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    Pgm 697 - Legalização da maconha no Uruguai - 20/08/2013

     

    Pouco repercutiu no Brasil a proposta do governo do presidente José ‘Pepe’ Mujica, do Uruguai, de regulamentar o cultivo, a venda e o consumo da maconha em seu país. De acordo com o projeto de lei, já aprovado pela Câmara dos Deputados, maiores de 18 anos poderão comprar, no máximo, 40 gramas do produto por mês em farmácias. O cultivo de até seis pés de cannabis sativa e a criação de “clubes” de maconha – onde serão vendidos até US$ 100 da erva por pessoa – também serão autorizados. O projeto tem como objetivo tirar das mãos do narcotráfico a cadeia de produção do produto e criar marcos legais para que o Estado possa controlar o uso da droga. O Observatório da Imprensa, exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (20/8), discutiu o tratamento que a mídia brasileira deu à notícia e como a sociedade pode aproveitar este momento para debater a questão das drogas.

    Para discutir o assunto, Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo Wálter Maierovitch, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, e Denis Russo Burgierman, diretor de Redação da revista Superinteressante. Especializado em criminalidade organizada e terrorismo, Maierovitch é fundador e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais e foi titular da Secretaria Nacional Antidrogas da Presidência da República. Burgierman é autor de O Fim da Guerra, uma reportagem sobre as políticas para lidar com novas drogas que recebeu o prêmio internacional de jornalismo Knight Fellowship. No Rio de Janeiro, o programa contou com a participação do psiquiatra especialista em dependência química Jorge Jaber e da filósofa e psicanalista Viviane Mosé. Jaber é presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas e dirige a Associação Brasileira de Psiquiatria. Doutora em Filosofia pela UFRJ, Mosé é especialista em Elaboração de Políticas Públicas, professora do MBA em Gestão do Conhecimento da COPPE-UFRJ e comentarista da Rádio CBN.

    Antes do debate no estúdio, em editorial, Alberto Dines afirmou que uma das principais funções da imprensa é ousar. “Bem comportada, resignada aos tabus, intimidada por vetos e embargos religiosos, sociais e políticos, uma imprensa abdica do seu atributo primal – a capacidade de abrir caminhos, inovar e liderar a sociedade. A questão da despenalização da cannabis, a popular maconha, não estava interditada, mas não era estimulada. Por quê? Porque incomoda, porque levanta questões correlatas e extremamente inconfortáveis”, disse. Dines relembrou que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recomendou aos promotores e juízes federais que abrandem as penas dos usuários da droga. Para Dines, é preciso quebrar tabus e mudar paradigmas.

    Novos modelos para antigos problemas

    Alberto Dines gravou uma entrevista com o ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Com ele, Dines comentou que a histórica decisão do presidente José Mujica teve pouca repercussão no Brasil e perguntou como é possível reverter essa situação. Para o ex-presidente, é lamentável que o tema tenha sido pouco discutido. “É uma pena. Eu vi uma declaração recentemente, uma entrevista publicada no Brasil da pessoa encarregada de cuidar do assunto da estatização da maconha no Uruguai. Uma boa entrevista. Inclusive, ele diz que não se pode generalizar a solução porque cada país tem que encontrar a sua própria. Mas eu acho que foi um gesto corajoso do presidente Mujica. Aliás, eu tenho admiração por ele. Ele é uma pessoa muito interessante. Um homem que esteve preso tantos anos e não tem ressentimento nenhum, tem bom humor, enfim, é um espírito construtivo. E corajoso, porque foi ele quem fez [a estatização da maconha no país]. Eu acho que é um gesto. Por que o que vai fazer? Vai deixar que o mercado negro tome conta, que as gangues se organizem? Eu não vejo vantagem nisso”, analisou o ex-presidente.

    Fernando Henrique Cardoso comentou que um recente editorial da Folha de S.Paulo defendeu uma mudança de paradigma em torno da questão das drogas no Brasil: “Eu fiquei até feliz de ver, porque essa expressão ‘mudança de paradigmas’ foi inventada por nós. Eu, o [César] Gaviria, presidente da Colômbia, e o [Ernesto] Zedillo, presidente do México, fizemos a primeira reunião na América Latina sobre mudar o paradigma. Está mudando. Nos Estados Unidos, obviamente, está mudando”. Na Europa, a discussão em torno do assunto está bastante adiantada. Fernando Henrique Cardoso citou o exemplo de Portugal, que conseguiu reduzir o consumo. “Eu conheço o responsável, se chama doutor [João] Goulão. Eu falei com o ministro da Saúde de Portugal – que já caiu, era do outro governo – o ministro foi quem me disse: ‘Olha, não existe droga leve, droga pesada’”.

    O ex-presidente afirmou que é preciso adequar as formas de combate aos diferentes tipos de droga e conjunturas sociais: “Lá eles não usam cocaína, eles usam heroína. E para a minha surpresa a heroína é mais parecida com a maconha, deixa a pessoa mole. A cocaína dá a agressividade, então cada droga tem a sua especificidade”, disse. “Em Portugal você não tem a pobreza que tem aqui, é um país menor, então você não tem receita, cada país tem que buscar o seu caminho. Hoje, se você obedecer às convenções internacionais da ONU, é proibido não proibir. Tem que proibir, tem que botar na cadeia e o objetivo é droga zero dentro de dez anos. Isso é uma bobagem, suicídio, não tem que mudar a cabeça, tem que se adequar, tem que ter uma posição mais aberta dessas questões, tem que discutir, tem que, como está no filme que nós fizemos [Quebrando o Tabu], quebrar o tabu. Tem que quebrar o tabu, não tem que estigmatizar. Por que o sujeito se drogou, então está perdido? Não. Bebeu, então está perdido? Não está.”

    Um mal menor?

    Para FHC, é preciso separar a ação de acordo com as substâncias. “Uso de droga, quando é o caso, vamos tratar, é saúde pública. Então, o governo tem que dar assistência. E prevenção. A família tem que entrar, todo mundo tem que discutir porque as drogas fazem mal, tem que ter campanhas e tal. Agora, o traficante é caso de polícia. Aqui no Brasil há a sensação de que uma droga leva à outra. Então o perigo da maconha é que a maconha leva à outra. Não é verdadeiro. O que leva à outra é o traficante, porque ele ganha mais com a droga pesada do que com a maconha. Eu vi muitos estudos sobre o grau de periculosidade de várias drogas. Aparentemente – eu digo aparentemente porque não sou médico – a maconha é menos danosa do que o álcool, do que o cigarro”, disse o ex-presidente.

    No entanto, Fernando Henrique Cardoso sublinhou que todas as drogas causam danos e que é preciso realizar campanhas de conscientização: “Uma droga leve, tomada o tempo todo, faz mal. Se você fumar maconha de manhã à noite, você está mal. Eventualmente a cocaína pode não fazer mal, isso também varia de cada pessoa. No mínimo, você tem que dar informação e regular – o que nós fizemos com o cigarro, o tabaco. Ninguém proibiu o tabaco, mas há campanhas insistentes para diminuir o uso do cigarro. E está dando efeito. A mesma coisa a droga: não tem cabimento permitir que o sujeito da escola fume nem cigarro, nem maconha, nem nada. Tem que regular, educar, combater”.

    Também foi discutida na entrevista a necessidade de despolitizar o debate sobre a maconha. “Os partidos têm medo da eleição. Eles acham que vão ser acusados de estar metidos em não sei o quê. Isso é um caso que tem que ser discutido na sociedade civil. O projeto mais avançado que eu vi lá foi do [deputado] Paulo Teixeira, do PT, e eu apoiei. Aliás, eu gosto dele, sobre essa questão das drogas, ele tem boas posições. O Tarso Genro, quando era ministro da Justiça, almoçou aqui em casa porque ele tem posições também desse tipo. O Eduardo [Cardoso] também pensa a mesma coisa. Agora, tem que romper os tabus. Isso não é PT, nem PSDB, nem PMDB, isso é outra coisa. Nós temos que nos reunir e pensar: ‘O que é razoável para o país?’”, propôs o ex-presidente.

    Dinheiro sujo

    No debate ao vivo, o desembargador Wálter Maierovitch explicou que a ação do presidente Mujica no Uruguai foi inspirada na iniciativa da Holanda, que em 1976 liberou o uso da maconha em cafés para maiores de idade. O objetivo era afastar o usuário do traficante. “Com isso, pela primeira vez, se quebra o paradigma do proibicionismo do modelo norte-americano, que consiste em ameaçar o usuário com pena de prisão no sentido de reduzir a demanda às drogas. O Uruguai, seguindo o modelo holandês e sem perder de vista o sucesso de Portugal, rompe com o proibicionismo e legaliza o uso adotando a cultura jurídica ocidental que não pune, [nem] criminaliza a autolesão”, ponderou Maierovitch. O desembargador criticou o fato de a mídia “esconder” que a questão das drogas envolve interesses geoeconômicos, políticos e estratégicos, e não só de saúde pública. É preciso examinar a questão reunindo todos os aspectos ao mesmo tempo e não apenas temas como o sistema penitenciário superlotado.

    Hoje, no mundo, a cada 20 pessoas, uma faz uso de droga proibida. “A imprensa não fala de Estados dependentes, de Estados que têm o PIB que necessita do comércio das drogas. Nós também temos um sistema bancário – que a convenção da ONU de 1988 chamou a atenção e a imprensa se cala a respeito disso, infelizmente – em que 400 bilhões de dólares por ano são movimentados planetariamente pelo narcotráfico. Todo esse dinheiro passa pelo sistema bancário internacional”, ressaltou Maierovitch. Ele lembrou que em 2010, por conta da crise econômica, o sistema interbancário de compensações não quebrou devido ao dinheiro do narcotráfico.

    O psiquiatra Jorge Jaber disse que, sob o ponto de vista científico, o caso do Uruguai pode revelar informações interessantes para a comunidade médica. Por outro lado, como médico que atua diariamente com dependentes químicos, o psiquiatra encara a iniciativa com temor. “Antes de liberar, nós temos que tomar as medidas necessárias para o controle. Por exemplo, no nosso país não há controle do uso do álcool. Ele é vendido para jovens com idade em que o cérebro ainda está em formação”, disse o médico. A situação é ainda mais preocupante fora dos grandes centros urbanos, onde a juventude não conta com boa alimentação, oportunidade de estudo e atenção médica primária.

    A educação e a prevenção são a base para impedir o avanço do uso de drogas, sobretudo em relação à juventude. “Nós temos que ensinar à criança que ela deve tomar cuidado com qualquer substância que ela vai colocar para dentro, o detergente da cozinha, o sabão. Ela tem que aprender a ter cuidado com aquilo que ela vai consumir para que se em algum momento da vida houver a liberação ou alguma facilidade de uso [das drogas], essa criança, já um pouco mais crescida, possa reconhecer o perigo e tomar as medidas necessárias”, propôs o psiquiatra.

    De olhos fechados

    Para Denis Burgierman, a mídia não tem feito o seu trabalho diante da questão das drogas. Desde os anos 1930, a imprensa tenta deixar os jovens com medo para afastá-los da “tentação” da droga. “Em grande medida, a imprensa brasileira continua fazendo isso. As reportagens sobre drogas no Brasil são concebidas mais para assustar, para disseminar o medo e afastar as pessoas de qualquer vontade de experimentar, do que para disseminar a informação, contar a verdade, contar os fatos. Essa história está mudando nas principais publicações do mundo”, disse Burgierman. O jornalista disse que as revistas The Economist e New Yorker e jornais do porte do The Guardian e do The New York Times têm produzido importantes reportagens sobre a cadeia de produção das drogas e o “mundo negro” que ninguém tinha coragem de discutir.

    Depois de quatro décadas de proibicionismo liderado pelos Estados Unidos, nos últimos dez anos os países passaram a tratar a questão das drogas de acordo com as suas particularidades históricas, políticas e sociais. A Europa vive um momento de experimentação e Portugal é um exemplo de iniciativa pioneira na área da saúde. Até os Estados Unidos, criadores da política “ultrarrepressiva”, já legalizaram o uso medicinal em parte de seus estados e dois deles permitem o uso recreativo. “Se a gente era um monólito há dez anos, só tinha um caminho possível de se seguir, o que eu estou vendo é que a gente vai ter um panorama muito diverso daqui a cinco anos”, apostou Burgierman. Para ele, diferentes modos de abordar o problema surgirão. Apesar dos avanços em todo o mundo, por aqui a questão ainda é tabu: “Hoje em dia o Brasil é um país quase medieval no que se refere à discussão sobre política de drogas”, disse. Para o jornalista, o debate no Congresso Nacional está muito atrasado, principalmente por medo da reação da sociedade.

    Viviane Mosé ressaltou que a imprensa – mesmo diante do temor de contrariar a sociedade – precisa se deter sobre dois pontos: o fracasso das políticas antidrogas adotadas até o momento em todo o mundo e a necessidade inerente ao ser humano de “se perder de nós mesmos” para se divertir e esquecer os aborrecimentos. “A pergunta é: a luta contra as drogas é a luta contra o mal que ela de fato faz, e tem que ter consciência disso, ou é uma guerra moralista que quer instaurar a ordem e desestabilizar a desordem que é tão necessária para a gente viver?”, questionou Mosé. A psicanalista afirmou que os dados mostram que as políticas não surtiram efeito. O consumo de drogas aumentou, as penitenciárias estão superlotadas e os detentos envolvidos com o tráfico, inclusive os usuários, são a maioria. Há uma grande quantidade de recursos voltada para o combate às drogas e não para a educação.

    A filósofa disse que comprar drogas ilícitas no Brasil é mais fácil do que comprar alguns medicamentos, como antibióticos: “As drogas hoje no Brasil são oferecidas livremente, em qualquer lugar”. Para ela, é preciso lembrar que o Uruguai está liberando a maconha e não outras drogas, como a cocaína. “O que a maconha provoca, como perda para um cidadão, a gente sabe que é muito menos grave do que o álcool. A maconha é tão grave como o cigarro. A maconha é danosa, o cigarro também é danoso. O álcool é mais danoso do que a maconha, mas nós convivemos com o álcool. Todo mundo toma um vinhozinho quando chega em casa. Então, eu acho que a gente tem que sair da hipocrisia e da moralidade e tratar o problema de fato, como ele acontece, como ele é”, defendeu a psicanalista.

     

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    Alberto Dines comenta notícias da semana:

    Alberto Dines comenta o programa "Mais médicos", o passeio de motocicleta da presidente Dilma Rousseff e a censura ao jornal paranaense Gazeta do Povo, que foi proibido pela Justiça de seguir publicando investigação contra o presidente do TJ-PR, o desembargador Clayton Camargo:

     

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    A metáfora da motocicleta

    Por Alberto Dines

    Afinal, a nossa presidente dirigiu a máquina ou estava na garupa? Cada país tem os debates e dilemas existenciais que merece (ver aqui e aqui). Nosso “ser ou não ser” neste aziago 24 de agosto – o 59º desde o suicídio de Getúlio Vargas – é surpreendente.

    A primeira mandatária é uma motoqueira que não resiste à sensação de liberdade propiciada por uma poderosa Harley-Davidson deslizando no asfalto de Brasília, ou tudo não passa de armação dos marqueteiros e comunicadores para trocar a imagem da birrenta chefe de Estado que, aos quase 66 anos, cansou dos tailleurs formais e reuniões improdutivas para aproximar-se da juventude?

    Se, porventura, pilotou a moto cometeu uma infração, já que não tem habilitação. Se, acaso, estava na garupa, como carona, é legítimo perguntar – quem é o privilegiado e estouvado condutor? Não haveria outra forma de distrair a primeira mandatária na folga dominical? Por que não deu uma passada numa das livrarias da capital para folhear as novidades ou chamou os amigos para assistir no cineminha do Alvorada ao fascinante Hannah Arendt?

    Tudo bem: passear no Rolls Royce presidencial com a capota arriada, ao lado da filha e do neto, causaria revolta equivalente à dos brioches de Maria Antonieta (história, aliás, inverídica), mas sendo mineira e carente de mar por que não escolheu uma volta de lancha no lago Paranoá? Faria um bem enorme às vias respiratórias ressecadas pelos ares da capital no inverno.

    Mudanças concretas

    Leitoras devem estar indagando se usou um blusão de couro ou como ajeitou o topete laqueado no capacete obrigatório. Analistas e politólogos debruçam-se sobre o significado dessa rebeldia contra as formalidades e a solidão palaciana, psicólogos certamente acham que uma Dilma humanizada fica mais próxima dos manifestantes do que da zangada base aliada.

    Fato ou factoide, impulso espontâneo ou armação, a verdade é que o episódio motociclista só reforça a impressão de que estamos vivendo um dos mais graves momentos desde a redemocratização. O gigante acordou, afirmam os especialistas de olho nas Jornadas de Junho, mas o despertador foi uma frustração montante, revolta surda contra o triunfalismo enganoso, contra os scripts antecipados, contra o jogo feito, sem opções, irrecorrível.

    Quase três meses depois das primeiras manifestações, as lideranças continuam perplexas, atônitas e catatônicas, fixadas em outubro de 2014 e absolutamente desatentas ao que pode acontecer em outubro, ou novembro, ou dezembro de 2013.

    Solto o pino que segurava a máquina de protestar, sumiu a passividade, a capacidade de engolir sapos e resignar-se ao circo de horrores da nossa política. Cada segmento da sociedade quer uma vitória equivalente aos 20 centavos que não foram aumentados nas tarifas de transporte público de São Paulo.

    O conjunto desses simbólicos 20 centavos economizados representa uma formidável coleção de mudanças em todos os campos, esferas e latitudes. Inclusive na imprensa e no jornalismo. O país que foi para as ruas não estava sendo percebido por aqueles que pelo contrato social não podem perder de vista os interlocutores. Em meio a tantos mea-culpa ainda não se ouviu algo parecido com um pedido de desculpas dos veículos de comunicação pela desatenção e descaso ao seu público. Algo precisará mudar e não apenas em matéria de atitudes.

    O país que foi para as ruas quer mudanças concretas, visíveis, palpáveis, imediatas. Quer uma mexida geral, movimento. Em matéria de urgência, a metáfora da motocicleta é perfeita.


    Artigo publicado originalmente no Correio Popular (Campinas) e na Gazeta do Povo (Curitiba), em 24/8/2013, e reproduzido no site do Observatório.

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    Pressionado pelo governo, ‘The Guardian’ destruiu arquivos digitais

    Tradução de Larriza Thurler, edição de Leticia Nunes. Informações de Julian Borger [“NSA files: why the Guardian in London destroyed hard drives of leaked files”,  The Guardian, 20/8/13]

    Editores do jornal britânico The Guardian tentaram explicar, esta semana, um dos episódios mais estranhos da história do jornalismo na era digital. No dia 20/7, em um porão dos escritórios do jornal, em Londres, um editor e um especialista em computação usaram um triturador e outras ferramentas para destruir discos rígidos de computadores e cartões de memória que continham cópias de arquivos secretos vazados por Edward Snowden.

    A ação foi observada por técnicos da CGHQ, agência de espionagem e segurança britânica, que tiraram fotos e fizeram anotações, mas nada levaram. O editor-chefe do Guardian, Alan Rusbridger, já havia informado ao governo britânico que existiam outras cópias dos arquivos fora do país e que o jornal não era o único receptor e detentor dos arquivos vazados pelo ex-técnico da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA. No entanto, o governo insistiu que o material deveria ser apreendido ou destruído.

    A tentativa inicial do Reino Unido para impedir a divulgação do conteúdo dos arquivos aconteceu duas semanas depois da publicação da primeira matéria com base no vazamento de Snowden, sobre uma ordem secreta da corte americana obrigando a provedora de telefonia, TV e internet Verizon a entregar dados sobre os registros telefônicos de seus clientes. Depois deste texto, foi publicado outro sobre como a agência de espionagem britânica estava usando os dados coletados pelo programa de monitoramento online da NSA, chamado de Prism. Dias depois o jornal publicou outra reportagem revelando como a inteligência britânica espionou aliados do país em dois encontros em Londres.

    Visitas em série

    Após a publicação das reportagens, dois funcionários do governo britânico foram ao escritório do Guardian. Falaram com Rusbridger e com seu subeditor, Paul Johnson, e pediram os arquivos de Snowden que estavam com o jornal. Eles alegaram que o material era roubado. Não houve ameaça escrita. Os editores argumentaram que os documentos eram de interesse público.

    Depois de três semanas – e com a publicação de matérias sobre vigilância de internet e telefonia –, os funcionários voltaram ao Guardian com uma aproximação mais dura: “Vocês já se divertiram. Agora queremos o material de volta”, teriam dito. Eles acrescentaram, ainda, que a paciência com o jornal estava se esgotando e que governos, especialmente o da Rússia e o da China, poderiam invadir a rede de TI do Guardian – os editores explicaram que os arquivos não estavam guardados no sistema do jornal. Mesmo assim, em um outro encontro, um especialista da agência de inteligência argumentou que o material ainda era vulnerável.

    Entre os dias 16 e 19 de julho, o governo aumentou a pressão e, em uma série de telefonemas e encontros, ficou mais explícita a possibilidade de uma incursão policial ou ação legal. Advogados do jornal acharam que o governo poderia dar início a procedimentos criminais.

    Com medo de ter que entregar o material ou ter sua publicação interrompida, o Guardian optou por destruir os arquivos. Rusbridger argumentou que a entrega do material representaria uma traição à fonte – no caso, Snowden –, já que os arquivos poderiam ser usados na sua condenação. “Não acredito que teríamos o consentimento de Snowden para entregar o material e não queria ajudar as autoridades britânicas a saber o que ele nos forneceu”, contou Rusbridger, acrescentando que a publicação de matérias pode continuar a ser feita a partir dos EUA ou do Brasil. Nos EUA, jornalistas estão protegidos pela Primeira Emenda da Constituição americana, que garante a liberdade de expressão.

    Doze dias depois da destruição dos arquivos, o jornal publicou matéria sobre o financiamento americano de operações de escuta da CGHQ e um perfil de como é trabalhar no escritório da agência em Cheltenham. A versão americana do Guardian, sediada em Nova York, continuou a publicar evidências da cooperação da NSA com empresas de telecomunicações americanas para maximizar a coleta de dados na internet e aparelhos celulares em todo o mundo.

    Pressão do governo

    O governo britânico vem tentando aumentar a pressão sobre jornalistas. No último fim de semana, ficou detido por quase nove horas, no aeroporto de Heathrow, em Londres, o brasileiro David Miranda, parceiro do correspondente do Guardian Glenn Greenwald, para quem Snowden entregou os documentos vazados. A detenção de Miranda foi justificada por uma seção da legislação britânica aprovada em 2000, destinada ao combate ao terrorismo. O brasileiro havia ido para a Alemanha, em viagem paga pelo Guardian, e trazia arquivos digitais com mais documentos de Snowden.

     

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    Hipólito da Costa era Ninja

    Por Alberto Dines em 20/08/2013
     
    Há um clima de estupidez no ar. Estupidez no sentido de barbárie, estupidez no sentido de estultice. Felizmente longe das guerras, damos a volta ao mundo em busca de um belicismo extemporâneo que distribui tacapes a quem deveria ocupar-se em construir consensos.

    Para enfrentar o frio e/ou o esvaziamento das redações, nossa mídia empenha-se num esquentamento generalizado. Quer barulho, calor. A vítima do mais recente exercício de tiro ao alvo tem sido a nanica Mídia Ninja, subitamente alçada à posição de destaque pela própria grande mídia.

    Arrependida e para não se desmoralizar, girou para o lado suas metralhadoras midiáticas e descarregou seu furor contra o coletivo musical chamado Fora do Eixo, onde o projeto Ninja foi incubado. O criador desse circuito alternativo, Pablo Capilé, foi convertido em Inimigo Público nº 1 e em seguida linchado pelas manadas de predadores das redes ditas sociais. É possível que o FdE tenha cometido erros e enveredado pelo caminho das simplificações, mas qualquer experiência antes de ser bem sucedida atrapalha-se com enganos.

    A Mídia Ninja, comandada por Bruno Torturra, passou a chamar a atenção no exato momento em que o país começou a reparar nos absurdos e abismos para os quais estava (está?) sendo conduzido. Tal como as Jornadas de Junho, é um fenômeno – e os fenômenos precisam ser observados, comparados, referenciados, discutidos. Sobretudo aproveitados.

    Injeção de ânimo

    História é mudança, jornalismo é mudança em alta pressão, mudanças não percebidas geram desastres. Em abril passado, a indústria jornalística brasileira finalmente assumiu a sua crise identitária e estrutural. Em junho, enquanto a sociedade ia para as ruas tentando vocalizar suas frustrações, patenteou-se a incapacidade de nossa imprensa – e de nossas lideranças políticas, acadêmicas e administrativas – em perceber o que acontecia além dos respectivos umbigos.

    A Mídia Ninja destacou-se naquele momento. Foi parar no Jornal Nacional – o registro oficial, autorizado, do que acontece. E essa façanha não foi casual, resultou da pasmaceira generalizada, do culto aos formatos rígidos e à inovação burocratizada.

    Os Ninja entraram em campo com a tecnologia a serviço da autenticidade, da instantaneidade, e não a serviço da cosmética, do glamour e da falsa informalidade. Não chegou a ser um sacolejo real, foi uma promessa de movimento. Ninguém discutiu o seu “modelo negócio”, todos se animaram com o modelo de despojamento.

    O fenômeno equivale ao acontecido nos anos 1960-70, durante a ditadura militar, quando uma imprensa amordaçada ou autocensurada só conseguiu aproveitar as lições e paradigmas da imprensa alternativa, udigrudi (de underground) ou nanica, quando o processo de distensão política já estava em andamento.

    Qual era a matéria-prima da imprensa alternativa? A informação não censurada, a opinião livre, A Folha de S.Paulo foi atrás: não apenas criou uma página de opinião (que até então não tinha) como foi preenchê-la com a contratação de um punhado de marginalizados e punidos pela ditadura. Meses depois criou a segunda página de opinião (inspirada na op-ed-page dos americanos) e chegou mesmo a atrair para a equipe do jornal alguns azes da imprensa alternativa (o mais notório, Tarso de Castro, egresso do Pasquim). Pouco depois, o jornal foi obrigado a recuar, esqueceu o surto libertário, e o resto da imprensa fingiu que nada acontecera.

    Se não for atalhada, constrangida e manietada, a Mídia Ninja poderá equivaler em matéria de adrenalina, descontração e invenção aos nanicos e alternativos de quarenta anos atrás. Queiram ou não aqueles e aquelas que se consideram proprietários exclusivos da experiência alternativa.

    Sentido de direção

    A edição do Economist de 10/8 (pág. 30) relembra a história do estudante Soe Myint, que conseguiu escapar da brutal repressão dos militares da antiga Birmânia (hoje Myanmar), refugiou-se na Índia e lá criou uma agência de notícias usando uma rede clandestina de repórteres. O país prepara-se hoje para eleições livres e esses repórteres marginais estão em postos-chave da grande imprensa birmanesa. Eram alternativos, algo Ninjas, fizeram bom jornalismo, ficaram.

    Perseguido pelo senador Joseph McCarthy, o repórter investigativo Isidor Fainstein entrou para a história do jornalismo americano como I.F. Stone. Ao longo de 17 anos, escreveu e editou sozinho um newsletter semanal com a melhor cobertura da política americana. Era um Ninja, tornou-se paradigma, instituição.

    Antes dele, em 1808, um conterrâneo refugiado em Londres para escapar das malhas da Inquisição lançou um mensário que escreveu e editou sozinho durante 14 anos, o Correio Braziliense. Hipólito da Costa foi um clássico Ninja e tornou-se o patriarca da imprensa livre em língua portuguesa.

    Os Ninja capazes de entender o conceito de renovação poderão dar sentido e direção a uma mídia engessada e baratinada.

     

     

    Publicado originalmente no site do Observatório.

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    Pgm 696 - Lei de Acesso à Informação - 13/08/2013

     

    Em junho, quando os primeiros protestos exigindo o combate à corrupção e melhorias na qualidade dos serviços públicos começavam a tomar as ruas do país, a Lei de Acesso a Informações Públicas completava um ano em vigor. Ferramenta indispensável para a transparência e o controle social dos gastos governamentais, a lei ainda não contagiou a população. Ela vale para órgãos públicos dos três poderes nas esferas federal, estadual, distrital e municipal. Dados de interesse coletivo, exceto os sigilosos, podem ser solicitados sem a apresentação de justificativas. O prazo para resposta é de, no máximo, um mês. Um levantamento feito pelo Poder Executivo mostrou que no primeiro ano de vigência da lei foram feitos mais de 88 mil pedidos a órgãos federais. O acesso foi permitido em mais de 80% dos casos.

    Mesmo no Poder Executivo as respostas podem não ser satisfatórias. Uma pesquisa feita pela organização Artigo 19, dedicada à proteção da liberdade de expressão e informação, mostra que as agências reguladoras deixaram de responder a cerca de 70% dos pedidos de informação. E mais da metade das requisições feitas aos Executivos municipal e estadual não foram respondidas. Para a organização, o silêncio ainda é a regra e não a exceção. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (13/8) discutiu como a Lei de Acesso à Informação pode ser usada pela mídia e pela população para pressionar o poder público.

    Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu em Brasília o ministro Jorge Hage, da Controladoria Geral da União (CGU), e o jornalista Fernando Rodrigues, repórter e colunista da Folha de S.Paulo. Mestre em Administração Pública pela University of Southern California e em Direito Público pela Universidade de Brasília (UnB), Hage foi professor e pró-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), prefeito de Salvador e deputado federal. Fernando Rodrigues é diretor e fundador da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e coordena o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. Foi editor de Economia e correspondente internacional. No Rio de Janeiro, o programa contou com a presença do jornalista Chico Otávio, repórter especial do jornal O Globo. Professor da PUC-Rio, recebeu cinco vezes o Prêmio Esso. É autor de reportagens de destaque como o escândalo da LBV, a máfia do INSS, o caso Riocentro e fraudes nas importações.

    Vetor de mudança

    Em editorial, antes do debate ao vivo, Dines sublinhou que a Lei de Acesso tem um papel decisivo para sustentar as demandas por mudança da sociedade. “Por mais ágil, responsável e pluralista que seja a imprensa, sem um sistema eficaz de saca-rolhas, a sociedade torna-se cega, surda e, sobretudo, alheia ao que está acontecendo nas diferentes esferas e instâncias do poder. Este Observatório já tratou do acesso à informação na véspera da entrada em vigor da lei assinada pela presidente Dilma Rousseff, em maio do ano passado. Agora é hora de examinar resultados, verificar falhas e, principalmente, identificar os focos de resistência ao pleno acesso”.

    A reportagem exibida antes do debate ao vivo entrevistou o antropólogo Roberto DaMatta, que coordenou uma pesquisa sobre a Lei de Acesso. Para ele, o governo deveria ter conscientizado a população: “As pessoas não sabem em geral sobre a lei porque faltou divulgação e, sobretudo, uma campanha – como eu disse e tinha razão – que explicasse melhor o alcance dessa lei, as implicações dessa lei, não somente para os cidadãos, para os seus interesses pessoais, mas, sobretudo, em relação à própria democracia brasileira. Tem a ver com uma espécie de alheamento, que a gente agora está começando a perder, uma ideia de que não adianta fazer nada porque o Brasil já vem caminhando errado há muito tempo e a gente não conserta, que eu acho que é uma visão errada”.

    Para ele, é preciso discutir o porquê de tão poucas pessoas procurarem fazer uso das prerrogativas dessa lei. “O que é interessante nessa lei é que ela é uma ponte entre essas duas entidades: uma que é muito falada, muito exaltada, que é o Estado, cujos membros acham que sabem todos os problemas do Brasil, que têm uma visão da realidade que nós, que não estamos no Estado não temos; e a sociedade, que em geral é quem paga o pato, quem inclusive sustenta esses funcionários todos que não têm muita noção de que são pagos pelo nosso dinheiro”, criticou o antropólogo.

    Ainda longe do ideal

    O diretor da organização Contas Abertas, Gil Castello Branco, afirmou que a lei ainda não está vigorando no país de forma plena. Apenas 8% dos 5.564 municípios brasileiros a implementaram. “A lei ainda não tem uma vigência nacional, nos municípios a dificuldade é ainda muito maior do que nos estados, e nos estados ainda é maior do que no governo federal, sobretudo no Legislativo e no Judiciário, que também oferecem resistência a essas divulgações”, explicou. De acordo com ele, o processo está bastante simplificado no Poder Executivo Federal porque foi criado um site específico para o encaminhamento e acompanhamento das demandas. Já no Legislativo o mecanismo é extremamente confuso, o que pode ser uma forma de esconder a informação global.

    Além de auxiliar a população a monitorar os gastos públicos, a Lei de Acesso também pode ter um forte impacto para a pesquisa na área de Ciências Sociais. O historiador Carlos Fico contou que sempre tinha dificuldades em ter acesso a alguns documentos da ditadura militar, mas que com a Lei de Acesso à Informação os servidores passaram a liberar o material. “Logo depois da aprovação da lei eu fui ao Arquivo Nacional e fiz um requerimento solicitando uma série de documentos que até então eu não tinha acesso, justamente para testar a funcionalidade da Lei de Acesso. Não só para mim, vários alunos meus, orientandos de mestrado e doutorado, fizeram esse mesmo pedido e felizmente correu tudo bem”, disse o historiador. Carlos Fico acredita que a Lei de Acesso faz parte de um processo pedagógico da cultura política da sociedade brasileira que irá ajudar a consolidação dos direitos civis.

    Guilherme Canela, assessor de Comunicação e Informação da UNESCO para o Mercosul, explicou que as leis de acesso à informação pública ganharam importância significativa na América Latina nos últimos dez anos. “Hoje são 12 países que contam com leis bastante amplas em relação a essa matéria, e em quase todos os casos essas leis foram aprovadas a partir de uma demanda bastante significativa das diferentes associações de jornalistas, sobretudo de jornalistas investigativos. Então, não só os jornalistas latino-americanos utilizam as leis de acesso à informação no seu dia a dia, como [também] eles estiveram no processo mesmo de constituição, aprovação e discussão inicial dessas leis em diferentes países”, disse Canela. Com o tempo, as leis de acesso estão sendo cada vez mais utilizadas por diferentes setores da sociedade, como empresários e representantes de organizações não governamentais.

    O jornalista Diego Cabot, do diário argentino La Nación, explicou que em seu país não existe uma lei de acesso à informação pública. “No fim de 2004, foi sancionado um decreto presidencial de [Néstor] Kirchner que regulava um tipo de procedimento para pedir informação de algum lugar. Não é uma lei, é um decreto. A verdade é que os órgãos públicos o cumprem de má vontade, são bastante resistentes a cumpri-lo. Estou cansado de pedir informações de [determinados] assuntos. Por exemplo, eu pedia os voos que a presidente da nação contratava para trasladar funcionários, que é dinheiro público e deveria ser informação possível de encontrar. Nunca me responderam. A verdade é que o decreto não é uma lei, e se o órgão não responde a informação, o jornalista tem que ir à Justiça iniciar uma ação que é muito lenta, demorada e dura muitos anos. Não há um procedimento administrativo que obrigue um órgão a cumprir. Se não, tem que recorrer à Justiça”, disse Cabot. Segundo ele, esse panorama afeta ainda mais a imprensa porque acaba exigindo a presença de advogados e aumentando os custos do processo.

    Mais divulgação

    No debate ao vivo, o ministro Jorge Hage explicou que a CGU acompanha a evolução da implementação da Lei de Acesso em todas as esferas, mas não tem poder para interferir nos outros poderes. Apenas 16 estados e 14 prefeituras de capitais já regulamentaram a lei. Entre os municípios o andamento é ainda mais lento. Mesmo entre os que têm mais de 100 mil habitantes, apenas 13% implementaram a lei. Para tentar acelerar o processo, o governo federal está lançando um programa chamado Brasil Transparente, que irá oferecer cooperação técnica sobre os sistemas de controle e acompanhamento de pedidos de informação, capacitação de funcionários públicos e distribuição de material informativo.

    Nós sabemos das dificuldades [nos outros poderes] através da imprensa, das reclamações dos jornalistas. No que toca ao governo federal, é evidente que existem áreas mais sensíveis, onde há uma maior incidência de justificativas, certa ou errada, de negar uma informação porque aí há a incidência de sigilos assegurados por leis anteriores”, explicou o ministro. Precisam ser protegidos alguns dados bancários e fiscais. As empresas estatais que atuam em regime competitivo podem negar informações consideradas privilegiadas. “Determinadas áreas, naturalmente, pelo seu próprio campo de atuação, são mais expostas a possibilidades de ocorrer a incidência de negativas”, justificou o ministro. Por outro lado, Jorge Hage destacou que a média do tempo de resposta para as demandas encaminhadas ao governo federal é de apenas um terço do prazo máximo estabelecido pela lei. E o índice de recursos, de acordo com o ministro, é pequeno: cerca de 6%.

    Jorge Hage ressaltou que qualquer pessoa pode acionar o sistema de informação ao cidadão do governo federal, tanto via internet quanto presencialmente, nos ministérios e principais órgãos públicos. A única exigência é o cadastramento e a maioria dos dados do formulário é de preenchimento facultativo. Apenas 5% dos pedidos de informação vêm de jornalistas: no primeiro ano de vigência da lei, foram feitas somente 5 mil solicitações de jornalistas. “Significa que a população, de um modo geral, já começa efetivamente a utilizar [a lei]”, disse o ministro. Hage relembrou que durante os primeiros anos em que o Portal da Transparência esteve no ar, apenas um pequeno número de usuários usava a ferramenta. Geralmente, eram jornalistas, membros do Ministério Público ou parlamentares de oposição. Hoje, o site tem cerca de 800 mil acessos por mês, o que indica que a população passou a usar os dados do portal.

    O ministro-chefe da CGU reafirmou que as ferramentas de transparência servem como um instrumento para o cidadão, jornalistas e membros do Ministério Público e ONGs monitorarem os gastos públicos. Como consequência da maior fiscalização, o mau uso das verbas públicas tende a diminuir: “Quanto mais você informa, mais você está abrindo a administração, dando visibilidade de tudo o que ocorre. É natural que isso amplie o número de denúncias”, disse Hage. O ministro acredita que, antes das iniciativas de transparência tomadas pelo governo, as informações ficavam “submersas”. Hoje, a conscientização pode atuar como uma “vacina preventiva” contra a corrupção.

    Entraves e recusas

    Dines perguntou ao jornalista Chico Otávio quais foram as principais dificuldades encontradas no primeiro ano de vigência da Lei de Acesso. Para o repórter, a lei representa um avanço, mas alguns setores, como o Exército, ainda mostram resistência em divulgar os dados. Em uma pauta recente sobre as escolas de formação das Forças Armadas, quando a equipe tentava obter informações a respeito da origem dos agentes da repressão, os dados foram recusados três vezes. Na primeira alegação, o Exército ponderou que o encaminhamento havia sido feito ao órgão errado. Em seguida, que nunca havia existido escolas nesses moldes. O jornal conseguiu provar que os centros de formação funcionaram, mas a instituição, por fim, respondeu que a documentação não existia. Agora, o jornal pensa em recorrer à Justiça comum.

    Para um bom repórter, recusas e negativas só aguçam a curiosidade, só aumentam as suspeitas”, advertiu Chico Otávio. O jornalista citou que colegas na redação de O Globo têm encontrado problemas para receber informações no ministério das Relações Exteriores, no BNDES e na Petrobras. Para o jornalista, nesses primeiros quatorze meses, as instituições ainda estão trabalhando de forma reativa, esperando a provocação da sociedade. “É óbvio que todos esses pedidos ficam registrados em algum lugar. E já se sabe o que se está perguntando, o que mais se quer. Então, por que esperar pelo próximo pedido? É hora de, à luz do que já foi solicitado, tomar a iniciativa de divulgar, antes de chegar o próximo pedido. Eu não vejo dificuldade nenhuma nisso”, disse Chico Otávio.

    O jornalista Fernando Rodrigues lamentou que a lei ainda não tenha sido implantada de maneira homogênea em todos os poderes e esferas. “A grande dificuldade que os jornalistas enfrentam é o critério diferente que se usa em diferentes instâncias de governo. No governo federal, em geral, é onde a Lei de Acesso tem sido aplicada de maneira mais completa, mas ainda assim há bolsões de resistência dentro do governo federal”, disse o jornalista. Além das Forças Armadas, o Poder Judiciário e o Ministério Público ainda estão, paradoxalmente, bastante fechados. “Muitas vezes as informações requeridas não aparecem, não são fornecidas. Isso é um sinal de que a lei não está em pleno vigor. Agora, ela foi uma medida civilizatória para o Brasil”, argumentou Rodrigues. Para ele, as dificuldades encontradas até o momento não são uma surpresa dada a abrangência da lei e o atraso do país no que diz respeito à transparência.

    Dines comentou uma recente reportagem da Folha de S.Paulo (12/8) sobre transporte público na qual o repórter informa que obteve os dados por intermédio da Lei de Acesso. Fernando Rodrigues explicou que a maioria dos jornalistas da Folha tem mencionado a lei quando usa o mecanismo para sustentar uma pauta. No mesmo dia em que a Folha trazia o texto, o seu concorrente direto, O Estado de S.Paulo, também publicava uma importante reportagem feita com base na Lei de Acesso. “Isso não significa que o mundo está perfeito. Significa que essa é uma ferramenta útil que vai ser cada vez mais usada e que tem ajudado muito o bom jornalismo. Há muitas dificuldades, mas às vezes há muito êxito quando se busca informação por meio da lei”, assegurou Rodrigues.

     

  • Bastidores

    O dia em que a imprensa virou mídia

    Por Alberto Dines em 13/08/2013

    As ruidosas e majoritariamente eufóricas manifestações em torno da venda do Washington Post ao bilionário digital Jeff Bezos, dono do maior entreposto de livros de todos os tempos, poderiam ser enfeixadas num dossiê intitulado “Muito barulho por nada” (Much Ado About Nothing, com os agradecimentos póstumos a William Shakespeare).

    Afirmar que o 5 de agosto foi um grande dia na história da imprensa é praticar um gênero de jornalismo prospectivo, tipo abracadabra, bola de cristal, que pega muito bem num blog e logo é esquecido.

    Ninguém sabe o que Bezos fará com o brinquedo que acaba de comprar por uma pechincha – talvez ele mesmo não saiba ao certo, por mais esperto, racional, inventivo e genial que seja.

    Foi certamente um grande dia na história dos negócios da mídia. Tal como aquele, na aurora do século 21 (janeiro de 2000), quando o venerando e gigantesco conglomerado de mídia & entretenimento Time-Warner-CNN foi comprado pelo adolescente (então com 15 anos) provedor de internet America On-Line (AOL), por 118 bilhões de dólares, a maior transação da história do capitalismo. Alguém lembra? Qual a posição hoje deste gigante no mercado da comunicação, treze anos depois?

    É até possível que o fatídico dia em que a família Meyer-Graham entregou o WP à família Bezos (a compra não foi efetuada pela Amazon, mas com os recursos pessoais do bilionário) venha a entrar para a história como “O dia em que a Imprensa virou Mídia”. Faz sentido, considerando os atributos e façanhas de Jeff Bezos. De qualquer forma, o coro de regozijos dos últimos dias tem a mesma sonoridade das comemorações sadomasoquistas que nos últimos vinte anos acompanham os anúncios do fim dos impressos.

    Títulos indispensáveis

    A decadência do WP não se deve apenas à sua inapetência frente à concorrência digital, o jornal enquanto jornal batia pino. Perdeu a garra. Há poucas semanas, quando Edward Snowden, ex-consultor da NSA, lhe ofereceu em primeira mão o furo sobre a “espionagem” americana, o jornal que derrubou Richard Nixon não conseguiu atender a todas as suas exigências. Quem abocanhou o material foi o britânico The Guardian, que também enfrenta dificuldades, mas não entrega os pontos. O novo patrão do Washington Post saberia tomar um atitude jornalisticamente mais ousada do que o antecessor?

    Este observador é extremamente grato a Jeff Bezos por tornar possível a compra de livros no exterior por intermédio da Amazon. Agora, com apenas alguns toques e muitos reais, compra-se aqui um livro americano publicado em 1976 ou alemão recém saído que em poucos dias será entregue pelo correio na sua porta. É um milagre.

    Em compensação, o mesmo Bezos acabou com as livrarias nos EUA. E livrarias não são pontos de venda, são monumentos culturais, espaços de fruição e deleite, vitrines de uma civilização que está se esvaindo e já deixa saudades.

    O leitor do Kindle – a maquineta que permite a leitura dos livros eletrônicos comercializada pela Amazon – não aparenta prazer, parece angustiado, precisa “traçar” o conteúdo do e-book recém baixado da rede da forma mais rápida possível. O Kindle não é kind – gentil – ao contrário: sugere afobação, monetização, descartabilidade.

    Devemos esta revolução a um empreendedor de 49 anos, o 26º mais rico do mundo que usou apenas 250 milhões do total de 18 bilhões de dólares que acumulou para adquirir uma das marcas mais prestigiosas do universo jornalístico.

    Ninguém lembrou que Warren Buffet, de 82 anos, o maior acionista do Washington Post depois da família Meyer-Graham, terceiro homem mais rico, foi convidado a comprar o jornal e desistiu. Prefere ficar com a sua crescente coleção de jornais comunitários que breve chegará a 100 títulos.

    “Jornal só sobrevive quando se torna indispensável; numa grande metrópole difusa, descentrada, a escala torna impossível esta indispensabilidade”, repetiu Buffett a este observador quando foi entrevistado para o programa Observatório da Imprensa no início de maio (ver aqui).

    Na história da imprensa, por enquanto, um Buffett vale algumas dúzias de Bezos.

     

    Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

  • Transcrições

    Pgm 695 - Ruy Mesquita e Roberto Civita - 06/08/2013

     

    Para encerrar a série de edições especiais em comemoração aos 15 anos do Observatório da Imprensa na TV, o programa exibiu na terça-feira (6/8) uma homenagem a dois importantes jornalistas e empresários da mídia brasileira falecidos recentemente: Roberto Civita, presidente do Conselho Editorial da Abril, e Ruy Mesquita, diretor responsável do Estado de S.Paulo. Ambos foram entrevistados por Alberto Dines em 1998, ano de estreia do programa. E, nesta edição, os principais trechos daqueles depoimentos foram reapresentados ao telespectador. Para conversar com Dines sobre Civita e Mesquita o programa contou com a presença do jornalista e professor Eugênio Bucci, que trabalhou nas duas empresas e, por isso, conhece de perto o legado profissional deixado por eles.

    Em editorial, Dines explicou que Civita e Mesquita estavam convidados a participar da série comemorativa dos 15 anos do programa:

    Convidado no início do ano para integrar a série de depoimentos, Roberto Civita aderiu entusiasmado e avisou que agendaria a entrevista depois do carnaval. No carnaval internou-se para submeter-se a uma cirurgia, não saiu com vida do hospital. Sua exuberância e otimismo estão preservados. Mais velho, mais preocupado, Ruy Mesquita relutava, tinha razões para isso. Estão de volta, vivos, afirmativos, cada um à sua maneira, através dos depoimentos que concederam em 1998 quando este Observatório começava. A televisão permite este milagre: um olhar para o passado e o presente fica mais nítido, se explica e se completa”.

    Os caminhos da imprensa

    Roberto Civita: “Eu continuo sendo mais jornalista do que empresário. Hoje em dia penso mais na importância do que nós temos para dizer do que no negócio. Felizmente, temos gente mais competente do que eu cuidando do negócio, então eu posso cuidar mais das coisas que me interessam, que são todas ligada a conteúdo. Agora, antes de mais nada, eu queria dizer que uma coisa que me preocupa quando se fala em jornalismo: eu continuo achando que jornalismo para certas pessoas é a discussão de política e de economia. E mais nada, o resto não é jornalismo. Eu insisto, e preciso insistir, que jornalismo hoje em dia no mundo, necessariamente, envolve muitas outras coisas e muito importantes. Por que são importantes? Porque são importantes para o leitor, são importantes para o público, importantes para o telespectador. Afinal de contas, nós não estamos fazendo jornalismo para nós mesmos e não estamos fazendo para um pequeno círculo de iniciados. Estamos fazendo para o maior público possível”.

    Ruy Mesquita: “Eu fico às vezes impressionado com as condições, a complexidade da elaboração de uma edição de jornal. O parque industrial de um jornal me dá a impressão de uma coisa mastodôntica. Para cada dia você pôr na rua algumas centenas de milhares de exemplares, o que representa isso de trabalho? Envolve o quê? Aqui neste prédio nós temos quatro mil pessoas trabalhando para fazer uma edição de jornal diário. Duas, aliás, porque tem o Jornal da Tarde também. Eu acho que tem espaço para o jornal, mas o jornal fatalmente terá que mudar de concepção. Perder a preocupação de dar a informação em cima da hora e tudo e se dedicar muito mais à complementação da informação que o indivíduo tem eletronicamente na internet, na televisão, nas rádios”.

    No estúdio, Dines ressaltou que em 1998, quando o alcance da internet era muito menor, Ruy Mesquita já apontava que o caminho para o jornal impresso era ser um veículo complementar. Eugênio Bucci comentou que, em uma recente entrevista publicada após a morte de Mesquita, o publisher sublinhava que o jornalismo precisa se ocupar de assuntos relevantes e não ficar competindo com o entretenimento. Dines ponderou que, por outro lado, quando Roberto Civita ressalta que jornalismo não é somente política e economia, também estava fazendo uma afirmação correta. E destacou que nos anos 1960 a Editora Abril lançou uma série de publicações de qualidade para diversos segmentos, como automóveis e moda.

    Para Bucci, Civita retoma uma filosofia do início do século passado que ainda é atual: “De maneira nenhuma há contradição entre o que o Ruy Mesquita propõe e o que o Roberto está falando. Quando o Roberto diz que o jornalismo está em todas as áreas da vida humana ele retoma um princípio que está na Sociedade Americana dos Editores de Jornais, que publica os parâmetros do jornalismo nos anos 1920 e diz ‘o jornalismo se ocupa de contar para a espécie humana o que os outros membros da espécie humana sentem, pensam, dizem’. Tudo aquilo que é atividade humana é matéria de jornalismo, mas não é matéria de jornalismo a diversão no sentido do espetáculo, da indústria do entretenimento”. O que deve ser evitado, na opinião de Bucci, é transformar o entretenimento em negócio.

    Investimentos estrangeiros na mídia e concessões de canais de televisão

    Ruy Mesquita: “Eu não vejo nenhum inconveniente. O nosso caso, aliás, foi fortuito. Nós fomos procurados sete ou oito anos atrás. A primeira empresa estrangeira, americana, que chegou aqui com interesse em participar do mercado ante à perspectiva, naquele tempo remoto, da abertura das empresas estatais, foi a Bell South. Ela se associou teoricamente com o Safra e eles, naquela época, achavam que era absolutamente indispensável, tendo em vista exatamente a posição hegemônica e politicamente forte do Grupo Globo, ter o nosso apoio para poder evitar qualquer falcatrua. Naquele tempo não se falava na presidência de Fernando Henrique e nem se sabia o que ia acontecer no futuro, nem nada disso. Mas a razão pela qual eles nos procuraram – nós não dispúnhamos de capital nenhum para aumentar o poder de fogo por esse lado do concorrente – foi exclusivamente política. Eles achavam indispensável que nós fossemos sócios deles para evitar qualquer favorecimento de outros grupos politicamente bem cacifados na eventualidade de uma licitação, como acabou havendo”.

    Roberto Civita: “No momento era o governo Figueiredo e um certo contingente da linha dura, e eu vim a saber isso depois, disse: ‘não vamos dar isso [concessões de radiodifusão] para os nossos inimigos’. Tinha na mesma época o Silvio Santos fazendo aquele programa de auditório dele em que todo domingo gritavam, cantavam ‘hei, hei, hei, João é o nosso rei!’, o João Figueiredo. E do outro lado tinha Adolfo Bloch que era mestre, há décadas, em agradar governo, qualquer governo, mas o governo que estivesse. Então, os militares, aí foi [o general Otávio] Medeiros [chefe do SNI – Serviço Nacional de Informações], especificamente, que como os outros não gostava de críticas. Aliás, você e eu não gostamos de críticas, claro que eles não gostavam. E disseram: ‘nós não vamos dar televisão para estes caras, vamos dar para os amigos’. E deram para o Adolfo, e deram para o Silvio”.

    Dines criticou a decisão de o governo conceder canais de radiodifusão para quem estava disposto a “aplaudir” a gestão em curso. Bucci ressaltou que a linha editorial dos veículos noticiosos da Abril, sobretudo de Veja, era de investigar e de duvidar do poder. O professor relembrou que a revista publicou uma série de reportagens que apontavam tortura, abuso de poder e corrupção ao longo dos governos militares e teve um papel central no processo político que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em um momento posterior. Essa linha de enfrentamento foi mantida nas décadas seguintes. “É uma publicação que, com os seus defeitos e méritos, está ao longo desse período todo fustigando o poder. Isso é muito interessante porque o governo militar se recusa a dar um canal de televisão, mas o Roberto Civita viveria problemas com o poder em vários outros governos depois”, disse Bucci.

    Financiamento e competitividade

    Ruy Mesquita: “A origem da prosperidade da Globo, como você sabe, foi aquele célebre empréstimo, aporte de capital, do grupo Time-Life, que foi oferecido em primeiro lugar a meu pai. Isso é história. Foi oferecido a meu pai, que recusou: ‘não posso nem conversar porque a Constituição brasileira não permite’. Isso aí foi o grande salto da TV Globo – a partir daquele aporte de capital, nos anos 1960. Eles olham a coisa muito mais deste ponto de vista empresarial. Eles tiveram ligações com governos em função dos seus interesses comerciais, empresariais. Eles tiveram ministros. Isso, evidentemente, sempre que possível a gente combate, denuncia e não aceita. Agora, é um problema muito mais da cultura política brasileira do que um problema da briga entre empresas. Por outro lado, nós temos as melhores relações. Eu não conheço porque nunca me dei com o velho Marinho, que é muito mais velho do que eu, é um dos poucos homens mais velhos do que eu, mas os meninos Marinho os meus filhos gostam muito deles, se dão muito bem, acham eles muito bem orientados. É uma mentalidade muito mais sadia, a nova geração. Eu acho que o problema não é deles, é nosso, é da Folha, dos Civita, que estão aí brigando para sobreviver ante a esta força cada vez maior”.

    Roberto Civita: “Eu entendo que toda editora de revistas no seu desenvolvimento ela quer chegar ou sonha em fazer uma revista semanal de informação. Eu acho perfeitamente lógico que a Editora Globo tenha decidido fazê-lo [a revista Época]. Eu entendo que fique este sonho. Eu entendo que se queira tirar uma fatia do que Veja conquistou porque é uma fatia grande do bolo de revista, tanto publicitário quanto de circulação. Então, o que eles fizeram? Foram buscar uma fórmula “moderna” na Alemanha que é de escrever menos e ilustrar mais, botar mais figurinhas na página. E eu brinco que o slogan deles é ‘a volta do prazer de ler’, mas eu acho que é ‘a volta do prazer de colecionar figurinhas’. Em todo caso, lançaram com todo aquele poder de fogo da Globo. Tinham um comercial a cada intervalo, tinha os atores das telenovelas “lendo” a revista, tinha merchandising, tinha no Jornal Nacional. Fizeram o diabo para vender a revista. Resultado: estamos há quatro meses, o que é muito pouco, mas a revista vende menos que Veja nas bancas. E dá menos em assinatura. E Veja não perdeu um leitor. Pelo contrário, ganhou leitores. Está vendendo um pouco mais do que vendia quando Época nasceu. Portanto, para nós, primeiro foi bom porque sempre que chega concorrência acorda todo mundo. A circulação do sangue aumenta, a adrenalina entra e as pessoas começam a fazer melhor as coisas”.

    De volta ao estúdio, Dines chamou a atenção para o fato de que há quinze anos, os entrevistados expuseram publicamente e com total transparência questões internas das suas empresas, mas hoje a postura das grandes empresas seria mais conservadora nesse sentido. Para Bucci, é bom ver como os dois entrevistados falaram de problemas sérios e inquietações com abertura. Bucci lembrou que a revista Época se consolidou no mercado, enquanto Veja se manteve no mesmo patamar de liderança. Hoje, as principais revistas semanais – Veja, Época, IstoÉ e Carta Capital – trazem abordagens diferentes dos fatos e a concorrência acabou beneficiando o leitor.

    Eugênio Bucci ressaltou que a visão de Ruy Mesquita a respeito do domínio da televisão apareceu muitas vezes em editoriais do jornal O Estado de S.Paulo. “O compromisso com uma regulamentação do setor de radiodifusão que iniba propriedade cruzada e a concentração de audiência é uma bandeira democrática antiga que aparece nos editoriais”, disse o jornalista. Bucci ponderou que esse comportamento ajuda a derrubar a tese de que a grande mídia no Brasil é uníssona e que não existem profundas diferenças entre os principais grupos de comunicação.

    Internet e concentração

    Roberto Civita: “O risco que se tem hoje de concentração é menor do que o que se tinha antigamente. Eu gostaria de dizer que é maior, mas não é. Antigamente, por exemplo, os americanos tinham um monte de leis proibindo o que eles chamam de cross-ownership, que quem tivesse um jornal não pudesse ter uma televisão na mesma cidade, quem tivesse rádio não pudesse ter televisão. [Isso] para desconcentrar e garantir a pluralidade em uma cidade. Fazia muito sentido naquela época. Tanto que eu insisti aqui, durante muitos anos, que o Brasil deveria fazer a mesma coisa. Evitar a concentração não só local, de alguém dominar todos os meios daquele local. Mas hoje em dia, com a multiplicação dos meios, nós temos não só os canais abertos, que são sete, como temos também 150 canais de televisão por assinatura. Esses canais não estão abertos para o público em geral e, por enquanto, a penetração no Brasil é pequena, mas vai aumentar. Nos países mais avançados nisso, onde o governo permitiu que isso seguisse, começasse bem antes – tem países que têm TV a cabo há 30 anos, nós temos há cinco, acho que nem isso – nesse caso, chega a 30, 40, 60% da população e chega com um enorme leque de alternativas. A internet faz a mesma coisa, o mundo se abre para quem tem acesso à internet. Então, o risco do domínio diminuiu”.

    Ruy Mesquita: “Eu tenho, evidentemente, medo da hegemonia total de qualquer grupo. A Globo tem características especiais, porque ela não é apenas uma empresa jornalística. O interesse do velho Marinho... o Marinho nunca foi jornalista. O Marinho foi um grande empresário. Coisa que o meu pai nunca foi. O meu pai morreu depois de duas gerações de Mesquita trabalhando exclusivamente nesta empresa e deixou para nós a participação acionária dele aqui. Não tinha nenhum interesse empresarial fora da empresa O Estado de S.Paulo. O Marinho, não. O Marinho teve banco, tem banco até hoje, e outras coisas. E construiu um império fantástico e é justificado o temor de que ele elimine os seus concorrentes. Agora, isso tem problema, na minha opinião, não de interferência de governo. É problema de competência do concorrente. É esse enfoque que o Francisco Mesquita Neto, que eu chamo de Chico, tem. Ele diz: ‘Ou nós chegamos perto deles em termos de faturamento ou mais cedo ou mais tarde a gente corre o risco de sobrar’”.

    No debate no estúdio, Dines enfatizou que, em sua opinião, Roberto Marinho teve uma forte atuação como jornalista, não apenas empresário. “Era um homem de redação. Eu nunca trabalhei com ele, mas estive com ele em várias ocasiões onde seu olhar de jornalista foi decisivo”. Bucci colocou em perspectiva a visão de Civita sobre a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Para o jornalista, o preceito foi relativizado, mas se mantém nas democracias. “Nos anos 1990 havia um impulso muito grande de relativização desses limites, flexibilização. Isso pegou nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, em vários países da Europa. É uma mentalidade em que julgávamos o seguinte: como as novas tecnologias vão permitir que uma pessoa sozinha dentro de casa tenha uma TV, uma emissora de rádio, tudo pela internet, e um jornalzinho, não faz sentido pôr limite para isso porque isso não significa poder econômico.”

     

  • Bastidores

    A agonia da empresa jornalística familiar

    Por Carlos Eduardo Lins da Silva

    A venda do jornal The Washington Post para o empresário Jeff Bezos, anunciada na segunda-feira (5/8), além de carregar uma simbologia extrema sobre as mudanças radicais que vêm ocorrendo há duas décadas no mercado de comunicação, é mais um duro golpe contra a instituição do jornal controlado por famílias, que foi dominante na imprensa americana no século passado e teve forte influência na brasileira.

    Cem anos atrás, quase todos os jornais dos EUA pertenciam a famílias. Em 2013, dos 1.500 diários existentes, cerca de 200 são familiares. Agora, dos principais diários, só o New York Times ainda é controlado por uma família, a Sulzberger. O Post deixa de pertencer à família Graham, como, antes, os Bancroft haviam vendido o Wall Street Journal, os Chandler perderam o controle do Los Angeles Times, entre outros que deixaram o modelo.

    Quando essa tendência se intensificou, no primeiro ano deste século, Katharine Graham, a matriarca do Post, a lamentou e disse: “Não acho que seja por acidente que os jornais conhecidos como os de melhor qualidade do país sejam, ou tenham sido até recentemente, controlados por famílias”.

    Tampouco foi por mera coincidência que a venda dos jornais de família se tornou quase corriqueira a partir de 2000. Nos anos 1990, a internet se disseminou e começou a ficar claro que o tal “modelo de negócios” para os veículos jornalísticos impressos estava à beira de sofrer um xeque-mate.

    Excesso de confiança

    O debate sobre as virtudes e vícios do modelo de propriedade familiar sempre foi pontuado por ingenuidade, desconhecimento, hipocrisia ou desonestidade, em diversos graus, tanto por parte dos que se opunham a ele quando dos que o exaltavam.

    Quase tudo, evidentemente, sempre dependeu de que família ou de que empresa controlava que jornal, ou de que geração familiar ou de que executivo de empresa tomava as decisões em que veículo. Obviamente, muito sempre se dependeu da conjuntura econômica.

    Por mais que os valores de uma família pudessem ser sólidos, ninguém jamais foi capaz de garantir que eles prevaleceriam em qualquer circunstância. Por exemplo, o Los Angeles Times passou por fases de enorme qualidade e exemplar independência editorial sob os Chandler, mas também sob eles foi um jornal ruim e eticamente condenável.

    É difícil afirmar o que teria ocorrido se o Washington Post não fosse um jornal familiar na década de 1970, quando Katharine Graham resolveu dar toda força a Ben Bradlee e manter a investigação do caso Watergate apesar da formidável pressão que o governo de Richard Nixon colocou sobre ela para convencê-la a parar.

    Será que um executivo de uma corporação, passível de demissão e beneficiário de bônus, teria afrontado Nixon, que explicitamente ameaçou cassar concessões de TV do grupo Washington Post que eram muito mais lucrativas do que o jornal em si? Quem defende o modelo familiar acha que não, que só a dona, que não devia satisfações a acionistas, seria capaz de tanta coragem.

    Pode ser. Mas será que um executivo arriscaria fazer o que a neta de Katharine Graham fez em 2009, quando, aflita com os números cada vez mais desfavoráveis, considerou razoável promover jantares em sua casa para os quais convidava seus principais editores e repórteres e vendia assentos a empresários, políticos e lobistas (por quantias que variavam de 25 mil a 250 mil dólares conforme a proximidade da cadeira do comprador em relação à do jornalista com quem ele quisesse conversar mais intensamente)?

    Não ter que prestar contas a ninguém pode ser bênção ou maldição, dependendo do bom senso e do juízo de quem se encontra nessa posição – e esses atributos, feliz ou infelizmente, não se transmitem geneticamente. Sem dúvida, um jornal familiar pode tomar decisões de modo mais rápido e menos burocratizado do que um que tem de responder a acionistas, mas o que de fato importa é tomar as decisões certas.

    No caso do Washington Post (e outros), diante do desafio da era digital as decisões tomadas foram erradas. Por excesso de confiança nos sucessos do passado ou por idiossincrasias pessoais ou qualquer outra razão, o fato é que o Post adotou apenas uma resposta para a lucratividade continuamente em baixa: cortar pessoal, cortar papel e aumentar o preço – fórmula que, apesar de se ter comprovada errônea por 20 anos, foi adotada até o fim dos Graham.

    Proximidade com o presidente

    Outro argumento frequentemente utilizado para louvar o modelo de propriedade familiar é o de que os jornais que o adotam têm mais identidade com a comunidade onde circulam e, por isso, a representam melhor.

    O Washington Post, novamente neste quesito, é bastante emblemático. Embora tenha sido a partir dos anos 1960 um jornal de repercussão nacional, ele sempre foi basicamente um veículo local. No auge de seu prestígio, estava presente diariamente em mais de 80% dos domicílios da área metropolitana de Washington, após ter esmagado e tirado de circulação todos os rivais.

    A família Graham levava tão a sério seu pertencimento a Washington que Don Graham, filho e sucessor de Katharine no comando do jornal, resolveu que antes de assumir suas responsabilidades na empresa deveria conhecer mais a região em que ela atuava, e durante um ano e meio trabalhou no Departamento de Polícia Metropolitana como patrulheiro, para ver de perto os problemas que seus leitores enfrentavam.

    No entanto, desde o início da segunda metade do século 20, o fato de que o jornal era parte da comunidade a que servia nos EUA se transformava num mito: em 1950, 49% da circulação de jornais diários no país pertenciam a cadeias jornalísticas (empresas que controlavam diversos títulos em diversas cidades); em 1967, essa porcentagem passou para 63%.

    Os jornais familiares, assim, já vinham enfrentando problemas sérios por muitas décadas. O jornal de maior circulação nos EUA há anos, por exemplo, é o USA Today, que pertence desde o lançamento à cadeia Gannett, operada por executivos contratados. Embora provavelmente o mais influente ainda seja o New York Times, ele também tem passado por crises econômicas e de credibilidade bastante graves neste século.

    Mas nada afeta mais a imagem do modelo do jornal de família nos EUA do que a venda do Washington Post, ainda que Jeff Bezos o tenha adquirido como pessoa física, não pela Amazon, o que – para alguns analistas com visão otimista – indica que ele pretende preservar aspectos fundamentais do caráter do modelo em que o diário vem operando há décadas, ainda mais por ter mantido a neta de Katharine Graham como publisher.

    Poucos jornais foram tão familiares como o Post nesses 80 anos em que foi controlado pelos Meyer-Graham, desde que, em junho de 1933, Eugene Meyer, pai de Katharine Graham, o comprou de Edward Beale McLean, quando estava praticamente falido.

    Meyer era um homem muito rico, que entre setembro de 1930 e março de 1933 foi presidente do Federal Reserve (FED), o Banco Central dos EUA. No que pode ser considerada uma das vantagens do modelo familiar, Eugene Meyer não se incomodou em perder dinheiro com o Post durante quase 15 anos (mas deve ser lembrado que a Gannett também não se perturbou por ver o USA Today no vermelho por mais de cinco anos).

    O jornal só começou a entrar nos eixos a partir de 1946, quando Meyer se tornou o primeiro presidente do Banco Mundial e passou a função de publisher para seu genro, Philip Graham. Graham parecia ter nascido para o jornalismo. Em Harvard, onde foi aluno brilhante na Faculdade de Direito, editou o a Harvard Law Review com grande sucesso.

    À frente do Post, adquiriu concessões de rádios, superou os rivais da cidade com uma política agressiva de captação de classificados e comprou a revista Newsweek,que se tornou concorrente da Time com quase o mesmo nível da líder em repercussão e faturamento.

    Mas muito de seu êxito como publisher se deu graças à sua amizade pessoal com John Kennedy e Lyndon Johnson e à sua desenvoltura política. (Muitos creditam a ele a composição da chapa Kennedy-Johnson para a eleição de 1960, apesar da oposição que Robert, irmão do presidente, fazia à inclusão de Johnson como candidato a vice.)

    Cena constrangedora

    No governo Kennedy, o Washington Post teve acesso privilegiado a informações, ganhou musculatura em temas políticos, foi favorecido por anunciantes que queriam estar de bem com o amigo de JFK. Graham, que sofria de bipolaridade aguda, suicidou-se em 3 de agosto de 1963, ou seja 50 anos antes de sua neta fechar negócio com Jeff Bezos.

    A viúva Katharine, com 46 anos de idade, era conhecida apenas como uma socialite, nascida e criada em berço de ouro, anfitriã das melhores festas da capital dos EUA, comparáveis apenas às que a Casa Branca passou a oferecer depois de Jacqueline Bouvier ter se tornado a primeira-dama.

    Para a surpresa de muitos, ela se entusiasmou pelo jornalismo e tirou o Post de sua condição de diário local para colocá-lo na Santíssima Trindade da imprensa americana, ao lado do New York Times e do Wall Street Journal. O grande divisor de águas foi, sem dúvida, sua escolha de Ben Bradlee para comandar a redação, em 1968.

    Graham e Bradlee fizeram uma dupla perfeita, baseada em confiança e admiração recíprocas. Seu maior teste de força foi o caso Watergate, que ela comandou com grande coragem.

    Na sua autobiografia, publicada em 1997 (na qual ela se revelou também uma grande escritora), Graham foi reservada e contida quanto a seu papel em Watergate. Ali, apenas reafirmou os princípios gerais que ela e Bradlee determinaram a seus repórteres na apuração dos fatos: qualquer informação vinda de fonte anônima tinha de ter pelo menos uma confirmação, nenhuma informação originada de outro veículo podia ser divulgada a não ser que fosse independentemente confirmada pelo próprio jornal, todos os textos antes de serem publicados tinham de ser lidos por pelo menos um editor sênior além do editor de nacional e do próprio Bradlee.

    Os políticos que se tornaram amigos pessoais de Katharine eram do lado ideológico oposto ao de seu marido. Entre eles, Henry Kissinger, Ronald Reagan, Robert McNamara. Mas isso não parece ter influenciado a linha editorial do Post, que continuou basicamente alinhada à ala mais liberal do Partido Democrata.

    Ela passou o comando do jornal a seu filho Donald em 1993, quando a internet começava a se universalizar e a mostrar como poderia ferir de morte os jornais impressos. A gestão do neto de Meyer não foi das mais felizes. Ele não só se mostrou incapaz de reagir eficazmente ao desafio digital, como ainda colocou o Post numa situação eticamente complicada ao obter do senador John Danforth que incluísse uma emenda na legislação sobre telefonia celular que claramente favorecia aos interesses de sua empresa, que estava entrando nesse tipo de negócios como forma de tentar escapar das agruras do jornalismo impresso.

    O episódio constrangedor foi denunciado pelo ombudsman do jornal. Aliás, foi o Post que transformou essa posição em algo restrito a uns tantos pequenos diários numa instituição internacional ao criar o posto em 1970. É sintomático que neste ano de 2013 o Post tenha decidido extingui-lo.

    Intervenção arrebatadora

    Em 2008, Katharine Weymouth, sobrinha de Don e neta de Katharine Graham, assumiu a posição de publisher do Post. O jornal já estava irreconhecível para quem o lera nos anos de glória. Fino, sem cadernos, quase sem classificados, poucos anúncios, triste.

    Provavelmente, Weymouth nada poderia ter feito para reanimá-lo. Mas seu comportamento mostrava que ela era pouco preparada para a tarefa, de todo modo. No encontro mundial de ombudsmans em maio de 2009, em Washington, ela participou de uma mesa sobre por que um jornal deveria ter ombudsman. Sua fala foi pouco inspiradora.

    Na plateia, estava Ben Bradlee, a quem alguém dirigiu uma pergunta: por que ele, Bradlee, resolveu criar o cargo no Post. Sua resposta foi apaixonada e arrebatadora. Mais e mais perguntas foram feitas a ele, e Weymouth, à mesa, não disfarçou o mal estar e várias vezes, sem sucesso, tentou assumir a condição de estrela da noite.

    Bradlee estava com 88 anos. Quando o debate terminou, quase todos os presentes se dirigiram a ele para uma conversa final. Weymouth ficou quase sozinha à mesa. Ele era a personificação do Post heroico. Ela, do Post atual.

    ***

    Carlos Eduardo Lins da Silva é jornalista.

     

    Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

     

  • Transcrições

    Pgm 694 - Mídias alternativas - 30/07/2013

     

    Das ruas para a rede, ao vivo e sem cortes. Munidos de um telefone celular, uma conexão 3G e a promessa de um olhar diferente da mídia convencional, integrantes do coletivo Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, o Mídia Ninja, querem estar onde a grande imprensa não chega. Os protestos que tomam as cidades brasileiras há cerca de dois meses turbinaram a audiência do grupo, que chegou a ter picos diários de 150 mil acessos. Na visita do papa Francisco ao Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude, manifestantes entraram em choque com as forças de segurança. Enquanto a grande mídia mantinha a programação normal, os repórteres ninja mostravam o confronto em tempo real.

    Cada repórter-ninja tem um perfil de atuação, mas todos têm o mesmo objetivo: quebrar a narrativa uníssona da grande imprensa usando a própria mídia como arma. A cobertura engajada é a principal marca do grupo, que participa ativamente dos fatos que mostra. Após o confronto com a polícia, os repórteres-ninja Felipe Peçanha e Felipe Assis foram detidos no Rio sob a acusação de incitar a violência. Sem apuração e checagem de informações, ou abrindo espaço para que o outro lado se manifeste, o Mídia Ninja começa a chamar a atenção da grande imprensa. E se distancia do circuito alternativo para se converter em protagonista. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (30/7) examinou esta nova forma de comunicação de massa.

    Acusado de lançar coquetéis molotov durante manifestação no Rio, o estudante Bruno Ferreira usou o Mídia Ninja para convocar a sociedade a postar na rede vídeos que provassem que ele não jogou os artefatos. Pouco depois, a grande mídia veiculou cenas que ajudaram Bruno a se livrar da acusação. O poder público também começa a despertar para o crescimento do Mídia Ninja. Recentemente, o grupo foi surpreendido com um convite para entrevistar o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Mais de 20 mil pessoas acompanharam a entrevista exclusiva ao vivo. O resultado desapontou até mesmo os integrantes do grupo. Falta de objetividade, desorganização e perguntas fora da alçada do prefeito marcaram o encontro, que durou cerca de duas horas. Logo depois, em nota publicada no Facebook, o grupo admitiu as falhas.

    O Mídia Ninja foi fundado oficialmente há quatro meses, no Fórum Mundial de Mídia realizado na Tunísia. O grupo é ligado ao Circuito Fora do Eixo, uma rede de produtores culturais. Na internet, circulam acusações de que o grupo receberia verbas do PT.

    Para discutir este trabalho, Alberto Dines recebeu um dos fundadores do Mídia Ninja e do Pós TV, o jornalista Bruno Torturra. Ele foi repórter, correspondente e diretor de Redação da revista Trip, onde trabalhou por 11 anos. Também convidou Mauro Malin, editor adjunto da versão online e um dos fundadores do Observatório da Imprensa. Mauro trabalhou no Jornal do Brasil e na Tribuna da Imprensa. Os outros debatedores foram Eduardo Escorel, diretor, produtor e montador de cinema, que escreve no blog “Questões Cinematográficas” da revista piauí e coordena o curso de especialização em cinema documentário da FGV; e Leonel de Aguiar, doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ e coordenador do curso de Comunicação social da PUC-Rio, onde também leciona.

    Pré ou pós-jornalismo?

    Em editorial, antes do debate ao vivo, Dines ressaltou que as recentes manifestações trouxeram uma nova forma de jornalismo. “Mídia Ninja passou a simbolizar uma forma individual de colher e transmitir informações, notícia em estado bruto, sem passar pela cosmética da edição. Para alguns, Mídia Ninja é também um jornalismo ativista, militante, capaz de romper o conformismo dos meios tradicionais”, afirmou. Para ele, o coletivo de mídia pode revitalizar um processo jornalístico que na última década só se preocupou com a sua própria sobrevivência.

    A equipe do programa entrevistou um repórter do grupo, de prenome Renan, durante as manifestações em frente ao Palácio Guanabara. Ele explicou o que pauta a sua ação nas ruas: “Notícia para mim é toda a informação que seja sem manipulação, notícia verdadeira. A gente não manipula as informações, a gente mostra a realidade. Essa é a maior diferença. Eu me sinto praticamente o olho da galera aqui. Eu tento dar voz para as duas partes, sem cortar, porque a gente transmite ao vivo e não tem como cortar. De vez em quando eu boto até emoção demais. Isso eu acho que é a principal diferença na narrativa de qualquer ninja”.

    Na mesma reportagem, a professora Sylvia Debossan Moretzsohn, do departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressaltou a importância da função mediadora da imprensa: “Uma coisa é você ser militante, outra é você participar da manifestação como manifestante, esquecer o papel de mediador que todo jornalista tem que ter. Essa é a tarefa fundamental: você fazer a mediação entre os fatos e o público”. Para a professora, o grupo recupera a reportagem de rua, que o jornalismo tradicional tem deixado de lado progressivamente: “Acho que não só o Mídia Ninja, mas as pessoas, de forma geral, que estão aí com celulares postando, gravando, fotos e vídeos e tal, têm obtido um retorno significativo”.

    Uma das coberturas de grande repercussão feitas pelo Mídia Ninja foi o casamento da neta do empresário do ramo de transportes Jacob Barata. “O rapaz que estava cobrindo parece que não sabia onde estava. Não sabia nem o que era o Copacabana Palace. Não é possível você fazer uma cobertura dessa forma. Parece que é uma grande brincadeira. Olha, estou brincando, me manifestando também. O cara chegava perto dele e ele falava: ‘Será que ele quer me dar um beijo aqui? O que é isso?’. É um comportamento que eu não posso considerar como justo por parte de quem quer ser apresentado como alternativa”, criticou a professora.

    O papel do mediador

    Na avaliação da coordenadora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ivana Bentes, por estarem próximos aos manifestantes, muitas vezes até acampando junto deles, os repórteres do Mídia Ninja conseguem extrair informações que a grande imprensa não alcança. “A crise, talvez, do jornalismo, é justamente essa crise do especialista, do mediador, achar que a produção de imagem, de vídeo, de texto, é algo restrito a uma corporação. A partir do momento em que eles param, dialogam, perguntam as razões, divergem e tomam partido, vão abaixo uma série de clichês e mitologias em torno do jornalismo. Acho um momento bacana de desmistificação do que é o jornalismo”.

    No debate ao vivo, Bruno Torturra ressaltou que a maior conquista do Mídia Ninja é a quebra de uma narrativa midiática única através do jornalismo-cidadão. Torturra sublinhou que os repórteres do grupo não manipulam a notícia durante as transmissões, apenas mostram o seu ponto de vista. “É muito diferente de você alterar informação ou de você ter uma agenda oculta, que caracterizaria uma manipulação. A nossa agenda é muito clara, inclusive, na hora que a gente dá a nossa opinião e se posiciona. O rótulo de manipulação eu não aceito tão facilmente assim”, afirmou.

    De acordo com o jornalista, o grupo começou a ser montado há dois anos e, neste período, já fazia transmissões sistemáticas em estúdio. As manifestações acabaram “atropelando” o planejamento do coletivo. Os modelos de tecnologia, recrutamento, financiamento e remuneração ainda estão sendo desenhados. A equipe fixa, que é pequena, está nas ruas todos os dias para dar conta dos múltiplos eventos e, por isso, ainda não pode completar o trabalho de bastidores.

    Quem paga a conta?

    Bruno Torturra acredita que em 15 dias novas formas de financiamento serão estabelecidas. O plano é tirar o intermediário entre o público e os transmissores das notícias através de crowdfunding ou de assinaturas. O grupo também pretende organizar festas para angariar fundos para a compra de equipamentos. Com a nova estrutura, o Mídia Ninja estará pronto para produzir reportagens editadas, como os canais convencionais. “O desafio que a gente tem agora é múltiplo, que é dar conta do aumento da nossa equipe – têm centenas de pessoas inscritas para participar – descobrir uma solução viável para um financiamento disso a curto, médio e longo prazo e produzir reportagem, informação com mais qualidade”, disse Torturra.

    É condenável, na opinião do representante do Mídia Ninja, a grande imprensa ser hostilizada e expulsa de eventos públicos, como ocorreu em diversas manifestações: “Não é uma atitude muito democrática. Eu pessoalmente jamais faria isso, apoiaria isso. Mas acho que tem que ser lido também como um sintoma dos nossos tempos. Grande parte da rejeição que muita gente na rua tem aos partidos políticos está se traduzindo cada vez de maneira mais clara na própria grande mídia, porque muita gente na rua se sente vítima da grande mídia, às vezes até em uma versão um pouco simplificada, um pouco ingênua, de que a mídia é uma grande conspiração”. Bruno Torturra disse que se sente incomodado com o estranhamento que a depredação do patrimônio privado e público causa na população, enquanto a violência física da polícia leva a uma indignação em menor escala.

    Eduardo Escorel ressaltou que o Mídia Ninja representa uma ruptura da unidade e teve um papel crucial nas manifestações de junho e julho por conta das denúncias da “selvageria” das forças de segurança. “Não há quem possa hoje negar a ação violenta da polícia e isso se deve, não exclusivamente, mas em grande parte, à ação dos ninjas”, disse o cineasta. Dines questionou se o Mídia Ninja conseguirá manter o ritmo das transmissões ao vivo quando as manifestações que ocorrem pelo Brasil diminuírem. Para Escorel, mesmo que não ocorram eventos tão dramáticos, se o grupo tiver a disposição de ir para a rua, sempre haverá o que transmitir.

    O que a gente pôde ver nos últimos dois meses, por um lado, foi um testemunho muito importante. Não sei propriamente se eu chamaria ainda de reportagem ou de jornalismo”, argumentou Escorel. Para ele, sem tirar o mérito do Mídia Ninja, este é um processo em formação e está no plano da “provocação” representada pelos movimentos de vanguarda. A tecnologia não é a novidade, mas sim o testemunho instantâneo que coloca um desafio para a televisão e para o cinema documentário, que precisará se reinventar. “Se alguém quiser fazer um documentário a respeito dos acontecimentos de junho e esse filme for ficar pronto daqui a seis meses ou um ano, como é a tradição do cinema documentário, que é mais um réquiem do que um testemunho ao vivo, esse réquiem vai ter que levar em conta o trabalho feito pelo Mídia Ninja”, apostou o cineasta.

    Por dentro da notícia

    Escorel comentou que a presença da imprensa, convencional ou alternativa, naturalmente incomoda o poder público e o Mídia Ninja perturba mais ainda, por estar muito próximo dos fatos. “O ponto de vista da Rede Globo é o ponto de vista de um helicóptero ou do alto do terraço dos prédios. Então, há uma diferença entre quem está testemunhando de dentro e quem está de fora. Por razões até compreensíveis, eles querem proteger os profissionais, talvez – há várias explicações para isso. As coberturas ao vivo, tanto as da Globo quanto da GloboNews, em termos visuais, informam pouquíssimo do que está acontecendo. E dependem de um texto contínuo que também informa muito pouco”, afirmou Escorel.

    Para Mauro Malin, a internet está sendo usada com bastante sagacidade pelo Mídia Ninja, mas é preciso lembrar que a rede de computadores é um meio onde o texto ainda é muito importante. No Brasil, um grande número de pessoas apresenta baixa escolaridade e a televisão é hegemônica – por isso, as transmissões atingem uma parcela influente, porém pequena, da população. Malin acredita que a instantaneidade extrema levaria à perda de relevância: “No limite, você vai parar diante de qualquer acontecimento e vai transmitir ocupando um canal de comunicação, de informação, de jornalismo, que é percebido como relevante. O repórter que está na rua cobrindo, escolheu aquele lugar. Eu posso dizer que eu quero que, ao mesmo tempo em que o sujeito esteja cobrindo a PM agredindo os manifestantes, tenha um repórter cobrindo a PM matando um cara na periferia. É muito mais complicado fazer isso”.

    Malin lembrou que a imprensa nasceu partidarizada e ponderou que o Mídia Ninja não defende que o futuro do jornalismo seja apenas a cobertura militante. Ao contrário, o grupo propõe uma complementariedade com a mídia convencional. “Se a chamada grande imprensa morresse hoje, a alternativa seria muito pior”, alertou Malin. Para ele, a imprensa alternativa pode oferecer aos veículos estabelecidos novos olhares que estes são incapazes de ter por estarem atrelados às velhas práticas da profissão. “A grande imprensa vive do poder. A favor, ou contra. Muito mais a favor do que contra. E, digo eu, qualquer veículo no Brasil é muito mais a favor de qualquer governo do que contra. Agora, eles [o Mídia Ninja] vão para a rua sem esse compromisso e captam o clima de uma manifestação vulcânica que ninguém podia prever”, avaliou Malin.

    Canibalismo e cooperação

    O jornalista ressaltou que o Mídia Ninja cresce no rastro da falta de agilidade da grande imprensa e relembrou que durante uma das manifestações mais expressivas dos últimos dois meses, a TV Globo interrompeu a sua programação para veicular imagens em tempo real, mas não entrevistou nenhum manifestante. “A TV Globo não faz debate ao vivo de nada, nem de futebol. Então, existe um problema que provoca uma repulsa muito grande, o que não justifica você agredir ninguém”, ponderou Malin.

    Na avaliação de Leonel de Aguiar, o Mídia Ninja é bem-vindo e pode revolucionar o jornalismo brasileiro. Além de alternativo, o grupo tem pautado a grande imprensa, o que é um fenômeno notável. Para ele, é preciso avançar na discussão da interseção entre o jornalismo feito com base em ativismo político, social e cultural e o papel de mediador do profissional de imprensa. “Eu acompanho, fico acordado até duas, três horas da manhã, com a Mídia Ninja, conheço todos eles da rede social e eu acho que é um fenômeno que veio para ficar e vai contagiar a grande imprensa”, avaliou. O professor destacou que o Mídia Ninja fez uma boa cobertura sobre as prisões arbitrárias e a respeito do artifício de usar policiais infiltrados entre os manifestantes.

    Um telespectador questionou se o Mídia Ninja está tirando o espaço dos veículos de comunicação convencionais. “Essa é uma crise que já assola [a grande imprensa] desde, pelo menos, a década de 1990”, garantiu o professor. A internet e as mídias sociais já vinham mudando os paradigmas da comunicação. No entanto, Leonel de Aguiar não vê a possibilidade de as mídias alternativas substituírem a grande imprensa porque são complementares. “A questão é a pluralidade. Você aumenta a capacidade da sociedade conhecer os acontecimentos da nossa contemporaneidade”, disse. Para ele, parte da população ainda cultiva a imagem de que a grande imprensa se beneficiou da ditadura e até hoje alimenta a impressão de que o jornalismo no Brasil não exerce o papel de mediação social com pluralidade.

     

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