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    Na falta de debates, um arranca-rabo

    Por Alberto Dines

    Com a entrada em cena do meritíssimo Joaquim Barbosa, presidente do STF, o debate sobre biografias não autorizadas ganhou uma repercussão raramente alcançada fora da arena partidária (ver aqui e aqui). Mais um pouco pode virar circo. Uma frase do encenador Gerald Thomas na prestigiada coluna de Ancelmo Gois, no Globo, acabou como título de grandes matérias em Veja e Época. Mau sinal.

    Os meios intelectuais, midiáticos e o showbiz estão em polvorosa, excitadíssimos com este impagável friforó (free-for-all), especialmente porque entre os contendores está um coletivo constituído pelos sete mais famosos intérpretes e compositores da MPB, ídolos e ícones de algumas gerações de brasileiros impregnados não apenas com seus acordes e versos, mas também por suas convocações.

    Do outro lado, um batalhão de notáveis e experientes profissionais de imprensa que optaram pelo gênero biográfico como último recurso para um exercício profissional qualificado e moralmente gratificante. Numa imprensa cada vez mais fragmentada, rasa e rala, a tarefa de reconstituir existências e tempos passados tornou-se a única alternativa para um exercício mais nobre de jornalismo. E quem o constatou foi o jornalista-biógrafo Lira Neto, uma das estrelas do time, na entrevista que concedeu ao programa de TV do Observatório da Imprensa (veja o vídeo aqui).

    Duas pontas

    Biógrafos podem ser qualificados como bisbilhoteiros, alguns podem até chegar a charlatães – caso de uma tentativa biográfica de Paulo Francis, em boa parte responsável pelo enfarte que o matou –, mas o biógrafo egresso do jornalismo traz em sua bagagem os procedimentos deontológicos que adquiriu nos anos de Redação como repórter, redator, editor ou colunista.

    Uma entrevista sem pinceladas biográficas não será uma boa entrevista – esta talvez seja a grande falha dos papos sem diálogo, tipo pingue-pongue, hoje uma praga; um personagem recém-aparecido no noticiário precisa ser introduzido como pessoa, não basta reproduzir o seu currículo; o obituário é uma biografia genuína, ao revés, por força da cronologia, o pretexto é a morte do sujeito.

    Nas diferentes esferas que compõem o relato jornalístico as técnicas da biografia estão presentes em quase todas, da análise política à crônica esportiva. Fatos não existem sem gente e quem sabe tratar de gente, gentificar, são os jornalistas quase sempre dublês de biógrafos.

    É evidente que a capacidade de retratar seres humanos não é exclusiva dos profissionais de imprensa: críticos literários que não se contentam em avaliar obras e avançam em direção dos autores e os raros historiadores capazes de humanizar a história são igualmente confiáveis em matéria ética.

    A má vontade do coletivo das celebridades com os biógrafos vem justamente do fato de que muitos são jornalistas qualificados, portanto menos vulneráveis a pressões e/ou seduções. Curioso que esta surpreendente caça aos biógrafos é obra de duas empresárias muito bem sucedidas. Acostumadas com os releases e a comandar dóceis assessores de imprensa nas duas pontas do processo de comunicação, querem transferir este tipo de relacionamento para a esfera literária.

    Vigia ranzinza

    A acusação de que os biógrafos ganham rios de dinheiro em cima dos pobres e miseráveis músicos é uma das mais infelizes gafes já cometidas em nosso mundo cultural. E escancara a gênese do presente baticum: cobiça, despeito, incômodo com a apropriação de suas “mercadorias”. Quando os jornalistas em solidariedade aos biógrafos começarem a boicotar os seus produtos, o que dirão – help?

    O que nos leva a concluir que o desagradável episódio começou, engrossou e vai terminar por força do marketing. Em outras palavras: grana, vil metal, propriedade dos meios de produção. A propósito: a mais recente biografia de Karl Marx, Amor e Capital, foi escrita pela tarimbada jornalista inglesa Mary Gabriel (com 20 anos de Reuters no currículo).

    Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil são artistas absolutamente transparentes, figuras diáfanas, uns mais, outros menos tímidos. Rigorosamente inequívocos. Não têm e nunca tiveram algo a esconder. Suas trajetórias, opiniões e opções são claras – esta, aliás, a sua força junto ao público.

    Então entram em cena as caraminholas emitidas pelo “rei” Roberto Carlos, muito menos aparelhado intelectualmente e, por isso, mais agarrado à arrogância marqueteira. Pai fundador do antibiografismo, o ex-expoente da Jovem Guarda, hoje convertido em vigia ranzinza, vai entrar para a história cultural do país como Grande Inquisidor. Talvez não perceba o que isso significa. Os companheiros do coletivo sabem onde isso pode acabar. Conhecem os versos de Brecht de cor, sabem que primeiro levam os outros, os diferentes, e quando nos pegam já é tarde.

    A palavra do juiz

    O lúcido pronunciamento de Joaquim Barbosa contra o embargo a biografias não autorizadas foi feito numa das sessões da 8ª Conferência Global de Jornalismo Investigativo, organizada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), no Rio de Janeiro. O ministro-presidente do STF sabia onde estava e sobre o que falava.

    A biografia enquadra-se legitimamente como jornalismo investigativo. Investigação é pesquisa, busca da verdade. Biografias jamais serão definitivas porque a busca da verdade é inextinguível. Nosso vice-presidente Michel Temer confunde jornalismo investigativo com denuncismo barato, já cometeu inúmeras gafes em eventos da Abraji. Joaquim Barbosa felizmente deixou tudo muito claro.

    Hora de encerrar o bate-boca, arrumar a bagunça e colocar band-aid nas escoriações e egos. Como escreveu o inspirado poeta-designer André Vallias: “Entre a imprensa marrom e a biografia chapa-branca há 50 tons de bege”.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

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    Pgm 704 - Segurança na Rede - 08/10/2013

     

    A internet colocou o mundo ao alcance de um clique. E a segurança dos usuários também. A revelação de que os Estados Unidos montaram uma rede internacional de monitoramento de comunicações mostrou que até mesmo governos e grandes empresas estão vulneráveis. No Brasil, a Presidência da República e a Petrobras, além de empresas e cidadãos, foram espionadas. Comunicações do Ministério das Minas e Energia foram alvo da vigilância de entidades de segurança do Canadá, parceiro da Agência Americana de Segurança (NSA, na sigla em inglês). Na vida cotidiana, qualquer cidadão, ao acionar o seu celular ou computador, pode estar exposto aos perigos da rede. Especialistas apontam que o uso de programas de criptografia e a criação de senhas seguras são o primeiro passo para a proteção. Roubo de dados confidenciais e golpes financeiros estão entre os problemas mais comuns na internet.

    Em meio à crise diplomática desencadeada pelo caso Edward Snowden, a presidente Dilma Rousseff fez um duro pronunciamento na última Assembleia Geral da ONU. A presidente classificou a atitude dos Estados Unidos como uma afronta, que fere o direito internacional, e defendeu a regulamentação internacional da internet para impedir que a rede seja usada para espionar sistemas de outros países. O governo brasileiro estuda medidas para obrigar empresas multinacionais, como o Google e o Facebook, a armazenarem os dados no Brasil e não no exterior. Hoje, as empresas de datacenter concentram-se nos Estados Unidos e a maioria das transmissões brasileiras passa por servidores norte-americanos. O governo prometeu investir em infraestrutura das redes locais. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (8/10) pela TV Brasil discutiu como os usuários da internet podem se proteger diante da comprovada vulnerabilidade da rede.

    Para debater o tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Eduardo Neger, presidente da Associação Brasileira de Internet (Abranet). Pós-graduado em Direito das Telecomunicações pela Fundação Getúlio Vargas, Neger é especializado em regulamentação de sistemas de telecomunicações e foi integrante da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Em São Paulo, o programa contou com a presença da jornalista Márion Strecker, colunista da Folha de S.Paulo e diretora de Comunicação do Instituto de Cultura Contemporânea. Cofundadora do UOL, foi crítica de arte da Folha de S.Paulo, editora do caderno “Ilustrada” e repórter especial. Liderou projetos de uso intensivo de tecnologia para fins jornalísticos. O diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), Carlos Affonso Souza, foi o convidado em Brasília. O instituto é focado em pesquisas sobre tecnologia, governança da internet e direitos fundamentais. Carlos Affonso é professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

    Ferramenta libertadora?

    Antes do debate ao vivo, em editorial, Dines sublinhou que a rede não é neutra: “A internet pode ser o símbolo da liberdade individual, mas na realidade está mais próxima de ser um par de algemas douradas. A internet tem sido apresentada como panaceia para todos os males da sociedade contemporânea, mas além de ser vulnerável, é perigosa, subversiva, impossível de ser disciplinada, além disso, injusta – sempre a serviço dos mais poderosos”. E acrescentou: “Com o pretexto de aproximar a humanidade, a revolução digital está acabando com a privacidade, com o arbítrio individual e com as soberanias nacionais”.

    A reportagem exibida antes da discussão no estúdio mostrou a opinião de Demi Getschko, que presidiu o Comitê Gestor da Internet no Brasil. “Espionagem existe desde que o mundo é mundo. O que acontece é que talvez a quantidade – o volume e o grau de profundidade dessa espionagem – seja facilitada pela capacidade enorme de computação que hoje as máquinas têm. Há dez anos isso seria inviável. Hoje os computadores conseguem mastigar uma quantidade enorme de informação e, com isso, evidentemente, conseguem tirar conclusões a partir do que se chama metadados. Existem formas de prever o que um sujeito fará sabendo tudo o que ele fez até agora”, explicou Getschko.

    Para o especialista em internet, o usuário precisa se proteger evitando colocar na rede informações desnecessárias e garantindo que a sua máquina não está infectada com algum software que eventualmente vazará a informação. Mas a segurança não depende só do usuário. Provedores de acesso deveriam evitar o vazamento e não colaborar com pedidos de quebra de sigilo nem sempre baseados em ordens judiciais. “Esses dados deveriam ser invioláveis, como imagino que o correio antigo era. Eu imagino que uma carta minha que sai da Europa para a África não fosse aberta antes de chegar à África. O que precisaria haver é um acordo entre governos para um comportamento ético nessa área, e quem hospeda esses pontos de troca de tráfego não lançasse mão do privilégio que tem de receber informações de todo o mundo para eventualmente xeretar o que está acontecendo”, disse Getschko.

    Público e privado

    Pedro Doria, editor-executivo de Plataformas Digitais do jornal O Globo, destacou que é necessária uma aprendizagem no campo digital: “[Ao] partir do princípio de que o que a gente coloca na internet não necessariamente é privado, [começamos] a resolver o problema”. Doria propôs a criação de senhas seguras e o uso de programas de criptografia. “É claro que você tem sistemas de protocolos de transformar em códigos determinadas informações, e grandes sistemas de e-mails usam esses protocolos, que são mais difíceis de quebrar. E aí você realmente precisa de supercomputadores e tudo mais. Coisas que [existem] nos Estados Unidos e o Brasil não tem”, explicou o jornalista.

    Nelson Vasconcelos, editor-executivo do jornal O Dia, comentou a importância de manter as máquinas sempre atualizadas: “O problema hoje é que os vírus que vêm por aí ajudam a sua máquina a fazer parte de um sistema muito maior, unindo forças de várias máquinas inoperantes contaminadas pelo mesmo programa, que possam de alguma maneira colaborar para derrubar sistemas e fazer alguns estragos, inclusive roubos”. Cabe ao usuário, na opinião do jornalista, uma mudança de comportamento para se proteger na internet. “É o tipo de censura que a gente vai ter que começar a ter no meio digital, assim como tem no dia a dia. Você não vai de qualquer maneira vestido para um boteco ou para a festa, você não fala qualquer coisa na frente de estranhos. No entanto, a gente tem a falsa impressão de que estar na internet é estar livre de olhos e pessoas que estejam interessadas no que você está comentando, fazendo, lendo, escrevendo”, exemplificou Vasconcelos.

    O fato de grandes empresas de internet estarem estabelecidas no Brasil, na opinião de Alexandre Matias, editor de Redação da revista Galileu, facilita que os usuários reivindiquem os seus direitos: “Permite que a empresa possa ser autuada e que o governo brasileiro possa exigir que repassem aquelas informações ou que tirem aqueles dados da rede. Isso não tem nada a ver com o fato dos servidores do Estado serem notificados ou não. Se isso acontecesse, se houvesse a exigência de ter os servidores presentes no país, possivelmente as empresas sairiam do Brasil com as suas representações legais e tornaria muito mais complicado, por exemplo, tirar um vídeo do YouTube. Se o Google não tivesse um escritório aqui, você teria que entrar com um pedido na Justiça norte-americana, e isso poderia demorar muito tempo”.

    Há um ano, o projeto do Marco Civil da Internet aguarda votação na Câmara dos Deputados. Interesses políticos e de empresas de telecomunicações travam a entrada do projeto na pauta de votações. O relator do projeto na Câmara, deputado Alessandro Molon (PT-RJ), ressaltou a importância do tema para a segurança: “Para enfrentar esse problema da espionagem são necessárias medidas de várias ordens: medidas de ordem legislativa, ordem tecnológica e uma série de mecanismos que precisam ser adotados para proteger o Brasil dessa prática. A principal medida legislativa é a aprovação do Marco Civil da Internet, que vai garantir a privacidade dos mais de 100 milhões de internautas brasileiros. É preciso tratar essa questão da segurança cibernética como uma questão de Estado, como uma questão estratégica para o desenvolvimento e para a segurança nacional”.

    Onde mora o perigo

    Na abertura do programa, Dines relembrou que o conceito de compartilhamento, amplamente difundido durante o surgimento da internet, hoje se mostra perigoso. Eduardo Neger afirmou que, no Brasil, a internet nasceu como uma rede acadêmica que conectava as universidades. Assim, os protocolos foram desenhados de forma que o compartilhamento ocorresse de forma simples. O representante da Abranet explicou que quando uma informação navega na rede – entre os usuários ou com destino a um servidor que armazene as informações – não é possível verificar exatamente por qual caminho ela trafega. Esta característica é positiva do ponto de vista de expansão, porque a rede pode crescer sem ter um dono, um núcleo, mas por outro lado gera vulnerabilidade.

    “A segurança da internet não está no caminho, na rede em si, mas nos extremos, nas pontas. Quem quer trafegar informação com segurança na rede tem que criptografar”, detalhou Neger. Para o presidente da Abranet, a internet pode ser comparada a uma praça pública e é preciso criptografar dados sensíveis. Neger ressaltou que muitas das empresas internacionais de internet estão estabelecidas no Brasil e respondem às leis do nosso país. “Independentemente do porte ou da origem dessas empresas, elas estão submetidas à legislação brasileira”, ressaltou. O preocupante, na opinião do presidente da Abranet, é quando há um conteúdo que está em desacordo com a nossa legislação e a empresa que o disponibilizou não é estabelecida no Brasil.

    Dines comentou que, no passado, a principal ferramenta de pesquisa dos jornalistas era a sola de sapato. Hoje, a internet ocupou este posto e gera problemas para a segurança dos dados dos profissionais. “Tecnologia deveria ser tão simples de usar quanto uma geladeira: abriu a porta, usou. Mas, infelizmente, nem todo mundo pensa assim e se interessa em ter um comportamento dessa natureza. A informação na internet é como água, ela escorre, você não controla para onde aquilo vai. Eu acho que as pessoas têm que entender que o Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, tinha toda razão quando, há vários anos, ele decretou que acabou a era da privacidade”, disse Márion Strecker.

    Uma questão de gerações

    A jornalista ponderou que os mais jovens têm uma outra concepção de privacidade na internet e não se preocupam em resguardar seus vídeos, fotografias e comentários pessoais na rede. “Imagina uma criança hoje de três ou cinco anos de idade que nasce e cresce sendo filmada e fotografada a torto e a direito e esses pais colocando imagens, fotos e vídeos dessa criança em redes como o Facebook, YouTube, assim por diante. Às vezes, eu paro para pensar: ‘O que essa criança vai achar no futuro dessa hiperexposição a que ela é submetida?’”, questionou Márion. Além de um possível constrangimento da criança, há outro aspecto preocupante que é como a sociedade – por exemplo, um futuro empregador – vai reagir às imagens daquela pessoa “dançando em frente ao sofá” ou em situações constrangedoras durante a infância.

    O uso de aplicativos e redes sociais pelos internautas é crescente e leva a uma situação perigosa. Para Carlos Affonso Souza, esses sistemas são confortáveis para o usuário, mas facilitam o monitoramento. “Quanto mais internet móvel, quanto mais aplicativo, mais rede social, mais ambientes fechados e facilmente controlados, nós estamos levando a nossa vida na internet”, alertou o diretor do ITS. Para ele, é importante pensar que um datacenter brasileiro não resolveria a questão da segurança porque a informação trafega e pode ser interceptada em outros pontos: “O que vai acontecer é que isso pode facilitar, eventualmente, a obtenção dessa informação”. Um datacenter no Brasil pode gerar problemas tanto no setor tecnológico quanto na área jurídica, que enfrentaria uma avalanche de ações.

    Carlos Affonso Souza destacou que privacidade é um anseio do ser humano desde tempos imemoriais, mas o conceito foi construído no período da Revolução Francesa. Diante da internet, a ideia passa por fortes transformações. “O primeiro artigo que fala de privacidade é de 1890. Ele fala de privacidade como direito a estar só, ao isolamento. É interessante como a privacidade nasce justamente como algo que parece ser a antítese desse nosso mundo superconectado”, comparou. Ao longo do século 20, o conceito foi se transformando.

    Hoje, o direito ao isolamento da privacidade se transformou em uma gestão complexa que envolve os dados pessoais – desde o seu armazenamento ao tratamento pelo qual passarão. “Ainda é muito cedo para dizer para onde vai essa transformação. Assim como Mao Tsé Tung dizia que ainda era muito cedo para dizer o que vai sair da Revolução Francesa, talvez seja muito cedo para dizer o que será a transformação do direito à privacidade depois da proteção dos dados pessoais como se imaginou nas décadas de 1970 e 1980”, disse Carlos Affonso.

     

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    Alberto Dines comenta notícias da semana

    A razão pela qual a grande imprensa não badalou a parceria da editora abril com o portal americano The Huffington Post, um dos mais visitados em todo o mundo.

    Novo escorregão do ministro Joaquim Barbosa, que no início do ano implicou com uma pergunta de um repórter, o xingou e depois pediu desculpas. Agora, o juiz exigiu a demissão da mulher desse mesmo repórter, que trabalha no gabinete de um dos seus colegas.

    Por fim, série de reportagens do O Globo mostra a sinergia entre torturadores da ditadura e o jogo do bixo do Rio de Janeiro. Mais uma prova de que jornais impressos que investem em conteúdo jamais desaparecerão.

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    Vem aí novo surto de ‘pesquisite’

    Por Alberto Dines

    “Jogada de mestre”, “bravura política”, “homenagem à coerência”, “desespero” – qualquer que seja a avaliação sobre a decisão da ex-ministra Marina Silva de filiar-se ao PSB e concorrer às próximas presidenciais sem o seu sonhado partido, torna-se inevitável o aparecimento de um novo surto de pesquisite, o venerando culto das pesquisas e sondagens de opinião para apontar quem será o cabeça de chapa, Marina ou o pré-candidato e presidente da agremiação, Eduardo Campos.

    Como os dois parceiros não trataram disso nas negociações do fim de semana passada – ou pelo menos não revelaram os seus detalhes –, de agora até meados de 2014 seremos bombardeados por sondagens acompanhando semanalmente o desempenho de cada um dos parceiros. Se Marina continua como segunda colocada na disputa com a presidente Dilma Rousseff e Eduardo Campos fica abaixo dela (hoje está na quarta posição) será inevitável uma reversão: Marina candidata e Campos, seu vice.

    Com isso, muda tudo e as chances de uma pré-temporada de debates doutrinários tornam-se mínimas. Em seu lugar teremos na imprensa uma enxurrada de confrontos numerológicos, exercícios estatísticos e elucubrações adivinhatórias. Como o custo desse tipo de exercício especulativo é relativamente baixo, devemos contar com a proliferação do tal “jornalismo de precisão”.

    Fato novo

    No país do futebol, a corrida pelos placares tem mais apelo do que uma demorada investigação sobre os cartórios eleitorais. É na máquina burocrática que se esvazia o Estado de Direito, foi lá que as fichas de adeptos da Rede Sustentabilidade foram barradas.

    A súbita remexida no tabuleiro eleitoral – justamente uma das aspirações subjacentes nos protestos de junho – poderia ser uma oportunidade para devassar as brechas onde a nossa democracia torna-se ficção e os direitos dos cidadãos, peça de retórica. Ao que tudo indica, está adiada.

    Sintoma deste desapreço pelo jornalismo de substância pode ser observado a partir do domingo (6/10), quando os jornais anunciaram a decisão de Marina Silva de juntar-se à legenda de Eduardo Campos, o Partido Socialista Brasileiro (PSB).

    Em plena era da histeria política, quando o presidente Barack Obama chega a ser apontado como a nova face do marxismo, a palavra socialismo parece xingamento. No entanto, a Europa moderna, sem guerras e até há pouco tempo próspera e estável, é fruto da socialdemocracia, irmã-gêmea do socialismo democrático.

    É fascinante a história desse partido nanico, contraditório e rebelde, chamado de PSB. Desconhecê-la é imaginar que a história do Brasil começa agora, o resto não conta.

    A primeira versão do PSB surgiu em 1932, fez parte da Aliança Nacional Libertadora que tentava enfrentar a onda fascista que varria o país. Foi extinto em 1937, com a promulgação do Estado Novo.

    A segunda edição coincide com a democratização de 1945, sob o nome de Esquerda Democrática. Mais do que designação, uma proposta doutrinária. Reserva moral e política inspirada nos fabianos ingleses, socialistas-reformistas que acabaram absorvidos pelo Partido Trabalhista.

    A Esquerda Democrática era, na verdade, a ala esquerdista da conservadora União Democrática Nacional (UDN). Recusava os acenos do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ferrenha adversária de Getúlio Vargas, o pai do Estado Novo fascista. Tal como os fabianos ingleses era o partido dos intelectuais (entre eles Rubem Braga, Joel Silveira, Sergio Buarque de Hollanda, Antonio Cândido, José Lins do Rego, Raimundo Magalhães Jr; na Inglaterra, suas figuras emblemáticas foram G.B. Shaw e H.G. Wells).

    Depois de sua criação como partido autônomo (1948), o PSB chegou a abrigar uma ala trotskista (capitaneada por Edmundo Muniz e Mario Pedrosa, virulentamente anti-stalinistas). No entanto o partido defendeu o PCB quando o governo Dutra começou as manobras para colocá-lo na ilegalidade. Os seus expoentes foram Hermes Lima e João Mangabeira, ambos com destacada atuação no breve interregno parlamentarista no mandato de João Goulart.

    Em 1953 o PSB produziu um fato novo na política brasileira quando o desconhecido Jânio Quadros foi eleito prefeito de São Paulo pela coligação de duas pequenas agremiações (PTN e PSB) e derrotando todos os grandes partidos (UDN, PSD, PTB e PSP). A tabelinha repetiu a façanha em 1954 levando o mesmo Jânio ao governo de São Paulo.

    Outro retrocesso

    A terceira edição do PSB é fruto da redemocratização de 1985. Um intelectual de alto quilate, Antonio Houaiss, foi um de seus articuladores. O pernambucano Jarbas Vasconcelos, hoje senador pelo PMDB, uma de suas estrelas. Figura mais visível, Miguel Arraes, avô de Eduardo Campos.

    No passado o jornalismo político era praticado no Congresso, de olho na literatura, na história, nas referências internacionais. No fim dos anos 1990, o jornalista Márcio Moreira Alves (1936-2009) tirou-o da Praça dos Três Poderes e o levou para a Esplanada dos Ministérios para apanhar sol e oferecer ao eleitor o debate sobre políticas públicas. Não colou, depois da sua morte não apareceram sucessores. A cobertura política passou a ser feita por meio do celular, nos restaurantes, soprada por “fontes” e assessores.

    Doravante, a política será ditada pelos pesquisadores e marqueteiros empunhando laptops e tablets. Partidos agora são tantos e tão iguais que passaram a ser identificados com números. Eleição virou campeonato, corrida, loteria. Um novo retrocesso é inevitável: a reforma política só poderá avançar quando mudar a cobertura política.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

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    Pgm 703 - Entrevista com o biógrafo Lira Neto

     

    O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (1/10) pela TV Brasil veiculou uma entrevista especial de Alberto Dines com o jornalista e biógrafo Lira Neto, que acaba de lançar o segundo volume da trilogia sobre a vida do ex-presidente Getúlio Vargas. Entre os personagens biografados por ele estão o ex-presidente Castelo Branco, o padre Cícero Romão, o escritor José de Alencar, a cantora Maysa Monjardim e o sanitarista Rodolfo Teófilo. Autor de oito livros, o jornalista também estudou Filosofia e Letras e foi professor. Trabalhou nos jornais cearenses Diário do Nordeste e O Povo, onde foi repórter, editor de Cultura e ombudsman.

    Na abertura da entrevista, Dines comentou que a biografia é um gênero híbrido: para os jornalistas é literatura, para os literatos é jornalismo. Dines comentou também que as biografias fazem um grande sucesso com o público brasileiro. Para Lira Neto, hoje, o jornalismo passa por uma crise de conteúdo. Diante da concorrência dos meios eletrônicos, os jornais assistiram a uma queda vertiginosa na vendagem que levou a um enxugamento da estrutura das empresas para controlar o déficit de caixa. “Tentaram simplificar o conteúdo em busca de uma audiência mais elástica e o que aconteceu foi o efeito colateral contrário: esses órgãos começaram a se tornar irrelevantes. Portanto, agravaram a sua crise de tiragem, de vendagem”, explicou Lira Neto. De acordo com o entrevistado, os jornalistas bem sucedidos editorialmente foram no caminho oposto e apostaram no conteúdo banido das redações.

    Para Lira Neto, os jornalistas que se aventuram a publicar livros na área de História não estão “invadindo o território” dos historiadores. “É uma literatura de não ficção, mas é História também”, garantiu. A tensão entre os dois segmentos perdeu o sentido, na avaliação de Lira Neto. É um problema velho e datado porque as esferas se complementam. O produto final, no entanto, é diferente do realizado dentro das universidades, dirigido a um público acadêmico. De acordo com o biógrafo, grandes jornalistas migraram das páginas dos jornais para os livros ao perceberem que o espaço para as pautas e o tempo disponível para apurar, produzir e editar estava cada vez menor. Ele assegurou que mesmo publicando livros, ainda é essencialmente um repórter. Só que agora pode trabalhar durante cinco anos em uma única pauta, como foi o caso da biografia sobre Vargas.

    Do local para o global

    Dines perguntou o porquê de o escritor ter optado por começar a sua trajetória como biógrafo a partir de figuras do Ceará, sua terra natal. Lira Neto explicou que, inicialmente, escolheu personagens que habitavam as suas memórias de criança ou de jovem – como o sanitarista Rodolfo Teófilo, um dos pioneiros da saúde pública, mas que é pouco conhecido. Em seguida, seu foco foi o ex-presidente Castelo Branco: “Era uma espécie de autoanálise. Eu nasci nessa época, durante o golpe. Eu precisava entender exatamente o que estava acontecendo. Então, [escolhi] Castelo pela proximidade. A gente tinha no Ceará um mausoléu [dedicado] ao ditador. Eu disse: ‘Eu preciso conhecer esse sujeito’”. O escritor José de Alencar foi o próximo da lista e marcou uma espécie de prestação de contas com a sua juventude. Obrigado a ler as obras literárias de Alencar na escola, Lira Neto desenvolveu aversão pelo texto “xaropento” do escritor. Anos mais tarde, já repórter, teve contato com as saborosas crônicas que o escritor publicava nos jornais e se encantou pelo personagem.

    O fato de o ex-presidente Getúlio Vargas continuar despertando reações extremadas mesmo quase seis décadas após a sua morte, tanto dos seus admiradores quanto de seus críticos, chamou a atenção de Lira Neto. De acordo com um levantamento feito por ele, existe uma caudalosa bibliografia sobre o político, com pelo menos 800 livros publicados, mas boa parte dela oscila entre obras “devocionais” ou textos que só veem Vargas como um ditador. Ao propor a publicação da trilogia para a editora, Lira Neto procurou contemplar todas as facetas do personagem mais importante da história republicana brasileira.

    “Essa dicotomia, esse pensamento binário, atrapalhou a leitura mais equilibrada ao longo do tempo do Getúlio e mesmo agora. Quando eu lancei o livro, as pessoas me perguntavam ‘qual é o seu Getúlio? O trabalhista, pai dos pobres, que modernizou o Brasil? Ou é o ditador que torturou, que perseguiu?’ Eu disse: ‘É o Getúlio e as suas circunstâncias, em todas as suas dimensões’”. Um dos aspectos que levam a essa polarização, na avaliação de Dines, é o fato de que pessoas com tendência progressista evitam elogiar personalidades inclinadas ao fascismo e vice-versa.

    Lira Neto afirmou que não teve medo de enfrentar a dicotomia: “Hoje, na imprensa brasileira, a gente assiste a uma espécie de Fla-Flu, a uma espécie de Grenal, um Palmeiras vs. Corinthians odioso, onde as pessoas não conseguem mais ver os tons de cinza entre o preto e o branco. São todos com posições muito demarcadas, apaixonadas, e se perde o equilíbrio em nome de uma posição marcadamente de direita ou de esquerda. Você tem pessoas que ficam levando isso a um nível de exasperação e de histrionismo que é incompatível com a reflexão que o jornalista deve necessariamente semear”. Lira Neto contou que convidou os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva para escrever na contracapa do livro em uma tentativa de mostrar que, mesmo pessoas com perfis diferentes, podem compreender o legado de Vargas de forma menos apaixonada.

    Um personagem multifacetado

    Para compreender qualquer personagem, de acordo com Lira Neto, é essencial observar o contexto da época em que viveu. O entrevistado ressaltou que Getúlio Vargas “flertou” explicitamente com o fascismo e chegou a afirmar em uma entrevista que se inspirava na “renovação criadora do fascismo de Benito Mussolini”, que comandava a Itália. Já no seu segundo governo, o presidente fez aproximações pontuais com a esquerda, que o levaram à imagem de um grande líder para as esquerdas. Lira Neto contou que procurou ver Getúlio Vargas com suas contradições.

    O escritor ressaltou que no início da década de 1930, quando o presidente chega ao poder, a democracia representativa estava em xeque. Parecia ser um valor “varrido para a lata do lixo” e os regimes totalitários fascinavam as massas. A crise de 1929 abalara o sistema financeiro e suas consequências eram sentidas por todo o mundo. “Surgem as tentativas de antídotos. Na Europa, começam a pipocar os regimes totalitários. É a época da ascensão de Hitler na Alemanha”, relembrou o escritor. No plano nacional, vigorava a ideia de que as elites tinham o dever de conduzir o povo. Naquele momento, a palavra ditadura sequer tinha um valor negativo.

    “Quando você está biografando alguém, você não está biografando só um indivíduo, [mas] uma época. Para compreender Getúlio dentro do seu tempo você tem que abrir um pouco o leque. Qual o papel do biógrafo? Compreender o pano de fundo histórico no qual o personagem está inserido e perceber de que modo os acontecimentos políticos, sociais, econômicos daquela época impactaram a trajetória de Getúlio. E, ao mesmo tempo, compreender na dimensão da vida privada desse homem, na esfera cotidiana, de que forma esses acontecimentos foram também determinantes para sinalizar algumas de suas decisões públicas”, sublinhou Lira Neto. Outra característica importante para um biógrafo é se deter em detalhes que não chamariam a atenção de profissionais de outras aéreas. Um exemplo é a baixa estatura do presidente Vargas, examinada por Lira Neto em sua biografia.

    Solução planejada

    Lira Neto comentou que o traço suicida de Vargas pode ser identificado décadas antes de sua morte. O escritor contou que a primeira anotação no diário do presidente, em outubro de 1930, já apontava que o “sacrifício pessoal” poderia lavar a sua honra em uma possível derrota. Em 1942, quando o Brasil declarou guerra às potências do Eixo, o presidente escreveu um nítido bilhete de suicida. “Naquele momento, em 1942, quando ele decide pelos Aliados, ele diz: ‘Somente o meu sacrifício pessoal salvará a minha honra de um possível erro a que eu esteja levando o meu país’”, exemplificou o entrevistado. De acordo com Lira Neto, em 1954, quando o presidente decide por fim à própria vida, ele tinha consciência da eloquência do gesto.

    Dines relembrou que o governo Vargas teve episódios sangrentos, como o da deportação de Olga Benário Prestes, torturas e muitos outros. Perseguição a adversários políticos e censura à imprensa marcaram o governo Vargas, na avaliação de Lira Neto. “Foi um período realmente muito nebuloso na trajetória de Getúlio, que os getulistas preferem passar ao largo e os antigetulistas fazem questão de ressaltar. Mas, sem dúvida, no porão dessa ditadura, as ordens partiam do [chefe de polícia] Filinto Muller, o grande executor dessa política de repressão policial”, lembrou o escritor. Lira Neto destacou que o presidente chegou a ser confrontado pela própria família e por aliados sobre a forte repressão, inclusive a professores acusados de comunismo. Na maior parte das vezes, o presidente se isentava da responsabilidade.

    A posição da imprensa durante a ditadura Vargas foi, na opinião de Lira Neto, de uma “submissão voluntária”. Havia questões burocráticas e financeiras com as quais os jornais precisavam conviver. Se as publicações tentassem resistir, o suplemento de papel era cortado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). No médio prazo, a publicação podia ir à falência. “Ao mesmo tempo em que havia aquele tacão da censura, havia a acomodação à censura, mas havia também um fenômeno muito típico que era a cooptação dos intelectuais e dos escritores”, detalhou o biógrafo. Um exemplo foi a eleição do presidente para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em troca da concessão do título de propriedade da sede. Enquanto alguns intelectuais padeciam nas prisões, outros serviram ao regime, como o maestro Villa-Lobos.

     

  • Geral

    Na última terça, Alberto Dines entrevistou Lira Neto, biógrafo de Getúlio Vargas

    Observatório da Imprensa desta terça, dia 01/10, na TV Brasil.

  • Geral

    A balística da ‘Economist’ é coisa de profissionais

    Por Alberto Dines

    The Economist vende semanalmente em 200 países um milhão e seiscentos mil exemplares. Destes, menos de nove mil (mais precisamente 8.508) são adquiridos no Brasil (em bancas, livrarias ou por assinatura). A edição impressa sai para o assinante por 505 reais – paga-se mais 127 reais pelo acesso à edição digital.

     

    Se a totalidade dos seus leitores brasileiros porventura indignados com a matéria de capa da última edição (28/9) resolverem boicotar a revista, e supondo que paguem a tarifa mínima, o prejuízo será de 1.080.516 reais.

    Só com a receita do colóquio “Brasil Summit 2013”, a ser realizado em 24 de outubro, em São Paulo, a divisão de eventos da empresa deverá faturar cerca de 540 mil dólares – ou 1.196.640 reais, pelo câmbio de segunda-feira (30/9). No mínimo 300 pessoas estão dispostas a pagar 1.795 dólares para assistir às conferências de Joaquim Barbosa, presidente do STF, do publicitário Nizan Guanaes, do empresário David Marcus (presidente do Pay-Pal, nova carteira digital que substitui o cartão de crédito), do chef Alex Atala e do economista/investidor Gustavo Franco.

    Isso não significa que a revista britânica vive das cacetadas que desfere em suas páginas para depois embolsar uma grana preta em troca de um afago. O tema do evento será basicamente o mesmo da matéria de capa, portanto igualmente inconfortável: “Em meio ao lento crescimento e à agitação social, o Brasil precisa encontrar novos impulsionadores do sucesso econômico”.

    Na mosca: qual o empresário que não gostaria de encontrar uma resposta clara e linear para a pergunta, sobretudo se formulada por uma celebridade?

    Bem amarrado

    The Economist realiza 100 eventos desse tipo por ano (média de 8,3 por mês, nos quatro continentes). Mesmo pagando robustos cachês aos palestrantes sobra uma apreciável receita. O que se pretende examinar aqui é a Indústria de Eventos, subsidiária da Indústria da Informação Bruta – ou, em miúdos, como a falta de debates e investigação na mídia local abre oportunidades para os gigantes da mídia internacional ocuparem os espaços.

    Quantas resenhas razoavelmente densas – a favor ou contra – foram publicadas em nossa imprensa desde a quinta-feira (26/9), quando as agências começaram a divulgar o teor da capa da Economist do dia seguinte?

    A brincadeira com o míssil desgovernado disparado do Corcovado foi registrada em jornalões e jornalinhos. The Economist é uma revista não apenas adulta, mas inteligente, provocadora. Porém, quantos textos com mais de um palmo de profundidade foram publicados em nossos jornais e semanários tentando responder à pergunta da revista – quem estragou a nossa festa? Convém lembrar que no último fim de semana, véspera do início do mês, os jornais estavam carregados de publicidade, sobrava espaço.

    A Indústria de Eventos é incubada nos enormes vácuos deixados pela mídia apressada, desatenta, incapaz de praticar um mínimo de ruminação. Eventos são obviamente eventuais, ocasionais, irregulares. São, antes de tudo, exercícios de sociabilidade, não atendem às necessidades constantes de conhecimento e discernimento que os periódicos estão aptos a fornecer. Mas fazem parte da bola de neve.

    The Economist maneja muito bem as três pontas da moderna operação jornalística: produz uma revista que surpreende o leitor, suplementa suas informações com fartas opções digitais e fecha o processo com eventos que geram movimento e interesse.

    Coisa de profissionais.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Transcrições

    Pgm 702 - Pequeno Jornaleiro - 24/09/2013

     

    No mês em que se comemora o Dia do Jornaleiro, o Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (24/9) pela TV Brasil homenageou os entregadores de jornais, sobretudo os meninos que perderam a infância no trânsito das cidades em busca de alguns trocados. Retrato pungente da infância negligenciada, os pequenos jornaleiros levavam a notícia das tipografias para a porta dos cafés, cinemas e cruzamentos das ruas mais movimentadas. Dotados de uma voz potente, tomavam as ruas nas primeiras horas da manhã e no fim do dia, gritando as manchetes dos jornais. Espertos e comunicativos, engrossaram o batalhão de crianças obrigadas a abrir mão da infância – e muitas delas perderam a vida entre carros e bondes na luta diária pela sobrevivência. Indiferente ao drama dos meninos invisíveis, a imprensa da época dava pouco destaque à peça mais vulnerável no processo de distribuição da notícia.

    No editorial que abriu o programa, Alberto Dines lembrou a influência dos meninos vendedores de jornais na sua infância: “Aprendi o que era notícia ouvindo estas manchetes sonoras, compreendi que há notícias mais importantes do que outras quando reparei naqueles meninos de uniforme de sarja azul, casquete na cabeça, uma bolsa no ombro cheia de jornais anunciando o que era mais dramático e mais sensacional. Crianças iguais a mim me ensinaram o que era jornal, o que era a vida, também o que era injustiça, fome, desamparo. Indiretamente, mostraram a magia do jornalismo”.

    A minguada imprensa do início do século 19 era vendida principalmente por assinatura. A partir de 1825 aumentou o número de jornais, o sistema de entregas se desenvolveu e as notícias impressas alcançaram também o interior. A comercialização em pontos fixos era feita nas tipografias ou em livrarias. No burburinho das ruas, os escravos se misturavam aos praticantes de pequenos ofícios e se converteram em intermediários entre a elite letrada e o papel impresso. Estudioso da atividade dos jornaleiros e das bancas de jornal, o historiador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou que, naquele momento, os órgãos de imprensa não tinham assumido a tarefa da distribuição. Luiz Carlos Soares, professor na mesma universidade ressaltou que algumas tipografias tinham escravos próprios ou alugavam o serviço dos “escravos de ganho”.

    Os vendedores chegam ao Brasil

    Em meados do século 19, os jornais passam a investir na distribuição avulsa e ambulante. Em 1858, A Atualidade contratou escravos e recém-libertos para vender os exemplares e outros jornais copiaram a ideia. Em 1876, o imigrante francês Bernard Gregoire apareceu na redação de A Província de S.Paulo, jornal que deu origem a O Estado de S.Paulo, e pediu autorização para vender o jornal pelas ruas. Recém-chegado à cidade, o intrépido Gregoire tinha experiência como distribuidor do Le Petit Journal, em Paris, e havia sido condecorado na Guerra Franco-Prussiana. Com um cavalo velho emprestado pelo jornal, uma touca branca e uma buzina de chifre para anunciar o produto, o vendedor escandalizou a cidade. A Província de S.Paulo foi ridicularizada pelos concorrentes. Para eles, um jornal respeitável não deveria permitir a venda volante. O vendedor foi ainda repreendido pela polícia por conta do barulho estridente de sua trombeta. Sua imagem foi eternizada no ex-libris do Estadão.

    Em busca de alternativas para o sustento, uma onda de imigrantes italianos chegou ao Brasil nas últimas décadas do século 19 e mudou definitivamente o perfil dos vendedores de jornais. Em 1875, a Gazeta de Notícias decide contratar jovens italianos para distribuir a publicação pelas ruas. “Esses pequenos imigrantes chegam e encontram o seu meio de sustento um pouco ainda patrocinados pelos grandes jornalistas, pelos grandes diretores de redação que contratam esses pequenos imigrantes como contratavam ex-escravos naquele mesmo período. Era uma mão de obra barata, um sistema informal de distribuição de imprensa”, disse Viktor Chagas.

    Filipina Chinelli, pesquisadora da Fiocruz que escreveu uma tese sobre jornaleiros italianos, destacou que este era um trabalho que os imigrantes conseguiam realizar sem grandes dificuldades: “Muitos não sabiam ler, mas conseguiam decorar a imagem do título da publicação”. Com a pronúncia carregada, os imigrantes instalaram o pregão da venda nas ruas. O historiador Marcus Bretas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sublinhou que aquele era um período de mudança. “É um momento em que a imprensa está se transformando em uma indústria, em um grande negócio, expandindo a produção, surgindo novos jornais, cada vez mais buscando conseguir dinheiro com o público leitor. Vender jornais passa a ser algo significativo”, disse Bretas.

    O poder dos italianos

    Logo os meninos italianos cresceram e se converteram em poderosos empresários, sobretudo na área de entretenimento. “Os nomes que a gente conhece melhor são os Segreto, que vão dominar as diversões na cidade na virada do século 19 para o 20, até a morte do Paschoal Segreto, em 1920. Tem um espaço de comércio, diversão, jogatina legal e ilegal. O jogo do bicho entra como uma luva nesse espaço. Você vende o jornal e vende também a aposta do bicho. O poder desse grupo é muito forte, essas pessoas têm conexões, poder econômico, o controle dos teatros e o controle de alguns jornais”, lembrou Bretas.

    Em 1906, 78 vendedores e distribuidores de jornal liderados por Gaetano Segreto fundam a Stampa, uma sociedade de auxílio. Mais do que ajudar aos seus pares, a sociedade dita as regras da circulação de jornais, ameniza a disputa interna pelos melhores pontos de venda e harmoniza as divergências com a imprensa.

    O imigrante italiano Carmine Labanca ficou conhecido como o precursor da instalação das bancas de jornal no Brasil. “Ele monta uma banca a partir de caixotes de madeiras e começa então a comercializar com a justificativa de que ali era um ponto de passagem muito intenso e, portanto, se constituía como ponto de venda importante para aquele tipo de comércio”, explicou Viktor Chagas. No final do século 19, o prefeito da então capital federal proibiu apregoar nas ruas, mas a medida não foi cumprida. Em 1911, o governo determinou que apenas maiores de 12 anos, alfabetizados e autorizados pelos pais, atuassem como pequenos jornaleiros. E mais: estabeleceu um imposto para os vendedores e impediu que expusessem seus produtos no chão. A imprensa viu no decreto uma tentativa de cercear a liberdade de expressão. Os distribuidores italianos reagiram e o decreto acabou não saindo do papel. Ao longo das primeiras décadas do século 20, outras tentativas de enquadrar a distribuição de impressos foram feitas sem sucesso.

    Vicente Scófano, presidente do Sindicato dos Jornaleiros do Rio de Janeiro, contou que seu pai chegou ao Brasil em 1927 e logo trouxe toda a família: “A rotina de um jornaleiro começava exatamente junto com o jornal. Meia-noite era a correria das redações para preparar o jornal para as máquinas. Nós já estávamos na rua a partir desse horário, ou mais tarde um pouco, aguardando nas bocas das máquinas a saída do jornal para levarmos para o nosso ponto de venda nas bancas. Nós ainda pegávamos o jornal quente da máquina; ele vinha para a nossa mão quente e muitas das vezes até com a tinta, [que] acabava ficando na nossa mão”.

    A vez das crianças brasileiras

    De meninos pobres a empregadores, os imigrantes italianos dominaram o mercado e passaram a delegar a venda ambulante. Nasceram os pequenos jornaleiros brasileiros. “A situação se reverte de certa maneira: esses grandes distribuidores, imigrantes italianos em sua origem, começam a contratar menores brasileiros – obviamente também pela mesma circunstância, mão de obra barata, não exatamente qualificada – como os seus próprios pequenos jornaleiros”, disse Viktor Chagas. O historiador comentou a dura rotina dos meninos: “Eram menores de rua, menores abandonados, menores que tinham família mas que, para complementar a renda familiar, precisavam encarar uma rotina de trabalho absolutamente massacrante de muito mais do que 12 horas por dia, circulando pelas ruas das capitais, gritando suas manchetes, acordando por volta de 3 ou 4 horas da manhã, dormindo muitas vezes nas portas das oficinas dos jornais”.

    A relação entre os distribuidores e o pequeno jornaleiro era marcada por maus-tratos e exploração. No lugar da escola e do caderno, a rua e um maço de jornais. Nada de hora do recreio, brincadeiras ou bicicleta. Em 1926, o Juizado de Menores tentou regular a atividade dos meninos ambulantes e estabeleceu normas para a profissão, mas a lei não foi cumprida. “Justamente porque eles viviam nessas condições, na rua, estavam propensos a determinados aprendizados e práticas. Aprendizados relacionados aos vícios da bebida, do cigarro e aos pequenos furtos ou pequenos delitos. A partir dos anos 1930, esses personagens se constituíam em um problema social a ser resolvido pelas políticas públicas”, disse a historiadora Ivana Guilherme Simili. De acordo com ela, os meninos eram vistos como “figuras simpáticas” pelo público porque se comunicavam bem com a população.

    Entre os muitos meninos que perderam a infância vendendo jornais está o notável sambista e pintor Heitor dos Prazeres. Ex-entregador e engraxate, o músico trocou a dura vida das ruas pelos palcos e decidiu sensibilizar a sociedade para o drama do pequeno jornaleiro. Em 1931, o sambista ofereceu ao vespertino A Noite a “Canção do Jornaleiro”. O pesquisador musical Sérgio Cabral destacou a popularidade da música: “Era uma canção que todo mundo sabia que existia porque o Heitor se encarregava sempre de cantá-la. Essa música fazia parte, era importante na obra dele. Eu acho maravilhoso porque a música tem a função que os hinos têm. O retrato musical, o lado musical de empreendimentos. Eu acho até que a própria popularidade do pequeno jornaleiro se deve muito a essa música”. Gravada pelo menino Jonas Tinoco, a música figurou entre as mais tocadas nos anos seguintes.

    Um menino de metal

    A canção desencadeou uma rede de solidariedade e o jornal A Noite encabeçou uma campanha para a construção de um abrigo para menores carentes. Para estimular a população, o interventor federal no Rio, Pedro Ernesto, doou uma vultosa quantia. Em 1934, com apoio do interventor, o pequeno jornaleiro ganha uma estátua em sua homenagem cravada no centro do Rio de Janeiro. Inspirado na letra de Heitor dos Prazeres, o artista Fritz perpetuou em bronze a triste figura do garoto que grita as manchetes. No fim dos anos 1930, o governo do presidente Getúlio Vargas começou a ver o jornaleiro como um importante mediador no processo de comunicação. Sensibilizada com a dura rotina dos meninos que viviam nas ruas, a primeira-dama Darcy Vargas decide angariar fundos para uma obra social, a Casa do Pequeno Jornaleiro.

    “Darcy Vargas sempre passava pela região central do Rio de janeiro e observava aquelas crianças, aqueles garotos vendendo jornais. Isso chamou a atenção dela e fez com que um dia ela parasse para conhecer um pouco melhor quem eram aqueles meninos. E, na conversa que ela teve com os garotos, ela descobriu que eram meninos entre 12 e 18 anos que vendiam jornais. Alguns deles moravam nas favelas quando tinham famílias, outros moravam na rua, e viviam da venda dos jornais. Alguns deles inclusive eram arrimos de família”, contou Ivana Guilherme Simili. Viktor Chagas ressaltou o papel político da primeira-dama durante o regime Vargas e, especialmente, no Estado Novo: “Pode-se dizer que, de certa forma, o que Vargas assumia para si como grande pai dos trabalhadores, aquele regime que é por muitos pesquisadores caracterizado como populista, se reverte, de certa maneira, na figura da dona Darcy Vargas a partir de suas ações sociais”.

    Para concretizar o projeto, a primeira-dama montou uma rede de apoio e buscou doações em diversos setores da sociedade. A Casa do Pequeno Jornaleiro foi inaugurada em 1940. Ao ingressar na instituição, cada menino ganhava um uniforme e a promessa de um futuro melhor. Lá, os jovens vendedores eram alimentados, tinham assistência médica e oportunidades para a prática de esportes. Darcy Vargas cuidava pessoalmente de cada detalhe do projeto. O bando inquieto e indisciplinado que perambulava pelas ruas era educado de acordo com os rigorosos preceitos pedagógicos dos anos 1940. Sob os olhos atentos da primeira-dama, os meninos recebiam visitas ilustres, participavam de festas e passaram a ser enaltecidos pela imprensa. E os pequenos jornaleiros ganharam um padrinho ilustre – o cantor, compositor e ator Blecaute, também conhecido como o “General da Banda”.

    “O Blecaute tinha muita sensibilidade em relação à causa das crianças por ser órfão. Com seis anos de idade, ficou órfão de pai e mãe e foi criado pela tia dele. Ele era da etnia negra, tinha ascendência de escravo, era paupérrimo. Tinha jogado a sorte para sobreviver e fazer amigos vendendo jornal, e foi pequeno jornaleiro em São Paulo, quando ainda não existia a casa aqui no Rio de Janeiro”, lembrou o pesquisador musical Luís Fernando Vieira. Próximo ao presidente Vargas, Blecaute foi convidado para atuar como patrono da Casa do Pequeno Jornaleiro: “A relação dele com Vargas era muito boa porque era de admiração. O presidente Vargas o admirava muito e sempre o convidava para participar nas festas oficiais, e com isso eles tiveram um passe de bola muito rápido. Como ‘general da banda’ ele desfilava na Avenida Rio Branco todos os anos, fazendo a promoção da Casa do Pequeno Jornaleiro, junto com os garotos da casa”.

    As memórias dos meninos

    A Casa do Pequeno Jornaleiro idealizada pela então primeira-dama no Rio de Janeiro inspirou a criação de instituições de amparo em outros estados. Ex-interno no Maranhão, o ministro aposentado Edson Vidigal relembrou os tempos como pequeno jornaleiro nas ruas de São Luís: “Eu não tinha freguesia fixa. Já naquele tempo havia reserva de mercado: o cara podia colocar o outro para correr se ele tentasse invadir aquela área. Eu ia pendurado no bonde com aquele montinho de jornal debaixo do braço. Mas o que é curioso é que antes de eu sair para essa rotina, eu parava em algum canto e ia ler todos os jornais. Primeiro eu me inteirava, e com isso eu tinha o que dizer para o possível comprador do jornal: ‘o jornal tem fulano de tal escrevendo sobre isso e tal’. Não existia banca de jornal, não tinha televisão, o rádio era o único instrumento, mas ninguém ia anunciar no rádio. Então, o jornaleiro era o verdadeiro difusor, ele era o meio da mensagem. Sem o jornaleiro, o jornal não chegava a lugar nenhum”.

    O programa entrevistou dois ex-pequenos jornaleiros que tiveram abrigo na casa do Rio de Janeiro. “O que eu tinha aqui, nunca pensei, nunca tinha na minha casa. Eu não tinha cama na minha casa, aqui eu tinha minha cama, tinha um local para eu recrear, enfim, eu tinha uma liberdade que na minha casa eu não tinha”, disse João Carlos Francisco. De sua parte, Gomercino Grego contou como fazia para atrair os clientes: “‘Extra! Extra! Saiu a notícia!’. Mentia às vezes, porque não tinha notícia nenhuma, aí vendia. ‘Olha aí, hoje saiu a revista Manchete especial falando da Ângela Maria!’. A gente gritava o jornal porque quanto mais a gente vendia, mais a gente ganhava. Era ruim quando chovia porque tinha lugar que não tinha marquise, então tinha que tirar o jornal, enrolar no plástico e ficar vendendo na mão, nas filas dos ônibus. Mas quando não chovia, era uma maravilha”.

    Uma disputa em vários atos

    Em 1942, o governo Vargas promulgou uma série de medidas para controlar a distribuição da notícia impressa, mas não conseguiu erradicar o trabalho infantil na venda de jornais. O setor de distribuição de impressos passava por uma forte agitação. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial contra os países do Eixo, aumentou a pressão pela quebra do monopólio italiano da distribuição. Pela primeira vez, um grupo de jornaleiros brasileiros chegou ao poder no sindicato da então capital federal. “A primeira medida que tomam diante do Vargas é o pedido de promulgação de um decreto em favor dos distribuidores brasileiros, dizendo: ‘Essa distribuição está sendo monopolizada pelos italianos. Nesse contexto em que a gente está vivendo, exatamente de um conflito com italianos na Segunda Guerra, precisamos tomar medidas preventivas contra isso porque a liberdade de imprensa está em jogo’. O que o Vargas diz é: ‘A partir de agora os jornaleiros devem ser todos brasileiros, mas aqueles que são italianos e que já se ocupam desses postos podem continuar distribuindo seus jornais e suas revistas’”, explicou Viktor Chagas.

    Articulados e com forte poder de pressão sobre a imprensa e o governo, os italianos retomaram o sindicato. “Nesse mesmo ano, [houve] o assassinato de um vendedor de jornais, empregado de um proprietário de banca italiano, assassinato de um brasileiro por um italiano por questões de conflitos pessoais. Teve também por volta de agosto, setembro, desse mesmo ano um incêndio no Largo da Carioca de uma série de bancas de madeira por conta desse dito monopólio da distribuição”, disse Viktor Chagas.

    A década de 1950 marca uma importante mudança para o pequeno jornaleiro. Com a crescente profissionalização da imprensa, o processo de distribuição se modernizou e o número de assinaturas cresceu.

    Em 1960, o Rio de Janeiro deixou de ser capital federal e os órgãos do governo foram transferidos para Brasília. O número de jornais em circulação começou a cair. A Constituição Federal de 1988 proibiu o trabalho nas ruas, considerado um dos mais penosos, para menores de 18 anos. Dois anos depois, o Estatuto da Criança e do Adolescente ofereceu ampla proteção aos menores. E, para eliminar definitivamente a participação das crianças no processo de circulação da notícia, o Ministério Público do Trabalho firmou um acordo com jornais e empresas distribuidoras para impedir a contratação de menores.

    Meninos eternizados em quadrinhos e filmes

    Das ruas para a ficção. Nos anos 1940, o herói dos quadrinhos Spirit ganhou um ajudante especial para policiar a cidade, o pequeno jornaleiro Gordura. O crítico de cinema e jornalista Rodrigo Fonseca comentou que o personagem era secundário, mas revelador: “Ele se torna efetivamente um jornaleiro para ajudar o Spirit, que é um super-herói que volta da morte, a policiar a cidade dele. É um personagem interessante exatamente porque une essa ideia que é muito viva, do jovem jornaleiro ser alguém que se movimenta pela cidade”. Na mesma época começa a ser publicada a série Newsboys Legion, que décadas mais tarde seria incorporada às histórias do Super Homem. “Esses personagens na verdade são garotos órfãos que são explorados comercialmente por vilões. Eles conseguem se rebelar e, depois de se libertarem, continuam trabalhando como jornaleiros para andar pelas cidades, mapearem o que existe de errado, e tentar, de uma certa maneira, combater o crime com os poucos recursos econômicos e até físicos que têm, porque são crianças”, disse Fonseca.

    No filme Luzes da Cidade, de Charles Chaplin, pequenos jornaleiros são testemunhas de uma das histórias de amor mais tocantes do cinema. “Embora seja um personagem coadjuvante para o Chaplin, que encarnava a figura do lúmpen, do marginalizado, do vagabundo, do fora dos ofícios convencionais, os jovens jornaleiros eram figuras marginalizadas; eram crianças órfãs, na sua maioria, que tentavam sobreviver vendendo notícias. Isso é importante para a dramaturgia dele”. Fonseca citou outro filme marcante: “Já que a gente fala do valor da notícia e do valor da notícia encarnado naquele que a vende, que é o jornaleiro, a encarnação mais famosa e engraçada da banca de jornal que se tem notícia no cinema americano, principalmente em Hollywood, é um filme do Woody Allen, um filme absolutamente genial dos anos 1970, chamado Bananas. Existe uma sequência hilariante em que o Woody Allen, totalmente atrapalhado, tenta comprar uma revista pornográfica em uma banca de jornal que é frequentada apenas por velhinhos e velhinhas bem comportados e polidos da comunidade judaica dos Estados Unidos”.

    Nos anos 1990, o pequeno jornaleiro é homenageado com um musical dos estúdios Disney. O filme Newsies relembra a histórica greve organizada pelos meninos de Nova York, em 1899. Centenas de crianças lideradas por “Piscadela” e “Botinas” cruzam os braços e lutam por melhores condições de trabalho. Seus adversários são ninguém menos que os magnatas Joseph Pulitzer, proprietário do New York World e William Randolph Hearst, dono do New York Journal. O estopim do movimento é o reajuste do preço dos jornais por atacado provocado pelo início da Guerra Hispano-Americana. Os jornais não saem às ruas durante dias. As crianças não conseguem reduzir o preço dos diários, mas mudam as regras de encalhe; saem parcialmente vitoriosas e entram para a história.

    No encerramento do programa, Alberto Dines comentou as transformações no processo de distribuição da notícia: “Os pequenos jornaleiros emudeceram há algumas décadas, cresceram, ficaram adultos e desapareceram. Nas esquinas, bancas e quiosques, perdidos no meio de quinquilharias e chicletes, jornais e revistas também perderam a voz. Um jornal, entregue na porta de casa, não fala; manchete muda não emociona. O tweet é um pio, mas não é humano – é virtual. Isto talvez explique alguma coisa”.

     

  • Geral

    Os foguetes do Corcovado

    Por Alberto Dines

    Concebido como monumento católico, transformado em símbolo da hospitalidade brasileira, a estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado, no Rio, converteu-se, oito décadas depois de inaugurado, em representação balística da maldição do país do futuro.

    Em 2009, na capa do semanário britânico The Economist a estátua estava acoplada a um foguete que subia com toda a força. Na capa da última edição (sexta-feira, 27/9), apenas quatro anos depois, o mesmo míssil agora desarvorado parece embicar rumo ao solo.

    Os dados em que se basearam as duas reportagens são majoritariamente econômicos, numéricos, difíceis de contestar. Porém a indagação na capa mais recente – “O Brasil estragou tudo?” – agrega fatores políticos ao lembrar as manifestações de junho, os desacertos na administração pública, a corrupção e a falta de apetite para uma reforma política.

    Pergunta penosa, inconfortável, terrivelmente injusta: quem é este Brasil genérico, impessoal e visivelmente incompetente que desperdiça tantos saltos e deixa escapar tantas oportunidades?

    Que fazer

    Este Brasil colocado na berlinda é o governo, sua base política, a oposição, suas elites e inclusive sua mídia? Este Brasil é o seu povo ou sua sociedade, sua esquerda ou sua direita, os crentes ou seus descrentes? É o país das milícias ou das UPP? É criação nossa ou dos Shakespeare que a cada seis meses nos reinventam na telenovela das nove?

    O nascimento num passe de mágica de dois novos partidos políticos (o PROS e o Solidariedade) enquanto a Rede Sustentabilidade de Marina Silva fica penando na fila é obra deste Brasil que está pondo tudo a perder?

    Aquele país que decola do alto do Corcovado é o mesmo cujo motor está rateando e parece apontado para a sua plataforma de lançamento? E se forem apenas homônimos? Quem é quem?

    Caricaturas – mesmo virtuais – são desprovidas de sutilezas. Charges não devem ser tomadas ao pé da letra, valem pelas impressões que despertam. E a impressão que se tem do Brasil hoje é a mesma de outrora: gigante adormecido. Talvez ensimesmado, ruminando maneiras de soltar-se no grande pulo à frente. Ou desligado.

    As capas do Economist querem dizer que estamos marcando passo. Apenas isso. E para chegar a esta conclusão não é necessário deslocar-se até Londres – nós mesmos, aqui, abaixo do Equador, temos condições de perceber que a fase não é boa. Há uma mesmice pastosa no ar que absorve os movimentos, neutraliza trepidações, amarra ímpetos e deixa tudo como está.

    Artigo publicado no site do Observatório da Imprensa.

  • Geral

    Assista a íntegra do programa desta terça-feira, 24/09

    Neste último programa, o Observatório homenageou o Dia do Jornaleiro, com destaque ao Pequeno Jornaleiro!

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