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    Secretismo e contradições a serviço do Brasil

    Por Alberto Dines

    A entrevista-voto do jurista Ives Gandra Martins na Folha de S.Paulo de domingo (22/9, pág. A-10) é extremamente didática, corajosa e deve ter funcionando como um bálsamo animador para o ex-ministro José Dirceu e outros réus da Ação Penal 470. Ao afirmar que o ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil foi condenado sem provas, o causídico admite que isso servirá de advertência aos políticos corruptos porém ao mesmo tempo criará “monumental insegurança jurídica’.

    Nos últimos 13 meses não foi a primeira condenação veiculada pela imprensa da doutrina do domínio do fato. Mas pode ser considerada como a mais contundente. Ou destacada. Não apenas por que a grande imprensa endossou sem restrições o domínio do fato em detrimento do até então inabalável preceito in dubio pro reo, mas porque em função dessa opção raras foram as ocasiões em que algum jornalão a destacou de forma tão natural e, digamos, pluralista.

    Logo no início da entrevista a repórter-colunista revela que o parecer não foi emitido “por um fiel petista”, mas por alguém que se situa no polo oposto do espectro político. E, para validar a importância do entrevistado, cita o número de obras publicadas – algumas em parceria com ministros do STF – e seus títulos (professor emérito da Universidade Mackenzie e instrutor das mais altas instituições militares de ensino).

    Não incluiu no currículo o fato de que Ives Gandra Martins é a mais alta autoridade secular do Opus Dei no Brasil. Certamente foi impedida. Figura querida da Folha, frequentador assíduo da página 3 (seção “Tendências/Debates”), o jurista sempre é apresentado de forma insuficiente, sem um atributo que sob o ponto de vista jornalístico é essencial.

    Mais luz

    O Opus Dei não é uma prelazia como as demais, é uma formidável organização política baseada em Navarra, Espanha, com poderosas ramificações em Portugal, Brasil e demais países das Américas. Sua penetração não ocorre apenas nas altas finanças, mas principalmente na imprensa.

    Uma consultoria ligada à prelazia durante anos esteve ligada à Associação Nacional de Jornais (ANJ), foi responsável por uma série de mudanças no Estado de S.Paulo e o seu jornalista mais conhecido, Carlos Alberto Di Franco, é colaborador fixo do mesmo Estadão e do Globo. Na homepage do Opus Dei não constam seus responsáveis seculares. Nem suas conexões com a Universidade de Navarra, seu celeiro de recursos e talentos.

    Qual a razão do secretismo?

    O Vaticano, sob a inspiração do papa Francisco, ganha transparência e vitalidade. A CNBB é uma entidade tradicional, respeitável e respeitada (sobretudo no tocante ao passado de lutas pelos direitos humanos). A maçonaria era uma confraria secreta para defender-se da perseguição movida pela Santa Inquisição e mais modernamente pelos governos fascistas. Saída da clandestinidade a partir do século 19, é hoje uma referência histórica.

    A Obra, Opus Dei, esconde-se de que e de quem? Se a sua figura máxima no Brasil envolve-se nas sombras do anonimato não caberia à imprensa jogar alguma luz sobre suas beneméritas atividades? Ao menos para que o ex-ministro José Dirceu possa agradecer formalmente a bravura do seu chefe.

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

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    Pgm 701 - Violência dos Black Blocs - 17/09/2012

     

    Mascarados e vestidos de preto, os adeptos da tática de protesto Black Bloc protagonizaram inúmeras cenas de baderna nas últimas semanas. Depredação do patrimônio público, ataques a instituições privadas e confronto com as forças de segurança marcam a atuação desses jovens autodenominados anarquistas. Minguou a grande massa pacífica de brasileiros que foi às ruas pedindo mudanças na agenda política do país e o combate à corrupção, e agora os Black Blocs dominam o noticiário sobre os protestos.

    A tática de protesto Black Bloc surgiu nos anos 1980, na Alemanha, e cresceu com as mobilizações contra o neoliberalismo e o capitalismo da década seguinte. Com a popularização da internet, ferramenta essencial para a mobilização dos manifestantes, e a crescente insatisfação com a economia, o grupo ganhou força.

    Os Black Blocs não têm uma pauta de reivindicações única. Sua atuação é restrita às ruas e não há canal de diálogo com os governos. De acordo com a página do Black Bloc no Facebook, existem vários grupos, com diferentes táticas, que atuam em manifestações para questionar o “sistema vigente”. Repórteres, cinegrafistas e fotógrafos que cobrem os protestos são constantemente hostilizados por manifestantes radicais e também pela polícia. Nos protestos do Sete de Setembro, um jornalista da GloboNews que cobria o evento com um telefone celular foi agredido. Em uma tentativa de conter a agressividade dos Black Blocs, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou um projeto de lei que proíbe encobrir o rosto em atos públicos. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (17/9) discutiu a relação da mídia com os Black Blocs.

    Alberto Dines recebeu três convidados no estúdio do Rio de Janeiro: a antropóloga Yvonne Maggie, o sociólogo Ignacio Cano e o jornalista Arthur Dapieve. Professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maggie é autora de livros e artigos e tem um blog no portal G1. Ignacio Cano é doutor em Sociologia pela Universidad Complutense de Madrid e professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É especialista em direitos humanos, violência e segurança pública. Arthur Dapieve trabalhou no Jornal do Brasil, na revista Veja Rio e no jornal O Globo, onde escreve uma coluna no Segundo Caderno. Tem dez livros publicados, entre ficção e não ficção, e é professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio.

    Quem tirou o povo das ruas?

    Antes do debate ao vivo, em editorial, Dines questionou se quem expulsou a massa de manifestantes das ruas foi a repressão policial ou a violência dos Black Blocs. “Nossa mídia tem pressa em colocar o ponto final nos debates, não gosta de esticar as controvérsias, aparentemente com receio de dar voz àqueles dos quais discorda. A legitimidade da violência política vem sendo discutida há 300 anos e não apenas nas assembleias, academias e também na literatura”, relembrou Dines. A imprensa, na opinião do jornalista, precisa discutir os fenômenos gerados pela “realidade mutante”.

    Ainda antes do debate no estúdio, a reportagem exibida pelo programa mostrou a opinião do ex-militante Vladimir Palmeira, que organizou expressivas manifestações populares nos anos 1960. Para ele, a ação dos adeptos do Black Bloc se pauta pela política, não é apenas uma tática. “Eu, como sou pela liberdade de opinião e de expressão, pouco me importo que os Black Blocs briguem com a polícia. Mas acho um equívoco que eles se misturem a manifestações que têm outro conteúdo e outra forma. Então, é como se eles surfassem nas manifestações”, criticou Palmeira. Para ele, é preciso examinar esse fenômeno dentro da realidade atual do país: “Há conjunturas de natureza revolucionária onde as coisas que são impossíveis nas épocas de normalidade são possíveis. Hoje em dia, no Brasil, não me parece que ajude um tipo de confronto como o que nós estamos vendo – de confronto não só com a polícia, mas de depredação. Não parece recomendável nem parece atender àquilo que a consciência de junho refletia”.

    O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ressaltou que ainda é cedo para analisar os efeitos da atuação dos Black Blocs. “São garotos, muito jovens, fruto de uma indignação muito grande, e fruto também de uma crise brutal de representatividade. Representatividade não só partidária, não só no parlamento, mas nos próprios movimentos e que dão sinais de novos movimentos, novos métodos que a gente pode discordar, pode concordar, mas o mais importante nesse momento é tentar entender”, disse o deputado. Para ele, o projeto de lei que proíbe o uso de máscaras é um equívoco: “É um momento onde o parlamento deveria responder com leis que pudessem trazer mais transparência, trazer um pouco mais de participação cidadã, de radicalismo na democracia. [Há] projetos de lei que tramitam nessas casas que podiam dar respostas muito mais úteis à sociedade nesse momento”. O deputado acredita que essa lei poderá levar a um acirramento ainda maior na relação entre polícia e manifestantes.

    Ordem nos protestos

    Breno Melaragno, presidente da Comissão de Segurança Pública da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), classificou a iniciativa da Alerj de proibir as máscaras como inconstitucional. “Toda a questão ligada ao direito de manifestação, que passou a ser regulada por essa lei estadual com todos esses erros, equívocos e vícios constitucionais, também passa por uma questão de competência. No entendimento da OAB isso é uma matéria federal, só o Congresso Nacional pode regular e regulamentar esse direito de manifestação”.

    Paula Máiran, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, disse que a entidade vai reagir às agressões aos jornalistas: “Nós estamos produzindo um relatório de casos e também estamos organizando uma audiência pública para a qual já tivemos aprovação da presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal do Rio de Janeiro”, disse Paula. A representante do sindicato afirmou que todo caso de violência contra jornalistas é um atentado à liberdade de imprensa.

    O sociólogo Marcelo Castañeda, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, explicou que o Black Bloc é uma tática que se constitui exclusivamente nas lutas de rua. Para ele, a cobertura dos meios de comunicação sobre o movimento tem sido parcial e incompleta: “A mídia, junto com outras instâncias de poder, vem atuando em um processo de criminalização dessa prática. Eu vejo também que, por outro lado, ao focar no Black Bloc, nos mascarados ou nos vândalos, a mídia deixa de enfatizar as pautas que estão nas ruas. Vem sendo encoberto por uma discussão em torno dos Black Blocs, da violência deles, sem mencionar a violência policial”.

    No debate ao vivo, a antropóloga Yvonne Maggie contou que fez parte de um grupo de artistas e intelectuais que entregou ao secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, uma carta pedindo uma saída pacífica para as manifestações. A antropóloga explicou que a ideia era intermediar o diálogo entre manifestantes e forças de segurança para romper com o domínio da polícia na relação com os participantes dos protestos. Para ela, o encontro foi significativo porque simboliza novas formas de interlocução com a polícia, sobretudo para quem viveu a ditadura militar. O grupo levou propostas de especialistas na área de segurança pública, como a presença do Corpo de Bombeiros nos eventos.

    Novas formas de protesto

    A antropóloga, que foi às ruas no Sete de Setembro e pôde ver de perto o confronto, disse que o Estado “abandonou a população à sua sorte” durante as manifestações. Maggie propôs que intelectuais, estudiosos e jornalistas dialoguem com os manifestantes: “É preciso trazer a paz. É uma juventude que precisa ouvir algum sinal de apoio porque todas as reivindicações que começaram com o [Movimento] Passe Livre são justas, singelas e importantíssimas”. Maggie avalia que a grita contra a imprensa tradicional é um equívoco e ressaltou que há movimentos contraditórios caminhando lado a lado nos protestos. Enquanto uns agridem a mídia, outros a defendem.

    Admiradora de movimentos pacifistas que mudaram o mundo, como o feminismo, Ivonne Maggie enfatizou que toda a mudança que ocorre atualmente no Brasil é recente e difere de outros momentos da história do país. A antropóloga comentou que não se pode ver os adeptos da tática Black Bloc como uma massa única porque há diferentes ideologias por trás do movimento. Para ela, é essencial manter uma ponte que não seja através da polícia. “A polícia estava falando, as forças de segurança estavam falando e você não estava dando voz a essas pessoas que precisam ser ouvidas”, disse a antropóloga.

    Dines lamentou que, ao contrário dos anos 1960, hoje as manifestações organizadas descambem para a violência. Para Arthur Dapieve, quando os protestos partem para a violência acabam beneficiando o infrator. Agora, a questão está centrada na segurança pública e não mais no Estado: se o governo antes estava acuado, agora está “soberbo”. Dapieve sublinhou que as alas mais violentas impuseram uma lógica interna de confronto que acabou alijando outros setores que estavam protestando em junho. “Eu acho que era natural que, mais cedo ou mais tarde, esses segmentos se desmobilizassem um pouco. Não dá para haver uma revolução permanente na rua”, disse o jornalista. Para Dapieve o esvaziamento foi acelerado pela presença dos “pitboys de passeata”.

    Black Blocs vs. imprensa

    Dapieve comentou que a imprensa “apanha da polícia e dos manifestantes” durante os protestos. “Acaba ficando quase lisonjeiro para a imprensa ficar nessa situação, embora seja muito grave. Ela está ali tentando cobrir. Tirar a imprensa da manifestação não interessa à maior parte da população. A imprensa tem que estar lá para mostrar o abuso policial e também o transbordar da violência por parte de alguns grupos de manifestantes”, disse o jornalista. Dapieve comentou que não ficou espantado que a polícia estivesse tentando colocar a imprensa de lado, mas sim que manifestantes hostilizassem a mídia porque, a partir de um determinado momento, os veículos de comunicação apoiavam as reivindicações dos protestos.

    Na avaliação do pesquisador Ignacio Cano, parte da violência contra a imprensa se deve ao fato de ela representar o establishment. “Houve muitas acusações sobre uma cobertura de boa parte da imprensa que era injusta, parcial. Embora seja contraproducente, quem quer transparência tem que querer a imprensa lá. Eu acho que parte de agressividade foi decorrente do que os manifestantes percebiam que era uma cobertura muito parcial”, analisou o sociólogo. Cano disse que os setores violentos são minoritários, a grande maioria dos manifestantes é pacífica.

    “A gente tem que ficar atento para os dois extremos. É claro que pessoas que se organizam para jogar coquetel molotov, que planejam ataques violentos, têm que ser monitoradas, fiscalizadas e processadas. Por outro lado, a reação do Estado em muitos casos está sendo exagerada. Nós temos vários casos de manifestantes Black Blocs sendo processados por quadrilha armada”, exemplificou o sociólogo. Alguns deles estão sendo tratados como membros de grupos de extermínio, o que é um absurdo na opinião do pesquisador. “Nós temos desde o início do processo duas narrativas em confronto. A narrativa dos vândalos e do povo na rua. Em um determinado momento, a narrativa do povo na rua foi amplamente vitoriosa. E até os meios [de comunicação] que começaram chamando aquilo tudo de vândalos, tiveram que recuar. Agora, na medida em que há uma desmobilização, o que é natural em um longo processo, acabam sobrando setores mais radicais e mais violentos, mas o Estado não pode recorrer com a truculência jurídica”, criticou Cano.

     

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    O inominável cerco a Minerva

    Por Alberto Dines

    Por fastio, impaciência, instinto novidadeiro ou mero oportunismo, nossa imprensa gostaria de encerrar imediatamente a AP 470, o Caso do Mensalão, de preferência colocando alguns culpados no xilindró, ainda que por dias. A imprensa cria tensões que não consegue manter, sobretudo quando não dispõe de suficientes recursos, expertise ou maturidade.

    É preocupante o desapontamento de grande parte da veiculação que se ocupa de política com o empate de 5 a 5 na decisão do Supremo Tribunal Federal sobre os embargos infringentes, mesmo que o voto de Minerva seja proferido por um magistrado louvado pela temperança e prudência. A deusa da sabedoria só é cultuada quando serve aos impulsivos.

    A pressão exercida pela mídia sobre o decano dos ministros, Celso de Mello, para evitar o recomeço do julgamento, além de inédita e descabida revela encarniçamento e ferocidade inaceitáveis numa sociedade minimamente civilizada.

    O ministro não fez suspense, ofereceu todas as pistas para evitar surpresas, revelou inclusive que o seu voto estava pronto desde a sessão em que ocorreu o empate (quinta-feira, 12/9). Permitiu igualmente que o colega Ricardo Lewandowski citasse em plenário uma opção anterior em favor dos embargos infringentes.

    Estímulo à insensatez

    Poucos deram atenção à condenação dos réus do mensalão pelo ministro-desempatador logo no início dos trabalhos, em 2012. Foi uma das mais arrasadoras e veementes manifestações em plenário. E mesmo assim jornais e jornalistas não souberam respeitar o seu livre-arbítrio ou o que antigamente se designava como liberdade espiritual.

    Os valores simplistas e primários destilados pelos telefolhetins na mentalidade brasileira não admitem que um magistrado convencido da culpabilidade dos réus lhes ofereça todas as oportunidades para se defender.

    O incessante e pertinaz resmungar da mídia chegou ao quintal – as redes sociais –, que logo começaram a articular manifestações na hora do julgamento diante da sede da suprema corte, na Praça dos Três Poderes.

    A imprensa é absolutamente livre para convocar cruzadas, opinar, reclamar, cobrar e denunciar órgãos públicos, autoridades, empresas ou cidadãos. Mas uma imprensa que não sabe respeitar a consciência de um magistrado favorece a inconsciência e a insensatez.

    Favorece os equívocos.

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    Amanhã, o Observatório debate as ações dos Black Blocs no dia da Independência do Brasil

    Amanhã no Observatório da Imprensa, na TV Brasil, 20h e 0h30 (reprise).

    Não perca!

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    Pgm 700 - Revisão Golpe 64 - O Globo - 10/09/2013

    Em uma decisão surpreendente e histórica, as Organizações Globo admitiram que o jornal O Globo errou ao apoiar editorialmente o golpe militar de 1964. Em discussões internas, o grupo de mídia já reconhecia o erro de ter concordado com a intervenção das forças armadas. O golpe que tirou o presidente João Goulart do poder mergulhou o país em uma ditadura de 21 anos. O mea-culpa faz parte do Projeto Memória, que resgata os 88 anos de história do jornal. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (10/9) discutiu o impacto do gesto de O Globo na mídia e para as relações do grupo, criado por Roberto Marinho, com seus leitores, telespectadores e internautas.

    No texto em que admite o erro editorial, o grupo relembrou que a sociedade, incomodada com a radicalização política desencadeada pelo governo Goulart, foi às ruas pedindo mudanças. O Globo alegou que, naquele momento, o rumor de um possível golpe articulado pelo presidente com apoio dos sindicatos justificava a ação das forças armadas. E que os militares prometiam uma intervenção curta. Na seção “Erros e Acusações Falsas”, onde o jornal admite o apoio, são abordados outros momentos controversos da história da publicação. Entre eles, o caso Proconsult e a cobertura da campanha pelas Diretas Já.

    A revista Carta Capital ressaltou que as Organizações Globo foram beneficiadas pela ditadura militar. A coluna da ombudsman da Folha de S.Paulo elogiou o ato de contrição de O Globo e sublinhou que a Folha nunca adotou medidas nesse sentido. Mas ressaltou que as Organizações Globo apoiaram a ditadura durante um longo período.

    Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro os jornalistas Aluizio Maranhão, editor de Opinião do jornal O Globo, e Milton Coelho da Graça, que foi diretor de Redação do jornal. Formado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maranhão tem 43 anos de profissão e foi diretor de Redação de O Estado de S.Paulo. Milton Coelho da Graça é jornalista há mais de 50 anos. Trabalhou no Diário Carioca, na Última Hora e no Jornal do Commercio. Colaborou com as revistas Realidade, Placar e Playboy. Em São Paulo, o programa contou com a presença do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva. Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo, Lins da Silva é mestre pela Michigan University e lecionou em várias universidades no Brasil e nos Estados Unidos. Foi diretor-adjunto de Redação da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico.

    Passado revisto

    Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines avaliou o gesto do jornal: “Penoso admitir enganos e aceitar culpas, a arrogância é sempre mais cômoda, muito menos arriscada. Por isso quando um jornal como O Globo – carro-chefe de uma das mais poderosas organizações jornalísticas do país e do mundo – admite com todas as letras, sem dubiedades, que se equivocou ao apoiar o golpe militar de 1964 e a ditadura que se seguiu, abdica da aura de infalibilidade. Ao mesmo tempo ganha o respeito, não apenas do seu público, ganha também a confiança dos pósteros”. Dines ressaltou que, exceto a Última Hora, dirigida por Samuel Wainer, todos os jornais da época aderiram ao golpe. “A surpreendente atitude de O Globo tem condições de iniciar um degelo em nossa vida jornalística, pode transformar-se numa Primavera, desde que seja acompanhada pelos demais veículos”.

    A reportagem exibida pelo programa entrevistou o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, que preside a Comissão da Verdade. Para ele, a atitude da empresa representa um avanço: “Eu acho que finalmente as Organizações Globo dão um sinal de aceitação da democracia brasileira. Fiquei muito contente com isso, como todos os cidadãos [que] sempre torceram para que a Globo assumisse essa postura. A livre imprensa sempre é um instrumento importante para que a verdade venha à tona. E se a Globo se alinha a essa postura, é claro que isso colabora para a verdade”.

    Na avaliação do cientista político Fernando Lattman-Weltman, da Fundação Getúlio Vargas, o golpe de 1964 foi um processo longo causado por um desgaste político e econômico expressivo. “Isso explica, primeiro, que boa parte da sociedade tivesse um anseio muito grande por uma nova ordem, uma estabilidade, embora não houvesse nenhum consenso sobre qual seria essa nova ordem. As pessoas queriam sair da crise, queriam sair daquele clima de instabilidade e crescente radicalização política. E havia, evidentemente, aqueles que localizavam o próprio governo no epicentro da crise”, detalhou o professor. Lattman-Weltman ressaltou que os meios de comunicação são empresas e, por isso, têm interesses comerciais e políticos que não podem ser ignorados. Para ele, a ação de O Globo em admitir o erro foi positiva, mas não é necessário “estabelecer um tribunal da História” para julgar caso a caso a postura da imprensa.

    Admissão de equívocos

    No debate ao vivo, Dines pediu para o jornalista Aluizio Maranhão contar os bastidores da decisão das Organizações Globo. Maranhão comentou que quando o mea-culpa foi divulgado, parte da sociedade estabeleceu uma relação equivocada entre as manifestações populares iniciadas em junho e a admissão do erro de 1964 por parte da empresa. Isso porque, em diversos protestos, manifestantes exibiam cartazes dizendo “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. O jornalista explicou que o Projeto Memória jamais poderia ter sido gestado e posto em prática em apenas dois meses. A ideia existia havia quinze anos, época do reordenamento da governança e do administrativo da empresa, mas foi viabilizada há cerca de dez meses com a digitalização do acervo do jornal. “A partir do momento ‘podemos digitalizar o acervo’ levantou-se a questão ‘por que não aproveitar e reconhecermos o erro de 64, que já vem sendo discutido há muito tempo?’”, disse Maranhão.

    Em 1998, com Roberto Marinho ainda no comando das Organizações Globo, foi criado um conselho composto pelo empresário e seus filhos e, em paralelo, um conselho editorial. Dois anos depois, houve uma ampla reunião do primeiro e segundo escalões da empresa, com cerca de 500 participantes, onde os acionistas apresentaram a missão e os valores do conglomerado. Os executivos anunciaram que a nova estrutura organizacional deixava de ter a figura de Roberto Marinho como centro da empresa e que a responsabilidade seria pulverizada entre os diretores. “Foi feita a constatação sensatíssima de que não haveria um outro Roberto Marinho”, lembrou Maranhão. Outro aspecto que levou a essa mudança foi a percepção de que o mercado se transformava rapidamente com o crescimento da internet, e a empresa precisava se adaptar aos novos tempos.

    Desde então, de acordo com Maranhão, discussões sobre ética, autorregulação, direito de resposta e reconhecimento de erros têm sido cada vez mais frequentes. Em 2004, já tendo em vista o Projeto Memória, um livro sobre a história do Jornal Nacional reconhecia que houve erro na edição do debate entre os então candidatos à presidência da República Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. O livro também admitia, em parte, equívocos na cobertura da campanha pelas Diretas Já e tratava do caso Proconsult, que o grupo considera como uma acusação infundada de manipulação.

    Cúmplices ou traidores?

    Dines perguntou ao representante de O Globo qual tem sido a reação dos leitores ao mea-culpa e como a direção do jornal tem lidado com uma possível desconfiança da sociedade sobre novos erros que possam ser cometidos. O jornalista disse que a reação raivosa de “blogs militantes e chapa-branca” já era esperada, mas confessou ter sido surpreendido, em um primeiro momento, com a revolta dos militares que estavam na ativa entre 1964 e 1968. Para este grupo, imperou a sensação de as forças armadas terem sido traídas. “A História evolui. O compromisso nosso é com a credibilidade do jornal, com a própria História, não podemos ser considerados pelos combatentes daquele tempo, que persistiram no erro, como colegas solidários”, disse Aluizio Maranhão.

    O editor de Opinião de O Globo ressaltou que o mea-culpa foi uma situação pontual e afirmou que a empresa não abriu espaço para um “rosário de expiações”. Há, sim, a tentativa de criar uma cultura para o reconhecimento de erros. “Nós fomos devassados pela internet. Abriram, arrombaram as portas das nossas redações, o que é muito bom. Agora, nós temos que saber usar as novas tecnologias para nos expor. E é isso que O Globo resolveu fazer”, disse Maranhão. O jornalista lembrou que a TV Globo, em 2008, colocou no ar um site em que tratava de temas polêmicos, como o debate presidencial de 1989 e a cobertura das Diretas Já. Coberturas mais recentes, em que a postura da empresa foi fortemente criticada – como o caso da “bolinha de papel” lançada contra o então candidato à presidência José Serra e o acidente com o avião da Gol, em 2006 – também foram abordadas.

    O jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva ressaltou que a admissão de culpa por parte do jornal não foi uma deliberação tomada repentinamente com base nos protestos iniciados em junho. Como consumidor de informação jornalística, Lins da Silva pôde observar que as Organizações Globo têm passado por uma mudança nos últimos anos, em busca da transparência e do reconhecimento de erros. E são ações como essas, na avaliação de Lins da Silva, que fazem o jornalismo de alguns veículos melhor do que outros. Ele considerou, por exemplo, que a divulgação dos Princípios Editoriais da empresa é um avanço extraordinário.

    Primeiro passo

     

    Para Lins da Silva, o gesto da empresa foi encarado por parte da sociedade de forma maniqueista e reducionista. O jornalista ressaltou que reconhecer o erro de ter apoiado o golpe não torna o conglomerado de mídia infalível. “Quando um veículo resolve expor ao público o que ele pretende editorialmente, ele dá ao público o direito de cobrar quando esse veículo não cumpre aqueles objetivos que estão claramente delineados em um documento”, disse. Como exemplo desta mudança de postura, Lins da Silva citou a cobertura das eleições, realizada a partir de 2002. Para ele, o trabalho das Organizações Globo nos últimos pleitos buscou a imparcialidade, se comparado com as disputas anteriores a 1989.

    “Acho muito importante fazer o que as Organizações Globo fizeram: reconhecer explicitamente um erro editorial. Mas não acho que isso seja o mais importante. O mais importante é ter um comportamento editorial compatível com os princípios de transparência e de pluralidade”, disse Carlos Eduardo Lins da Silva. O jornalista ponderou que é preciso reconhecer a iniciativa pioneira da Folha de S.Paulo, que a partir de meados da década de 1970 passou a abrir espaço para outras vozes e reconhecer os equívocos: “[A Folha] fez mais do que dizer ‘nós erramos’. Implicitamente ela dizia ‘nós erramos’ mas, na prática, ela fazia a correção do erro e tem feito ao longo dos anos, a meu ver, a reparação prática desse erro. Eu acho que dizer que errou é muito bom, é importante, mas não é o fundamental”.

    Milton Coelho da Graça lembrou que Roberto Marinho abrigava em suas empresas funcionários com diversas correntes ideológicas. “Eu saí da cadeia em junho de 1966 diretamente para dirigir uma empresa, do ponto de vista jornalístico, do Roberto Marinho, das Organizações Globo, que era a Rio Gráfica. E, dois anos depois, fui convidado para ser editor-chefe do Globo. Isso parece uma contradição entre a posição política do Globo, conservadora, e a ação do doutor Roberto como patrão, que sempre foi um patrão generoso. As relações dele eram singulares com os empregados. Ele fazia questão de repetir constantemente que o jornal dele tinha chegado onde tinha chegado graças ao trabalho dos empregados com ele”, disse o jornalista.

    Na avaliação de Milton Coelho da Graça, ações controversas como as que foram promovidas por Roberto Marinho ao longo da sua história, sobretudo durante a ditadura militar, fazem parte da condição humana. Para ele, mais grave do que a imprensa ter apoiado o golpe foi não ter despertado rapidamente para as suas consequências. Jornais silenciaram diante de casos de tortura e alguns chegaram a emprestar as suas viaturas para o transporte de presos políticos. O jornalista ressaltou que O Globo não cometeu um erro editorial em 1964, mas sim um erro político, assim como a maior parte das demais publicações que circulavam naquele período. “O jornal acreditava naquilo que estava acontecendo”, disse o jornalista.

     

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    Alberto Dines comenta notícias da semana

    Alberto Dines analisa o quanto os protestos do dia sete de setembro aumentaram o desnorteamento da cobertura da mídia sobre o assunto, a prisão do jornalista Pimenta Neves e a incapacidade da mídia de manter o interesse do público por casos semelhantes e, ainda, a censura que magistrados tentaram impor em três grandes jornais do Paraná e de Pernambuco.

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    Pgm 699 - Programa "Mais Médicos" - 03/09/2013

     

    Resposta mais enérgica da presidente Dilma Rousseff às manifestações populares iniciadas em junho, a vinda de médicos estrangeiros para atuar no Brasil desencadeou grande polêmica na área de saúde pública e na imprensa. Em algumas cidades, a chegada dos profissionais de outros países foi marcada por protestos e vaias. Em Fortaleza, médicos cubanos foram duramente hostilizados por integrantes do Sindicato dos Médicos do Ceará ao final do primeiro dia do curso promovido pelo programa Mais Médicos. Representantes do sindicato alegaram que o protesto era dirigido aos gestores do curso, e não aos médicos estrangeiros. Para o Ministério da Saúde, a atitude foi intolerante, racista e xenófoba. O Conselho Federal de Medicina criticou atos de xenofobia, mas reforçou que a vinda dos médicos desrespeita as leis brasileiras. Uma jornalista do Rio Grande do Norte chegou a postar no Facebook que as médicas cubanas parecem “empregadas domésticas”. O comentário teve uma ampla repercussão negativa e foi apagado pouco depois.

    Entidades de classe sustentam que no Brasil não faltam médicos, mas sim condições de trabalho. Também foi posto em questão o pouco incentivo para manter os profissionais brasileiros em regiões pobres. O número de médicos brasileiros inscritos no programa preencheu apenas 10% das vagas. Centenas de médicos estrangeiros já chegaram ao Brasil, entre argentinos, uruguaios, espanhóis, portugueses, italianos, russos e cubanos. Os profissionais vão passar por três meses de treinamento com aulas técnicas, de cultura brasileira e de língua portuguesa.

    A falta de transparência sobre a vinda dos médicos de Cuba foi alvo da maior parte das críticas. Ao contrário dos médicos de outros países, os cubanos não receberiam o pagamento diretamente. A ilha é comandada por um governo ditatorial desde 1959 e o atendimento em saúde primária é considerado um dos melhores do mundo. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (3/9) pela TV Brasil discutiu a reação da mídia ao programa recém-implantado pelo governo federal.

    Para discutir o tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o médico sanitarista Reinaldo Guimarães, que foi secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Com mais de 40 anos de experiência, Guimarães é mestre em Saúde Coletiva e foi vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em São Paulo, o programa contou com a presença do jornalista e cientista político Leonardo Sakamoto. Coordenador da ONG Repórter Brasil, Sakamoto cobriu conflitos armados em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Foi professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e é professor de Jornalismo da PUC-SP. O convidado no estúdio de Brasília foi João Domingos, repórter especial e coordenador de Política de O Estado de S.Paulo na capital federal. Domingos trabalhou na Folha de S.Paulo, no Jornal do Brasil e em O Globo.

    A foto que fala

    Antes do debate ao vivo, em editorial, Dines avaliou que o único desempenho positivo da mídia foi a publicação da chocante fotografia dada na primeira página da Folha de S.Paulo, de médicos cearenses vaiando os profissionais cubanos. “Caso raro de uma vaia sem som, apenas gestual, que escancarou as altas doses de histeria ideológica, corporativismo, xenofobia e até racismo na oposição à importação de médicos para atenuar as nossas carências”, disse Dines. Para ele, a imprensa reagiu à vinda dos médicos cubanos por razões ideológicas: “Se Israel há décadas exporta seus agrônomos e a Índia os seus especialistas em informática, por que ignorar que Cuba exibe altos índices em matéria de prevenção?”.

    A reportagem exibida no início do programa entrevistou a médica Lygia Bahia, especializada em Saúde Pública. Para ela, apenas uma pequena parte dos profissionais brasileiros hostilizou os médicos estrangeiros: “É claro que eu considero lamentável que alguns dos meus colegas médicos tenham manifestado xenofobia [e] preconceito, mas isso é uma minoria, não representa o conjunto da categoria médica de maneira alguma”. A mídia ainda segue a polarização, na opinião da médica, entre as entidades médicas, contrárias ao projeto, e o governo que tenta implantá-lo. Lygia Bahia ressaltou que o Mais Médicos não pode ser visto como uma resposta aos protestos populares iniciados em junho: “As manifestações não solicitaram mais médicos, elas solicitaram ‘hospital padrão Fifa’, ‘enfia R$ 0,20 no SUS’”. O que a população pedia, na opinião da médica, era um atendimento com mais qualidade.

    “Nós não vamos resolver o problema do sistema de saúde brasileiro com estrangeiros, isso pode ser uma medida provisória e, de fato, foi uma medida provisória, aprovada como medida provisória, mas nós precisamos resolver definitivamente esse problema. Como? Formando médicos”, sustentou Lygia Bahia. Para ela, a questão da língua não pode ser minimizada porque até médicos brasileiros muitas vezes enfrentam dificuldades para se comunicar com a população de regiões mais distantes. “A língua é um problema porque a relação médico-paciente, a relação enfermeiro-paciente, a relação fisioterapeuta-paciente, é uma relação muito delicada, que exige uma comunicação importante para que haja efetividade terapêutica”, disse Lygia.

    O eco das vaias

    O programa também entrevistou o médico cubano Juan Carlos Raxach, que vive no Brasil há mais de dez anos. Raxach confessou ter ficado chocado com as agressões aos seus colegas cubanos. “Foi muito duro escutar profissionais da área de Saúde deste país falarem que Cuba não tem medicina de excelência, que a única [coisa] que Cuba tem de excelência são os charutos. Estavam, realmente, falando de uma forma tão imoral, tão deselegante; falar assim de um colega profissional, confundindo um problema ideológico com um problema de formação”, lamentou Raxach. Para ele, a imprensa poderia ter procurado entender mais profundamente o sistema de saúde cubano em vez de ficar apenas repercutindo as críticas à vinda dos profissionais da ilha: “Eu acho que a mídia brasileira, com o maior respeito, muitas vezes se nutre desse lugar de escândalo, de terrorismo. Isso dá audiência”.

    Raxach defendeu uma ampla reforma do Sistema Único de Saúde (SUS). “Existe uma grande deterioração do SUS, um sucateamento de nosso sistema. E sobre isso nós temos que falar porque eu acho que não é só de mais profissionais que nós precisamos, precisamos também ter um olhar sobre o Sistema Único de Saúde que temos e que está sendo sucateado. Sucateado, terceirizado e privatizado”, criticou. Ele explicou que, em Cuba, o foco da medicina é a prevenção: “O profissional de saúde cubano se interessa mais que você não fique doente. Eu acho que vai ser uma diferença no tratamento: as pessoas vão aprender a se prevenir de doenças, tentar não ficar doentes. A medicina de Cuba tem como base isso: a prevenção. E com certeza e medicina de família é um alicerce desse projeto”.

    No debate ao vivo, Dines lembrou que a mídia aceitou com naturalidade a vinda de médicos cubanos promovida pela prefeitura de Niterói, no Rio de Janeiro, nos anos 1990. O intercâmbio foi estabelecido pelo governo para controlar sucessivas epidemias de meningite e dengue. O médico Reinaldo Guimarães explicou que o convênio trouxe ao Brasil especialistas em saúde da família e que o conflito ideológico naquele momento era menor. “Existe um tensionamento político no Brasil de hoje que confunde tudo e que está passando das medidas. Essas cenas na recepção de médicos estrangeiros, em particular cubanos, em Fortaleza, são de uma violência, de uma ignorância brutal”, lamentou Guimarães. Para ele, a atitude dos médicos que promoveram o ato, a maioria jovens, apenas reflete o posicionamento exacerbado das entidades de classe.

    “Na imprensa, o objetivo central do programa, que é colocar médicos onde médicos não quiseram ir, se torna um problema secundário frente, por exemplo, se o governo estava ou não negociando antes com Cuba”, criticou Reinaldo Guimarães. O sanitarista ressaltou que afirmar que Cuba “não tem médicos na prateleira” revela um desconhecimento da questão. “As ações médicas cubanas no exterior são a principal expressão do soft power cubano há 50 anos. São mais de 70 países, quase 140 mil profissionais de Saúde que já foram mandados [para outros países]. Cuba, em função do bloqueio norte-americano e do colapso da União Soviética, precisa desesperadamente de divisas. E este programa de ajuda externa na área de Saúde, por um lado, é uma demonstração de solidariedade e, por outro, é uma fonte importantíssima de captação de divisas”, explicou o médico. Reinaldo Guimarães ponderou ainda que a pauta de reivindicações dos profissionais brasileiros não pode ser posta em segundo plano, e que o programa Mais Médicos não foi elaborado para atender a essas reivindicações.

    Luta de classes na mídia

    Na opinião de Leonardo Sakamoto, parte dos jornalistas brasileiros confunde opinião com informação e muitos deles “escorregaram na casca de banana” na cobertura do programa Mais Médicos. Sakamoto destacou que colunistas chegaram a chamar os médicos cubanos de indolentes e incompetentes e classificaram a aeronave que os trouxe até o Brasil de “avião negreiro”. “Nós jornalistas acabamos não percebendo que o acúmulo e a sobreposição dos argumentos, muitas vezes preconceituosos, que nós lançamos aos nossos leitores, telespectadores e ouvintes causam danos”, afirmou Sakamoto. O posicionamento da mídia acaba, indiretamente, influenciando o comportamento de pessoas mais jovens e com pouca formação política.

    Para Sakamoto, não é apenas a questão partidária que contamina o trabalho da imprensa, é também a forma como os jornalistas estão inseridos na sociedade. Por pertencerem a uma classe social com poder aquisitivo mais alto em relação à maioria da população, os jornalistas podem não se sensibilizar com o drama daqueles que não têm plano de saúde: “Jornalista é trabalhador, mas não se vê como trabalhador, se vê como parte pertencente ao mesmo nível social do patrão. E só percebe que é trabalhador quando rola o ‘passaralho’ na redação e é mandado embora. ‘Bilhete azul? Eu não sou seu amigo?’. ‘Não, você não é meu amigo’. Da mesma forma o jornalista se vê por uma outra classe social e diz: ‘Esse problema não existe no Brasil, o Brasil tem médicos, especialistas para dar e vender’”. Sakamoto questionou como os jornalistas podem cobrir com eficiência um problema social que desconhecem.

    Para João Domingos, a mídia não é contrária à importação de médicos estrangeiros, apenas veicula as diferentes opiniões: “Talvez com relação aos cubanos possa ter havido uma exacerbação, não da mídia em si, mas da mídia retratando o que se tem falado”. Para o jornalista, a polarização entre o PT e o PSDB contaminou o programa Mais Médicos. O programa é de grande interesse nacional e a mídia precisa desvendar os assuntos mal esclarecidos. “Compete à mídia desvendar o programa, noticiar”, disse Domingos. O jornalista não acredita que um país com as características de Cuba tenha à disposição cerca de três mil médicos “na prateleira” para entregar como se fosse “um saco de açúcar”. O repórter sublinhou que O Estado de S.Paulo mostrou que havia negociação entre os governos de Brasil e de Cuba muito antes das manifestações das ruas e do anúncio oficial do programa Mais Médicos. Por isso, ele acredita que houve um “jogo de esconde-esconde” por parte do governo.

    “Eu não digo que a mídia está rejeitando a vinda dos médicos, sejam eles de qualquer país, muito menos os cubanos. Os cubanos já estiveram por aqui e fizeram bons trabalhos. Há esse reconhecimento e matérias foram publicadas [a esse respeito]”, argumentou João Domingos. Hoje, as pautas sobre os médicos cubanos que participarão do projeto estão focadas no contrato firmado entre o governo brasileiro e a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). “Não se sabe quanto o médico vai receber. Esse dinheiro vai para o governo cubano? Tudo isso é notícia. Essas pessoas vêm para o Brasil, vão para o interior e vão conviver com a sociedade. Elas se tornam parte do Brasil”, disse o jornalista. Domingos ressaltou que a imprensa repercutiu a fala de entidades de classe contrárias à vinda dos médicos estrangeiros, mas não adotou um posicionamento editorial “raivoso” em relação a esses profissionais.

     

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    Não-violência: mais eficaz e sem máscaras

    Por Alberto Dines

    A mídia continua desnorteada diante dos protestos: não entendeu sua fase mais espontânea, orgânica, universal e continua sem avaliar a segunda fase, com baixíssima adesão e visivelmente orquestrada. Incapaz de aproximar-se do governo para captar suas percepções, nossa mídia corre solta e sonsa, ao sabor dos ventos e acasos. Socialmente secundária.

    A cobertura dos protestos do Sete de Setembro resultou pífia. Como era sábado e no sábado os diários deixam de ser cotidianos, o saldo do dia seguinte foi impreciso. E logo descontinuado já que na segunda-feira começa nova semana, página virada. As preocupantes avaliações do ministro Gilberto de Carvalho não tiveram consequência. Deveriam: se a imprensa não presta atenção ao que o governo diz, sugere ou insinua, cumpre metade da sua missão.

    Em junho, no primeiro momento, as máscaras funcionaram como ícones, algo retóricas, homenagem ao libertário Guy (ou Guido) Fawkes, que pretendia detonar a Coroa e o Parlamento britânico. Eram parte da mensagem, peças das manifestações. No segundo momento, as máscaras tornaram-se disfarces, elementos da clandestinidade, equipamentos da sedição.

    O processo radicalizou-se: em três meses, o que poderia ser entendido como descompressão ou desobediência descambou em violência, sem propósito, um fim em si mesmo. Embotados pelas rotinas, os radares da sociedade civil – a mídia – não foram capazes de identificar o antídoto natural do confronto.

    Acomodados ao paternalismo, os movimentos sociais não conseguiram perceber que o vandalismo e a baderna sequestram a sua mais preciosa ferramenta – a capacidade de mobilização popular. O que era insatisfação em estado puro foi transformado em calendário de assaltos. Deslegitimou-se.

    Papel da mídia

    A ninguém ocorreu que a única forma de confrontar a violência é através da não-violência. Nascem juntas, ambas são organizadas, mas seus custos e eficácia são opostos. A não-violência tem sido erroneamente confundida com passividade, resignação, misticismo, “paz e amor”. Nada disso: é uma forma superior de disciplina, racional, altamente conscientizada. A violência é emocional, hepática, geralmente irracionalizada.

    Gene Sharp, hoje com 85 anos, cognominado “Maquiavel do pacifismo”, é um cientista político americano que passou grande parte da sua vida estudando a história dos movimentos de mudança política. Seu tratado The Politics of Nonviolent Action (Porter Sargent Publisher, Boston, 1973) é um cartapácio de quase 900 páginas preparado sob os auspícios do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Harvard.

    Relembra a Primavera de Praga de 1968; traz de volta a extraordinária luta de Mohandas Karamchad Gandhi, o Mahatma (= Grande Alma, 1869-1948), patriarca da descolonização, pai da emancipação indiana; e atualiza a emocionante cruzada pelos direitos civis nos EUA liderada pelo pastor Martin Luther King, que acaba de completar 60 anos.

    A não-violência conseguiu impor-se até mesmo contra a sanguinária Gestapo, em Berlim, 1943, quando as mulheres não-judias reuniram-se na rua, exigiram e conseguiram que os maridos judeus fossem poupados das câmaras de gás.

    Na segunda parte, Sharp elenca e classifica 198 diferentes modelos de protesto não-violentos em todas as esferas da atividade – da defesa do consumidor à luta contra ditaduras, da desobediência civil às ações estáticas (sit-in, stand-in, ride-in, pray-in etc.).

    A não-violência não se esconde, dá a cara, não quer o poder, quer mudanças, exige resultados. Por isso dispensa máscaras. É possível entender por que o Estado, como entidade material, busque a estabilidade e só consiga enfrentar a violência com repressão. Já a mídia lida com a inteligência e a consciência, é elástica, volátil, ágil, inventiva, transformadora.

    Se empacar, sobra.

     
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    Infoglobo faz acordo e evita condenação

    Por Luciano Martins Costa

    Folha de S.Paulo publicou na sexta-feira (6/9) a notícia de que a Infoglobo Comunicações S.A – empresa proprietária dos jornais O GloboExtra e Expresso da Informação, além do Valor Econômico, no qual tem parceria com a própria Folha – foi obrigada a fechar um acordo com o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para evitar uma condenação por concorrência desleal.

    Descontando-se o fato de que a Folha omitiu seu interesse no caso, como sócia da Infoglobo no Valor, trata-se de fato raro, nos tempos atuais, em que um jornal brasileiro se refere, ainda que indiretamente, à questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação.

    A Infoglobo foi levada a assinar um Termo de Compromisso de Cessação de Prática no dia 28 de agosto, para evitar uma condenação por crime contra a ordem econômica (art. 4o., I, da Lei 8137, modificada em 2011).

    (Observe-se que, na mesma semana, três dias depois, o Globo publicava seu mea culpa por haver apoiado o golpe militar de 1964; ver aqui.)

    A empresa estava na iminência de ver cumprida uma recomendação de condenação feita no ano passado pela extinta Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, que foi incorporada ao CADE, autarquia que integra o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência.

    A corporação de jornais do grupo Globo começou a ser investigada em 2005, após queixas do Jornal do Brasil e O Dia. A prática que levou à iminência da condenação da Infoglobo é a velha e boa chantagem contra o anunciante: o departamento comercial se valia da posição privilegiada do grupo no mercado do Rio de Janeiro e oferecia preços que não podiam ser acompanhados pela concorrência.

    Além de vincular a concessão de descontos conforme a porcentagem da verba de publicidade dirigida ao Globo,Extra e Expresso, o que levava a acordos de exclusividade, a empresa ainda oferecia vantagens na veiculação de anúncios na Rede Globo de Televisão. Em alguns casos, o anúncio classificado distribuído para os três jornais custava, no total, menos do que o preço de tabela de apenas um deles.

    Por conta dessa prática lesiva à concorrência, o grupo Globo conquistou um poder de mercado incompatível com o equilíbrio esperado em condições de livre competição.

    Para fugir da condenação, a organização concordou em pagar ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, criado para reparar danos à cidadania por infração contra a ordem econômica, uma indenização no valor de pouco mais de R$ 1,94 milhão. Os termos do acordo podem ser lidos em nota oficial da Infoglobo (ver qui) publicada no site da empresa.

    Ainda o tartufismo

    Interessante notar que a Folha publica a notícia mais de uma semana depois do fato ocorrido e somente após a própria Infoglobo ter cumprido a exigência de divulgar a íntegra do acordo em dois de seus jornais.

    A punição já havia sido noticiada pelo site advivo.com.br, do jornalista Luís Nassif, no mesmo dia da decisão, 28 de agosto; saiu no site especializado em tecnologia da informação telesintese.com.br no dia seguinte e, no dia 2 deste mês, também no portal comuniquese.com.br.

     O corporativismo da mídia tradicional vem produzindo, nos últimos anos, uma circunstância que em muitos aspectos contraria os valores defendidos pela própria imprensa, no que se refere à liberdade dos mercados.

    Há cerca de vinte anos, os principais jornais brasileiros, mais o argentino La Nación, começaram a afinar seus interesses e aparar as arestas, compondo o consórcio que veio a se chamar Grupo de Diários América, uma versão mais exclusiva da Sociedade Interamericana de Imprensa, mas dirigida a questões comerciais. Essa associação passou a defender, no Brasil, os interesses específicos do Globo, Folha e o Estado de S.Paulo. A confraria acabou prejudicando outras empresas jornalísticas, como o Jornal do Brasil, nos anos seguintes, e contribuiu para abortar novos empreendimentos no setor.

    Com 70% do mercado publicitário do Rio, e tendo apenas a Via Dutra como saída para sua expansão, o grupo Globo entrou no mercado paulista ao adquirir o Diário de S.Paulo e ao se associar à Folha para criar o Valor Econômico.

    O caso que levou ao acordo da Infoglobo com o Cade é inédito e pode abrir um precedente para a discussão das verdadeiras condições em que atuam as empresas de comunicação no Brasil.

    Na quinta-feira (5/9), observamos como a defesa da livre concorrência e o apego da mídia tradicional aos dogmas do mercado lembram o personagem central da célebre obra de Molière, “O Tartufo, ou o Impostor” (ver “O tartufismo da imprensa“).

    Apanhado em práticas pouco honestas, o mais poderoso conglomerado de comunicação da América Latina se revela tão hipócrita quanto um carola de comédia.

     

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Transcrições

    Pgm 698 - Detenção David Miranda - 27/08/2013

     

    Com base na Lei Antiterrorismo britânica, e sem nenhuma acusação formal, o estudante de marketing David Miranda foi interrogado pela polícia durante nove horas no aeroporto de Heathrow, em Londres. Companheiro do jornalista britânico Glenn Greenwald, que no início de junho publicou as primeiras reportagens sobre o caso Snowden no jornal The Guardian, Miranda voltava da Alemanha após uma viagem paga pela publicação. O brasileiro trazia equipamentos com novas informações vazadas pelo ex-analista de sistemas da Agência de Segurança Nacional americana (NSA, na sigla em inglês) Edward Snowden, que foram confiscados pelos agentes de segurança.

    O governo brasileiro quer a devolução dos bens retidos e aguarda explicações sobre o episódio. De acordo com a Scotland Yard, o material apreendido com Miranda continha informações sensíveis que podem colocar vidas em risco. A detenção de Miranda pode ser interpretada como uma retaliação à publicação de dados sigilosos do governo norte-americano. Para a Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias, a atitude do governo de David Cameron põe em risco a liberdade de expressão. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (27/8) examinou as ameaças ao trabalho da imprensa nos desdobramentos do caso Snowden.

    Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Carlos Affonso Souza, e o editor executivo do jornal O Globo, Paulo Motta. Carlos Affonso é doutor em Direito Civil na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). Paulo Motta foi editor de Rio e de Política, trabalhou nas editorias Geral, Meio Ambiente e Ciência do Jornal do Brasil e foi cocriador do programa de TV Globo Ecologia. Em São Paulo, o programa contou com a presença de Fábio Zanini, editor do caderno Mundo da Folha de S.Paulo. Zanini foi correspondente do jornal na África do Sul e em Londres e também repórter de Política em São Paulo e em Brasília. Formado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, tem mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Londres.

    Como dominó

    Antes do debate no estúdio, em editorial, Dines afirmou que a detenção de Miranda não diz respeito exclusivamente à imprensa, atinge a todos os cidadãos do mundo. “A luta contra o terrorismo que serviu de pretexto para a detenção de David Miranda não pode ser travada à custa da democracia; se assim for, o terrorismo sairá sempre ganhando, já que o seu objetivo final é enfraquecer o estado de direito para impor o vale-tudo. As denúncias contra a espionagem digital americana são dirigidas contra o gigantesco aparelho de segurança dos Estados Unidos que não é uma entidade estanque, isolada, é um sistema umbilicalmente ligado, alimentado e dependente das operadoras multinacionais de comunicação digital. Cada clique que damos em nossos smartphones, tablets e notebooks, por mais inocente que seja, conecta-se de alguma maneira ao leviatã que quer saber tudo mas não admite ser devassado nem questionado.”

    A reportagem do programa entrevistou Wadih Damous, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Para ele, a detenção de Miranda foi um ato despropositado e ilegal: “Fere direitos individuais da pessoa humana, fere princípios de relações internacionais. Do nosso ponto de vista, foi um ato de Estado imperialista e com conotações totalitárias. Sob a bandeira do antiterrorismo, violam-se todas as esferas de direito que são caras à civilização”. Damous criticou a falta de acusação formal contra Miranda que justificasse a detenção: “Se, de fato, há pessoas que praticam efetivamente ou estão por praticar atos de terrorismo, que sejam coibidas de acordo com as leis internacionais. Agora, simplesmente acusar uma determinada pessoa de estar envolvida com o terrorismo e a partir daí praticar atos atentatórios à liberdade individual, aos Direitos Humanos, isso é inaceitável”.

    Para Maurício Santoro, representante da Anistia Internacional no Brasil, a arbitrariedade cometida contra Miranda não é um caso isolado. A instituição está questionando a Lei Antiterrorismo britânica, sobretudo a cláusula que permite a detenção mesmo que a polícia não tenha nenhum tipo de suspeita bem fundamentada. “Há várias questões nas quais esse combate ao terrorismo sem o controle democrático afeta a liberdade de imprensa. Pode ser por meio do assédio, da intimidação direta ao jornalista. Mas há ainda um problema mais grave, que é a ameaça difusa. Na medida em que os profissionais da imprensa veem esse tipo de perseguição acontecer, é natural que muitos deles vão se sentir assustados. Vão ter medo, vão querer fugir desse tipo de reportagem, se afastar desse tipo de pauta. E isso é mortífero para a qualidade do bom jornalismo e para qualidade da democracia. Se nós nos fiarmos apenas na maneira como as autoridades de diversos países têm lidado com o combate ao terrorismo, a primeira vítima dessa guerra vai ser a verdade”, advertiu Santoro.

    Medida inócua

    No debate ao vivo, Dines comentou que o combate ao terrorismo vem assumindo uma feição “histérica” e que a Inglaterra esqueceu-se da sua tradição de defensora da liberdade. Para Fábio Zanini, o caso David Miranda é mais um exemplo do grande dilema mundial do pós 11 de Setembro, que é o limite entre a preocupação com a segurança e o respeito às liberdades civis e de imprensa. Zanini explicou que a alegação do governo britânico para a detenção do companheiro de Greenwald é a de que ninguém está acima das leis de segurança. Para Zanini, é uma falácia o pretexto de que Miranda não é um jornalista nem estava desempenhando uma função ligada à imprensa.

    Ele estava, sim, de posse de um material de interesse jornalístico que seria levado para o Glenn produzir matérias jornalísticas. O que foi feito pelo David Miranda não é muito diferente, se você vir na essência, do que acontece nas redações do mundo inteiro, inclusive do Brasil, do motoboy que é enviado para algum lugar para pegar um envelope por um jornalista da redação”, comparou Zanini. Na avaliação do jornalista, soam ridículas atitudes como destruir as provas físicas ou fazer busca e apreensão de material. “Isso é inútil. Atualmente, a informação é distribuída por redes de computadores, é armazenada em servidores, na nuvem da internet, colocada em outros países”, explicou o jornalista. Por isso, não adianta usar um “martelinho para destruir o computador”.

    Na avaliação de Paulo Motta, instalou-se uma espécie de guerra entre a imprensa e os governos, inclusive nos países de tradição democrática, que passaram a ignorar a diferença entre o trabalho da imprensa e o acompanhamento de atividades terroristas. E o cidadão será afetado pelas consequências dessa quebra de fronteiras. O editor executivo de O Globo comentou que recentemente autoridades britânicas obrigaram o The Guardian a destruir HDs com material do caso Snowden porque os editores não quiseram entregar ao governo, mesmo após os jornalistas explicarem que a medida seria inócua porque havia cópias em outros locais. Motta relembrou que, mesmo durante a ditadura militar no Brasil, quando a imprensa foi fortemente censurada, os jornalistas não foram obrigados a destruir provas.

    Do papel ao byte

    Dines ponderou que antes das novas tecnologias de comunicação foram feitas formidáveis reportagens investigativas que chegaram a mudar os rumos da política nos Estados Unidos. Para Dines, com a universalidade da internet e a vulnerabilidade dos dados do cidadão, a sociedade corre o risco de cair nas mãos de “loucos delirantes”. Na avaliação de Paulo Motta, mesmo que a pessoa não tenha o que esconder, os governos têm o que descobrir. Nesse sentido, as redações deveriam pensar com mais cuidado em proteger os seus dados. “Eu vejo nos usuários das redes sociais uma acomodação muito grande”, criticou o jornalista. As empresas de comunicação digital faturam alto com publicidade dirigida e ainda liberam os dados dos usuários para o governo.

    Paulo Motta explicou que Glenn Greenwald foi contratado como freelancer pelo jornal O Globo antes da publicação das reportagens assinadas em conjunto com José Casado e Roberto Kaz sobre o monitoramento de dados na América Latina. Assim, deixaria a condição de informante para ter as garantias que protegem os jornalistas. “Aqui no Brasil ele está protegido, assim como nos Estados Unidos. Ele assina matérias junto com os repórteres brasileiros. Ele não é um informante de jeito nenhum, neste caso”, explicou Motta. O editor ainda lembrou que Glenn já atuava como jornalista e tinha um blog.

    O combate ao terror é apenas um pretexto, na opinião de Motta, porque instituições como a ONU e a Cúpula das Américas foram grampeadas. “Tinha interesses econômicos, de metadados. Tinha o Pré-Sal, os campos de petróleo do México. Isso é um poder na mão de um país ou de um grupo de países que desequilibra [as relações de força entre as nações]”, ressaltou. O jornalista sublinhou que as informações coletadas através das redes de monitoramento só são usadas pelos Estados Unidos e seus aliados, que podem ser favorecidos em questões geopolíticas e econômicas.

    A culpa das empresas

    Carlos Affonso Souza criticou a inércia dos governos, inclusive do Brasil, diante das revelações da rede de monitoramento das comunicações montada pelos Estados Unidos. Se, por um lado, o cidadão comum não precisa se incomodar com a vigilância porque esta é dirigida apenas a terroristas, deve-se observar que toda a atividade na internet pode ser monitorada. Mesmo ações aparentemente insignificantes, como procurar a grafia correta de uma palavra em um site de busca, podem ser rastreadas e usadas contra o cidadão. “O monitoramento é algo que ninguém deseja, ainda mais quando ele acontece em escala global, não conhecida, não informada, para finalidades que todo o mundo desconhece”, destacou o diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade da FGV.

    Dines perguntou a Carlos Affonso Souza qual o papel das grandes corporações de tecnologia na rede de vigilância de comunicações norte-americana. O representante da FGV sublinhou que a espionagem por parte de governos pode ser feita por grampos ou através da parceria com empresas, que em sua maioria estão sediadas ou operam nos Estados Unidos e estão sujeitas às leis daquele país. “Existe uma vulnerabilidade de conhecimento jurídico sobre esses problemas”, comentou Carlos Affonso. Para ele, o caso Snowden é um convite para a população em geral aprender um pouco sobre privacidade e segurança de comunicações na internet. “Existem meios de fazer a sua navegação na internet ser mais segura e mais privada”, chamou a atenção o advogado especialista em tecnologia.

    Para ele, há uma grande diferença entre o que a internet representava em 2011, durante a Primavera Árabe, e agora, com as notícias de que empresas como Facebook, Google e Microsoft teriam fornecido dados de usuários ao governo dos Estados Unidos. Carlos Affonso destacou que ainda são vendidas na Praça Tahir, no Egito, camisetas com o slogan “Facebook Revolution-2011”. A ideia da internet apenas como potencializadora de liberdades agora convive com a expectativa de estarmos sendo espionados.

     

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