Blog

  • Bastidores

    Onde está Amarildo?

    Por Luciano Martins Costa

     

    Os jornais começam a mostrar mais interesse pelo destino do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, de 47 anos, que desapareceu no dia 14 de julho, após ser detido por policiais e levado para a Unidade de Polícia Pacificadora da Favela da Rocinha, um daqueles postos comunitários criados pelo governo do Rio de Janeiro para ocupar as comunidades antes dominadas por traficantes.

    Oficialmente, Amarildo foi apreendido “para averiguação”, o que indica que havia alguma suspeita, justificada ou não, contra ele. No entanto, tudo que se tem publicado aponta para um erro de avaliação dos policiais que o detiveram.

    Pontualmente, o que a imprensa está fazendo é acompanhar a apuração da Corregedoria da Polícia Militar do Rio, que afastou da UPP os PMs que detiveram o pedreiro e iniciou um inquérito para investigar o que houve no interior da unidade policial. Na quinta-feira (1/8), informa-se que o sangue encontrado na viatura que o transportou não pertence ao operário.

    Paralelamente às investigações policiais, o Globo apura a denúncia de que Amarildo foi morto e seu corpo levado para o centro de tratamento de resíduos no município de Seropédica, que recebe todos os dias dezenas de caminhões de lixo da capital fluminense. O Estado de S.Paulo também investe na possibilidade de que Amarildo esteja morto, com base em declarações da cúpula da segurança pública do Rio. A Folha de S.Paulo, o jornal paulista que costuma dar mais espaço para notícias do Rio de Janeiro, publica apenas uma pequeno nota de rodapé.

    Nas redes sociais, uma campanha mobiliza milhares de pessoas em torno da pergunta: onde está Amarildo?

    O assunto passa rapidamente das investigações policiais para as redes e das redes, como tem acontecido desde o mês de junho, transforma-se em bandeira de manifestações. Amarildo pode estar morto ou simplesmente escondido em algum lugar, com medo da polícia. Nesta altura do dia, é possível que tenha voltado para casa a qualquer momento ou que seu corpo tenha sido encontrado no meio do lixo.

    Esse é o contexto que torna seu caso emblemático, neste momento em que parte da sociedade brasileira sai às ruas para denunciar certas mazelas que resistem ao processo de democratização do país.

    Polícia e política

    A pergunta que não quer calar ganhou espaço no New York Times, na segunda-feira (29/7), antes de se tornar destaque nos jornais paulistas.

    Num país realmente democrático, a hipótese de Amarildo ter sido detido para averiguações e sua vida terminar em meio aos detritos de um lixão não poderia ser sequer considerada pela imprensa. O fato de essa possibilidade ser tratada com certa naturalidade pelos jornais e pelas autoridades justifica em grande parte a violência com que alguns manifestantes atacam a polícia durante os protestos que paralisam as principais cidades do país. As abordagens violentas são a rotina, com poucas variações, que enfrentam os jovens da periferia de São Paulo, do Rio e de outras regiões metropolitanas.

    Ainda que Amarildo esteja vivo, escondido em algum lugar, a mera constatação de que possa ter sido assassinado por aqueles que deveriam protegê-lo demonstra que alguma coisa vai muito mal nas instituições. Não é de hoje que se observa como as políticas de segurança pública adotadas pela maioria dos estados refletem ainda a ideologia da repressão vigente no regime militar. Há uma espécie de guerra não declarada entre a polícia e a juventude, em especial aquela juventude ruidosa e de pele escura que insiste em sair dos guetos onde a pobreza foi enclausurada por décadas.

    O governador do Rio, Sérgio Cabral, conquistou o apoio da população com o programa das Unidades de Polícia Pacificadora, que leva a presença do Estado a lugares antes dominados por quadrilhas de traficantes.

    As favelas pacificadas se transformaram em comunidades mais prósperas, onde se reduzem os indicadores de pobreza e aumenta o protagonismo dos jovens, com iniciativas culturais e educacionais que aceleram sua integração e reduzem o risco da marginalização.

    A realidade anterior era muito pior, e o Globo já havia produzido, em 2007, uma série impressionante de reportagens demonstrando que, nos vinte anos anteriores, o crime havia causado a morte ou o desaparecimento de pelo menos 14 mil cidadãos.

    No entanto, em muitos casos houve negligência por parte do governo na preparação dos policiais encarregados de consolidar o resgate dessas comunidades. Em muitas delas, a tirania do narcotráfico foi substituída pela ação nefasta de milícias formadas por agentes públicos e apoiadas por vereadores e deputados – e a violência apenas mudou de protagonistas.

    Esse é o contexto que revolta muitos cidadãos.

    Onde está Amarildo?

    Essa é a pergunta que os jornalistas devem fazer em todas as entrevistas de que participarem, seja sobre futebol, economia, política, ou sobre a nova “periguete” da novela das oito.

    Onde estiver Amarildo, estará potencialmente todo cidadão desfavorecido.

     

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

     

  • Transcrições

    Pgm 693 - Estado laico - 23/07/2013

     

    Na semana em que o papa Francisco chegou ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o Observatório da Imprensa exibido pela TV Brasil na terça-feira (23/7) discutiu a postura da mídia brasileira diante do preceito do Estado laico, tema tratado no programa em diversas ocasiões. Assegurada pela Constituição Federal, a laicidade é posta em xeque diariamente: das cédulas de real, que ostentam a frase “Deus é fiel”, ao crucifixo pendurado no plenário do Supremo Tribunal Federal, passando pelos recentes projetos de “cura gay” e “bolsa estupro”. Outra barreira à laicidade são os variados feriados religiosos do calendário brasileiro. No Rio de Janeiro, sede da JMJ, a prefeitura decretou dois dias de feriado integral e mais dois períodos parciais. Realizado desde 1986, o encontro de jovens católicos espera reunir, de acordo com estimativas dos organizadores, mais de 2 milhões de peregrinos de todo o mundo.

    Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o historiador Daniel Aarão Reis. Professor titular de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aarão pesquisa a História das Esquerdas no Brasil. Em Brasília, participou Jean Wyllys, deputado federal (PSOL-RJ), e em São Paulo, o filósofo Roberto Romano. Autor de três livros, colunista da Carta Capital e do portal iGay, Jean Wyllys participa de movimentos que combatem a homofobia, a intolerância e o fundamentalismo religioso, entre outros temas. Roberto Romano é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e tem doutorado na Escola de Altos Estudos de Paris. É professor titular da Unicamp na área de Ética e Filosofia Política. Escreveu vários livros e artigos sobre ética e teoria do Estado.

    No editorial que abre o programa, Dines comentou que o Estado laico é “continuamente atravessado pela transformação da nossa mídia eletrônica em púlpito religioso”. Dines ressaltou que esse tema já foi tratado no programa por várias vezes: “Nossa insistência justifica-se duplamente: se o Estado democrático de direito é por obrigação isonômico, as concessões e a programação das emissoras de rádio e televisão devem obedecer aos mesmos critérios igualitários em matéria religiosa. Não é o que acontece”.

    A reportagem exibida antes do debate no estúdio entrevistou Leonardo Maciel, presidente da RioEventos, órgão da prefeitura carioca encarregado dos preparativos da JMJ. Maciel explicou que o volume de fiéis confirmados para o encontro justifica o feriado: “É o maior evento que o país já recebeu. Não há na história do país um evento dessa magnitude, com essa quantidade de turistas que vêm ao Rio de Janeiro. É impossível que um evento dessa magnitude, tal qual uma Olimpíada, chegar a uma cidade sem que essa cidade se adapte a isso, então você tem que tomar medidas para que [tudo] ocorra sem transtornos”. Maciel garantiu que a prefeitura apoia grandes iniciativas, independentemente do caráter religioso.

    Romper a tradição

    Para a professora de Filosofia da USP, Roseli Fischmann, historicamente a laicidade do Estado brasileiro nunca chegou a se concretizar. “No Império era natural essa ligação íntima, uma ligação plena do Império e da Igreja Católica. Dentro dos governos que são aristocráticos, então isso se aplica. E, logicamente, quando se implanta a República, a primeira coisa a ser negada é essa, porque a República traz essa certeza de que todos somos livres e iguais. Esse é um ponto crucial. Se somos iguais, não há espaço para essa diferenciação da aristocracia desde o nascimento”, lembrou a professora. Para ela, a Igreja Católica continua solicitando não direitos, mas privilégios ao Estado.

    Roseli Fischmann destacou que o Estado é “de todos e de todas”, por isso a laicidade é importante: “Aquilo que é colocado, não quer dizer que se deva seguir. Nós vemos [isso], por exemplo, na discussão relativa à homossexualidade, só para pegar um exemplo recente que causou muito debate. [Aceitar] que exista esse reconhecimento da plena igualdade [não significa estar] de acordo ou querendo para si. É importante entender que a lei, por existir para todos e para todas, não se coloca como uma coisa impositiva, ao contrário: ela continua mantendo a possibilidade de escolha”.

    O programa também entrevistou a professora Maria Clara Bingemer, do departamento de Teologia da PUC-Rio. A estudiosa explicou que os ocidentais, de maneira geral, estão marcados pelo cristianismo histórico porque esta corrente configurou, não só a fé e a religião, como também a cultura. “O comportamento dos cristãos sempre foi contra corrente. Acho que, por isso também, os órgãos públicos e a mídia ficam muito em cima da igreja, para ressaltar quando ela tropeça. E ela tropeça porque é humana”, disse a professora.

    Laicismo e democracia

    No debate no estúdio, o professor Roberto Romano explicou que o termo “laico” tem origem na palavra latina laos, que significa o povo, potência maior na democracia ateniense. Na Idade Média, implantou-se a doutrina de que quanto mais perto de Deus, mais alta a posição hierárquica na sociedade. “Embaixo de tudo estava o leigo, o laos, que não tinha direito nenhum e não tinha condição de ser autônomo. Essa doutrina que foi gerada no helenismo e na Idade Média veio até hoje. Em muitos Estados você tem essa visão bastante deturpada do povo como aquele que deve receber ordens e não tem dignidade. Isso quer dizer o seguinte: laicismo significa exatamente o sinônimo de democracia”, sintetizou Romano. Na ausência da laicidade, poderes “extra povo” dominam a cena política.

    Para o professor, existem formas avançadas de laicismo, como nos Estados Unidos. Lá, igreja e Estado estão explicitamente separados, embora tenham ocorrido tentativas, sobretudo nos governos Bush, de “misturar as águas”. Roberto Romano ressaltou que um Estado laico absoluto será sempre difícil porque há uma permeabilidade das religiões na vida social e, por consequência, na estrutura do Estado. “Os religiosos elegem seus representantes no Executivo e no Legislativo e, portanto, procuram influenciar a vida política e estatal para as suas visões”, disse o filósofo. Roberto Romano ressaltou que a Igreja Católica, desde o século 19, se apresenta como uma conquistadora das massas:

    Esse evento do Rio de Janeiro não é diferente: é colocar a massa na rua para mostrar que a superioridade da igreja é inconteste em relação ao Estado. É bom lembrar que, no século 19, a igreja tomou o costume de dedicar países inteiros ao Sagrado Coração de Jesus, em expiação e reconhecimento da sua soberania eclesiástica. O Sacre Coeur de Paris é uma consagração da França pelos pecados da Comuna de Paris e da Revolução Francesa. O Equador foi consagrado ao Sagrado Coração de Jesus e o Cristo Redentor nada mais é do que isso. Se você olhar lá tem o Sagrado Coração de Jesus”, citou Romano.

    As massas tomam a rua

    Na avaliação de Dines, os feriados determinados pela prefeitura do Rio de Janeiro em razão da Jornada Mundial da Juventude acabam sendo um privilégio para a Igreja Católica. Daniel Aarão ressaltou que durante a instalação da República algumas lideranças, animadas pelos propósitos positivistas, idealizaram uma República laica, mas as tradições se mostraram mais fortes e acabaram predominando. A Igreja Católica continuou influindo através de canais e ramificações e condicionando o Estado na sua atuação. “Nesse megaevento do Rio de Janeiro eu acredito que seja prudente decretar o feriado porque os transportes da cidade não têm condições de [operar] em situação normal”, avaliou Aarão. O historiador ressaltou que em outros feriados católicos, como o de Nossa Senhora Aparecida, os não crentes e os ateus são obrigados a respeitar a data.

    Daniel Aarão vê com naturalidade os movimentos de massa das igrejas, mas observou que as confissões não podem transformar os eventos em um fator para colonizar o Estado: “O princípio da laicidade do Estado, ao contrário do que muitos religiosos entendem, não é um princípio antirreligioso. É um princípio a-religioso. Ele quer fazer da religião um assunto da esfera privada de cada um. Cada um pode ter a sua crença, pode se manifestar na rua, em casa, onde quiser. O problema é manter o Estado neutro em relação às diversas confissões religiosas e também em relação àqueles que não têm religião nenhuma”.

    O deputado Jean Wyllys destacou que, em todo o mundo, Estados colocaram o preceito da laicidade nas suas Constituições para poder impedir as guerras religiosas e dar alguma neutralidade ao Estado frente às diferentes crenças. De fato, a única Constituição radicalmente laica do Brasil foi a de 1891, após a proclamação da República. “É a única que não faz qualquer referência a Deus. De lá para cá, a Igreja Católica renovou seus signos de influenciar o Estado e a palavra Deus voltou ao preâmbulo e a outras partes da Constituição. No Brasil, não só a Igreja Católica tenta solapar essa laicidade que implicaria uma neutralidade do Estado frente às crenças mas, recentemente, dos anos 1980 para cá, as igrejas neopentecostais vêm renovando os seus meios de influenciar o Estado e de orientar as políticas públicas”, criticou o deputado.

    Um Estado, muitas religiões

    Na opinião de Wyllys, em um país com uma formação multicultural e plurirreligiosa como o Brasil, é inconcebível deixar que correntes religiosas majoritárias influenciem o Estado e suas políticas. Por outro lado, não se pode negar a tradição dos santos católicos no cotidiano: “Não quer dizer que no feriado de Nossa Senhora Aparecida todas as pessoas se dirijam à basílica. Muito pelo contrário, elas vão para o futebol, para a praia, elas aproveitam o feriado”. Para o deputado, não é possível separar toda a identidade e a cultura brasileira da influência das religiões, mas é preciso perseguir a laicidade em nome do Direito de crer e de não crer dos indivíduos. Formado dentro dos preceitos do catolicismo e admirador da arte sacra, o deputado diz que muitos dos seus valores vêm do cristianismo.

    Dines ponderou que existe uma inegável herança da religião na cultura brasileira, mas que as confissões devem se afastar do Estado. Um dos exemplos desta proximidade é a presença do deputado Marcos Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Impregnado de doutrinas religiosas radicais, o pastor enfrentou forte oposição e, no entanto, permanece no cargo. Para o deputado Jean Wyllys, o fato é inaceitável: “Eu acho inadmissível, tanto que a Igreja Católica tente influenciar as políticas de Estado, quanto os neopentecostais - sobretudo os fundamentalistas religiosos como o deputado-pastor Marcos Feliciano - [queiram fazê-lo] sem considerar, por exemplo, o conhecimento, os saberes dos povos, a própria ciência moderna. Ele desconsidera tudo isso para fazer uma interpretação literal da Bíblia e tentar, a partir dela, legislar para um povo que é plurirreligioso”, sublinhou o deputado.

    Jean Wyllys lembrou que, interessados na capacidade de transformar fiéis em eleitores, diversos partidos convidaram pastores carismáticos para fazer parte de seus quadros e ressaltou que a consequência disso para a laicidade do Estado é grave. “Esses pastores tomaram gosto pela política e começaram a desenvolver uma fantasia totalitarista de que vão transformar o Brasil em uma teocracia cristã. Isso é apavorante. Não é uma teoria da conspiração minha. Eu tenho visto isso todos os dias nos discursos feitos aqui”, disse o deputado. Para ele, a bancada neopentecostal fere os princípios da Constituição ao trabalhar contra a promoção do bem de todos, sem discriminação.

    Há deputados que subiram na tribuna da Câmara para dedicar o mandato a Jesus, por incrível que pareça, e para dizer que ele vai conduzir o mandato de acordo com o que está na Bíblia. Eu não tenho nada contra a Bíblia, pelo contrário, é um livro maravilhoso do ponto de vista literário e histórico, mas ele fundamenta a crença de um grupo de pessoas. Pode ser o grupo majoritário, mas ainda é de um grupo de pessoas”, afirmou o deputado. Para ele, é preciso defender as minorias das paixões das maiorias.

     

  • Bastidores

    Estado laico esquecido, religião oficial consagrada

    Por Alberto Dines em 30/07/2013

    Ninguém lhe roubará o título de figura mais humana, simpática e mais calorosa do mundo. Quintessência da bonomia e da lhanura. Esses galardões o papa Francisco conquistou no seu primeiro périplo internacional, aqui, no Brasil, e o manterá, esperamos, por um longo tempo.

    Percebeu a bagunça na organização do evento e generosamente a atribuiu a si, acobertando involuntariamente a irresponsabilidade embutida na incúria e na incompetência dos anfitriões.

    Por outro lado, a visita do sumo pontífice, embora riquíssima em matéria de provocações e estímulos de ordem moral e política, não conseguiu nos aproximar da discussão direta sobre um dos problemas centrais do mundo contemporâneo: o poder religioso e a ausência de um contrapoder democrático para contrabalançá-lo. Em outras palavras: a questão do laicismo do Estado continuará fermentando, adiada e explosiva.

    Com a sua visível obsessão pela transparência, o papa Francisco tentou lembrá-la no discurso dirigido à sociedade civil, no belíssimo monumento à cultura que é o Theatro Municipal do Rio de Janeiro (sábado, 27/7). Textosurpreendente, em todos os sentidos – enfatiza a “cultura do encontro”, valoriza uma “humanização integral”, prega uma “democracia muito além da lógica da representação”, propõe um “humanismo na economia”, chega a louvar um Estado laico, “sem assumir como própria qualquer posição confessional”, porém só admite nessa igualdade os santificados por alguma crença religiosa.

    E nosotros,hermano Jorge Mario Bergoglio?

    Nós, agnósticos, descrentes ou não-crentes, nós os que levamos às últimas consequências a condição de pensantes, nós os que duvidamos não somos filhos de Deus? Este observador sempre imaginou que os céticos e até mesmo os ateus seriam os preferidos dos pastores de almas porque têm a coragem para questionar e adiantar-se ao rebanho.

    Como democratas intransigentes e integrais, respeitamos a presença daquilo que o papa Francisco denominou “fator religioso na sociedade”, mas como humanistas, herdeiros do Renascimento e do Iluminismo – e não apenas na economia – sonhamos com algo mais abrangente, um laicismo autêntico, legítimo, capaz de valorizar aqueles que não necessitam de intermediários para aproximar-se de Deus, nem se curvam ou cultivam dogmas e tabus.

    Estimativas inflacionadas

    Foi um discurso rico, estimulante sob o ponto de vista filosófico e algo desafiador sob o ponto de vista político por escancarar a percepção de que o laicismo dos crentes nunca será absoluto, sempre relativizado: segrega os descrentes, não lhes oferece o mesmo espaço-cidadão.

    A cobertura do discurso nas edições de domingo (28/7) só agravou a noção de que nosso país adota uma religião oficial. Apenas a Folha de S.Paulo tentou valorizar com um subtítulo o parágrafo sobre laicismo do discurso pontifical. Os demais se contentaram em reproduzir burocraticamente a íntegra. E estamos conversados.

    Na segunda-feira (29), nenhum opinionista deu sequência à opinião do papa Francisco, exceto o jornalista Luís Paulo Horta, que dividiu com o também jornalista Frei Betto o recanto de opinião do caderno diário do Globo sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ, ver aqui).

    A grande verdade é que nossa imprensa não é laicista, nem laica, não se ocupa/preocupa com secularismo ou a isonomia no Estado de Direito. Nunca o fez. Exceto no período 1808-1822, quando, a exemplo de Hipólito da Costa, alguns jornalistas-fundadores assumiam-se como maçons e, mais tarde, nos albores da República, quando os positivistas defendiam a rigorosa separação entre Igreja e Estado.

    Hoje, a forte penetração do Opus Dei nos grandes e médios jornais brasileiros, tanto nos comandos intermediários como na cúpula das entidades corporativas, não permite nem permitirá que o debate sobre o laicismo possa prosperar e ser incorporado à agenda para o aperfeiçoamento democrático.

    A prova mais recente foi a cobertura da visita do papa Francisco não apenas intensa, extensa e pouquíssimo isenta como também nada pluralista. Aliás, assumidamente devocional e engajada. Quando a mídia não assume os princípios de tolerância e respeito às diferenças, o Estado adota o mesmo comportamento e incorpora os mesmos favorecimentos.

    Jornais impressos não são obrigados a ser equilibrados, mas caso pretendam uma imagem de credibilidade deveriam tentar posturas mais naturais, equidistantes. Porém a TV, sobretudo a TV aberta, é uma concessão pública, do Estado, e, como tal, não pode estar atrelada a uma religião, muito menos transmitir cultos religiosos ao vivo em versão integral.

    Não foi o que aconteceu com a cobertura da homilia do papa na quinta-feira (25/7), pela GloboNews, transmitida ao vivo de Copacabana com os/as âncoras in loco, tiritando de frio, porém devidamente aquecidos pela fé religiosa.

    Também a via-crúcis, encenada na mesma Copacabana, foi transmitida integralmente (sem comerciais) pela Rede Globo, em TV aberta, ao vivo, na noite de sexta-feira. O único jornalista a registrar o pecado foi Nelson de Sá, da Folha (sábado, 27/7). A Rede Globo não ofereceu explicações. E ninguém cobrou. Nem a Folha, embora o jornal tenha sido o único veículo a contestar as estimativas absurdamente inflacionadas divulgadas pelos organizadores no tocante ao número de participantes dos diferentes eventos da Jornada.

    Dupla de gigantes

    Ao contrário do que aconteceu na Copa das Confederações permeada por críticas e questionamentos, o noticiário geral da JMJ foi energizado pela devoção. Até mesmo as tremendas falhas de organização e logística da prefeitura do Rio foram perdoadas. No balanço final apresentado pelo prefeito Eduardo Paes na segunda-feira (29) ele se autoconferiu a nota dez e ficou por isso mesmo. Assim se constroem factoides e ilusões.

    O natural entusiasmo dos jovens peregrinos e a emoção dos cariocas extasiados com a figura benevolente do pontífice foram sutilmente utilizados para maquiar a imperdoável improvisação. A ausência de acidentes ou incidentes nas colossais concentrações humanas nas areias de Copacabana não pode ser tomada como façanha das autoridades. Resultaram da índole de um povo simples, crente, fascinado pelos espetáculos, atraído por uma intensa, demorada e perfeita cruzada motivadora.

    Seus autores: a dupla de gigantes da comunicação devidamente irmanados: a igreja católica e a Rede Globo.

     

     

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

     

    Leia também

    O Estado laico em xeque – Lilia Diniz

    A visita do papa e o Estado laico – Vídeo do programa OI na TV exibido em 23/7/2013

     

     

  • Transcrições

    Pgm 692 - Vazamento de informações - Edward Snowden - 16/07/2013

     

    O Observatório da Imprensa exibido ao vivo na terça-feira (16/07) pela TV Brasil examinou a repercussão das revelações do consultor em sistemas de computação Edward Snowden. De acordo com o jornalista Glenn Greenwald, do jornal britânico Guardian, que publicou as informações em primeira mão, Snowden tem dados que poderiam causar sérios danos aos Estados Unidos. Um mês depois da revelação da rede de monitoramento de comunicações montada pelo governo dos Estados Unidos há dez anos, o escândalo chegou ao Brasil. Na semana passada, o jornal O Globo teve acesso a documentos que mostram que milhões de e-mails e ligações telefônicas de indivíduos e empresas sediadas no Brasil foram monitorados pela Agência de Segurança Nacional Americana (NSA, na sigla em inglês).

    O Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos, onde 2,3 bilhões de telefonemas e mensagens foram rastreados pelo programa, batizado de Prism. E-mails, chats online e chamadas de voz dos serviços da Apple, Facebook, Google, Microsoft, YouTube, Skype, AOL, Yahoo e PalTalk estão na mira do monitoramento norte-americano. A Microsoft teria colaborado com a NSA e ajudado a burlar o próprio sistema de criptografia, segundo os dados apontados por Snowden.

    Investigações preliminares do Ministério da Defesa e das Forças Armadas não encontraram indícios de invasão no sistema de criptografia de informações estratégicas do Brasil. As denúncias repercutiram no Congresso Nacional: uma Comissão Parlamentar de Inquérito foi criada para investigar o monitoramento e a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado convocou o jornalista Glenn Greenwald para detalhar o processo de vigilância. O escândalo levou o governo a pedir que a Câmara dos Deputados aprecie com urgência o Marco Civil da Internet. O texto já teve a votação adiada diversas vezes por questões políticas e interesses empresariais.

    Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro o jornalista José Casado, que assina a cobertura do caso no jornal O Globo. Casado integra a editoria de Opinião e é colunista do vespertino eletrônico para tablets, O Globo A Mais. Em São Paulo, o programa contou com a presença dos jornalistas Bob Fernandes e Caio Túlio Costa. Bob Fernandes é editor-chefe da Terra Magazine e comentarista da TV Gazeta, em SP, e Rádio Metrópole, da Bahia. Foi redator-chefe da revista CartaCapital, repórter especial dos jornais Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Caio Túlio Costa é professor de Ética Jornalística e consultor de mídias digitais. Trabalhou na Folha de S.Paulo durante 21 anos, onde foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira. É um dos fundadores do UOL e foi presidente do iG.

    Sem barreiras contra a lupa

    Antes do debate ao vivo, em editorial, Dines sublinhou o despreparo do Brasil para enfrentar o monitoramento: “Nosso país é o mais informatizado do sub-continente. Isso explica muita coisa. Porém, é o mais desprotegido e, sobretudo, o mais desregulado. O ministro da Defesa, Celso Amorim, acrescentou uma forte dose de ceticismo no tocante à nossa vulnerabilidade digital quando declarou que há muito tempo não usa a internet para assuntos importantes. A mídia está agitada, mas apenas na direção da espionagem e xeretagem internacional. Ainda não se deu conta de que, nesta história de violação de privacidades e de soberanias, quem está sob forte suspeita – e por muito tempo – é o próprio sistema www, que a mídia contemporânea vem entronizando como a plataforma informativa do futuro”.

    A reportagem exibida antes do debate ao vivo ouviu a opinião do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. O ministro admite a possibilidade de vazamento e acredita que os Estados Unidos podem ter acessado o conteúdo de conversas. “O governo tem redes corporativas seguras, redes onde nós transitamos as nossas informações, documentos, atos que precisam ser tomados pelo governo e nós não temos problema. Agora, aquilo que nós colocamos na rede e a forma pela qual nós nos comunicamos, por exemplo, a presidenta Dilma me liga seguidamente e liga no meu celular. Ela, nesse momento, está se comunicando com a mesma condição de qualquer cidadão. Se todo esse rastreamento está acontecendo, então, é evidente que essa ligação também vai ser abrangida”, alertou o ministro.

    Para Paulo Bernardo, o monitoramento não é uma surpresa: “Essas notícias de espionagem, bisbilhotagem e monitoramento em uma escala global, isso é muito recorrente de sair na mídia, seja na mídia alternativa ou grandes veículos de comunicação. Então, quem disser que não sabia nada é porque nunca se interessou pelo assunto. Agora, o governo nunca teve conhecimento de espionagem realizada em território brasileiro ou de cooperação de empresas brasileiras com isso”.

    À luz da Lei

    O especialista em Direito Digital Luiz Moncau ressaltou que as denúncias de Snowden evidenciam a urgência na tramitação dos diversos projetos ligados à internet que estão parados no Congresso Nacional, sobretudo o Marco Civil. “Ele tem uma série de princípios e diretrizes que tratam da proteção dos dados pessoais e da privacidade. Um outro Projeto de Lei que tem sido discutido ainda em nível governamental seria o de proteção dos dados pessoais. Vários países hoje em dia já possuem não só uma legislação específica para proteger os dados pessoais como órgãos legisladores, agências especializadas na proteção desses dados para proteger principalmente o consumidor, o usuário, contra práticas abusivas de empresas ou de terceiros”, destacou Moncau.

    A Constituição dos Estados Unidos exige ordem judicial para qualquer interferência do governo em canais de comunicação privada, mas há brechas na lei, como o Ato Patriota, criado após os atentados de 11 de setembro de 2001. “Existe a possibilidade de se investigar casos com acesso específico, em circunstâncias pontuais, a canais de telecomunicação quando existe a suspeita fundamentada de terror. Se não existe a suspeita fundamentada de terrorismo não é possível você realizar esse tipo de quebra de sigilo em canais de telecomunicação. É entendido como um abuso de Direito. O Prism, de certa forma, viola a 4ª emenda [da Constituição dos Estados Unidos], só que acaba se apoiando em outros princípios do governo americano para tentar sustentar a sua legalidade. Que é justamente a proteção à segurança nacional ou a própria segurança dos meios de telecomunicação do país”, explicou o especialista em Direito Digital Victor Auilo Haikal.

    O jornalista Carlos Alberto Teixeira, colunista de Tecnologia do jornal O Globo, comentou que programas de criptografia permitem uma navegação mais segura, mas nem todos os usuários têm interesse em codificar os seus dados. “Como é que o cidadão pode se proteger, o cidadão, a empresa, a instituição? Encapsulando esse fluxo de informações como se fosse uma armadura digital. Criptografando, codificando isso de uma forma que quem interceptar a informação não consiga ler o que está ali, só o destinatário consegue ler. É o que eles chamam de criptografia por chave pública. Ou seja, o remetente e o destinatário têm uma chave para decodificar aquela informação. Mas quem estiver no meio não consegue. Não é nada complicado usar, não é nada muito complicado. É um pouquinho a mais do que um usuário comum consegue resolver em casa”, detalhou o jornalista.

    A maioria dos cidadãos não está muito interessada em esconder essas comunicações de e-mail, qual é a sua navegação na web. Você não tem interesse, eu não tenho. Agora, uma corporação, uma empresa, uma instituição ou algum terrorista, alguém que está fazendo mal, tem interesse em esconder isso”. Para Carlos Alberto Teixeira, as denúncias de Snowden só surpreendem os mais ingênuos. “A função dos departamentos de espionagem, as redes de inteligência, tanto a NSA, americana, como a Abin, como o Mossad, a função deles todos é pegar informação. O que a gente vê hoje é um desdobramento, uma atualização desse sistema que já existe há tanto tempo. As repercussões, isso aí a gente está vendo, um terremoto político no mundo inteiro. E estamos só começando”, alertou o jornalista.

    A fragilidade da rede

    No debate ao vivo, Dines ressaltou que o material coletado por Edward Snowden mostra que toda a web está sendo posta em questão e perguntou ao jornalista José Casado se a equipe que foi montada para esta cobertura – que inclui os repórteres Roberto Maltchik e Roberto Kaz – se surpreendeu com a magnitude dos dados revelados pelo consultor em sistemas de computação. Casado contou que, após avaliar parte das informações entregues por Glenn Greenwald, que vive no Brasil há oito anos, a equipe percebeu que tinha em mãos algo surpreendente.

    Por mais que você possa imaginar, você não tem ideia da dimensão que esse programa americano [de monitoramento] tomou”, disse o jornalista. Casado chamou a atenção para o fato de que o objetivo do governo dos Estados Unidos, em tese, era proteger a segurança nacional, mas o limite entre o dever e a invasão da privacidade de cidadãos ao redor do mundo é tênue. Este é um assunto para legisladores refletirem e a sociedade tem mecanismos, na opinião de Casado, para discutir a questão. Com base nos arquivos coletados por Snowden, a que O Globo teve acesso, Casado assegura que não há a menor possibilidade de um cidadão estar seguro a respeito da privacidade de seus dados pessoais.

    Casado lamentou a situação em que Edward Snowden se encontra desde que decidiu levar a público os documentos coletados na NSA. Depois de um périplo internacional, o ex-consultor aguarda no aeroporto de Moscou que algum país lhe conceda asilo político. No entanto, de acordo com o jornalista, a maioria dos governos rejeita o visitante incômodo por temer a reação dos Estados Unidos. “Você pode ter duas leituras dentro do bom e velho maniqueismo: a do herói e a do traidor. O governo americano o vê como um traidor. Nas redes sociais ele se tornou um herói”, resume.

    Exibir vs. esconder

    Dines comentou que há entidades europeias contrárias ao Facebook por acreditar que o site de relacionamento não respeita as leis de privacidade. Casado sublinhou que os Estados Unidos são o centro produtor do sistema desvelado por Edward Snowden, mas outros governos também promovem espionagem em menor escala e há a colaboração de empresas privadas. Um exemplo é o Facebook, que tem contrato com a NSA. As empresas possibilitam o acesso do usuário à internet e depois entregam as informações para o monitoramento pela agência. “Isso é cobrado. E você, quando compra determinado produto ou passa a ser usuário, não sabia”, alerta Casado. O jornalista ressaltou que a legislação nos Estados Unidos proíbe a espionagem doméstica exceto em casos de terrorismo, ao mesmo tempo em que protege parcerias entre agências de espionagem americanas e empresas privadas instaladas no país. Este monitoramento teria como foco cidadãos, empresas e instituições estrangeiras e teria se tornado um negócio altamente lucrativo.

    Caio Túlio Costa comentou que a história da espionagem no mundo é antiga, porém, a dimensão do programa revelado por Edward Snowden é preocupante e “demoníaca”. Para o jornalista, o assunto é explosivo e o destaque dado pela mídia tradicional não foi proporcional à capacidade de invasão que o governo norte-americano demonstrou ter ao montar o programa de monitoramento. “Quem se surpreende com isso não tinha atentado para essa vocação de polícia do mundo que os Estados Unidos têm e cultuam de forma obsessiva”, sublinhou.

    O jornalista explicou que tanto o Facebook quanto o Google têm sistemas que permitem traçar um perfil de navegação do usuário através do seu histórico e montar um projeto de publicidade voltado para os interesses específicos dos internautas. Além de armazenar os dados dos usuários, as empresas os negociam: “Isto é uma invasão de privacidade, mas é consentida porque você, quando assina o Facebook, se compromete a concordar com os termos de uso onde ele diz que faz isso”, criticou Caio Túlio. Portanto, o ato não é ilegal, mas “acostuma” o usuário a ser monitorado. Assim, pode-se perceber que a espionagem não acontece apenas sob os auspícios do governo dos Estados Unidos. Também atinge empresas privadas que trabalham em larga escala e que estão repassando informações através de sites de busca ou de relacionamento.

    História antiga

    O jornalista Bob Fernandes disse ficar admirado com as declarações de surpresa em torno da espionagem dadas pelo atual governo, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo Congresso Nacional. Entre 1999 e 2004, a CartaCapital publicou oito reportagens de capa detalhando como agências do porte da CIA e do FBI operavam no Brasil. Os pormenores incluíam escutas nos palácios da Alvorada e do Itamaraty. Algumas das atividades de espionagem datavam dos anos 1960, como na área de biossegurança, e ainda estão em curso. Além da espionagem “por atacado” da NSA, mostrada por Snowden, há também atividades de “varejo” promovidas pela CIA e pelo FBI, que a cada ano precisam disputar verbas orçamentárias no Congresso Nacional dos Estados Unidos.

    É o fim dos 500 anos da Era de Gutenberg e nós estamos iniciando e vivenciando uma outra Era que é essa, sem controle nenhum”, sentenciou o jornalista. Para ele, há uma grande incompreensão a respeito dos poderes e problemas da internet. Enquanto a rede mundial de computadores tem a capacidade de fazer a informação transitar em larga escala, ao mesmo tempo, a velocidade da informação leva à pouca compreensão dos temas mais importantes da sociedade.

     

  • Transcrições

    Pgm 691 - Nelson Sirotsky - 09/07/2013

     

    A nova edição especial comemorativa dos 15 anos do Observatório da Imprensa na TV Brasil (9/7) levou ao ar uma entrevista de Alberto Dines com o empresário Nelson Sirotsky, presidente do Conselho de Administração do Grupo RBS, um dos maiores empreendimentos de mídia do Brasil. Fundada em 1957 por Maurício Sirotsky Sobrinho, filho de imigrantes russos que chegaram ao país no início do século passado, a RBS é composta por emissoras de TV, rádios e jornais disponíveis em várias plataformas. O grupo atua na região Sul e conta com mais de seis mil colaboradores.

    A seguir, a entrevista:

    Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Nesta série de depoimentos em comemoração aos 15 anos do nosso programa trazemos hoje um comunicador que, já aos 10 anos, apresentava um programa infantil na TV gaúcha. Hoje ele dirige a segunda maior empresa em número de jornalistas e uma das maiores da mídia privada do país inteiro. No entanto, o grupo foi fundado há pouco mais de meio século e só atua no extremo meridional, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nelson Sirotsky, não é um desperdício uma empresa deste porte, desta qualidade, desta excelência, ficar restrita a apenas uma parte do país?

    Nelson Sirotsky - Boa noite Dines, boa noite telespectadores. É um prazer muito grande participar desta celebração dos 15 anos do Observatório da Imprensa. A RBS começa com a paixão de uma pessoa, de um homem, meu pai, nosso fundador Maurício Sirotsky Sobrinho, um homem de Comunicação do Sul do Brasil.

    Que eu conheci muito bem.

    N.S. - Ao longo de 55 anos. E nós vamos para o nosso quinquagésimo sexto ano. Nós desenvolvemos uma paixão pela Comunicação a partir da paixão de Maurício pela Comunicação, pelo rádio, pela televisão, pelo jornal no Sul do Brasil. Ao longo dos anos, nós evoluímos. Nós somos uma empresa essencialmente de Comunicação, conhecida como grupo RBS no Sul, na área de mídia. Mas evoluímos para um grupo empresarial. Hoje somos um grupo empresarial que atua predominantemente na área de Comunicação do Sul do Brasil, mas que também atua em outras áreas empresariais, em outros segmentos – sobretudo na área do mundo digital, de tecnologia, que está avançando – fora do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Mas sem dúvidas, somos uma empresa apaixonada por Comunicação, que procura fazer Comunicação no maior nível de excelência num mercado muito relevante, que são os mercados no Sul do país. Que, só para você ter uma ideia, são mercados do tamanho de um país como o Chile.

    Nós temos um dado importante da atualidade que não podemos ignorar. Nós estamos gravando esse programa dois dias depois das grandes manifestações de São Paulo e do resto do país. Hoje é quarta-feira, é dia 19 [de junho], e não podemos, embora o programa seja gravado, nós não podemos ignorar este fenômeno, que é um fenômeno que não é pontual, é duradouro, criou uma série de perplexidades e nós temos que ver o papel da mídia nesse processo. Como é que você vê tudo isso, Nelson?

    N.S. - Eu acho que nós estamos vivendo um momento muito bonito da história do Brasil. Eu acho que é um momento muito impactante, é um momento muito relevante. Eu comparo o que a gente vê nas ruas do país ao que aconteceu nos anos oitenta, Diretas Já, ao que aconteceu nos “caras-pintadas”. Eu comparo como fenômeno social e político aquele momento no país. E, sem dúvidas, é um protagonismo diferenciado da sociedade como um todo, e dos jovens, em particular, que nós temos que prestar muita atenção, muita atenção. Há sinais, mensagens que estão sendo dadas para a sociedade brasileira, para os políticos, para os empresários...

    E para a mídia.

    N.S. - Para as instituições e para a mídia. E para a mídia. Sem dúvidas, são sinais claros que estão aí. Quando se fala nesse momento do país, eu acho que nós devemos primeiro separar, com clareza, esse movimento bonito que tem que ser ouvido, que tem que ser percebido das circunstâncias de aproveitamento que sempre acontece. Nós temos que separar isso. Eu estou falando desse momento bonito e que tipo de recado até agora a gente está entendendo. Na minha visão, do ponto de vista da mídia. O que esta juventude está nos dizendo é que o protagonismo da mídia nesse ambiente novo das redes sociais, do mundo digital e da Comunicação “tradicional”, que aquilo que nós fazemos – e acho que de modo geral todos estão fazendo de forma adequada a cobertura deste episódio – não é suficiente. A leitura que eu faço é que esta juventude está dizendo para mim: nós queremos um protagonismo diferenciado nesse mundo novo. E vocês, mídia tradicional, têm que incorporar este protagonismo diferenciado. Então, eu, embora não faça reparos nesse episódio a qualquer veículo de Comunicação, a qualquer empresa que eventualmente possa até ter sido alvo de uma ou outra manifestação...

    Sim, mas não foi dirigido.

    N.S. - Não foi dirigido para ele com relação à qualidade da cobertura. Ao não fazer reparos eu não deixo de considerar que tem uma mensagem, também para a mídia, nesse tipo de movimento. E é o nosso grande desafio: decodificá-lo e incorporá-lo nesse novo mundo que continua existindo, também a partir do Jornalismo, mas um Jornalismo diferente. Um Jornalismo que tem elementos básicos, que tem fundamentos básicos, mas que tem uma realidade nova, que é essa capacidade de integração, de Comunicação, de mobilização a partir das redes sociais, a partir dos telefones celulares. Tem um jeito novo das pessoas protagonizarem e a mídia tem que estar inserida nesse contexto.

    Nelson, uma das interpretações, pelo menos a que eu me inclino, é de que a revolta, claro que não nestes termos, foi uma rebelião contra a previsibilidade, contra o script. De repente a campanha eleitoral é antecipada, já há prognósticos e os campos estão divididos. Aí, adia-se os aumentos das tarifas para o meio do ano, porque no meio do ano vai ter uma mini copa do mundo, a copa do mundo costuma abafar protestos. Então, esse script, esse roteiro não levava em consideração, digamos, o imponderável, a vontade popular.

    N.S. - É. Eu situo esse movimento na linha do desejo de protagonismo da sociedade pacífica, dos jovens, e eu decodifico de que o que está estabelecido não é suficiente. A mensagem que esse ambiente político não me serve...

    Essa bipolaridade.

    N.S. - Essa forma política não me serve. Esse ambiente institucional que as coisas acontecem e parece que está tudo bem, mas não está tudo bem, não me serve. Eu quero protagonizar, quero me posicionar sobre qualquer assunto, sobre qualquer episódio. E essa grande maioria silenciosa, e os jovens, que agora se comunicam todos os dias e têm a sua vida através dos facebooks, através dessas redes sociais, dizem: ‘eu também posso participar’. E, necessariamente, a minha participação não se dá exclusivamente no momento que eu sou chamado a participar, que é no momento do voto. Que ainda não tem sistema melhor, no meu entendimento, do que o da democracia, do voto direto, da representação direta. Só que isso não basta. Eu quero um protagonismo do dia-a-dia, de uma forma diferenciada. Então, eu decodifico o que está acontecendo, como este desejo, e nesse sentido acho sensacional. Acho que é uma transformação e que, tomara que todos, que a sociedade como um todo absorva e faça mudanças, faça alterações. E, sem dúvidas, a nossa formatação política é a que tem que estar observando muito...

    Partidária.

    N.S. - Eu não estou falando de partido A, B, C ou D, mas a estrutura política do país, o nosso modelo político do país, nós temos que prestar muita atenção no que essa garotada, essa juventude está nos dizendo.

    Agora, puxando o assunto para a mídia e fugindo desse protesto, que nós estamos aí a uma distância cronológica que não nos permite avançar. Mas nós temos aí um episódio que é extremamente importante e que a mídia – os chamados jornalões, como eu os designo – não deu muita atenção. Nós tivemos o chefe do Judiciário, ministro Joaquim Barbosa, no exterior, num belo discurso em inglês, mas traduzido imediatamente, fazendo reparos contundentes à nossa imprensa, à nossa grande imprensa. Onde ele disse que a mídia brasileira não tem pluralismo, ela tende muito à direita. Simplificou isso de uma forma, mas eu acho que é uma alusão, ele não tem poder para interferir na mídia e nem quis, mas como cidadão e como um observador do processo ele fez um diagnóstico. Como é que você vê esse diagnóstico do ministro Joaquim Barbosa?

    N.S. - Com todo o respeito ao ministro Joaquim Barbosa, eu acho que o ministro Joaquim Barbosa escolheu o fórum errado para fazer a sua avaliação, num fórum internacional. Esse é o tipo de discussão que nós temos que fazer na sociedade brasileira, não precisamos fazer em fóruns na Costa Rica ou onde quer que seja. E acho que o ministro Joaquim Barbosa, com todo o respeito, fez uma colocação sob um viés pessoal, sob seu ângulo de visão pessoal, e não como presidente... A própria colocação do ministro me parece passível de uma crítica quando ele diz assim: só existem três jornais no Brasil, três grandes jornais nacionais. Eu gostaria de saber quais são os três grandes jornais no Brasil. Nós temos, no Brasil, centenas de jornais diários, e jornal de circulação, jornal de repercussão nacional, nós não temos nenhum. Nós temos aqui a Folha de S.Paulo.

    É uma referência.

    N.S. - Ele se referia à Folha de S.Paulo, ao Globo e ao Estado de S.Paulo como os grandes títulos de jornal, mas, na realidade, o parque nacional de jornais é de mais de 100 jornais diários. A própria Associação Nacional de Jornais tem mais de 150 jornais diários que são afiliados e não são jornais nacionais. São jornais locais, na minha visão, no conjunto com esse pluralismo, com esta abertura, com esta transparência, com esta liberdade, com esta independência que o ministro deseja, que o ministro solicita, que no meu entendimento existe na imprensa brasileira. Eu, em absoluto, posso concordar que a imprensa brasileira seja segmentada de direita ou seja segmentada de esquerda ou seja segmentada de centro. Existe uma pluralidade e que reflete o que deve efetivamente existir numa sociedade democrática com liberdade e com independência.

    Isso vai nos conduzir, mas também não vamos nos deter muito agora, porque é um assunto que vai exigir um pouco mais de reflexão, é por que é que um jornal como o seu, a Zero Hora, não está aqui, não está entre esses jornalões, entende? Porque é essa pluralidade que está faltando. Nos Estados Unidos você tem o Los Angeles Times, o Chicago Tribune, você tem o Miami Herald. São jornais regionais que repercutem nos grandes centros.

    N.S. - Mas a Zero Hora está aqui. O nosso foco são as coisas que acontecem no mundo a partir do Rio Grande do Sul. Como o Diário de Santa Maria é a partir da cidade de Santa Maria. No dramático episódio que aconteceu na boate Kiss em Santa Maria, o mundo participou daquele episódio que aconteceu em Santa Maria a partir do Diário de Santa Maria, que é um dos jornais do Grupo RBS. Então, quando eu digo assim: eu não aceito não estar, nós temos. E eu estou muito satisfeito, muito satisfeito quando eu assisti, nesse programa aqui, ao depoimento do Warren Buffett e a sua inserção no mundo do Jornalismo, lá nos Estados Unidos. A crença do Warren Buffett é a nossa crença nesse mundo. O Jornalismo local, a inserção das comunidades – ele chama de tribos –, a inserção das tribos a partir de um Jornalismo e de uma marca que um jornal provoca, porque ele é parte de uma tribo, é a grande tendência do Jornalismo. É o grande caminho do Jornalismo. E é nisso que nós acreditamos. Então, nós acreditamos que os nossos veículos, as nossas empresas jornalísticas, as nossas marcas de jornal, que elas refletem, como ninguém, elas têm a obrigação de refletir, como ninguém, o que se passa naquele ambiente. Por isso que uma das linhas mestras, centrais, da nossa linha editorial da empresa é o localismo.

    Tem aí outro dado da atualidade que preocupa muito, não apenas os jornalistas enquanto corporação profissional, mas a própria sociedade, porque o assunto começa a transbordar, que é o processo de enxugamento, que de repente aconteceu na mídia a partir do início de abril e vazou que o Estadão ia fazer um corte grande, o enxugamento no número de páginas e cadernos. Logo em seguida as outras empresas também, Folha, Veja, TV Record, todos entraram nesse processo de enxugamento e isso ficou visível. Eu já citei aqui que, de repente, eu que demorava uma hora para ler todos os grandes jornais, hoje leio tudo em vinte minutos. Isso é ruim. Nem todos leem todos os jornais, mas de qualquer forma seria mais interessante que houvesse mais profundidade. Isso num momento em que a mídia impressa precisa mostrar o seu potencial, seu diferencial. Como é que você vê essa crise?

    N.S. - Eu vejo como um dos fundamentos desse Jornalismo que você defende, que eu defendo, um Jornalismo sério, contributivo, fiscalizador, participativo da vida das comunidades. Eu vejo como fundamental para que se faça esse exercício, a independência econômica. Só se pode fazer esse tipo de Jornalismo com uma sustentação econômica adequada. Nesse sentido, vamos lá. O que a gente observa hoje? Na indústria jornalística do mundo e do Brasil em particular. No Brasil em particular nós vivenciamos uma questão conjuntural. Nos últimos três anos a economia brasileira não cresceu nos níveis que...

    Se esperava.

    N.S. - Isso acaba afetando a atividade econômica, os resultados, as receitas decorrentes da atividade jornalística. Elas são impactadas por essa situação conjuntural e que leva, no meu entendimento, naturalmente, as empresas, cada uma do seu modo, a fazerem os ajustes, a tomarem as providências para preservar a atividade e preservar essa independência fundamental para o exercício desse Jornalismo plural. Agora, tem uma situação conjuntural específica das empresas jornalísticas. Antigos editores, exclusivamente de jornais, de mídia impressa, de jornais impressos, que aí não é uma questão estrutural brasileira, é uma questão mundial, que há uma transformação estrutural dessa indústria decorrente da migração de uma das fontes de receita para a televisão e para outros meios. Para outros meios fragmentados que é a publicidade. As empresas jornalísticas, no mundo inteiro, estão perdendo ano após ano um pouquinho da receita e indo para outros espaços. Isto determina, Dines, um desafio gigantesco para quem quer fazer Jornalismo, esse Jornalismo inserido com independência. É realmente isso. As empresas precisam fazer uma reformatação do seu modelo de operação para sobreviver e continuar sendo relevantes na construção da sociedade. Então, o que as empresas no Brasil e no mundo estão fazendo, e cada uma escolhe o seu jeito, cada um escolhe a sua maneira, isso é outra beleza do mercado, uns acertam outros erram, isto é assim. Cada um faz aquilo que entende que tem que fazer para a preservação desta condição de fazer Jornalismo nesse mundo novo. Nós, da RBS, estamos muito preocupados com isso. Estamos investindo profundamente nessa metamorfose, nessa transformação, porque nós achamos que há espaço para o Jornalismo de qualidade, o Jornalismo sério, o Jornalismo responsável e o Jornalismo independente a serviço do cidadão. Mas para que isso seja feito nós também temos que agir, temos que fazer coisas.

    Você dá a entender, e muito claramente, de forma muito explícita, que as empresas de comunicação têm que ser multimídia, para que elas, diversificando, possam procurar novas fontes de receita e não perder aquela coisa tradicional que é a mídia impressa que, digamos, é aquela icônica do processo de informação. Como é que você analisa as empresas que se fixaram na mídia impressa?

    N.S. - As empresas que estão focadas exclusivamente no Jornalismo, elas têm vários desafios.

    No Jornalismo impresso.

    N.S. - Não existe mais esse. Mundo real. Não existe mais apenas o Jornalismo impresso. Não existe mais. Nenhuma empresa do planeta terra que faz Jornalismo pode pensar em se fixar no Jornalismo impresso. Porque quem assim o fizer, vai desaparecer. Evapora. Então, esse é um desafio: a inserção do Jornalismo nas novas plataformas, e estar do lado dos seus leitores, seja em que plataforma o leitor queira acessar a informação. Agora, o grande desafio que nós temos é exatamente esse. Houve uma migração de uma das receitas, que é a receita de publicidade, para outros meios. O desafio das empresas que fazem esse Jornalismo novo, que não é só o Jornalismo impresso, é o Jornalismo que tem vídeo, que tem áudio, que é o Jornalismo que tem interação, que tem rede social, é de buscarmos novas fontes de receita para substituir aquelas receitas que nós estamos perdendo para outros meios. E essas novas fontes de receita vão gerar, no nosso entendimento, a sustentabilidade destas empresas jornalísticas. Esta é a visão. O desafio é: onde nós vamos buscar essas receitas? O que nós temos que fazer para buscar essas receitas? Com que objetivo? Para preservarmos a nossa independência. É preservar a independência para poder fazer esse Jornalismo. Nós, na RBS, estamos trabalhando profundamente nesse conceito, exatamente com esse objetivo de preservação da relevância da nossa atividade jornalística. Porque nós entendemos que nós temos, como operadores de empresa jornalística, um compromisso com a sociedade. E nós estamos trabalhando nessa direção e investindo muito, não cortando. Investindo muito.

    Então, preocupado com esse momento, porque a gente não pode esquecer que é esse momento que vai criar os próximos momentos, é um encadeamento de situações. Preocupado com isso é, digamos, a explicação para os cortes, enxugamentos e encurtamentos é de que o grande bolo publicitário está quase todo dirigido para televisão, e sobretudo a TV aberta. As empresas que não dispõem de um veículo de televisão estão sofrendo. Isso está visível, está claro. E, por outro lado, a TV aberta, e fazendo uma análise da conjuntura toda, a TV aberta não está preocupada com densidade da informação. Ela tem os telejornais, alguns melhores do que os outros, mas a TV aberta não dá aquela substância necessária para alimentar uma sociedade, sobretudo num momento de transição. Então esse momento ficou muito ruim.

    N.S. - Eu diria de novo. É o mercado. Realmente, no Brasil, a TV aberta é o principal meio de Comunicação de massa. Eu, me permita discordar, Dines, mas eu acho que a TV aberta, em alguns segmentos, cumpre muito bem esse papel jornalístico.

    Em momentos...

    N.S. - É a TV aberta e as novas formas de distribuição. Quantos canais especializados em informação. É televisão paga, mas que nós temos e que são fundamentadas nesse bom Jornalismo...

    A revolução virá pelos canais.

    N.S. - Mas já acontecem. São fundamentadas nessas empresas multimídia que estão fazendo um papel jornalístico muito relevante para a sociedade brasileira. Agora, as empresas que começaram no papel, as empresas tradicionais, essas têm que se transformar, que buscar outros caminhos para serem competitivas, inclusive com essas empresas multimídia que estão atuando. O Brasil tem uma realidade. A televisão aberta é o veículo líder do mercado publicitário. É o veículo líder da audiência nacional e por consequência é o veículo líder do mercado publicitário brasileiro, por consequência pega a maior fatia do bolo publicitário brasileiro. Perfeito, é parte do jogo. As empresas jornalísticas que não foram para esse caminho têm que se movimentar para preservar a sua situação. Desculpe usar o exemplo da nossa empresa. Claro que nós fazemos parte rigorosamente desse mundo. Rigorosamente com as coisas boas e com seus problemas e com seus desafios. Agora, as nossas receitas, que também estão caindo. Por que nós temos a crença de que é possível preservar? Porque nós estamos trabalhando para buscar outras formas de gerar receita para a empresa, baseadas nessas tecnologias. E que isso é que vai dar sustentabilidade para o nosso negócio. Nós temos hoje na RBS mais de mil jornalistas. Nosso novo presidente-executivo, CEO, que é um membro da terceira geração, meu sobrinho Eduardo Sirotsky, preside executivamente a empresa; eu presido o Conselho de Administração da empresa e o Comitê Editorial. O Duda, numa conversa no Comitê Editorial, trouxe um conceito muito interessante na linha: ‘Olha, nós temos que repensar essa reformulação das redações, sem dúvida, a partir da qualidade dos nossos jornalistas. Mas será que nós não devemos botar para dentro das nossas redações matemáticos, engenheiros, tecnólogos para nos ajudarem dentro da redação a fazermos essa conexão com o nosso público que não se comunica conosco e entre si exclusivamente pelo que nós mandamos para ele. Que tem uma capacidade de conexão. Uma capilaridade com redes sociais, com blogs?’. Então, veja que interessante dentro desse conceito. Nós investimos junto à universidade PUC do Rio Grande do Sul, que tem um centro de desenvolvimento científico chamado TECNOPUC. Nós criamos uma plataforma tecnológica voltada para produtos de Jornalismo. E nós estudamos Jornalismo, aplicação do Jornalismo, sob uma ótica tecnológica do consumidor, daquilo que ele quer, que é diferente. Olha o que os jovens nos protestos estão nos dizendo: eu quero protagonizar, o meu protesto não é contra A, B, C, D ou E, o meu protesto é contra tudo, não é contra tudo é contra várias situações e eu quero protagonizar. E eu quero que vocês, empresa jornalística, de credibilidade, responsáveis, eu quero que vocês me ouçam e eu quero que vocês me ajudem a participar nesse processo. É essa a leitura que nós estamos fazendo, e é isso que nós temos que fazer, e quem tiver êxito nisso, eu tenho certeza, vai ter muito orgulho de continuar tendo o Jornalismo como atividade relevante.

    Então deixa eu continuar provocando você num assunto que para mim é de capital importância. Que é essa coisa, essa insularidade da RBS. Eu acho que é, eu até já usei essa expressão inúmeras vezes, é uma linha de Tordesilhas que existe e que, digamos, o Centro-Norte e Nordeste do Brasil não tem a qualidade da mídia que vem do Centro-Sul ou do Sul-Sudeste. Por que a qualidade da Zero Hora – a que eu não tenho acesso todos os dias, mas é um jornal de excelente qualidade – não pode chegar? Não pode ter uma ‘sub Zero Hora’ no Recife ou em Salvador ou não sei onde? E com isso nós estamos dividindo o país em qualidade jornalística. Eu acho isso, para o momento, catastrófico.

    N.S. - Mas eu acho que isso é ao mesmo tempo um alerta interessante. É uma oportunidade, não necessariamente para a RBS. Eu conheço razoavelmente o funcionamento das empresas jornalísticas do nosso país. Eu devo te dizer, Dines, que, de um modo geral e também no Norte e no Nordeste, há essa consciência. Claro que sempre pode ter uma exceção, um desvirtuamento. Há grandes empresas, há empresas comprometidas com a sua visão, há empresas comprometidas com a visão local. Eu conheço e há, prefiro até não citar A, B, C ou D, mas eu conheço e há. Agora, nós fizemos uma opção, Dines. Fizemos uma opção na área de Comunicação. Nós participamos, quando estamos em televisão, nós participamos do maior projeto, do projeto mais vitorioso, do projeto mais bem-sucedido da televisão brasileira. Nós somos a Rede Globo de Televisão. Nós somos a Rede Globo de Televisão no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. E somos com muito orgulho. E ajudamos, como todas as demais afiliadas, a construir esse modelo vitorioso, participamos desse modelo. Somos os mais antigos afiliados da Rede Globo de Televisão. Então, nós temos essa operação em televisão. Na área de jornais, de Jornalismo puro, impresso e os seus desdobramentos. Você é leitor de jornal. Como está te sobrando tempo, faz uma assinatura da Zero Hora Digital, que você gosta tanto. A de hoje eu já li, cheguei cedo, não tô em Porto Alegre.

    Eu sou do papel.

    N.S. - Mas está te sobrando tempo. Faz uma assinatura da Zero Hora Digital que você vai acessar e você vai ver a qualidade desse jornal que é feito a partir de uma ótica. De uma ótica local. Então veja bem, esses protestos desses últimos dias, eu asseguro a você que o leitor da Folha de S. Paulo, do Estado de S. Paulo ou do Globo – o leitor desses jornais, dessas marcas, ele teve, também sou leitor, teve uma informação perfeita. Eu asseguro a você que o leitor da Zero Hora teve uma informação tão boa, tão qualificada quanto qualquer outro. Porque ele está tão bem informado, não apenas no que acontece no Rio Grande do Sul sobre o episódio, mas o que está acontecendo no mundo. Ele está tão bem informado. Essa é a nossa opção. Nós queremos uma prestação de serviço plena para o público que nós legamos. Tem espaço empresarial para se fazer isso em outros mercados? Pode ter. Nós necessariamente não focamos no nosso projeto empresarial esse viés, porque, lá no Sul, nós temos oito jornais no nosso grupo, oito empresas jornalísticas, oito títulos diferentes no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nós achamos que ali é um foco, nós podemos fazer isso com muita relevância, nós podemos fazer isso com muito investimento. E num nível, olhando isso no portfólio de negócios de um grupo empresarial, num nível adequado de risco, num nível adequado e num nível de excelência de prestação de serviço.

    Temos aqui um assunto que é importante, que vai definir, de certa forma, os rumos da informação no Brasil, que é a questão da regulação ou autorregulamentação, monitoramento da concorrência. São coisas que estão fechadas no mesmo tópico. Nos Estados Unidos, que é, digamos, um dos modelos que marcam a Comunicação do Brasil, eles têm, desde 1934, uma entidade criada por Franklin Delano Roosevelt chamada FCC (Federal Communication Commission) cuja função primordial é monitorar; ela atua também no conteúdo da mídia eletrônica, mas sobretudo monitorar a concorrência. No Brasil nós temos o CADE, que deveria fazer isso. E aí nós estamos entrando num assunto importante que é a concentração da mídia no Brasil. Em alguns lugares já houve queixas contra a RBS, que embora ela esteja confinada, e não devia estar confinada no Sul, ela está muito oligopolizada. Como é que você vê essa questão da concentração e da concorrência?

    N.S. - Eu acho que esse é um tema muito excitante e com uma dimensão muito ampla e tem várias dimensões. Primeiro, as empresas de Comunicação são empresas reguladas em todas as suas dimensões, como qualquer atividade econômica. Então, no Brasil, nós estamos sujeitos à regulação de qualquer natureza, começando pela de impostos. Tem uma falácia de que as empresas de Comunicação não pagam impostos. Pagam impostos de tudo e qualquer natureza. Pagam PIS, pagam COFINS, pagam contribuição sobre o lucro, pagam imposto de renda. Têm uma isenção no negócio do papel. Nós somos regulados de todas as maneiras. A atividade jornalística, o controle sobre o conteúdo, esse é o grande debate. Esta é a grande preocupação. Nós entendemos que o processo do Jornalismo, nosso programa aqui é o Observatório da Imprensa, ele tem que ser independente, tem que ser responsável, tem que ser plural e ele tem que ser livre. E ele não pode estar submetido a qualquer tipo de controle. Então, todos os mecanismos que se criam em nome de uma regulação, que podem representar algum tipo de tutela para a atividade jornalística, para a liberdade de expressão, para a liberdade de imprensa, nós temos que ter muito cuidado, muito cuidado na forma. No mundo têm vários mecanismos. Agora mesmo na Inglaterra se discute o relatório Leveson, como é que vai fazer, como é que não vai fazer, o que vai substituir o PCC. O que vai substituir. Qual é o organismo que vai ser criado. Nos Estados Unidos o FCC é um pouco diferente, porque o FCC também regula relações econômicas, regula propriedades cruzadas. O modelo brasileiro: área de regulação de conteúdo. A nossa posição: Não pode existir nada, não precisa existir nada, aprioristicamente. O Jornalismo, esse independente e responsável, independente ele tem que ser muito responsável. E evidentemente, quando se comete erros, quando tem problemas, ou quando as pessoas se sentem, de alguma maneira, violentadas pelo Jornalismo que é feito, as pessoas têm o direito de querer repor as suas posições. Têm o direito de ser ouvidas. Essa é a nossa visão. Nós achamos que a melhor forma de fazer são mecanismos autorregulatórios. São mecanismos diretos na relação, estou falando na área do Jornalismo, diretos na relação entre aquilo que nós produzimos e o que o público consome. Mecanismos autorregulatórios. Isso não nos exime da responsabilidade. Porque nós entendemos, e a regulação existe neste sentido, que o Marco Legal brasileiro permite que qualquer cidadão, não precisa de nenhuma lei nova, ele entra com uma ação de dano moral, de calúnia e difamação contra um jornalista, contra uma empresa jornalística em cima de uma matéria que ele não...

    Embora o Direito de Resposta...

    N.S. - Eu ia comentar exatamente o Direito de Resposta. Eu acho que se tem um aperfeiçoamento que nós poderíamos fazer, está voltado no Direito de Resposta. E eu colocaria o Direito de Resposta retificante. O Direto da Resposta de correção.

    Não de discussão de doutrina.

    N.S. - Não discussão, porque doutrina é doutrina. Nós por exemplo aqui, nós da RBS temos um guia de ética e autorregulamentação jornalística. De uma maneira transparente nós colocamos para o público a nossa linha editorial, como nós colocamos, entre outras coisas, a correção. Então nós nos comprometemos de, diante do erro, seja em que plataforma for, a publicação da correção. É um compromisso que é parte do nosso mecanismo de autorregulamentação. Mas, talvez, uma lei amparando especificamente o Direito de Resposta, no nosso entendimento, retificante, que corrige um erro que foi publicado, talvez seja algo que deva ser explorado. Na nossa compreensão, não precisa mais nada. Não precisa rigorosamente de mais nada para isso. Porque o cidadão tem a Justiça para, a posteriori, ir buscar o seu reparo. Então não precisa de Conselho de Comunicação, não precisa de mais nada disso.

    Deixa eu só falar sobre isso, que esse assunto é quente. Sobretudo o Conselho de Comunicação, que é um órgão consultivo. O Conselho de Comunicação está na esfera do Senado, é um órgão auxiliar do Congresso. Ficou abandonado, desprezado, agora voltou a funcionar de uma forma que eu acho capenga, mas isso não importa. O que importa é o seguinte: existe uma entidade que você já presidiu, que seu pai já presidiu, o Jayme também. Eu me lembro que fizemos um curso para professores de Jornalismo, foi a ANJ e naquela época eu estava não me lembro aonde e nós fizemos o primeiro curso para professores de Jornalismo, isso anos 1980. Bom, não importa. Mas existe uma entidade chamada ANJ e acho que você já se chateou comigo algumas vezes por causa disso, eu vejo que ela é um pouco cerceadora, ela é corporativa demais, ela tira a flexibilidade, a diversidade que é necessária ao negócio jornalístico como um todo.

    N.S. - A Associação Nacional de Jornais, que todos nós participamos e a nossa família tem uma atuação muito ativa nela, surge, lá na época da ditadura, com o propósito da defesa da Liberdade de Expressão. Esse é o fundamento dela. E ao longo dos anos, ela é uma entidade empresarial, mas que tem uma preocupação com esse Jornalismo livre, independente, responsável e plural. Nós, na entidade, nós temos um comitê editorial que vários diretores de redação participam de uma forma independente, que trocam ideias de tendências de caminhos. Mas não há qualquer articulação, na entidade, do ponto de vista de conteúdo jornalístico, qualquer articulação, e qualquer articulação do ponto de vista de mercado de posicionamento de mercado, em absoluto. A entidade, a essência é a Liberdade de Expressão e a discussão da indústria. Veja bem, no tema que falamos, no tema de Conselho de Comunicação. A entidade defendeu e incorporou no seu estatuto um Código de Ética e autorregulamentação. Obrigando aos seus associados que cumpram alguns elementos básicos do Jornalismo e da atividade jornalística para poderem ser filiados à entidade, caso contrário não podem ser filiados à entidade. Entre as coisas, que cada jornal afiliado à entidade tenha o seu Código de Ética, como a RBS tem os seus e a maioria dos jornais tem. E que esse Código de Ética seja transparente para o público de cada jornal e que seja considerado nas relações de autorregulamentação entre o jornal e o seu público e o seu leitor. Então, nós entendemos, a ANJ presta um serviço para o país na Liberdade de Expressão, na defesa, no acompanhamento de mecanismos que possam representar algum tipo de ameaça a esta ideia de tutela sobre o conteúdo da comunicação e por isso a ANJ se posiciona muito firmemente contra qualquer movimento que represente risco à Liberdade de Expressão e à Liberdade de Imprensa.

    Você me deu, de mão beijada, um assunto que precisamos encarar com seriedade, porque eu considero que é um risco, uma grande ameaça à Liberdade de Imprensa que é essa presença ostensiva e ao mesmo tempo sutil das confissões religiosas na mídia brasileira. Hoje, contrariando o espírito e a letra da Constituição. Nós temos hoje, televisões abertas vendendo seu horário, é uma concessão pública, vendendo seu horário para confissões religiosas. Nós temos uma aberração dentro do Congresso, que precisava ser corrigida, que são parlamentares que deveriam fiscalizar as concessões, mas eles são concessionários, ao mesmo tempo. E isso eu acho que tinha que ser a grande bandeira da ANJ. Imediata.

    N.S. - Eu tendo a concordar consigo. Existem algumas atividades que são incompatíveis com a atividade do Jornalismo e da informação. São incompatíveis. Esta mistura de religião, de qualquer credo, de qualquer natureza, com a comunicação de massa, tem que ter muito cuidado. Ela pode ser até específica, nós temos canais religiosos que estão ali com esse propósito. Nós temos mesmo no Brasil, tem canais: esse aqui é um canal religioso. Essa televisão é uma televisão da igreja X e pratica a igreja X e para esse propósito. Isso pra mim OK. Agora, o problema é a mistura.

    Sobretudo na TV aberta.

    N.S. - O problema é a mistura, é a confusão e também traz uma outra deformação. Quando tem essa confusão, você tem uma outra fonte de receita, que é meio obscura, que não é clara dentro do processo. E da mesma forma eu tendo a concordar consigo. Essa mistura da política partidária com o meio de comunicação é desastrosa para esse processo, é desastrosa.

    Para a democracia.

    N.S. - É desastroso para a democracia. Eu acho que naturalmente está havendo uma limpeza desse processo no nosso país. E mesmo aqueles que têm atividade política, que ainda preservem ações, preservem atividades na área de comunicação. Eu acho que começa a se criar uma consciência de que é impossível a continuidade disso. Quer dizer, o Jornalismo, a Comunicação é um negócio muito sério, tem uma responsabilidade muito grande, tem um compromisso com a sociedade, tem um compromisso com o país, muito grande e nesta área esse tipo de conflito de interesses não é possível. Eu realmente espero que se crie uma condição e que esse tipo de deformação a gente vá corrigindo ao longo do tempo.

    Nós vamos cobrar de você.

     

  • Bastidores

    Bater na Fifa virou esporte nacional

    Por Carlos Brickmann

    O esporte nacional não é mais o futebol. O esporte nacional é bater na Fifa, organizadora da Copa do Mundo. Não importa o que a Fifa diga, está errado – mesmo quando o que a Fifa diz está de acordo com as opiniões de quem a critica. Trata-se a Fifa, nos meios de comunicação, como se fosse uma entidade todo-poderosa, acima dos países e governos, a quem humilha por pura maldade, embora a Fifa seja apenas, para o bem e para o mal (e frequentemente para o mal, já que há inúmeros casos de corrupção a ela relacionados, que sempre procurou contornar em vez de esclarecer), uma empresa privada, não pertencente a governo nenhum, criada e operada com o objetivo exclusivo de desenvolver seus negócios e dar lucros.

    Alguns fatos básicos têm sido esquecidos pelo jornalismo deste país – inclusive que, sob o comando da Fifa, o futebol cresceu constantemente no mundo inteiro. Como lembrava o ex-presidente João Havelange, há mais países filiados à Fifa do que à ONU. As tentativas de minar a organização internacional (como a formação de times não-afiliados, em especial o Millonarios, da Colômbia, que reuniu em certa época alguns dos maiores nomes do futebol mundial) sempre falharam. Estarão todos errados, não haverá ninguém que se salve?

    1. A Fifa não pediu ao Brasil para organizar a Copa. Vários países, entre eles o Brasil, pediram à Fifa que os escolhesse para realizar o torneio. Entre vários candidatos, o Brasil venceu – não apenas a CBF, Confederação Brasileira de Futebol, mas o Estado brasileiro, já que o presidente da República participou das articulações para que o país fosse escolhido e assinou, oficialmente, uma carta em que se comprometia a realizar ou garantir uma série de providências. Entre elas, por exemplo, providenciar a permissão de venda de cerveja nos estádios, o que era vedado pela lei brasileira. O Brasil poderia ter rejeitado a exigência e a Fifa ou aceitaria a decisão ou realizaria a Copa em outro país. Simples assim.

    2. A Fifa não determinou que o Brasil construísse estádios em cidades onde o futebol não é lá muito popular. Brasília, Manaus, Campo Grande provavelmente terão problemas para utilizar os estádios depois da Copa. Quem escolheu essas cidades? O governo brasileiro e a CBF. Se Belém fosse escolhida, em vez de Manaus, para a Fifa não faria diferença. E no Pará o futebol é esporte popular. Em Goiânia há um belo estádio que poderia ser modernizado a custo muito inferior ao da construção de um novo. Em Brasília é bem mais difícil utilizá-lo – a tal ponto que querem importar jogos cariocas para dar-lhe sentido.

    3. A Fifa não determinou, também, que a Copa se realizasse em doze cidades-sede. Doze é muito; encareceu as obras (o que talvez tenha deixado muita gente satisfeita), encarecerá o turismo, tornará mais cansativo e mais caro o giro das seleções. Por que doze, e não seis? Porque o Brasil assim o quis.

    4. O Brasil precisa de escolas, hospitais, transporte, e não de novos estádios. Voltamos à questão inicial: a opção foi oficial, brasileira. Para realizar a Copa, seria preciso deixar os estádios confortáveis, modernos, prontos para transmissão internacional de TV, equipados para uso de Internet. A Fifa também não obrigou o governo a colocar dinheiro em equipamento esportivo. O governo é que fez as opções: estádios padrão Fifa, muitos deles com dinheiro público. É ruim? Se for, a escolha foi nossa, do nosso governo democraticamente escolhido.

    5. A realização da Copa não deixa nenhum legado útil à população do país. Aceitemos, para argumentar, que isto seja rigorosamente verdadeiro (e não é). Mas Barcelona aproveitou a oportunidade dos Jogos Olímpicos para modernizar-se, tornar-se mais bonita, mais agradável, mais acolhedora. A oportunidade é a mesma; se o Brasil a perdeu, não pode botar a culpa em gente de fora.

    5. O presidente da Fifa, Joseph Blatter (que este colunista, a propósito, considera uma figura pouquíssimo recomendável), disse que talvez a entidade tenha cometido um erro ao escolher o Brasil para realizar a Copa. Pode ter razão ou não; mas não é exatamente a mesma coisa que dizem os críticos da disputa da Copa no Brasil? Blatter disse, em outras palavras, que poderia ter escolhido lugar mais tranquilo. Poderia; e parece estar arrependido da escolha. Não há em suas palavras, entretanto, nenhuma ameaça imperialista de violar a soberania brasileira e mudar a Copa de país, embora isso possa acontecer (e pelo menos dois outros países americanos, Estados Unidos e México, têm condições de realizá-la com pouquíssimo tempo de preparação). Se isso ocorresse, realizaria o sonho de quem acha que a Copa é um desperdício de tempo e dinheiro. E não seria a primeira vez: a Colômbia, em 1986, desistiu da Copa devido a problemas de segurança, e o México a realizou com tranquilidade.

    Quanto ao mais, caro leitor, tanto Blatter como seu adjunto Jerôme Volcker não são pessoas cuja visita possa considerar-se agradável. Só que o problema não é este: os dois, arrogantes, autoritários, prepotentes, antipáticos, foram convidados pelo governo brasileiro. Não vieram à força; foram chamados. É duro admitir, mas estão aqui porque ueremos, conforme decisão de nossos governantes.

     

    Prender, depois perguntar

    Um detalhe vem passando despercebido na terrível notícia de que policiais paulistas encarregados de combater o tráfico de entorpecentes foram presos, acusados exatamente de participar do tráfico de entorpecentes: o chefe do Serviço de Inteligência do Denarc, Departamento de Narcóticos da Polícia Civil, delegado de carreira, foi preso e sua prisão, como não poderia deixar de ser, foi amplamente divulgada. No dia seguinte, a Justiça o libertou; e o Ministério Público, que havia pedido a prisão, concordou com a libertação, já que nada havia contra ele. Este colunista não entende:

    1. Se nada havia contra ele, por que foi preso, com as consequências previsíveis para sua família, seus filhos na escola? Não importa a destruição de sua reputação?

    2. Se o objetivo era apenas ouvi-lo, por que a prisão? O correto é chamar o cavalheiro a depor; caso não se apresente espontaneamente, deve ser conduzido ao depoimento (“sob vara”, coercitivamente). Em geral, para que uma pessoa seja interrogada coercitivamente, basta que um policial – ou, no caso, delegado do mesmo nível hierárquico – vá buscá-lo. Em último caso, determina-se a prisão. Prisão, com fotos, filme, divulgação, não é comprimidinho para dor de cabeça, que mal não faz, mesmo que o problema continue a existir; prisão é coisa séria, já que envolve reputação, família, carreira. Não é para ser usada à vontade.

    3. Como no caso do cirurgião da antiga piada, comunicando ao paciente que, por engano, cortara os testículos em vez das amígdalas, que é que se vai fazer? Pedir desculpas? Deixar pra lá? Esquecer que, a cada vez que o nome do delegado for consultado no Google, lá estarão as notícias de sua prisão por motivo vexaminoso (e falso, só que isso não estará nessas notícias)? E aquela ideia tão popular neste país, “ele deu um jeito de se esquivar”, como é que vão tirá-la da cabeça da opinião pública? Qual o tipo de punição para os responsáveis pela prisão que, ao que eles mesmos disseram, foi feita sem que nada houvesse contra o preso? Ficarão um dia sem sobremesa? Ou serão aposentados compulsoriamente, com aposentadoria integral, ganhando sem trabalhar?

    Houve época em que os grandes jornais fariam editoriais sobre o tema e pediriam a importantes juristas que escrevessem sobre isso. Ainda bem que, hoje, há confortáveis poltronas para que o consumidor de informação espere sentado.

     

    Se é bom, disfarce

    A história é sensacional: uma juíza, Sônia Moroso Terres, da 1ª Vara Criminal de Itajaí, SC, estava num avião pronto para decolar, em Viracopos, SP, com destino a Itajaí, e reconheceu um cavalheiro que havia condenado há três anos, e que estava desde então foragido, numa poltrona próxima. Discretamente, avisou a Polícia Civil de Itajaí e o comissário de bordo. Quando o voo chegou ao destino, o condenado foi preso. A juíza explicou a situação aos demais passageiros e foi aplaudida. O cavalheiro tinha sido condenado por abusar sexualmente de seus filhos, então com quatro e cinco anos de idade, nas visitas semanais que lhe faziam.

    E que tem a imprensa com isso? O condenado foi preso no dia 14. E quem melhor publicou a notícia, até o dia 23, foi o bom portal jurídico gaúcho Espaço Vital. TV, jornais, rádio, Internet foram discretíssimos: quem procurar o caso no Google verá que o portal especializado divulgou o caso com muito mais ênfase do que a imprensa em geral. É tão raro aparecer uma notícia boa como esta (um criminoso que atacava sexualmente os próprios filhos é reconhecido e preso)! E, quando acontece, sai com a máxima discrição possível?

     

    Dinheiro na mão é vendaval

    O caro colega sabe como é difícil, hoje, convencer as empresas a liberar recursos para uma reportagem fora da sede. Mas isso não ocorre em todas: uma revista, pelo menos, escancara os bolsos para repórter que precisa viajar. Enviou dois profissionais de primeiro time a Adis Abeba, capital da Etiópia, exclusivamente para entrevistar o ex-presidente Lula. E, embora a revista seja mensal, com todos aqueles problemas que tanto conhecemos para apresentar matérias recentes, no caso nada atrapalhou: em poucos dias saiu a reportagem.

    Não há voos diretos do Brasil para Adis Abeba. Com uma escala, são pouco mais de 20 horas de voo; com duas, 30 horas. Também não há muitos voos: normalmente, é preciso ficar uma semana por lá para enfrentar as 20 ou 30 horas do voo de retorno. O preço por pessoa, ida e volta, oscila perto de R$ 4.500,00. Dois repórteres, portanto, só com passagens, gastaram R$ 9 mil, mais uma semana de hotéis, alimentação, transporte, tudo para entrevistar um político que mora em São Bernardo, no máximo a uma hora de São Paulo, sede da revista.

    Louvemos, pois, o retorno dos investimentos jornalísticos em viagens!

     

    Quem confia em quem

    Há quem reclame, quem jure que ninguém se preocupa com o que é noticiado naquilo a que chamam de “grande mídia”, que diga que só se informa em determinados blogs de Internet (aqueles que chamam americano de “estadunidense”, garantem que inflação é invenção de golpista e louvam o “Querido Líder” Kim Jong-un, herdeiro da dinastia criada pelo “Estimado Líder” Kim il-Sung e o “Grande Líder” Kim Jong-il). E que é que mostram as pesquisas?

    A Edelman Global Entertainment Study ouviu 31 mil pessoas em 26 países, entre eles o nosso. No Brasil, a imprensa é a instituição de maior credibilidade: 66% confiam nos veículos de comunicação. O governo tem metade: 33% de credibilidade. O estudo da Edelman confirma pesquisa realizada no início do mês pela Transparência Internacional, que mostra que no Brasil “a percepção sobre corrupção envolvendo a mídia é menor na comparação com a maioria dos países”.

     

    Um dos grandes

    Uma perda imensa: morreu Mansour Chalitta, diplomata e escritor, grande conhecedor da cultura árabe e um de seus principais divulgadores no Brasil. Um homem de múltiplas culturas: nasceu na Colômbia, passou muitos anos no Líbano, estudou Direito na França e Jornalismo nos Estados Unidos, radicou-se há mais de 50 anos no Brasil – aqui traduziu o sagrado Corão, a obra de Gibran Khalil Gibran, contribuiu poderosamente para que obras como as Mil e Uma Noites, na versão completa, se tornassem acessíveis ao leitor brasileiro. Diz o provérbio que ninguém é insubstituível. Mas há pessoas difíceis de substituir.

     

    Xega de abuzo

    Tudo bem, como em toda atividade profissional, a Assessoria de Imprensa conta com gente de maior ou menor capacidade, de maior ou menor conhecimento, de maior ou menor discernimento. Mas espera-se que um senador milionário, presidente de uma milionária confederação nacional patronal, com verbas milionárias de gabinete saídas de nosso bolso, busque alguém capaz de escrever “assessoria” – e não, como é constante, “acessoria”. Não, não é engano eventual, nem erro de digitação: a insistência é notável. Pelo menos seguem uma norma rígida e estável no mau português.

     

    Frases

    Do consultor e apresentador de TV Ricardo Amorim:

    ** “Beneficiários do Bolsa Família pagam meia na Copa. Alguém que consegue pagar os ingressos para a Copa recebe Bolsa Família?”

    Do humorista Hélio de la Peña:

    ** “Você é a favor de transformar Renan Calheiros em crime hediondo?”

    Do jornalista e apresentador Pedro Bial:

    ** “Há que se respeitar a ignorância dos outros.

    Do ator Eri Johnson, sobre uma cirurgia pela qual passou:

    ** “Não quero levantar a bandeira da hemorroida, mas as pessoas precisam ficar alertas.

     

    Como...

    De um grande portal noticioso, ligado a um jornal impresso de circulação nacional:

    ** “Governo brasileiro desiste de exportar 6.000 médicos cubanos”

    Só que o governo brasileiro parece ter desistido é de importar os cubanos.

     

    ...é...

    De um importante jornal impresso, de circulação nacional:

    ** “(...) entre os motivos que desenham um horizonte mais difícil, estão a desvalorização do dólar, que traz um risco para a inflação (...)”

    Só que o dólar não se desvalorizou: ao contrário, valorizou-se em relação ao real. Já o real, sim, se desvalorizou em relação ao dólar.

     

    ...mesmo?

    De um press-release, daqueles que, imagina-se, são feitos com todo o cuidado, examinados e aprovados pelo cliente e enviados às redações:

    ** “Helicóptero (...) - Dê ‘hélises’ a sua imaginação com este belo helicóptero você passará horas se divertindo, voa de verdade, e tem lindos efeitos luminosos!”

    Talvez os lindos efeitos luminosos tenham mexido com a pontuação e trocado o “c” das pobres hélises.

     

    As não notícias

    Um dia (ou noite, talvez – quem sabe madrugada, como se vai noticiar assim com certeza um horário que talvez esteja errado?), algum leitor, ou eventualmente ouvinte, pode ser também telespectador ou internauta, é preciso tomar cuidado porque a informação nunca é bem checada, vá reclamar desses textos. É preciso estar prevenido!

    E toque a fugir da notícia, a jamais dar uma informação precisa. É uma nova norma jornalística: procurar a não notícia.

    1. Ataque a ônibus no Sinai deixa três mortos, diz o título. Segundo o texto, houve lançamento de granadas num ônibus que transportava trabalhadores egípcios. E quem lançou as granadas? Diz o texto: “Supostos militantes”.

    Quem atira granadas num ônibus de trabalhadores é militante, ou suposto? Por que evitar o nome “terroristas”, já que o objetivo do ataque a civis egípcios desarmados era exatamente espalhar o terror?

    2. O rapaz é ferido quando alguém lhe atira um cinzeiro no rosto, na famosa festa de casamento do Copacabana Palace. Ele reconhece quem jogou o cinzeiro. E que diz o título? “Ferido reconhece suposto agressor”.

    3. Este é mais requintado, porque vem com vídeo. Dá até para ver pessoalmente qual é a notícia que o próprio portal que a divulga tenta colocar em dúvida. “Vídeo mostra suposto carro da PM atirando contra manifestantes no Rio; assista”.

    Como será um carro da PM que não seja “suposto”?

     

    E eu com isso?

    Manifestações, confrontos, tumultos? Pois aqui está um recanto tranquilo: só boas notícias, só notícias de paz (com exceção de um ou outro divórcio). Aqui a notícia é aquela que, com a qual ou sem a qual, o mundo seria tal e qual.

    ** “Bebê de Kate Middleton e do príncipe William pode assumir o trono britânico”

    ** “Kayky Brito brinca com borboleta”

    ** “Orlando Bloom leva Flynn e Sidi para passear no Central Park de NY”

    ** “Reflexiva, Luana Piovani curte praia no Rio de Janeiro”

    ** “Johnny Depp revela que não usa cueca”

    ** “Luiza Possi caminha pela Lagoa em tarde ensolarada”

    ** “‘Tive arrepios dos pés à cabeça’, diz Avril Lavigne sobre seu casamento”

    ** “Carmo Dalla Vecchia passeia com seus cachorros na orla do Leblon”

    ** “Gêmeas, Ashley Olsen e Mary-Kate Olsen comemoram 27 anos”

    ** “Gisele Bündchen gosta de comprar lingerie sexy para dias especiais”

    ** “Amanda Bynes ataca Obama e Michele”

    ** “Neymar é flagrado vestido de caipira em festa julina em Florianópolis”

     

    O grande título

    Às vezes, quem escreve a frase conhece tão bem os fatos que nem percebe a possibilidade de um duplo sentido. Neste título, por exemplo: o bebê nem nasceu e já está grávido de seu primeiro filho?

    ** “Zara Phillips, prima de William e neta de Elizabeth 2ª, anuncia gravidez de seu primeiro filho”

    Ou neste, já partindo para o duplo significado mais apimentado:

    ** “Férias pedem enrolado de salsicha”

    Às vezes, da certeza do redator surge um título esquisitíssimo:

    ** “Ministério contrata Assistência Técnica para 1.440 mulheres de seis Estados”

    Este colunista é do tempo em que assistência técnica era destinada a aparelhos que estavam funcionando mal. Gente costumava ser tratada por médicos.

    São títulos ótimos, todos. Mas nenhum bate o que se segue:

    ** “Cego é preso acusado de vigiar assalto em Goiás”

    A história que não foi contada deve ser ótima!

    ***

     

    Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

     

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

  • Bastidores

    Papa pop vai esquentar debate sobre Estado laico

    Por Alberto Dines

    A simpatia, humanidade e despojamento que se irradiam de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, não impedirão que junto com a empolgação religiosa/espiritual propiciada pela sua visita ao Brasil aflore sem constrangimentos a esquecida relação Igreja-Estado.

    A formidável preparação para a visita pontifícia ao Rio de Janeiro e ao santuário de Aparecida – inclusive na esfera midiática – deverá carrear ganhos efetivos ao catolicismo jovem, sobretudo latino-americano. Como contrapartida, é justo esperar que o debate sobre laicismo e teocracia, discutido enfaticamente quando se trata da derrubada do presidente Mohamed Morsi no Egito, seja capaz de transferir-se para a notória supremacia do catolicismo no Estado brasileiro.

    As aberrantes atitudes do pastor-deputado Marco Feliciano na condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados retiraram da questão religiosa a blindagem de assunto-tabu, porém a conduziram para uma esfera banalizada, próxima da galhofa.

    Um fanático religioso, racista, no estilo do Ku Klux Kan, não pode presidir uma Comissão de Direitos Humanos, a não ser numa sátira. Os traços caricaturais do personagem impediram que se examinasse com a necessária seriedade o caráter dúbio do nosso laicismo e a fragilidade do conceito de isonomia embutido em nossa democracia.

    Pode parecer injusto que a presença de uma figura tão calorosa e humana como o papa Francisco seja a deflagradora de uma discussão sobre a fabulosa soma de poderes, privilégios, facilidades e recursos públicos disponibilizados pelas autoridades para garantir uma celebração como a 28ª Jornada Mundial da Juventude. Impossível, porém, escapar deste dilema: ou o Estado é efetivamente equidistante em matéria de crenças e descrenças ou terá que abdicar da pretensão de se apresentar como democrático.

    Nem as lideranças nem as massas de evangélicos pentecostais protestarão contra as vantagens e primazias oferecidas aos católicos. Vão preferir compensações, se não em espécie, pelo menos em ganhos políticos. Tal como fizeram em novembro de 2008 depois da formalização da calamitosa e semiclandestina Concordata entre o Brasil e a Santa Sé, assinada pelo ex-presidente Lula em Roma e assistida pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff [ver remissões abaixo].

    E, assim, alternando favores às duas maiores confissões religiosas, criou-se uma teocracia tipo gangorra, binária e disfarçada, igualmente injusta, duplamente perniciosa.

     

    Onde a mídia aceita o papel de acólito

    A grande imprensa dita nacional e o seu escalão regional há semanas empenham-se em criar um clima de vibração religiosa. Verdadeira torcida da fé. Substituta dos sinos na convocação de fieis, a mídia badalou ao máximo a visita pontifícia e a Jornada Mundial da Juventude.

    Uma imprensa até então asfixiada pela falta de papel não poupou espaço para convocar as multidões no velho diapasão tão eficaz em Copas do Mundo e eventos populares.

    Nenhum jornal ou revista deu atenção às questões mais inconfortáveis: não se apresentou o montante do dinheiro público gasto no evento; não se ousou discutir a pertinência dos dois dias e meio de feriados no município do Rio para permitir a movimentação dos peregrinos; ninguém lembrou a Concordata com o Vaticano travada no Supremo Tribunal Federal; está em suspenso a questão do ensino religioso nas escolas públicas com a disseminação das doutrinas criacionistas; embora ilegal mantém-se a pratica de alugar para cultos horários nobres em emissoras de TV aberta e novas concessões de radiodifusão são distribuídas a sacerdotes, seitas e congregações.

    Esta não é uma pauta antirreligiosa, ao contrário, é uma garantia do pluralismo. Mas no Brasil, imprensa e pluralismo não se atraem.

     

    Ninguém ouviu o estalo do Vieira

    Francisco é o primeiro papa jesuíta: com tantos especialistas em ciência das religiões na mídia, não apareceu um estudo sobre a história da Companhia de Jesus, seu papel na colonização e na formação da sociedade colonial. Ao personagem mais fascinante do jesuitismo brasileiro, o português Antonio Vieira, não se dedicou uma linha. O defensor dos índios, inspirado sermonista, “imperador da língua portuguesa”, militante da Restauração, estadista visionário, ícone do ecumenismo e adversário incansável da Inquisição (ele próprio encarcerado e processado) encarna alguns atributos que servem de matriz ao Paradigma Francisco. Não foi lembrado. E dificilmente será.

    Nossa imprensa não tem competência para assumir-se como baluarte da Igreja. É apenas uma igrejinha.

     

    Leia também

    Uma concordata antiga. E mofada – A.D.

    Acordo por debaixo dos panos – A.D.

    Mídia se cala sobre o acordo do governo com a Santa Sé – Lilia Diniz

    Omissão da mídia sobre o acordo com o Vaticano – Roseli Fischmann

    A íntegra do acordo – Ministério das Relações Exteriores

    A íntegra do acordo (em italiano e português)

    Eles dizem amém – A.D.

    Igreja e Estado: Notícia (convenientemente) ignorada – A.D.

    Novo round na guerra santa – A.D.

    O crucifixo do STF – A.D.

    Milagre! Os jornalões reconhecem seus pecados – A.D.

     

    Artigo publicado originalmente no site do Observatório da Imprensa.

     

  • Bastidores

    Como os Estados Unidos espionaram o Brasil

    No programa de ontem - sobre a violação de informações confidenciais de brasileiros realizada pelos EUA - o jornalista Bob Fernandes lembrou o Caso Sivam e a série de reportagens publicadas na revista Carta Capital, que revelou "a desabrida ingerência dos serviços de espionagem dos EUA e a submissão brasileira à época". Em seu blog, Bob destaca hoje os links das 78 páginas de reportagens que saíram entre março de 1999 e abril de 2004, sobre como agiam no Brasil os Serviços de Inteligência dos Estados Unidos. São narrativas com documentos, nomes, histórias, datas, fatos… Confira aqui: http://migre.me/fw3Dt

  • Bastidores

    Como ludibriar o leitor

    Por Luciano Martins Costa em 17/07/2013

    Uma das vantagens que os jornais supostamente oferecem em relação aos outros meios de informação é o sistema de organização das notícias: elas são distribuídas por seções temáticas, quase sempre agrupadas em cadernos específicos, facilitando a busca do leitor por seus assuntos preferidos.

    O fato de esse pacote de informações se renovar diariamente reforça a percepção de uma ordem e uma correlação entre os acontecimentos, o que também funciona para passar ao leitor a confiança de que a cada dia ele está recebendo o que há de mais atual, e que com isso estaria adquirindo um conhecimento objetivo sobre a realidade que lhe interessa.

    Por isso, quando a imprensa quebra esse elo, a consequência pode ser desastrosa.

    Por exemplo, no domingo passado, o Globo publicou como sendo recente o resultado de uma pesquisa sobre credibilidade da imprensa que havia sido divulgada pela agência de Relações Públicas Edelman quatro meses antes. O estudo, feito anualmente há uma década, dizia que a mídia é a entidade mais confiável para os brasileiros, com 66% de aprovação, contra 64% das empresas, 59% das ONGs e 33% do governo.

    O resultado, divulgado no primeiro trimestre deste ano, se refere a levantamento feito no ano anterior, ou seja, é um retrato desatualizado da realidade. Portanto, se apresentado como atual, é uma mentira. E por que razão o jornal carioca venderia aos seus leitores, como se fosse fresco, esse peixe congelado?

    Os leitores atentos haverão de perceber que essa publicação, que foi imediatamente reproduzida por outros veículos noticiosos, passa a impressão de que a credibilidade da imprensa aumentou justamente quando caía a reputação de outras instituições, todas atingidas pela onda de protestos que ocorreram a partir de maio, ou seja, dois meses depois de distribuída pela Edelman a pesquisa referente a 2012.

    Mas existe outro aspecto a ser considerado nessa questão. A publicação da pesquisa defasada sobre a credibilidade da imprensa foi feita em meio a uma série de outros levantamentos que mostram a queda da popularidade do atual governo.

    Produzidos no calor dos protestos que paralisaram as grandes cidades brasileiras, esses estudos foram sendo levados ao público numa cronologia regular, a partir do início de junho, como se fossem resultados de consultas sequenciais, o que pode produzir em muitas pessoas a impressão de que o governo está rolando ribanceira abaixo.

    Jogo perigoso

    Essa técnica de manipulação é muito conhecida entre os marqueteiros e jornalistas, e costuma ser praticada em períodos eleitorais. Se serve para registrar as mudanças de humor de eleitores em meio às emoções produzidas pela propaganda dos candidatos, esse tipo de cobertura produz distorções fundamentais na percepção de outros contextos que devem ser vistos no longo prazo, como a avaliação da eficiência de um governo.

    Funciona assim: o Datafolha produz uma pesquisa, constatando que a presidente Dilma Rousseff sofreu a primeira queda em sua alta taxa de popularidade, perdendo 8 pontos na aprovação popular, mas ainda venceria uma eleição em primeiro turno. Em seguida, os jornais reproduzem a pesquisa destacando declarações de líderes da oposição vinculando o governo às manifestações de rua e prevendo novas quedas de popularidade. Na sequência, nova pesquisa, desta vez com uma queda de 27 pontos porcentuais.

    A notícia original, dada pela Folha de S. Paulo, usa o verbo “despencar”, que é repetido por todos os outros veículos, como num túnel de ecos. Novamente, repetem-se as “análises” com base em declarações de políticos da oposição, que vinculam os indicadores aos protestos que se multiplicam nas ruas.

    Interessante observar que a mesma sequência de constatações é feita por outra série de pesquisas, estas produzidas para a Confederação Nacional do Transporte, mostrando tendência semelhante. No entanto, os jornais publicam esses resultados, com diferenças de poucos dias em relação aos levantamentos do Datafolha, como se fossem novas prospecções, quando são, na verdade, novas tomadas do mesmo contexto.

    Dessa forma, passa-se para o leitor a impressão de que a aprovação do governo está “despencando”, para usar a palavra preferida dos jornais. No entanto, o que está “despencando” é a confiança dos brasileiros no processo democrático.

    O fato mais relevante dessas pesquisas, que está sendo omitido pela imprensa, é a declaração de intenção no voto nulo ou em branco. Na última pesquisa do CNT/DMA, a presidente Dilma aparece com mais intenções de voto espontâneo do que o ex-presidente Lula da Silva e o dobro das intenções dirigidas aos possíveis candidatos Marina Silva e Aécio Neves. Na pesquisa estimulada, ela ainda venceria as eleições em dois turnos.

    Além disso, a imprensa está escamoteando um dado fundamental nessa pesquisa, a mais recente: na pergunta sobre que partido o entrevistado quer ver na Presidência da República a partir de 2015, a resposta espontânea mostra que 22,1% apontam o PT, apenas 5,6% preferem o PSDB e 2,1% citam o PMDB.

    No conjunto dos levantamentos, vistos desde o início de junho, o retrato mostra que o que caiu foi a confiança no processo político: mais de 50% dos brasileiros estariam dispostos a se abster em 2014. Com a redução do total dos votos válidos, ficaria mais fácil influenciar o resultado das urnas – e essa possibilidade parece estar no horizonte estratégico da mídia tradicional.

    Mas esse é um jogo muito perigoso.

    Originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

  • Bastidores

    A Mídia Ninja ataca outra vez

    Por Sylvia Debossan Moretzsohn

    Quem mora nas imediações do Palácio Guanabara, na rua Pinheiro Machado, e mais especificamente no perímetro que abrange as ruas Marquês de Pinedo, Paissandu, Ipiranga e Esteves Júnior e vai até a praça São Salvador, viu ou sentiu os efeitos do que ocorreu na noite de 11/7, quando a polícia reproduziu, agora com ainda mais intensidade, as cenas de violência vividas na mesma região em 20/6, ao reprimir um grupo de jovens que estendia a grande passeata daquele dia para protestar em frente à sede do governo estadual.

    No entanto, quem queria saber o que se passava só pôde obter informações pela internet, especialmente através do material veiculado pela Mídia Ninja, cujo trabalho foi referido em artigo publicado recentemente neste Observatório [ver aqui].

    Muito ágil quando se trata de excitar o público diante de crimes de grande potencial de repercussão, como o da prisão do casal Nardoni ou o do sequestro e morte da jovem Eloá Pimentel, a mídia comercial não se animou nem sequer a dar flashes, menos ainda a interromper a programação para passar a transmitir ao vivo – embora tivesse todas as condições para isso – os conflitos que começaram na frente do palácio e se estenderam pelas ruas vizinhas. Espetáculo não faltava: foram exuberantes explosões de bombas de gás, incêndios em sacos de lixo, tiros de balas de borracha, invasão a uma clínica e agressões e prisões indiscriminadas, que duraram até o início da madrugada.

    Cobertura tendenciosa

    Como em outras ocasiões recentes, a Mídia Ninja cumpriu um belo papel ao reportar em tempo real, de vários ângulos, o que ocorria, mas a crítica à grande mídia permanece relevante, especialmente porque o acesso à internet em banda larga não alcança a maioria da população.

    Se analisarmos a imprensa tradicional, o único jornal carioca a fazer uma cobertura adequada desse conflito foi O Dia. No site do Globo, apenas na manhã seguinte, mesmo assim no blog “Nas redes” – uma seção de tecnologia dedicada a “novidades, análise e o burburinho nas redes sociais” –, aparecia uma relação de vídeos produzidos na noite anterior, acusando “novas denúncias de truculência” da polícia. No espaço da reportagem própria do jornal, nada. Ou melhor, uma notável menção sobre jovens que “fumavam maconha” durante confrontos na passeata no Centro da cidade. Importante alerta: estamos para descobrir novas propriedades da erva maldita, capaz de incitar à agressividade e à destruição.

    Na TV das Organizações Globo, pior: um compacto de cenas de manifestantes com o rosto coberto atirando pedras e rojões contra – supostamente, pois a imagem não mostra – a polícia que guardava o palácio, com destaque para o close no capacete de um deles, com uma caveira branca desenhada sobre o fundo escuro. (Caveiras, como sabemos, só são lícitas nas estampas das roupas e acessórios da moda ou quando ostentadas pelo Bope, atravessadas verticalmente, nesse caso, por um punhal). Nada sobre a ação da polícia, testemunhada pelos moradores da região.

    A reprodução do discurso oficial

    No caso da GloboNews, um canal pago que, por sua definição “all news”, estaria obrigado a interromper a programação para transmitir acontecimentos de grande relevância e impacto como este, apenas um “vivo” no Jornal das Dez com a mesma repórter que denunciara o ataque da polícia ao hospital Souza Aguiar, na manifestação de 20/6 – cena semelhante à ocorrida agora diante de uma clínica vizinha ao palácio, onde manifestantes se refugiaram e foram perseguidos pelos policiais, e que foi documentada pelos “ninjas”.

    Na manhã seguinte, o canal exibiria o mesmo compacto veiculado na TV aberta, curiosamente seguido pela convocação do apresentador ao público: “você também pode mandar imagens aqui para o nosso site...”.

    Só um tolo atenderia ao chamado.

    Também de manhã, uma repórter entrava ao vivo falando numa grande “confusão” na frente do palácio e reproduzia enfaticamente o discurso oficial: o governador não toleraria excessos de nenhum dos lados, nem dos manifestantes nem da polícia. Nada importavam as cenas, que poderiam confrontar o pronunciamento da autoridade. Mais tarde, a repórter conseguiria a proeza de “informar” que a “confusão” começou quando um manifestante atirou uma bomba de gás lacrimogêneo contra os policiais.

    O pessoal que transporta coquetéis molotov em caixas de papelão – como os “flagrados” bem à feição das câmeras, na passeata daquela tarde, no Centro – deve ter ficado perplexo. Onde será que se consegue comprar bombas de gás lacrimogêneo? Talvez no mercadão popular da Uruguaiana: os camelôs são muito antenados nas novas tendências e costumam fazer boas promoções no atacado. Ou mesmo no varejo: um é doze, três é trinta.

    A não ser que sejam bombas de gás de fabricação caseira.

    O testemunho da mídia alternativa

    Fora do circuito tradicional, a Mídia Ninja conseguiu, mais uma vez, dar um quadro amplo do que ocorria, com sua câmera nervosa e a imagem frequentemente precária, dependente da qualidade da conexão, além das interrupções inevitáveis para a recarga do equipamento. Ainda assim, transmitiu o protesto diante do palácio, com suas múltiplas palavras de ordem – inclusive uma que apelava ao humor e perguntava: “Cabral, cadê você/a polícia está aqui pra te prender”; documentou a invasão da clínica Pinheiro Machado, que se transformou “numa câmara de gás”; mostrou policiais atirando para o alto dos prédios, nas imediações da praça São Salvador – o que, longe de configurar o sempre lamentado “despreparo” da polícia, revelaria uma atitude deliberada de intimidar quem, da janela de seus apartamentos, apoiava o protesto batendo panelas e filmando a ação repressiva; exibiu as cenas deprimentes de jovens deitados no chão, cercados na Senador Corrêa, uma rua estreita transversal à praça, para depois serem levados em um ônibus à delegacia – e o coro que denunciava “estão plantando prova, estão plantando prova!”. Ofereceu, enfim, o mais amplo testemunho dos acontecimentos daquela noite.

    Ao mesmo tempo, permitiu perceber aspectos periféricos mas nem por isso menos importantes do que se pode obter numa cobertura desse tipo, digna dos melhores tempos da reportagem de rua.

    Uma surpresa no meio do caminho

    Foi quando a repórter que acabara de documentar a prisão dos jovens resolveu caminhar de volta ao Palácio Guanabara, para verificar se ainda havia algo por lá. No trajeto, deparou com uma mulher e um menino, aparentemente deslocados e que pareceram surpresos com o encontro. Conversou com eles, perguntou de onde eram – do Cantagalo, uma favela em Copacabana – e se tinham vindo ali também participar do protesto, se conheciam a Mídia Ninja, se tinham sofrido alguma coisa... eles balbuciaram que sim, estavam ali pelo protesto, conheciam a Mídia Ninja – o que evidentemente não era verdade –, não tinham sofrido nada, estavam só esperando um amigo do menino, e se despediram.

    A repórter foi embora, mas logo flagrou dois policiais armados de fuzis correndo na direção de dois garotos, um deles aquele que ela acabara de entrevistar. Foi tomar satisfações, envolveu-se numa discussão veemente, pois os meninos eram acusados de ter roubado uma pessoa perto de uma banca de jornal. “Você não viu nada!”, disse o homem que os denunciara. “Eu vi sim, conversei com o menino, eu vi e mais sete mil pessoas que estão assistindo viram também!”.

    Quem estava vendo certamente se indignou com a cena, porque viu a mesma coisa pelo olho da repórter.

    No entanto, logo depois aparece a mulher, a mesma que havia sido entrevistada, e que, constrangida pela polícia, parecia querer tirar o corpo fora. Dizia que estava aconselhando os meninos a não fazer aquilo até que apareceu “essa piranha” – a repórter – para complicar a situação.

    E a repórter, depois de tentar esclarecer, se afastou porque percebeu a história. Que, por si só, já renderia outra bela reportagem: quem eram aqueles dois garotos e aquela mulher, o que fizeram, o que representam diante dos helicópteros do governador, recentemente mostrados por uma rara reportagem da Veja?

    Cenas fortuitas, mas muito reveladoras das surpresas que o jornalismo nos reserva, quando recuperamos a prática da boa reportagem que sai à cata do inesperado. Tão diferente do jornalismo amestrado das grandes corporações, que nos induz bovinamente a aceitar o mundo tal qual é. 

    ***

    Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

     

    Originalmente publicado no site do Observatório da Imprensa.

Páginas