaha, Nebraska, para entrevistar a extraordinária figura de Warren Buffett, o megainvestidor que acredita na força da pequena imprensa e continua comprando pequenos e médios jornais. No fim da entrevista contei-lhe que um dia lançaremos uma campanha com o seguinte slogan: “Faça como Warren Buffett, compre um jornal”.

    Ele deu uma gostosa gargalhada e disse algo assim: comprem jornais, criem jornais, mas não misturem imprensa com poder político. Pensem apenas na democracia. Esse é o nosso desafio.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Geral

    ‘OI na TV’ não está sendo reprisado

    Por Alberto Dines

    O “Panorama Político”, na página 2 do Globo, é bem informado e redigido com cautela. Na edição de domingo (10/11), comeu mosca ao informar que o programa de TV Observatório da Imprensa, da TV Brasil, está sendo reprisado junto com duas outras produções, o Sem Censura e Arte do Artista.

    Errou: o programa não vem sendo reprisado. Isso só aconteceu em Abril passado quando este observador foi hospitalizado.

    A EBC não “esqueceu” de renovar o contrato: está concluída a primeira fase das negociações para um novo formato de parceria com o Instituto Projor, entidade administradora da marca. A fase seguinte, mais fácil, envolve apenas a redação do contrato e o acerto do Projor com a produtora Giros, já que o Projor é uma organização sem fins lucrativos.

    Não existe ameaça de “limpeza” política. Quem tem boicotado o projeto do Observatório da Imprensa são os bunkers mais reacionários da grande mídia que preferem ignorá-lo a valorizar as edições feitas com carinho e esmero por uma equipe de profissionais que tem amor ao trabalho e respeito à inteligência do espectador. A belíssima edição dedicada aos pequenos jornaleiros (28/9) não mereceu uma linha antes ou depois da exibição. Isso, sim, é limpeza política.

    O próximo Observatório (terça, 12/11) tratará da regulamentação da mídia no Reino Unido e na Argentina. Só não irá ao ar se uma greve parcial decretada por um grupo de funcionários for ampliada.

    Esperamos que O Globo repare o seu erro e corrija a notícia em suas edições de segunda e terça.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Geral

    Apertem os cintos, entramos na zona de turbulência

    Por Alberto Dines

    A advertência vale para diferentes voos, rotas, equipamentos. Vale para a estranha trepidação que vem das nossas ruas, geralmente atravancadas, mortiças; vale também para os marginais – como este observador – empenhados em estourar bolhas e provocar sacolejos neste interminável processo de produzir e reproduzir mudanças conhecido como jornalismo.

    Tudo revirado e revirando, concomitante, ao vivo, tempo real. Diários, semanários, internet e TV provavelmente se acertaram para não exibir a cerimônia no Palácio de Buckingham, Londres, protagonizada pela rainha Elizabeth 2ª ao assinar a Carta Real que institui o sutil processo de regulação da mídia, exatos 369 anos depois do protesto de John Milton contra a exigência do licenciamento de publicações.

    Têm razão em envergonhar-se: o establishment midiático britânico traiu o seu compromisso de correção, equidistância e equidade ao permitir que a entidade autorreguladora (Press Complaints Comission) participasse de uma palhaçada e convertesse o vale-tudo em regra geral de conduta jornalística. Desmoralizada a autorregulação só restou a opção da regulação exógena.

    Por coincidência, horas antes, a promotoria de justiça começou a ler a peça acusatória contra os editores do conglomerado de jornais de Rupert Murdoch por invasão de privacidade e outros crimes, processo este que provocou a convocação de uma comissão de inquérito e resultou na Carta Real.

    Jogo de cena

    Com todo o seu engenho dramático, William Shakespeare não conseguiria montar um drama tão bem concatenado sobre crimes e castigos. A Carta Real não foi ideia dos bolivarianos ingleses, foi iniciativa dos três maiores partidos reunindo todo o espectro ideológico (Conservadores, Liberais-Democratas e Trabalhistas). Se o patronato esperneia e recusa o vexame, problema dele. Quando Milton escreveu o Areopagítica, a imprensa pretendia ser uma instituição, árbitro. Quase quatro séculos depois se apresenta como mera indústria, submetida às leis do mercado.

    No mesmo dia (quarta-feira, 30/10), no outro lado do mundo, os adversários argentinos também se envolviam com a regulação da mídia. À sua maneira, naturalmente. Naquele dia, a Corte Suprema declarou constitucional a Lei da Mídia (Ley de Medios) e assim pôs-se em movimento o processo de desconcentração destinado a acabar com o mais poderoso e encarniçado adversário dos Kirchner, o Grupo Clarín.

    A Ley de Medios é legítima em termos teóricos, mas foi criada e acionada de forma truculenta, como instrumento de pressão política. Mesmo que a proposta do Clarín, oficializada na segunda-feira (4/11), seja aceita pela AFSCA (Autoridade Federal dos Serviços de Comunicação Audiovisual), o processo de desconcentração foi maculado por uma série de abusos. Grupos simpáticos aos Kirchner foram privilegiados com concessões de rádio e TV; sindicatos, idem. E no momento em que o mundo livre procura a completa separação entre religião e Estado, a Argentina dá um adeus definitivo ao laicismo tornando a igreja católica dona de uma rede de emissoras.

    E o Brasil? Sequer consegue criar o Marco Civil da Internet, prefere o “deixa-ficar”. Nossos partidos políticos não se sentem obrigados a vocalizar os interesses e necessidades dos eleitores, fiéis apenas à sua sustentação financeira. David Cameron, o primeiro-ministro britânico (à direita do seu núcleo conservador), foi obrigado a engolir o princípio intervencionista contido na carta assinada pela rainha na semana passada. Para evitar um constrangimento que o liquidaria politicamente pediu para ser substituído pelo vice-premiê, Nick Clegg, liberal-democrata.

    Horizonte ampliado

    O ex-agente Edward Snowden desmontou sozinho o que os estrategistas chamavam de “correlação de forças”. O complexo industrial-militar americano que Barack Obama não conseguiu enfrentar (nenhum ocupante da Casa Branca o tentou) será obrigado recuar, pelo menos no capítulo da espionagem. Foi longe demais. E caso Snowden deixe a Rússia para fixar-se na Alemanha ganhará uma plataforma extraordinária para produzir fatos novos.

    Os milagres prometidos pela tecnologia e pelos gadgets não se materializaram. Ao contrário: a própria tecnologia encarregou-se de se desmistificar. E se a mídia impressa perceber as oportunidades oferecidas nesta incrível sucessão de reversões e reviravoltas, seu futuro estará garantido por mais alguns séculos.

    O jornalismo é investigativo pela própria natureza, gaste-se a sola do sapato, neurônios no cérebro ou fibras da alma, não adianta perseguir infalíveis modelos de negócios se o nosso negócio é buscar o inesperado e assumir o desassossego. Quem quer bater o ponto o resto da vida, dormir nos louros, escrever gracinhas, contar tuítes e virar grife, procure outra profissão. Ou troque os instintos.

    Nosso to be or not to be é muito raso. Mídia ninja ou mídia não-ninja é um dilema muito precário. Toda mídia tem o seu momento ninja, perturbador, para, em seguida, garantir os ganhos do salto qualitativo.

    A batalha das biografias está aparentemente vencida, pelo menos no âmbito da opinião pública. Mas, convenhamos: entregar o bastão de comando a um “artista” ou “intelectual” do porte de Roberto Carlos é suicídio. Isso precisa ser dito mesmo que soe algo elitista. Roberto Carlos não pode arbitrar os rumos da nossa literatura, historiografia, biografismo e, em ultima análise, nosso jornalismo. Este é o risco que corremos enquanto o seu embargo a biografias não autorizadas estiver mantido.

    A zona de turbulência que o momento nos oferece poderá ser extremamente proveitosa. Desde que ampliemos o repertório dos debates e o elenco de debatedores.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Geral

    Confira a íntegra do Observatório da Imprensa desta terça, dia 29/10

    No programa, Alberto Dines e seu convidados analisam o futuro do Jornalismo Investigativo, que requer apurações mais elaboradas, diante da agilidade das novas mídias.

  • Geral

    Tributo à excelência

    Por Alberto Dines

    *Discurso proferido na solenidade de comemoração dos 75 anos do Prêmio Maria Moors Cabot, na Escola de Jornalismo da Universidade Columbia; Nova York, 21/10/2013

    Infelizmente, esta noite não dispomos de tempo suficiente para fazer uma avaliação detalhada do impacto que teve o Prêmio Maria Moors Cabot nos últimos 75 anos. Mas a ideia é emocionante e merece ser aprofundada.

    Portanto, decidi concentrar minhas breves observações nos brasileiros que receberam o prêmio até o final da década de 1970. Curiosamente, até então quase todos os vencedores eram donos de jornais ou publishers, muitos deles excelentes jornalistas, mas nem todos. Em 1941, por exemplo, a escolha de Paulo Bittencourt, um jornalista corajoso, dono e diretor do Correio da Manhã, foi justa e acertada. Mas a premiação de sua esposa, Sylvia Bittencourt, na mesma ocasião, não foi merecida. [De acordo com o jornalista Fuad Atala, que prepara um livro sobre o Correio da Manhã, Sylvia Bittencourt assinava uma coluna no jornal o pseudônimo de “Majoy”.]

    A primeira e verdadeira exceção foi Alceu Amoroso Lima, em 1969. Era um cronista sério, crítico literário, a reserva moral da sociedade brasileira e se opunha com veemência à ditadura militar. Tive o privilégio de segui-lo, em 1970. E em 1974 foi a vez de Fernando Pedreira. Ele era o editor-chefe do jornal O Estado de S.Paulo e foi o terceiro profissional brasileiro a receber a medalha de ouro por sua postura de oposição à ditadura e à censura.

    Desde então, só tivemos profissionais brilhantes, como Carlos Castello Branco, Otávio Frias Filho, Clovis Rossi, José Hamilton Ribeiro, Miriam Leitão (a primeira mulher), Carlos Eduardo Lins da Silva, Paulo Sotero e, agora, o primeiro repórter investigativo, Mauri König. Trata-se de um recorde notável que, com certeza, ainda irá melhorar [ver abaixo a lista dos brasileiros premiados].

    A tendência inicial a premiar executivos dos jornais não era exclusivamente em relação ao Brasil. Também em outros países a escolha incidiu, em grande parte, numa elite de proprietários e publishers. Nada contra premiar os chefes: eles foram os pioneiros da indústria e alguns foram os fundadores de poderosos conglomerados ou importantes instituições jornalísticas. Mas os profissionais e os supervisores dão prosseguimento a esse legado: melhoram os padrões do ofício, são eles que são perseguidos e presos e, em muitas ocasiões, fuzilados. Fiquei satisfeito de observar uma tendência distinta entre os vencedores norte-americanos, a começar por 1938: a maioria dos prêmios foi concedida a profissionais de Redação, muitos deles especializados na cobertura da América Latina.

    O fim da ditadura militar no Brasil realmente começou quando alguns jornais decidiram libertar-se da autocensura. Essa é uma lição que não podemos esquecer: a ditadura durou 21 anos porque as pessoas achavam que os regimes autoritários eram bons para os negócios.

    A Constituição brasileira acabou de completar 25 anos e agora enfrentamos novos desafios, principalmente na mídia eletrônica – rádio e televisão –, onde organizações religiosas com ambições políticas despudoradas entram em confronto aberto com o secularismo de nossa legislação.

    No Brasil, a grande mídia permanece altamente concentrada e não-competitiva, e a pequena imprensa independente não tem como sobreviver decentemente devido à ausência de incentivos. O resultado final é uma sucessão de lacunas geográficas e uma falta de diversidade – em outras palavras, uma meia democracia.

    Terminarei dizendo que o próprio Prêmio Maria Moors Cabot merece um prêmio por tudo o que conseguiu durante seus primeiros 75 anos, tanto em termos de liberdade, como de paz, de cooperação e de excelência em jornalismo. Merecerá certamente muitas outras honrarias e tributos pelo que provavelmente irá conseguir nos próximos 75 anos. Com apenas um pouco de wishful thinking, espero ver vocês todos nessa data.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Transcrições

    Pgm 705 - Censura prévia a biografias - 15/10/2013

     

    Mais um capítulo na polêmica em torno da publicação de biografias não autorizadas. A associação Procure Saber, que reúne nomes como Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, criticou a comercialização de biografias sem o aval do personagem ou de seus herdeiros. O grupo defende que “direitos e obrigações sejam iguais para os dois lados” e critica o fato de os autores lucrarem com a privacidade. A associação garante que quer apenas regular, não censurar. O Procure Saber defende que a inviolabilidade da vida privada tenha o mesmo peso da liberdade de expressão. O cantor Djavan chegou a afirmar que “editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento”.

    A repercussão foi imediata e o caso chegou à Feira de Frankfurt. O escritor Laurentino Gomes disse que o Procure Saber, ao defender seus interesses, limitará a liberdade de expressão. Outros artistas e intelectuais deram declarações a favor da publicação de biografias não autorizadas. No domingo (13/10), o cantor Caetano Veloso voltou a falar sobre o assunto. O artista alegou que a relação entre liberdade de expressão e direito à privacidade é delicada. Para o ombudsman da Folha de S.Paulo, os principais artistas envolvidos não deveriam se esquivar do debate público.

    Desde abril, um projeto de lei que permite a exibição de cinebiografias ou biografias impressas sem a autorização prévia aguarda apreciação na Câmara dos Deputados. O texto já estava pronto, mas um recurso obrigou que o tema fosse discutido em plenário. A Associação Nacional dos Editores de Livros move uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando o Código Civil, que impede a publicação sem autorização prévia. O presidente do STF, Joaquim Barbosa, manifestou-se a favor da publicação das obras, mas sugeriu indenizações mais pesadas para quem se sentir prejudicado.

    O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (15/10) abriu espaço para este tema com a presença de três jornalistas que publicaram biografias. No Rio de Janeiro, participaram Mário Magalhães e Ernesto Rodrigues. Magalhães lançou Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo. É finalista do Prêmio Jabuti de 2013, na categoria biografia, trabalhou nos principais jornais do país e foi ombudsman da Folha de S.Paulo. Ernesto Rodrigues passou pelas redações de O Globo, Jornal do Brasil, IstoÉ, Veja e TV Globo. Foi ombudsman da TV Cultura de São Paulo. É autor de Ayrton, o herói revelado e Jogo Duro – A história de João Havelange. Acaba de lançar o documentário Conversa com JH, sobre os bastidores da biografia do ex-presidente da Fifa. Em Brasília, o programa recebeu Leonencio Nossa, de O Estado de S.Paulo, autor de Mata! – o Major Curió e as guerrilhas no Araguaia, entre outras obras.

    Importante, mas não urgente

    Em editorial, antes do debate no estúdio, Alberto Dines sublinhou que apesar de o tema ser relevante, a velocidade que ganhou nos últimos dias não é justificada. “A cada novo lance da polêmica fica evidente que o coletivo de astros da música popular entrou ingenuamente nesta inglória cruzada porque foram orquestrados por duas empresárias – a de Caetano Veloso e a de Gilberto Gil – empenhadas em defender a sua ‘mercadoria’, os seus interesses pecuniários”, disse. Na avaliação de Dines, elas esquecerem que esses artistas são valorizados justamente pela sua transparência.

    A reportagem exibida antes do debate ao vivo ouviu a opinião do jornalista e biógrafo Lira Neto, que acaba de publicar o segundo volume da sua biografia do ex-presidente Getúlio Vargas. “A não ser que os artistas achem que compõem uma classe especial de pessoas, uma casta acima da sociedade, do comum dos mortais, eles estão propondo algo que é absolutamente inadmissível. Ou seja, você tem uma lei restritiva para uma determinada categoria de pessoas. Se você leva isso para um grupo maior, a sociedade como um todo, você impede que políticos corruptos, por exemplo, sejam alvo de biografias não autorizadas. Vamos supor que eu desejasse – como eu fiz, inclusive – [produzir] a biografia do Castelo Branco, o marechal que inaugurou a ditadura, a partir do golpe de 1964, e tivesse que pedir autorização à família do Castelo Branco – e mais ainda, tivesse que pagar um royalty qualquer à família para contar a história do ditador. É algo absolutamente insustentável, insano”.

    Lira Neto acredita que os artistas não tenham atentado para o detalhe de que a proibição inviabiliza a própria narrativa histórica. “Não é somente a biografia que está correndo perigo, não é só o gênero biográfico que está ameaçado. Qualquer pessoa que se sinta ofendida por um livro qualquer pode requerer os mesmos direitos. É hora de não só os jornalistas, não só os biógrafos, mas os historiadores entrarem nessa discussão. Os historiadores precisam discutir o que isso significa e alguém provocar alguma luz na cabeça de pessoas que todos nós admiramos – como Chico Buarque, Caetano, Milton –, que talvez não estejam percebendo o verdadeiro alcance nefasto dessa tese”, alertou o biógrafo.

    O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), relator da Lei das Biografias na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, disse que a polêmica das últimas semanas pode atrapalhar o andamento do projeto e impactar a decisão do STF na Ação Direta de Inconstitucionalidade movida sobre esse tema: “No caso de pessoas públicas, a minha interpretação é de que o direito à privacidade deve ter um peso menor do que a liberdade de expressão de autores, escritores, jornalistas, biógrafos e também o direito à informação do público sobre a vida dessas pessoas, de forma que se o direito à privacidade deve ser protegido para todos, as pessoas que escolhem uma vida pública acabam tendo a propensão a esse direito um pouco reduzida em relação a uma pessoa comum”.

    Direitos em conflito

    Para o jurista José Paulo Cavalcanti Filho, biógrafo de Fernando Pessoa, o direito à privacidade e o direito de liberdade de expressão são fundamentais para a democracia. Para ele, é preciso integrar as duas garantias constitucionais. “Eu proponho que a gente tenha o exercício dos dois direitos, e quem quiser publicar uma biografia, publique o que quiser, se tiver receio peça autorização do interessado ou da família”, disse. “Quem não gostar, entra com uma ação e obtém indenização proporcional ao dano.”

    O escritor e músico Jorge Mautner defendeu o Procure Saber. “Existe salvaguarda do direito individual, do direito de foro íntimo, dos segredos da pessoa, enfim, de partes da intimidade que ela não quer que saibam. Não quer que o filho saiba, a esposa saiba, os amigos, imagina então o resto do mundo. De resto, também tem o aspecto financeiro”. Mautner acrescentou que há uma pressão em torno dos artistas e que o grupo tem sido tratado como se fossem “canalhas” ou traidores. O clima é de linchamento contra pessoas que contribuíram para a história do Brasil.

    “Eu acho que aí se junta o desejo de artista famoso, invejado, e as pessoas desejam que ele caia. Para mim essa lei é para defender isso, é para impedir inclusive atritos desnecessários e injustiça que caia sobre segundos e terceiros. Porque todos esses citados são libertários. Tem também o mito de que eles são as pessoas mais determinantes. Eu acho que é mais uma atitude desses grandes artistas protegendo suas atitudes de foro íntimo. Para as crianças não pegarem bullying, até coisas piores – chantagens, principalmente isso. Ninguém é santo, biógrafo também não é santo, e nem os artistas.”

    Conhecer a história

    No debate ao vivo, Dines comentou com Mário Magalhães que a polêmica não envolve apenas biógrafos e biografados e que o renascimento desse gênero literário no Brasil se deve ao trabalho dos jornalistas. De acordo com Dines, a maioria das biografias mais consagradas foi escrita por jornalistas que não tinham espaço para desenvolver esse tipo de trabalho nas redações. Para o biógrafo de Marighella, o direito do conhecimento está em jogo. Magalhães disse que a censura prévia não cabe nos dias de hoje. A pessoa que se sentir difamada ou invadida deve recorrer à Justiça, que deve ser célere e dura.

    “Uma figura pública, como o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos mais importantes torturadores da ditadura instaurada em 1964, para fazer uma biografia hoje, a partir do Código Civil de 2002, sobre esse torturador, esse monstro que comandava um campo de concentração onde morreram mais de 50 brasileiros e boa parte não teve o corpo nem entregue para as famílias, hoje é preciso pedir autorização para o coronel Ulstra. Que tipo de história nós vamos legar para o futuro, que tipo de país vamos construir só com relatos chapa-branca?”, questionou Magalhães.

    Para fazer a biografia de Carlos Marighella, o jornalista contou que utilizou um vasto arquivo documental e bibliográfico, ouviu mais de 200 entrevistados e que não teria um resultado positivo se a viúva e o filho do personagem tivessem criado empecilhos jurídicos para a publicação da obra. Magalhães não pediu autorização e nem submeteu os originais do livro à apreciação dos herdeiros. A família entendeu que não monopoliza a verdade e que era democrático que houvesse diferentes relatos sobre Marighella. “As pessoas são donas da sua vida, mas não são donas da história”, ponderou o jornalista.

    Mário Magalhães refutou a acusação de que os biógrafos e editores lucram altas somas com os livros. Para ele, não se pode demonizar os artistas do Procure Saber, mas o comentário do cantor Djavan soou ofensivo. “Eu abri mão de muita coisa na minha vida. A minha ideia era contribuir para o país conhecer um pouco melhor a sua história”, disse Magalhães. Durante 69 meses, o jornalista não recebeu salário porque abriu mão do trabalho de repórter. Somando os quase 30 mil exemplares da biografia de Marighella que foram vendidos e os direitos que receberá para a adaptação cinematográfica da obra, o escritor ganhará 15% do que receberia como repórter de jornal.

    Luta antiga

    Leonencio Nossa ressaltou que o debate veio à tona porque artistas importantes no contexto da redemocratização se posicionaram contra o projeto de criar a lei atual sobre o tema. Nossa lembrou que hoje a discussão sobre o assunto parece uma “guerra”, mas há mais de uma década a situação para os biógrafos é de insegurança: “A censura, de certa forma, já existe. Você tem uma lei de 2002, a lei 10.406, que deu a qualquer pessoa o direito de tirar do mercado uma biografia pelos motivos mais banais. Pela legislação atual, se tiver fins comerciais, ela depende de uma autorização prévia. Essa é uma luta antiga, que já tem onze anos, dos jornalistas biógrafos”. Dessa forma, os escritores não têm garantias de que o projeto de contar determinada história vá chegar às mãos do leitor.

    O jornalista contou que durante os dez anos em que esteve envolvido na preparação do livro viveu um clima de apreensão. “Havia a preocupação de que um ex-major do Exército entrasse na Justiça para barrar o projeto. Eu tive advogados que chegaram a entrar na Justiça para recolher os meus documentos. E olha que são advogados que aparentemente defendiam os direitos humanos”, contou Nossa. Foi necessário desenvolver uma relação de confiança com o major Curió para que o militar passasse as informações essenciais à obra. “Uma coisa que sempre tive na cabeça: eu queria fazer esse livro e eu ia fazer. Eu ia brigar para mostrar para o país o que ocorreu no Araguaia”, disse Nossa.

    Dines afirmou que os jornalistas enfrentaram 21 anos de censura durante a ditadura militar e agora estão confrontados com um novo enfrentamento, justamente com parceiros da luta pela liberdade de expressão. Ernesto Rodrigues ressaltou que há uma visão “grosseira” sobre o trabalho dos biógrafos, como se fossem levianos e colocassem apenas a sua visão pessoal sobre o personagem. Para escrever duas biografias, Rodrigues entrevistou cerca de 400 pessoas. “Existem muitos olhares. Existem mais de cem biografias sobre o John Kennedy, do Stalin, do Hitler, de Lincoln. E tem uma ironia nessa história. O nome da associação é Procure Saber. A nossa profissão é essa, é procurar saber. Eu acho que isso é um absurdo. Lamento profundamente que quatro gênios da nossa música estejam à frente de um movimento tão equivocado como este”, disse o jornalista.

    Família parceira e família inimiga

    Ernesto Rodrigues contou que recebeu da família de Ayrton Senna uma carta dizendo que o livro não seria uma obra oficial, mas que não se opunha ao projeto. Na opinião do jornalista, a família do piloto não atrapalhou as pesquisas nem impediu que pessoas relacionadas à família concedessem entrevistas. Apenas determinou que nenhum familiar seria ouvido porque queriam guardar os depoimentos para uma possível obra oficial. “Biografia é, sim, um pouco de intimidade. Você quer ser íntimo das pessoas. Fazer uma boa biografia é você compartilhar a vida de alguém que é importante de alguma maneira para você”, disse o jornalista.

    Já a relação com João Havelange foi tão complexa que acabou gerando o documentário Conversa com JH, sobre os bastidores do drama envolvendo a publicação da obra. O livro foi feito em um clima de intimidação. O personagem assinou um termo de anuência para que Rodrigues pudesse escrever, mas exigiu ler os originais. Ao aceitar, o escritor advertiu que a palavra final seria a do autor da obra. A reação do personagem ao receber o material foi violenta: “Fizemos uma leitura conjunta, traumática, durante onze reuniões, linha por linha do livro”, contou o jornalista. O áudio desses encontros, captado com a autorização de Havelange, foi transformado em um importante anexo da biografia.

    Rodrigues avalia que a obra acabou tendo algumas passagens cuidadosas demais porque parte das denúncias não podia ser comprovada na ocasião. As vendas do livro, sete anos após a publicação, ainda não cobrem o adiantamento que a editora concedeu ao escritor. Em tom de brincadeira, o jornalista comentou o pensamento “mercantilista” de alguns artistas. “Levando adiante essa tentativa de eles transformarem tudo em uma mercadoria, não seria o caso de o Roberto Carlos pagar royalties ao Banco do Vaticano pela música Jesus Cristo? Ou o Gilberto Gil pagar para a prefeitura do Rio, para o Chacrinha, por causa da música Aquele Abraço?”, sugeriu o convidado.

     

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