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    A dialética das ruas

    Por Alberto Dines em 22/06/2013

    Tudo previsto, roteirizado. Script e cronograma infalíveis, o capítulo corria célere, o projeto era sólido: desmanchou em horas. Ninguém contava com o efeito deletério das repetições, da rotina, da fadiga, muito menos com a hipótese de impaciência e contrariedade do distinto público com os sucessivos sapos que continuamente era obrigado a engolir. Acostumados à dramaturgia simplificada das telenovelas e apoiados nos mesmos paradigmas de aferição de opiniões, imaginava-se que a fórmula era imbatível: Dilma Rousseff seria reeleita no primeiro turno.

    Uma grande dose de arrogância combinada a um incrível teor de subserviência e amadorismo contagiou estrategistas e operadores, protagonistas e coadjuvantes, aliados e oportunistas. Imantada pela polarização, a oposição clonou instintivamente os movimentos do adversário. Resultado: poder e contrapoder foram varridos pela dialética das ruas.

    Esta mesma dialética empurrou em poucos dias um impressionante movimento que se orgulhava do pedigree anarquista e libertário para o beco sem-saída da truculência antipartidária. Todos os nossos partidos são caricaturas políticas, sem exceção, mas representam legitimamente o pluralismo democrático que uma sociedade infantilizada, clerical e elitista foi capaz de construir nos últimos 25 anos.

    A tentativa de expulsar os partidos das ruas não é apenas ridícula, contém uma forte conotação fascistóide. Remete à Itália, lembra o palhaço-facínora Benito Mussolini na sua marcha sobre Roma, lembra o seu êmulo contemporâneo, o palhaço-palhaço Beppe Grillo, do Movimento Cinco Estrelas contra políticos e política.

    Tudo mudou

    Os atos de violência contra equipamentos de diferentes redes de TV não são acidentais. Fortalecidos pelas mídias digitais, alguns militantes imaginam-se senhores das ruas esquecidos de que seu universo é virtual – no mundo real as verdades devem ser questionadas e as reivindicações, argumentadas. Apenas com tuítes e palavras de ordem não se constrói um país.

    Além da prepotência palaciana, o trauma que vivemos resulta de uma enorme inépcia expressa tanto na incapacidade para prever o tsunami com no torpor da reação aos seus efeitos iniciais. Uma perplexidade estendida ao longo de cinco dias – da segunda (17/6) até a sexta (21) – perde seu caráter reflexivo para confundir-se com catatonia pura e simples. As platitudes pronunciadas nas solenidades são indesculpáveis. Chorar seria mais eficaz.

    A ventania mudou tudo: agenda, forças, calendário, valores, vocabulário, slogans, parcerias, discursos, prioridades, elenco, dogmas e composturas. No país do futebol mudou até a ditadura do futebol.

    A dialética como conflito-e-ajuste opera milagres.

     

    Reproduzido do Correio Popular (Campinas) e Gazeta do Povo (Curitiba), 22/6/2013, no Observatório da Imprensa.

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    Pgm 685 - Eduardo Coutinho - 28/05/2013

     

    A quarta edição do Observatório da Imprensa em comemoração aos 15 anos do programa na TV Brasil, exibida na terça-feira (28/5), levou ao ar uma entrevista de Alberto Dines com o premiado documentarista Eduardo Coutinho. Diretor de mais de 25 documentários, entre seus principais filmes estão Cabra Marcado para Morrer, Santo Forte, Babilônia 2000 e Edifício Master. Foi roteirista de filmes de ficção e integrou a equipe do Globo Repórter. Crítico atento da qualidade da programação e dos problemas estruturais da radiodifusão, Coutinho é autor do filme Um dia na vida, inédito no circuito comercial por conta de problemas de direitos autorais. A obra é uma compilação em 90 minutos de 19 horas da programação televisiva brasileira com cenas de jornais, novelas, programas de auditório, televendas e proselitismo religioso.

    Antes do debate no estúdio, em editorial, Dines classificou Eduardo Coutinho como “uma figura extraordinária, uma das vozes mais críticas da cultura nacional”. Para Dines, a postura crítica do cineasta incomoda, mas Coutinho não se deixa abalar. “Eduardo Coutinho é um dos nossos cineastas mais ativos, mais respeitados, premiados e independentes. Veterano jornalista e profissional de TV, ele encarna a nossa mídia, é seu ícone”, disse Dines.

    Coutinho explicou que a sua ideia inicial ao fazer Um dia na vida era falar sobre um assunto que o incomoda: o plágio no jornal impresso. Por sugestão de um amigo, decidiu focar na televisão. “Nós gravamos 19 horas mudando de um canal para outro. Quando escolhia um, não podia dar o outro no mesmo horário. E ficamos com um panorama de um dia comum, que não teve futebol, não teve nada. Então, fizemos uma edição [do material] que o diretor Leon Cakoff topou incluir no programa [do Festival É Tudo Verdade, em 2010]”. Um advogado orientou o cineasta a exibir o filme apenas em sessões gratuitas e a não divulgar os horários em que seria apresentado para evitar possíveis processos.

    O diretor acredita que as emissoras de televisão não processariam a Videofilmes, empresa que produziu a obra, mas poderia haver problemas com as dezenas de pessoas que aparecem nas imagens. Para poupar a produtora de penas envolvendo dinheiro, Coutinho decidiu não exibir o filme para grandes plateias. “Hoje, o direito à imagem tornou-se uma mercadoria, até no mau sentido da palavra”, disse Coutinho. O cineasta contou que mesmo que a produtora saísse vitoriosa seria preciso pagar os advogados, o que implica um custo de pelo menos 10 mil reais a cada processo.

    Popular e popularesco

    Eu não sou contra a cultura de massa. Hoje, a extrema direita francesa odeia a cultura de massa. Eu acho uma posição absurda fingir que ela não existe. Se ela existe, tem que encarar e saber o que você pode fazer para torná-la melhor, ou não. Eu não sou contra as coisas que tem lá [no filme], o que é terrível é que ela não é simplesmente nem a televisão de capitalista americano nem a televisão europeia, que tem algumas coisas de qualidade. É a bagunça absoluta”, sublinhou o documentarista. O diretor criticou a condenação da cultura de massa por sociólogos e antropólogos, que a rotulam de “popularesca” e criticam uma programação que não é voltada para esse segmento da sociedade. Na avaliação de Eduardo Coutinho, o Brasil poderia investir em estudos sobre a receptividade do conteúdo televisivo, tal como é feito em outros países. “Eu acho altamente elitista essa opinião de que o que a massa vê é ruim”, disse Coutinho.

    O documentarista criticou a deformação no sistema televisivo e pontuou que o cerne desse debate é o sistema de concessão dos canais de radiodifusão. “No Brasil, as pessoas não entendem que a concessão é uma coisa pública, pode tirar a qualquer momento. A tragédia brasileira, para mim, é não ter a noção de público. É uma tragédia para o cinema, para a cultura, para a política, para tudo. Não temos hoje e não sei quando teremos”, lamentou o documentarista. Emissoras como CNT, Gazeta e Band vendem horários na programação – o que é proibido porque as emissoras são concessões públicas – para proselitismo religioso. Com a venda do espaço em horário nobre, acabam tendo uma lucratividade expressiva.

    Do ponto de vista utópico, se eu fosse rei do Brasil por um dia, como dizia o Darcy Ribeiro, a primeira coisa que faria seria cassar todas as concessões provisoriamente. E começava do zero. Eu acho que a igreja católica não pode ter uma emissora aberta”, destacou o documentarista. Para Coutinho, nem o governo nem a oposição têm disposição para enfrentar esse problema e acabariam barganhando com os detentores das concessões. Outros problemas citados por Coutinho foram o uso de “laranjas” para possibilitar que parlamentares sejam concessionários de canais de radiodifusão e o fato de as concessões serem, na prática, vitalícias.

    Para o cineasta, a TV Globo se diferencia das concorrentes. “A questão da TV Globo é a propriedade cruzada, o monopólio. Agora, a diferença entre a Globo e as outras televisões é absolutamente espantosa em termos de organização. É fácil falar da origem militar, mas do ponto de vista capitalista ela é uma boa emissora. As outras não são”, avaliou Coutinho. Para ele, a TV Globo não costuma arriscar no telejornalismo, mas faz experimentações de linguagem importantes em minisséries.

    A força do folhetim

    Dines criticou o fato de a sociedade brasileira não se mobilizar contra o grande destaque que as telenovelas têm na programação das emissoras. Para Coutinho, há grandes interesses em torno das comunicações no Brasil. Segundo ele, é impensável um jornal falar mal de um concorrente ou de uma rede de televisão. “Não há uma reflexão sobre isso e eu acho que há até motivações políticas. Quando se toca no assunto, é de uma forma que não resolve nada”, lamentou o cineasta. Para ele, poucos países no mundo têm um sistema de televisão tão poderoso e penetrante quanto o brasileiro. “Certamente, na Argentina não é assim. A televisão lá tem muito menos força, é menos conformista, é mais livre, ainda que mais pobre. O cinema brasileiro não luta só contra o cinema norte-americano. Ele luta com a TV Globo, e é muito desigual. Então, acaba fazendo o quê? Copiando”, explicou Coutinho.

    Uma das mazelas do sistema de comunicação brasileiro, na visão de Eduardo Coutinho, é a pouca quantidade de jornais impressos de circulação nacional. Dines ressaltou que a mídia impressa ainda é uma referência e comentou que Coutinho, aos fins de semana, é frequentemente visto lendo jornais em uma livraria carioca. “Eu leio sobre Esporte, Política, Cultura, mas é impressionante como a publicidade aumenta”, avaliou o cineasta. Para ele, atualmente pouco há para ser dito, escrito e lido nos jornais. Há poucas reflexões e o conteúdo dos fatos é exageradamente simplificado. Coutinho também criticou a empáfia de intelectuais e artistas brasileiros, que não aceitam comentários negativos. Por outro lado, a imprensa parte para a agressividade: “A polêmica vira briga de churrascaria, desqualificam o outro”, disse Coutinho.

    Com a experiência de mais de 25 documentários no currículo, o cineasta ponderou que é preciso saber ouvir o entrevistado e que a televisão brasileira e as novas mídias estão se distanciando dessa premissa: “Ouvir o outro tem que ser face a face, não pode ser via Facebook. Eu não sou catastrofista, mas o contato face a face é uma coisa que se torna cada vez mais rara, um sonho. Quando tem, você acha que é irrelevante, que o relevante é o contato que você teve no Facebook. É uma loucura isso, mas é só uma face. A internet tem mil possibilidades incríveis, mas ninguém ouve ninguém”.

    Internet para o bem e para o mal

    Avesso à tecnologia, Eduardo Coutinho relembrou o seu único contato com um computador. A experiência de digitar um texto ocorreu há dez anos, por intermédio de um amigo: “Quando eu fui para o computador, eu tinha 70 erros, três letras ‘p’ seguidas, por exemplo. Aí eu peguei o chamado mouse, que é o ratinho, e ia para um lugar e para o outro tirando os erros. Quando eu apertava, o ratinho voava para o outro lado e não acertava. Eu fiz uma hora de tentativa e disse: ‘Não quero mais saber disso’”. Até hoje o documentarista não comprou um computador. E só se comunica por correio eletrônico com a ajuda de pessoas do seu trabalho, que imprimem as correspondências em papel.

    Eduardo Coutinho acredita que as novas mídias não são nem o céu nem o inferno, e é impossível prever os rumos das novas ferramentas de informação: “Imagina gente que tem 15 anos, que se formou nisso, como vai ser? Imagina quem tem 10 anos? Há uma forma de escrever diferente, abreviada. Os textos longos estão em perigo. Mudam as palavras porque elas não são ouvidas, elas passam imaterialmente para o outro lado. A forma de ver o mundo, de sociabilidade, vai mudar, mas até que ponto o que vai ser para o bem ou para o mal é que é difícil se dizer”, disse Coutinho.

    Para o cineasta, os blogs podem ser perigosos quando reúnem um grupo de pessoas com o propósito de fazer um linchamento público de uma ideia ou de um indivíduo. Outra questão importante do uso da internet levantado pelo cineasta foi a atribuição de textos a autores que não os escreveram, como ocorre frequentemente com o escritor Luis Fernando Verissimo. Eduardo Coutinho elogiou o fato de as novas tecnologias terem barateado as produções de cinema, com as câmeras e as ilhas de edição digitais.

    Forma e conteúdo

    O tema, para mim, não tem a menor importância. Eu tenho vontade de fazer um filme sobre o nada, simplesmente o que significa uma pessoa na câmera olhando a outra. Se o tema é a seca, a fome, não tem a menor importância”, explicou o cineasta. Sobre as críticas de que seus filmes têm poucas imagens e muitas falas, Coutinho rebateu: “A presença do corpo humano emana uma coisa chamada voz, e a voz separada do corpo é uma tragédia. Rádio é outra coisa. Você faz coisas maravilhosas em rádio. A Alemanha fez, a BBC faz. Então, para mim, um corpo que fala tem que estar presente e, ao contrário, uma imagem que ilustra aquilo que o corpo fala com força é sempre mais fraca. Se alguém fala do marido que morreu não me interessa ver a cara do marido que morreu. Ele pode até não ter morrido, mas ela me conta de uma forma que eu penso que isso é verdade para ela. E vai ser verdade para mim”.

    Para Eduardo Coutinho, o documentário é um produto marginal na televisão porque não faz o espectador sonhar. “Têm pessoas que me dizem assim: não é possível viver sem ter uma utopia. E eu digo: é possível, sim, viver sem uma utopia, pelo menos a utopia que foi criada por Thomas Morus. Eu não preciso de uma grande ideia para viver. Estar vivo já é um negócio importantíssimo. Quando eu faço filmes, não faço para mudar o mundo, senão eu seria dono de uma televisão. Eu faço documentário porque me dá prazer, senão eu seria missionário”, explicou o diretor.

     

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    Pgm 684 - Otavio Frias Filho - 21/05/2013

     

    O terceiro programa comemorativo dos 15 anos do Observatório da Imprensa na TV, exibido na TV Brasil na terça-feira (21/5), trouxe uma entrevista de Alberto Dines com Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha de S.Paulo. O jornalista está nesse posto desde 1984, e começou a trabalhar na Folha em 1975, aos 18 anos. Formado em Direito e pós-graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), é também diretor editorial do Grupo Folha e autor de seis peças teatrais e quatro livros.

    Em editorial, na abertura do programa, Dines comentou alguns aspectos da biografia do jornalista: “Aos 18 anos, já escrevia editoriais para a Folha de S.Paulo e ajudava o pai, o publisher Octávio Frias de Oliveira, e o jornalista Claudio Abramo a tocarem a formidável reforma do jornal que, em pouco menos de 40 anos, tornou-se não apenas o preferido dos presidentes, mas também dos políticos, empresários, intelectuais e jovens”.

    A seguir, a entrevista de Dines com o diretor de Redação da Folha de S.Paulo:

    Em nossa primeira entrevista, com o megainvestidor Warren Buffett, lá em Omaha, ele nos confessou que gasta de cinco a seis horas por dia para ler jornais e um semanário, que é o Economist. Ele deu o nome dos jornais, todos, e não teve problema nenhum. Inclusive, um dos jornais é o dele, que é o jornal local de Omaha. Eu queria saber: o editor do mais influente jornal brasileiro gasta quantas horas por dia lendo jornais?

    Otavio Frias Filho –Em primeiro [lugar], muito obrigado pelo convite, pela oportunidade de estar aqui nessa circunstância histórica, de quinze anos do programa. Eu, seguramente, gasto menos tempo do que ele diz gastar, embora idealmente eu devesse ler muito mais do que eu consigo ler. Na prática, é uma vida muito corrida, não dá. Olho um pouco aqui, um jornal ali, uma revista acolá. Mas eu diria que eu gasto uma hora e meia, não mais que isso por dia lendo imprensa. Lendo mídia, em geral.

    Além da Folha, obviamente, você mencionaria algum jornal estrangeiro que habitualmente você leia, folheie, pince coisas?

    O.F.F. – Eu costumo ler duas revistas, a New Yorker e a Economist. Às vezes vejo o New York Times, às vezes, dependendo da situação de um país ou outro, eu dou uma olhada no Clarín, por exemplo. Mas habitualmente, todos os dias, eu costumo ler, além da Folha, O Globo e O Estado de S.Paulo, que são os dois concorrentes diretos.

    O El País, que infelizmente deixou de ser impresso aqui e de circular, não está dentro das suas primeiras preferências?

    O.F.F. – Não está por hábito, embora eu reconheça que é um dos melhores jornais do mundo. Sempre que há algum assunto mais candente no ambiente hispânico, na Espanha ou na América Latina, ele é sempre uma referência, com certeza.

    Temos aqui uma coisa que chamou a atenção e na semana passada mereceu reparos do Eugênio Bucci: o ministro Joaquim Barbosa, em um pronunciamento no exterior, se referiu muito criticamente à grande imprensa brasileira. Ele foi até específico, parece até que ele leu o Observatório da Imprensa. Ele disse que os três principais jornais brasileiros tendem muito para a direita. Ele sentiu falta de pluralismo. Ele não especificou se é pluralismo no conjunto ou se em cada jornal. O que você acha dessa ponderação do presidente do STF [Supremo Tribunal Federal]?

    O.F.F. – Eu diria que pluralismo sempre é bom e quase sempre é de menos. É sempre desejável que haja mais pluralismo na sociedade, no debate, na política e também no jornalismo. Eu não tenho procuração para falar em nome dos outros veículos, vou me circunscrever a comentar essa questão do ponto de vista da Folha. Nós temos uma preocupação muito grande na Folha com pluralidade de pontos de vista e de visões. Evidentemente, faz parte do programa do jornal que o noticiário obedeça a uma orientação crítica, mas, tanto quanto o possível, isenta e independente. Do ponto de vista de opinião, nós cultivamos e temos muito orgulho de um elenco que eu considero bastante plural de colunistas e colaboradores. Embora a maioria dos colunistas da Folha tenham posições políticas que eu chamaria de centristas, nós temos colunistas que são mais conservadores, por exemplo, o João Pereira Coutinho, o Luiz Felipe Pondé. E temos também colunistas que são notoriamente de esquerda, para citar alguns o Janio de Freitas, o André Singer, o Marcelo Miterhof, o Vladimir Safatle. Então, eu considero que, do ponto de vista da biodiversidade, em termos de pluralismo, a Folha tem credenciais a apresentar.

    Tem um aspecto que a mim chama a atenção - e também essa observação que eu tive foi a partir da conversa muito informal que nós tivemos com o Warren Buffett - é que houve um momento na imprensa brasileira que havia uma grande confusão. O liberal em matéria de economia achava inconcebível ser liberal em matéria de política. Criava uma esquizofrenia absoluta. O Warren Buffett, ao contrário, ele consegue ser liberal em matéria de economia - ele defende a economia de mercado, ele é fruto da Economia de mercado - e ao mesmo tempo ele é um homem progressista. Ele apoia o Obama de corpo e alma e tem sido até um vanguardista em algumas questões. Você não acha que esse mal entendido, essa esquizofrenia do liberalismo tem atrapalhado muito até as posições de certos colunistas e de protagonistas da cena brasileira?

    O.F.F. – Eu acho que sim. Eu tenho a impressão de que essa dissociação entre liberalismo na economia e liberalismo na política já foi muito forte no Brasil. Por exemplo, na época do regime militar havia uma série de personalidades, de economistas que eram notoriamente liberais em economia e autoritários, digamos assim, em termos de política. Eu tenho a impressão de que essa dissociação já foi mais forte, pelo menos no ambiente brasileiro. Hoje em dia você tem intelectuais, publicistas, polemistas e mesmo políticos que defendem um programa liberal tanto do ponto de vista de economia como do ponto de vista de política. É o que me parece.

    Se bem que ainda me parece, em alguns casos, eu não gosto de fulanizar porque seria uma armadilha terrível, mas há casos em que a defesa da livre iniciativa não leva em conta que a livre iniciativa não é democrática, ela não pode apoiar nada excludente, nada intolerante. Na Folha eu acho que esse fenômeno é menor, mas em outros veículos eu me surpreendo que o liberalismo ainda não foi compreendido como uma coisa total, mas tudo bem. Esse monolitismo, o ministro Joaquim Barbosa não usou essa palavra, mas há uma conotação monolitista nessa acusação que ele fez, nesse reparo que ele faz, e eu estou tentando interpretar. Isso teria um pouco a ver com a ANJ [Associação Nacional de Jornais], que é uma entidade corporativa, que tem fortes posições e que os jornais que são membros acabam adotando essas posições e aí as nuances são muito pequenas porque a entidade é mais forte. Como é que você vê essa questão?

    O.F.F. – Eu concordo e acrescentaria que, na minha opinião, a ANJ tem desenvolvido uma trajetória admirável. Ela começou na transição do regime ditatorial para a democracia como uma entidade de defesa apenas do interesse corporativo das empresas que publicam jornais, mas eu diria que, nas últimas gestões, o trabalho da ANJ se desenvolveu em uma dimensão mais institucional e, inclusive, uma dimensão política. Eu tenho visto e aplaudido a ANJ sempre se colocando muito claramente em favor da liberdade expressão, dos direitos do jornalismo, dos direitos do jornalista no exercício livre de sua profissão sempre que as circunstâncias exigiram. Eu diria que a ANJ começou como uma entidade de estrita defesa do interesse econômico das empresas, mas ela evoluiu. Ela hoje tem um papel político que eu acho notável. O que não implica que eu não tenha críticas à ANJ. Por exemplo, a Folha tem um mecanismo de autorregulamentação, centrado na figura do ombudsman, nós consideramos que esse é um modelo bem sucedido. A nossa posição, quando a ANJ discutiu essa questão, já faz uns dois ou três anos, era de que a ANJ deveria também desenvolver um mecanismo de autorregulamentação que funcionasse para o conjunto dos jornais – mas essa proposta não encontrou acolhida na maioria dos membros da ANJ. E o fato é que a ANJ se limitou a recomendar que cada associado desenvolvesse e tornasse público o seu próprio mecanismo de autorregulamentação. Há divergências entre a Folha e a ANJ – ou, no caso, a minha opinião pessoal e a ANJ. O que não implica que eu não reconheça o desenvolvimento institucional que essa entidade vem experimentando.

    Eu gostaria de mostrar ao telespectador uma pequena remissão da sua entrevista quinze anos atrás onde você fala sobre pluralismo com grande coerência. Parece que foi dita hoje. Vamos ver:

    Trecho de entrevista gravada em 1998

    O.F.F. – O desejável é que houvesse a maior pluralidade possível, a maior pluralidade de pontos de vista, publicações com diferentes linhas de orientação editorial para que a opinião pública se enriquecesse da somatória complementar dessas diferentes vozes. Agora, existe uma tendência de concentração na economia contemporânea, isso não ocorre apenas na área de comunicação, ocorre em todos os setores da atividade empresarial e econômica e eu acho que esse é um dos problemas com os quais a sociedade contemporânea tem que lidar.

    Você está muito bem naquela entrevista.

    O.F.F. – Eu ia observar é que o notável para mim, ao rever esse trecho, é que eu envelheci bem mais do que você, Dines.

    Não, você está ótimo. Mas eu queria aproveitar essa coisa de pluralismo e a menção à ANJ. Nós estamos vivendo um novo paroxismo na Argentina, a briga Kirchner versus o grupo Clarín e o La Nación. Acontece que – e isso tem me chamado a atenção – é uma briga recente. Houve um momento, ainda quando vivia o Néstor Kirchner, que os dois protagonistas desse conflito se entendiam perfeitamente bem e não havia reclamações de parte a parte. Evidentemente, em algum momento eles se chocaram e a coisa agora às vezes chega a paroxismos de criar uma crise institucional. Essa diferença de observações de que nem sempre foi assim, que houve momentos em que um grupo empresarial soube conviver com o Kirchner, e o Kirchner com um grande grupo empresarial. Essas nuances não têm aparecido na mídia brasileira. É claro que um opinionista, um observador comenta, mas a presidente Kirchner é apresentada como uma coisa absolutamente monolítica que nunca teria feito nada com o grupo Clarín. Ao contrário, já houve momento em que eles caminharam bem próximos uns dos outros, não é?

    O.F.F. – É verdade, até porque o Clarín, até aquela grande greve do transporte de caminhões, tinha uma atitude senão de apoio, eu diria simpática em relação ao governo dos Kirchner. Nessa questão, a minha opinião é a seguinte: eu comecei a trabalhar na imprensa no final do regime militar, atravessei o período da redemocratização, o período do presidente Sarney, depois o Collor, o período dos tucanos no poder federal, agora a época dos petistas no poder federal. O que eu concluo, tentando ser um observador distanciado, é que todo governo age mais ou menos da mesma maneira em relação à imprensa. Ou seja, enquanto a imprensa elogia, é simpática, “a imprensa é uma beleza”, “a liberdade de imprensa é uma maravilha”, “a liberdade de expressão é um espetáculo”. Quando a imprensa começa a incomodar, a noticiar aspectos que são vistos como desfavoráveis ou a veicular opiniões que incomodam por serem críticas, a reação de todo governo – e aí não importa se é um governo de direita, liberal, de esquerda – é quase invariavelmente a mesma, que é uma opinião de defesa e, quando o governo tem força, de ataque. Eu acho que todo governo, se pudesse, em termos ideais, suprimiria a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, pelo menos no que diz respeito ao exercício crítico em relação a esse governo dessas duas liberdades. Eu acho que a situação brasileira é bem diferente. A nossa sociedade é mais complexa, diversificada, tem mais atores interagindo. As nuances existem e são mais acentuadas. Eu acho que nessas décadas o nosso mecanismo de freios e contrapeso do ponto de vista institucional se desenvolveu bastante. Eu diria que, sem demérito para essas sociedades, a sociedade venezuelana, boliviana, e mesmo a sociedade argentina em termos de tramas de relações políticas são sociedades mais simples do que a sociedade brasileira. A sociedade brasileira é uma sociedade mais desenvolvida, mais complexa, mais diversificada. Eu acredito que, por isso mesmo, qualquer hipótese de uma aventura de uma supressão de liberdade de imprensa no Brasil me parece que seria algo completamente impensável.

    Esse quadro que eu chamo de monolítico na imprensa brasileira se agravou muito recentemente com uma decisão surpreendente de O Estado de S.Paulo, que cortou cadernos, cortou páginas, fez uma coisa que algumas pessoas chamaram de suicida: diminuiu o tempo de leitura do jornal. E o que aconteceu, pelo menos para mim, é que os concorrentes, a Folha e O Globo, que não é um concorrente direto mas é um dos três grandes jornais de referência nacional, eles de certa forma acompanharam essa compressão, não se aproveitaram para oferecer mais. Como eu sou muito crítico e sou pago para ser crítico, eu sinto que houve um nivelamento por baixo. “Já que o Estadão faz isso, nós vamos fazer também”. Como é que você se contrapõe à minha opinião?

    O.F.F. – Eu concordo e discordo. Eu concordo no sentido de que também a mim não agradou a reforma que o jornal O Estado de S.Paulo fez recentemente. Pelo menos não é a reforma que eu faria se estivesse em circunstâncias parecidas. A parte da qual eu discordo é no seguinte sentido: eu tenho a impressão de que a tendência do jornalismo, especialmente do jornalismo impresso, é no sentido da condensação por dois fatores que parecem irrecorríveis. O primeiro deles é a questão do custo. Comparativamente com a informação que é transmitida pela via eletrônica, a informação que é processada graficamente, impressa e distribuída é uma informação cuja produção e o traslado se tornou muito custoso. Então, até por uma razão econômica, a época dos jornais muito extensos, muito caudalosos, com uma imensidade de cadernos, eu tenho impressão que é uma época que está sendo superada em favor de um modelo mais enxuto, mais condensado. Mas, a meu ver, a razão não é apenas econômica. A razão, principalmente, é uma razão psicológica porque o consumidor de informações hoje é alguém que está sendo assediado por uma quantidade de estímulos, uma diversidade de modos e meios de comunicação, de apelos muito maior do que havia vinte anos atrás. Há quarenta anos, nem se diga. Então, como o tempo é inelástico, são as mesmas 24 horas por dia para cada cidadão ou cidadã, evidentemente o jornalismo tem que adotar, a meu ver, uma atitude mais seletiva, mais ágil e uma forma de comunicação que seja mais ágil. Isso não significa que não haverá lugar no jornalismo para textos longos. Há textos que, embora longos, extensos, a sua publicação se justifica. A própria Folha mantém um caderno que circula aos domingos, “Ilustríssima”, voltado para uma produção mais demorada, de reportagens mais extensas, de textos que são ensaísticos ou semiensaísticos, e ali você tem textos que são muito caudalosos em relação ao que existe hoje na imprensa. Agora, como vetor geral, eu acho que a tendência é em torno de uma condensação. Não só pelo preço da mercadoria papel, comparativamente muito caro, mas pela escassez de tempo por parte de quem está consumindo informação e análise.

    O que me preocupa é que, hoje, os meios de cobrir os acontecimentos são muito ricos, hoje é muito fácil deslocar um repórter para o outro canto do mundo, conseguir uma imagem através de um celular, os fatos estão pipocando com muita intensidade. E os jornais, evidentemente, são primeiro seduzidos pelos fatos. Mas os fatos não necessariamente são os indicadores do que realmente aconteceu. Eu notei isso nos atentados de Boston, em que os canais noticiosos de televisão, inclusive brasileiros, iam atrás dos fatos porque tinha aquela pressão, mas sem o contexto todo, a explicação, a reflexão. Os jornais estão pressionados pelos fatos, cobrem os fatos porque eles estão aí, mas os fatos por si só não esclarecem, então as coisas vão ficando desamarradas, a mim me parece. E como eu queria que o jornal amarrasse o mundo, essa é a minha convicção, por isso eu abracei essa profissão, eu sinto que os jornais não estão conseguindo amarrar essa conjuntura toda dispersa e rica.

    O.F.F. – Eu concordo, infelizmente. Eu acho que o jornalismo é o reino da precariedade, seja pela pressa, seja pelas limitações intelectuais que todos nós jornalistas temos, nós nos propomos a cobrir todos os assuntos e nós não somos, no fundo, especialistas em assunto algum. Então, as precariedades do jornalismo são constitutivas até da profissão. É óbvio que isso não nos deveria levar a uma atitude de resignação. Precisamos melhorar, fazer a autocrítica. Nós procuramos estimular muito dentro da Folha uma ideia permanente de autocrítica em relação ao que conseguimos fazer. Eu concordo com você, e eu diria que há muito tempo, talvez desde os anos 1960, 1970, se fala do jornalismo analítico – news analysis foi uma expressão consagrada em inglês naquela época, e se isso no passado foi uma espécie de um luxo, um devaneio, eu acho que hoje é uma necessidade imperativa. Um dos caminhos de sobrevivência e de desenvolvimento do jornalismo, a meu ver, hoje, é essa dimensão analítica e os jornais estão capacitados para exercer essa tarefa. Muito mais do que o jornalismo na internet, que tem essas vicissitudes que às vezes lembram a época do rádio. Internet é muito rápida, instantânea, interativa, tem alguns momentos que até lembram a era de ouro do rádio. As televisões têm as limitações que a gente conhece. Então, essa dimensão analítica do jornalismo, quem pode e deve desenvolver são os jornais e as revistas – e isso ainda tem sido feito, ao meu ver, de uma maneira muito tímida e embrionária.

    Um outro assunto que me chama a atenção é que acaba de sair mais um livro muito interessante sobre a guerra entre a Ultima Hora e a Tribuna da Imprensa, entre Samuel Wainer e Carlos Lacerda, ex-amigos que se tornaram adversários. Isso me remete a uma questão: bons tempos esses em que os jornais se engalfinhavam. Quem saía ganhando era o leitor. É claro que nem precisa chegar às vias de fato. Eu lembro que o Paulo Bittencourt, do Correio da Manhã, foi desafiado para um duelo! Foi nos anos 1950. Isso já não faz sentido. Mas o grande debate entre os grandes jornais é uma coisa enriquecedora, empurra a sociedade. Empurra até os meios políticos. Eu acho que a pobreza que nós vemos no Legislativo hoje decorre do fato de que eles não têm outro modelo de debate. Como é que você vê esse bom mocismo?

    O.F.F. – Eu acho preocupante também. Eu acho que, infelizmente, os jornais acabaram se assemelhando demais. Eu tenho a impressão de que em um período mais antigo, 50 anos atrás, talvez, os jornais tinham identidades mais definidas, provavelmente tinham fisionomias ideológicas e até culturais mais claramente estabelecidas. Hoje em dia, na busca de obter maior fatia no mercado, melhor implantação no mercado, os jornais acabaram se assemelhando muito. E isso é muito negativo. Na Folha nós costumamos dizer que nós aprendemos muito com o acerto e os erros do nosso concorrente, o Estado, mas nós queremos sempre nos diferenciar o máximo do Estado. Eu acho que a diferenciação é boa para os jornais, é boa para o público e é boa para o país do ponto de vista de pluralidade.

    Além do debate político, sobre causas morais, intelectuais, tem o problema da concorrência. Ela não chama a atenção, não chega ao leitor. Houve um momento em que a concorrência se manifestou muito, no início dos anos 1990, que era através dos fascículos. Cada jornal tinha uma coleção mais rica e fascinante do que o outro. Isso foi o último esgar dessa concorrência. Hoje, o leitor não toma conhecimento.

    O.F.F. – Eu não sei se concordo, Dines, porque eu acho que uma concorrência continua muito aguda entre os jornais, talvez como nunca: a concorrência pelo furo. Esses últimos anos têm sido uma sequência de furos jornalísticos importantes, uns dados pelo nosso concorrente, outros pela Folha, a revista Veja, a TV Globo, mas se pegar esses últimos cinco anos, tem sido uma luta, uma competição muito acirrada pelo furo jornalístico, pela informação inédita, exclusiva, bem apurada, divulgada com exclusividade. Houve furos jornalísticos históricos nesses últimos anos.

    Eu me refiro à concorrência no sentido de buscar públicos, audiências, disputar na banca. Hoje quase não tem mais banca, mas de qualquer forma fazer essa concorrência efetiva. Isso porque, e aí nós vamos nos aproximar da questão da autorregulação, também a entrevista com o Warren Buffett foi muito esclarecedora, teve um momento em que eu perguntei a ele sobre a FCC, a Comissão Federal de Comunicação lá dos Estados Unidos, que é um órgão do Legislativo mas com poder de arbitrar concorrência. Eles têm possibilidade até de intervir na programação de rádio e de televisão, que são concessões públicas. Mas, basicamente, a FCC é muito rigorosa, atenta - já foi mais, agora é menos – com a concorrência. Não deixa que a chamada propriedade cruzada impeça a concorrência livre, quem tem uma televisão não pode ter um jornal na mesma cidade. E ele disse “eu concordo, a FCC foi muito importante há 20, 30 anos atrás, hoje já não é mais. Tem a internet, que simplificou, aproximou de certa forma, as mídias”. Mas eu acho que no Brasil já estaria na hora e isso tem a ver com regulação, de a gente pensar em concorrência. Como regular a concorrência para evitar grandes concentrações, porque a imprensa brasileira é muito concentrada, não só nos grandes centros, mas no interior; o interior é quase um vazio da velha imprensa comunitária que o Buffett gosta tanto. Como é que você vê essa questão da arbitragem concorrencial?

    O.F.F. – Eu sempre fui simpático à proibição da propriedade cruzada. Eu sempre tive simpatia por essa tese, mas eu tenho a impressão de que com o advento da comunicação digital, da internet, tudo isso vira letra morta até pela dificuldade prática de se controlar isso. Eu sempre fui um entusiasta de autorregulação. A Folha pode reivindicar, junto com você, Dines, um certo pioneirismo na produção desses mecanismos de autocrítica – você foi o primeiro que fez no Brasil uma veiculação de crítica de imprensa, de mídia, na própria Folha, inicialmente, depois aqui no Observatório da Imprensa. A Folha foi o primeiro e até hoje é um dos únicos veículos no Brasil que mantém ombudsman. Na Folha o ombudsman é para valer. Eu meço pela minha irritação aos domingos. Quanto mais mal humorado e irritado, e injustiçada que a Folha foi pelo ombudsman do domingo, mais sinal de que o ombudsman está funcionando. Porque a crítica que funciona é a que incomoda, perturba.

    E a que é divulgada, porque se ela ficar intramuros...

    O.F.F. – Exato, senão não é uma crítica propriamente.

    Vamos falar um pouco da crítica, da autocrítica, desse exercício que a Folha se dispôs a fazer desde 1989, sistematicamente, primeiro com o Caio Túlio Costa, depois com outros tantos, e agora com essa coisa nova, inédita, que é a Suzana Singer - eu chamo de ouvidor, você chama de ombudsman, dá no mesmo - a ouvidora entra no seu quarto mandato. É um bom sinal, de que encontraram uma forma de ela se sentir com liberdade de falar e vocês se sentem tendo uma pessoa responsável fazendo a crítica. Isso é ótimo. Agora, por que essa atitude crítica é tão exclusiva da Folha? É tão conhecida no mundo, por que só ficou restrita à audácia da Folha?

    O.F.F. – Eu também não sei explicar. Que eu saiba, o jornal O Povo, de Fortaleza, mantém um ombudsman, poucos veículos mantém. A esmagadora maioria não tem ombudsman, ou ouvidor, como você prefere chamar. Para nós tem sido uma experiência excelente, muito útil. Eu tenho a impressão de que é do cerne da evitação de abusos de poder o uso de mecanismos de freios e contrapesos. E, no meu entendimento, o ombudsman dentro de um jornal, de uma televisão, de uma revista, funciona como um mecanismo de freio e contrapeso. O ombudsman é uma consciência crítica, ele chama a atenção para aspectos que estão negligenciados, ele aponta erros que não foram percebidos, ele vocaliza opiniões de leitores ou de fontes que se sentiram prejudicados pelo noticiário. Para nós, tem sido uma experiência muito frutífera, muito útil. É um mecanismo que se incorporou à cultura do jornal. Em um primeiro momento, ninguém gosta de ser criticado, as pessoas se incomodavam muito. Eu antes de todos. Aos poucos você vai se acostumando, vai compreendendo que em jornalismo, até porque não é uma ciência exata, é muito difícil estabelecer “isto é bom”, “isto é ruim”, “isto é certo”, “isto é errado”. Eu pego uma mesma reportagem e dependendo de quem eu pedir para ler a pessoa dirá que a reportagem é ótima ou está muito ruim, está enviesada, tudo depende de ponto de vista em jornalismo. Então, a opinião do ombudsman é uma entre outras.

    Vamos voltar para ver o que você disse sobre crítica em 1998:

    Trecho de entrevista gravada em 1998

    O.F.F. – Do ponto de vista democrático, eu acho que é algo preocupante que uma única organização detenha um poder de influência, um grau de influência sobre a opinião pública tão intenso. E, nessa mesma medida, eu acho que é obrigação de um jornal independente como a Folha procurar manter uma política de vigilância, de questionamento, de crítica em relação à Rede Globo. Sobretudo porque poucas entidades estão dispostas a exercer esta tarefa porque políticos têm receios porque precisam da Globo para alcançar uma visibilidade popular, os empresários têm receio, os artistas precisam em alguma medida da Globo dada esta situação de monopólio de que ela desfruta.

    Essa remissão que eu fui buscar há quinze anos tem a ver com uma coluna da Suzana [Singer] há quinze dias quando eu senti que ela estava fazendo – eu acho, o ideal – e deixando de observar só a Folha e já observando o jornal como um todo porque o jornal não existe sozinho. Ela fez uma pesada crítica ao Estadão ao se comprimir. Eu acho que o ouvidor tem que ver os erros próprios, mas não pode deixar de ver o panorama geral. É essa coisa do metajornalismo, a gente dar a notícia mas discutir como a notícia está sendo dada.

    O.F.F. – Concordo plenamente. Na Folha a gente tem essa prática de deixar o exercício da atividade a critério de cada ombudsman. Há ombudsmans que focam mais a sua atuação à critica ao próprio jornal, há outros que preferem essa visão panorâmica sem deixar, no entanto, de criticar o próprio jornal.

    Nós chegamos à questão fundamental, que é a crise que estamos vivendo do jornalismo, da imprensa, dos jornais, dos meios impressos. Tem aí um dado importante, que é o seguinte: quem desbravou de forma profissional, competente, todo esse mundo digital foi o Grupo Folha, em 1995, com o UOL. Em 1996 nós [o Observatório da Imprensa] entramos no UOL logo quando ele começou e nos deu uma grande força. Nós estávamos em um provedor acadêmico, ninguém nos via. E, de repente, entramos no UOL, o Caio Túlio nos convidou, e ganhamos uma posição extraordinária. Mas, passados tantos anos, essa experiência se tornou predadora, está acabando com a mídia impressa. Como você está vendo toda essa confusão de donos de jornais dizendo “o meu jornal, a minha revista, chama-se assim, mas daqui a trinta anos eu vou ter o mesmo nome mas não vou estar mais em papel”. É uma abdicação. Isso enfraquece o próprio veículo, quando ele se anuncia como agônico. Como você vê toda essa situação que estamos vivendo hoje? É quase uma coisa psicológica, não é?

    O.F.F. – Em primeiro lugar, eu diria que é um ambiente bastante nebuloso, ninguém consegue ver com clareza para onde vai se encaminhar todo esse universo da comunicação e, dentro desse universo maior da comunicação, do exercício do jornalismo. Eu gosto muito de uma frase que o Xico Sá, nosso colega, disse como uma brincadeira, que eu estou quase adotando como lema. Diz o Xico Sá que “jornalismo é que nem barata, não vai desaparecer nunca”. Eu acho que tem um fundo de verdade nisso. Eu tenho adotado uma atitude bastante ecumênica em relação ao jornalismo hoje. Eu acho que todas as formas de jornalismo têm a sua validade, a sua legitimidade. O jornalismo será impresso por um bom tempo, se é que não de uma forma indefinida ao longo do tempo. Acho que o jornalismo comunitário tem o seu cabimento, acho que o jornalismo na TV se desenvolveu muito, o jornalismo na TV a cabo se desenvolveu muito, vem prosperando, se desenvolvendo. O jornalismo na internet abriga várias modalidades de formas de jornalismo. Eu acho que todas essas formas e modalidades são complementares e contribuem para essa grande biodiversidade mental jornalística, que eu acho que é importante para a democracia e para o desenvolvimento de toda a sociedade. Eu acho que à medida que a população vai melhorando o seu grau de educação, os padrões de educação vão se desenvolvendo, a classe média vai ficando cada vez mais numerosa. Esse é um processo que está acontecendo e não é em termos ideais. Isso está acontecendo na prática e não é só no Brasil, [também] em outros países. Há uma verdadeira onda internacional de ascensão de multidões à cultura, bens de consumo, informação. A própria internet tem sido um instrumento valioso nesse sentido. Eu acho que todo esse movimento tenderá a gerar ao longo dos anos e das décadas uma demanda até crescente por um jornalismo de qualidade. A expressão jornalismo de qualidade pode soar um pouco pretensiosa, mas serve para definir o jornalismo que a meu ver se pauta por dois aspectos. O primeiro é dedicar a maior parte do seu espaço, do seu trabalho, do seu esforço, para assuntos que são assuntos de natureza pública, que envolvem a sociedade como um todo. O segundo aspecto é se pautar por um compromisso de veracidade e de verificabilidade, se é que eu posso me expressar assim, de tudo aquilo que é divulgado. Esse jornalismo que se propõe a ter certos compromissos de qualidade, eu tenho a impressão de que ele não apenas vai sobreviver, como ele vai crescer porque cada vez mais haverá cidadãos desejando informação, desejando análise, desejando conhecimento crítico.

    E querendo cobrar.

    O.F.F. – E dispostos a pagar pelo preço que isso custa. É caro produzir um jornalismo qualificado. Não é uma operação barata, é uma coisa cara.

    Nós entramos nesse dilema de que o brasileiro se acostumou com a gratuidade da internet. É universal. Aliás, o UOL é Universo OnLine. Era praticamente gratuito. E, hoje, as experiências que nós estamos vendo de grandes jornais que estão tentando se recuperar, o New York Times e outros, eles estão cobrando pela edição digital. Ou de uma forma direta ou pagando uma vez pelos dois produtos. Como é que você vê isso? Será que nós vamos conseguir um momento em que o consumidor brasileiro de informações vai querer pagar para ter um bom jornal na internet? Até agora é praticamente de graça.

    O.F.F. – Eu acho que nós estamos transitando para isso. A informação básica, que hoje em dia é chamada de commodity, porque ela é elementar, de fácil apuração, todo o mundo tem essa mesma informação – essa eu acho que tenderá a ser gratuita mesmo. Mas a informação mais difícil de obter, que demanda um esforço mais profissional, sistemático, de toda uma equipe de jornalistas, essa informação seguirá sendo de produção cara e ela terá de ser cobrada simplesmente porque nós vivemos em uma sociedade de mercado onde as coisas têm o seu preço, são cobradas e pagas. No caso da Folha, por exemplo, dos nossos cerca de 310 mil assinantes, hoje em dia já 50 mil são assinantes digitais. É uma realidade que está crescendo e se implantando. Eu acredito que nós vamos conviver, no caso do jornalismo diário, com a versão impressa e a versão digital coexistindo e até sendo complementares uma em relação à outra por muitos anos, se é que essa situação não vai perdurar de uma forma mais indefinida. Eu acho que o jornalismo mais qualificado tem compromissos com a exatidão, a pluralidade, oferece um material mais analítico, além da informação pura e bruta. Esse jornalismo tenderá a se desenvolver de uma forma remunerada porque ele tem valor e porque, como eu disse, ele implica custos que precisam ser ressarcidos.

    Quando estamos falando em tecnologia, temos que acentuar o galope porque as novas tecnologias vêm a galope e cada vez temos uma nova mídia – e agora é a possibilidade de celular ser um veículo de comunicação, de televisão, e aí tem que regular quem é que pode apresentar televisão porque não é uma concessão pública. E aí essa rapidez, essa velocidade da implantação das novas tecnologias, nos força a uma discussão regulatória – não sobre conteúdo, mas sobre quem pode o quê. Há, por parte de algumas empresas jornalísticas, uma certa retração. Ninguém quer discutir porque tem medo de discutir o resto também. Como é que você vê isso?

    O.F.F. – Eu acho que o conteúdo jornalístico precisa ser mantido isento de qualquer forma de regulação. Toda vez que eu ouço a expressão “controle social da mídia” eu sempre decifro como sendo tutela do governo sobre o jornalismo que incomoda. Para mim, isso é muito claro. Agora, do ponto de vista de organização material desse mercado, eu acho que é preciso que haja uma legislação. Me parece claro que a legislação atual é uma legislação que tem aspectos defasados, que mereceria uma atualização. Então, eu tenho a impressão de que a primeira tarefa no que diz respeito a esse problema, seria limpar o terreno. O que eu chamo de limpar o terreno? Estabelecer de uma forma muito clara e consensual, na medida do possível, que o conteúdo jornalístico não é sujeito a nenhuma forma de regulação e de controle. Assim como a arte e a literatura não podem se sujeitar a nenhum tipo de controle, de regulação ainda que em nome de ideais nobres, como a coletividade, a sociedade, a maioria. E, por outro lado, estabelecer que, do ponto de vista de organização das forças materiais, econômicas, do mercado, precisa haver algumas regras que sejam consensuadas e que em algum momento modernizem a nossa legislação que é uma legislação pré-internet, pré-TV a cabo e assim por diante.

    Nós temos que balizar a questão religiosa. Não se trata de discutir o Estado secular ou teocrático, mas se trata de corrigir uma distorção, eu diria até uma aberração de você ter no Brasil parlamentares sendo concessionários de uma empresa pública – e é o caso de grande parte das emissoras de cunho religioso. Então, você tem um processo incontrolável. O parlamentar é concessionário, se favorece, consegue uma concessão e essa concessão ele dedica para um culto religioso, que vai lhe trazer mais votos. E, de repente, o espírito da concessão pública, que está previsto na Constituição, é totalmente ultrapassado, sem discutir a questão de secularismo porque é muito complicado.

    O.F.F. – Eu concordo. Eu acho que, evidentemente, todas as religiões deveriam ser livres para professar o seu culto desde que não prejudiquem interesses de terceiros. Eu sou obviamente a favor da mais ampla liberdade religiosa, embora eu pessoalmente não seja uma pessoa religiosa. Agora, eu acho que você aponta para um problema muito concreto e de difícil solução. Porque mesmo que se proibissem os parlamentares ou os ocupantes de posição ou cargo público de deter meios de comunicação, evidentemente, essa legislação seria muito facilmente burlável, de maneiras sinuosas. Eu acho que é um problema de difícil solução. Eu gostaria de encontrar alguém que tivesse uma solução aceitável para esse problema porque acaba sendo um mecanismo de perpetuação de oligarquias políticas no poder e um mecanismo vicioso no qual o deputado se reelege porque ele tem controle sobre esse curral que é influenciado pelo seu rádio, sua retransmissora de televisão, no interior do país. Essa situação em que se amalgamam as oligarquias com o poder de reprodução televisiva é uma situação danosa para o país, mas eu gostaria, repito, de encontrar uma solução – porque eu não a tenho – de avançar na resolução desse problema.

    E agora, para a gente terminar o programa com uma reflexão mais profunda, eu lembro do Otavio Frias Filho em 1975. Eu não morava aqui em São Paulo, morava no Rio, era chefe da sucursal, mas vinha com muita frequência aqui e acompanhava as suas indagações juvenis - porque com 18 anos ainda se é um jovem - e o idealismo com relação à imprensa, a capacidade da imprensa de melhorar o mundo. Você vê possibilidades dessa imprensa hoje, tão dividida em modalidades estranhas, é um celular que passa informações... Você vê possibilidade dessa coisa que nós chamamos jornalismo, de realmente melhorar o mundo?

    O.F.F. – Eu me considero um pessimista por temperamento e por prudência. Mas de 1975 para agora, pegando a data que você usou como referência, eu diria que tudo mudou para melhor de uma maneira formidável. Eu acho que o mundo está melhor. Há menos guerras no mundo do que havia na década de 1970, há menos ditaduras no mundo do que havia na década de 1970, há mais liberdade de escolha, de opção, no nível pessoal e coletivo no mundo do que havia em 1975. E o Brasil, então, experimentou uma melhora de 1975 para cá que eu só posso qualificar, com todo o meu pessimismo, como extraordinária. Em termos institucionais foi um progresso notável, maior até do que todo o progresso que possa ter havido no Brasil até 1975. Do ponto de vista econômico, o Brasil se desenvolveu muito, cresceu. Do ponto de vista social, graças em alguma medida aos governos do PT, é justo se reconhecer, o Brasil melhorou muito também em relação à diminuição das iniquidades e desigualdades. Então, do alto do meu autoproclamado pessimismo, eu diria que o panorama nesses últimos 40 anos é um panorama de evolução muito positiva, muito rápida, eu diria que em quase todos os aspectos da vida coletiva. Talvez a violência urbana tenha piorado, talvez a qualidade de vida nas grandes cidades tenha piorado. Mas fora esses dois aspectos quase que não me ocorre um terceiro aspecto em que eu possa dizer que tenha havido, na minha opinião, piora de 1975 para cá. E isso é muito bom, e eu acho que não se pode negar que o jornalismo tenha tido algum papel, pelo menos, na obtenção de todas essas melhorias.

     

  • Bastidores

    O teste da maturidade

    Por Luciano Martins Costa em 20/06/2013

    Durou treze dias, quase duas semanas, o protesto contra o aumento das passagens do transporte urbano em São Paulo. O movimento, que se espalhou por uma dezena de capitais, ainda desafia estudiosos de questões sociais, e demonstra a força de milhares de anônimos nas ruas, sem orientação partidária e movidos por palavras de ordem improvisadas e generalistas.

    Na quinta-feira (20/6), a imprensa noticia o recuo do governador e do prefeito, mas não pode afirmar que a crise acabou. Uma nova manifestação está marcada para a tarde desse dia, e tudo indica que será a maior de todas, e possivelmente a mais festiva, com a convergência entre o movimento original, surgido entre acadêmicos das regiões centrais da cidade, e os focos de protesto que começaram a aparecer nos dois últimos dias em bairros da periferia.

    No encontro dessas duas correntes pode se escancarar o abismo que representa historicamente a grande chaga da sociedade brasileira – ou pode se dar, enfim, o grande encontro entre as duas frações de um país que já foi chamado de Belíndia.

    A expressão foi inventada pelo economista mineiro Edmar Bacha em 1974, quando tinha ainda 32 anos de idade, numa fábula intitulada “O rei da Belíndia”, na qual retratava a sociedade desigual criada pelo regime militar, que dividia os brasileiros em duas categorias sociais como se vivessem em países distintos – a Bélgica da classe média abastada e a Índia, dos miseráveis.

    As duas últimas décadas registram uma redução dessas diferenças, e uma classe de renda média que emergiu graças à estabilização da moeda e às políticas sociais de distribuição de renda está arquivando o país ficcional de Bacha no nicho das fábulas econômicas. Mas ainda restam grandes diferenças culturais e de oportunidade entre as duas porções de Belíndia.

    O custo das tarifas de transporte público pode ser amenizado com alguma determinação política e boa matemática, conforme se demonstrou na quarta-feira (19). Mas a má qualidade do ensino, a precariedade do sistema de saúde e a insuficiência da infraestrutura são deficiências históricas que demoram a ser sanadas.

    O fenômeno gerado pelos jovens do Movimento Passe Livre produziu a reversão do aumento das passagens, mas não há hipótese de um milagre no que diz respeito às outras questões, que só serão superadas no longo prazo se houver a mesma determinação política – que a pressão popular pode estimular.

    Entre ilusão e utopia

    O teste de maturidade do movimento será esse: consolidar a onda de protestos em um instrumento permanente de ação política. Mais interessante, porém, é a possibilidade do encontro de duas massas de manifestantes: aquela que conseguiu reverter o aumento das tarifas desfilando pelas avenidas centrais da cidade, e aquela que mais se beneficia dessa conquista, que vai marchar das periferias para o centro. Será também o teste definitivo de uma forma de organização que pode ser chamada de “caórdica” – porque parece improvisada e aleatória, mas produz uma ordem objetiva e efeitos concretos.

    Os jornais de quinta-feira (20) passam ao largo dessas questões e ignoram a possibilidade do encontro entre os dois Brasis. As edições se concentram em analisar as consequências do recuo dos governantes em relação às contas públicas, fazem análises sobre quem ganha e quem perde politicamente e tentam decifrar a força orgânica das ruas.

    >> A Folha de S. Paulo questiona: “Cai a tarifa – quem vai pagar?”

    >> O Globo destaca a queda das tarifas e suas consequências políticas: “O efeito das manifestações”.

    >> O Estado de S. Paulo tenta explicar os bastidores da decisão: “Lula e Dilma pressionam e Haddad cede”, diz o título da reportagem central.

    Quem quiser saber como o movimento passou da Avenida Paulista para a Avenida M'Boi Mirim não pode ficar apenas lendo jornais ou assistindo o noticiário da televisão. A extensão do movimento para a periferia pode ser observada em canais alternativos da internet, como o Pós TV, que transmitiu ao vivo, sem edição nem cortes, as primeiras mobilizações na periferia.

    Definida como uma plataforma midiativista de jornalismo ao vivo, integrada a redes sociais, a iniciativa não depende de anunciantes. As imagens são captadas e compartilhadas por e com qualquer aparelho conectado à rede, principalmente smartphones, e o Pós TV garante absoluta liberdade de expressão aos participantes.

    Se vier a ocorrer o encontro das duas correntes na Avenida Paulista, uma delas terá a cobertura da mídia tradicional, a outra virá acompanhada das novas mídias sociais.

    O evento poderá resultar numa celebração da vontade popular ou no fracionamento do movimento em novas, intermináveis e inalcançáveis demandas.

    Talvez seja o momento da conciliação de Belíndia em um país mais democrático, ou talvez venha a marcar a linha divisória entre antigas ilusões e uma nova utopia.

     

    Originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

  • Bastidores

    O teste da maturidade

    Por Luciano Martins Costa em 20/06/2013 na edição 751

    Durou treze dias, quase duas semanas, o protesto contra o aumento das passagens do transporte urbano em São Paulo. O movimento, que se espalhou por uma dezena de capitais, ainda desafia estudiosos de questões sociais, e demonstra a força de milhares de anônimos nas ruas, sem orientação partidária e movidos por palavras de ordem improvisadas e generalistas.

    Na quinta-feira (20/6), a imprensa noticia o recuo do governador e do prefeito, mas não pode afirmar que a crise acabou. Uma nova manifestação está marcada para a tarde desse dia, e tudo indica que será a maior de todas, e possivelmente a mais festiva, com a convergência entre o movimento original, surgido entre acadêmicos das regiões centrais da cidade, e os focos de protesto que começaram a aparecer nos dois últimos dias em bairros da periferia.

    No encontro dessas duas correntes pode se escancarar o abismo que representa historicamente a grande chaga da sociedade brasileira – ou pode se dar, enfim, o grande encontro entre as duas frações de um país que já foi chamado de Belíndia.

    A expressão foi inventada pelo economista mineiro Edmar Bacha em 1974, quando tinha ainda 32 anos de idade, numa fábula intitulada “O rei da Belíndia”, na qual retratava a sociedade desigual criada pelo regime militar, que dividia os brasileiros em duas categorias sociais como se vivessem em países distintos – a Bélgica da classe média abastada e a Índia, dos miseráveis.

    As duas últimas décadas registram uma redução dessas diferenças, e uma classe de renda média que emergiu graças à estabilização da moeda e às políticas sociais de distribuição de renda está arquivando o país ficcional de Bacha no nicho das fábulas econômicas. Mas ainda restam grandes diferenças culturais e de oportunidade entre as duas porções de Belíndia.

    O custo das tarifas de transporte público pode ser amenizado com alguma determinação política e boa matemática, conforme se demonstrou na quarta-feira (19). Mas a má qualidade do ensino, a precariedade do sistema de saúde e a insuficiência da infraestrutura são deficiências históricas que demoram a ser sanadas.

    O fenômeno gerado pelos jovens do Movimento Passe Livre produziu a reversão do aumento das passagens, mas não há hipótese de um milagre no que diz respeito às outras questões, que só serão superadas no longo prazo se houver a mesma determinação política – que a pressão popular pode estimular.

    Entre ilusão e utopia

    O teste de maturidade do movimento será esse: consolidar a onda de protestos em um instrumento permanente de ação política. Mais interessante, porém, é a possibilidade do encontro de duas massas de manifestantes: aquela que conseguiu reverter o aumento das tarifas desfilando pelas avenidas centrais da cidade, e aquela que mais se beneficia dessa conquista, que vai marchar das periferias para o centro. Será também o teste definitivo de uma forma de organização que pode ser chamada de “caórdica” – porque parece improvisada e aleatória, mas produz uma ordem objetiva e efeitos concretos.

    Os jornais de quinta-feira (20) passam ao largo dessas questões e ignoram a possibilidade do encontro entre os dois Brasis. As edições se concentram em analisar as consequências do recuo dos governantes em relação às contas públicas, fazem análises sobre quem ganha e quem perde politicamente e tentam decifrar a força orgânica das ruas.

    >> A Folha de S. Paulo questiona: “Cai a tarifa – quem vai pagar?”

    >> O Globo destaca a queda das tarifas e suas consequências políticas: “O efeito das manifestações”.

    >> O Estado de S. Paulo tenta explicar os bastidores da decisão: “Lula e Dilma pressionam e Haddad cede”, diz o título da reportagem central.

    Quem quiser saber como o movimento passou da Avenida Paulista para a Avenida M'Boi Mirim não pode ficar apenas lendo jornais ou assistindo o noticiário da televisão. A extensão do movimento para a periferia pode ser observada em canais alternativos da internet, como o Pós TV, que transmitiu ao vivo, sem edição nem cortes, as primeiras mobilizações na periferia.

    Definida como uma plataforma midiativista de jornalismo ao vivo, integrada a redes sociais, a iniciativa não depende de anunciantes. As imagens são captadas e compartilhadas por e com qualquer aparelho conectado à rede, principalmente smartphones, e o Pós TV garante absoluta liberdade de expressão aos participantes.

    Se vier a ocorrer o encontro das duas correntes na Avenida Paulista, uma delas terá a cobertura da mídia tradicional, a outra virá acompanhada das novas mídias sociais.

    O evento poderá resultar numa celebração da vontade popular ou no fracionamento do movimento em novas, intermináveis e inalcançáveis demandas.

    Talvez seja o momento da conciliação de Belíndia em um país mais democrático, ou talvez venha a marcar a linha divisória entre antigas ilusões e uma nova utopia.

     

    Originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

  • Bastidores

    A rua é a maior arquibancada do Brasil

    Por Carlos Castilho em 18/06/2013

    O slogan criado pela Fiat para alavancar seu patrocínio na Copa das Confederações pode também servir para entender por que milhares de pessoas saíram às ruas não para torcer por uma equipe de futebol, mas para mostrar um inconformismo que ninguém conseguiu até agora rotular.

    Os protestos urbanos dos últimos dias fugiram ao modelo tradicional de manifestação política, mostrando que tanto os governantes como os analistas políticos perderam a capacidade de interpretar o que está acontecendo, especialmente entre os mais jovens. A imprensa, políticos e o governo se esforçam para enquadrar as passeatas e atos de vandalismo dentro de suas respectivas estratégias eleitorais.

    É inegável uma clara perplexidade política entre os membros do establishment tupiniquim, pois as manifestações não têm uma liderança clara, não adotam palavras de ordem unificadas e nem seguem estruturas definidas. Noutros tempos, os líderes seriam os dirigentes de organizações estudantis, as palavras de ordem teriam cunho ideológico e o movimento seria verticalizado e hierarquizado.

    Como nada disso está acontecendo, ficou difícil o enquadramento das manifestações nos clichês político-partidários tradicionais. Só isso já é um fato positivo porque mostra como a geração com menos de 35 anos trata de impor um novo tipo de comportamento e de valores ao seu desejo de ser ouvida.

    O simbolismo político é outro. A presença nas ruas é mais forte do que os slogans ou lideranças. Aqui, como em vários outros lugares do mundo onde ocorreram protestos recentes, os jovens manifestantes ignoram as hierarquias e o monolitismo. A heterarquia (ausência de comando) é seu ambiente natural inconsciente. A simbologia da presença é mais forte do que o discurso.

    A mobilização é feita basicamente pela interatividade das redes sociais na internet, sem que os ativistas estejam preocupados com a certificação da credibilidade das informações. Apesar das gerações mais velhas rejeitarem as redes sociais como ambiente político, isto acontece de fato, tanto que toda a mobilização para a avalancha de manifestações da segunda feira (17/6) era palpável no Facebook e no Twitter, muito antes de elas explodirem nas ruas.

    As passagens de ônibus são um pretexto antigo e recorrente. Se existe alguma coisa que poderia simbolizar o estado de espírito dos manifestantes seria a expressão “estou de saco cheio”. Custo de vida, corrupção, violência e ineficiência funcionaram como ingredientes de um caldo muito mais significativo.

    Quem acompanhou a cacofonia virtual nas redes já sabia há muito tempo que a garotada não está nem aí para a imprensa. Eles simplesmente a ignoram e preferem conviver com a imaterialidade, incerteza e fluidez da informação virtual. Os jornais, políticos e governantes não têm credibilidade para a geração digital. Há razões de sobra para isso e não adianta criticar a internet, com suas virtudes e defeitos, porque ela é o ambiente político da nova geração.

    Para entender isso é preciso sair da zona de conforto das explicações convencionais e tentar conviver, mesmo que parcialmente, com as contradições e incertezas dos novos caras pintadas. Eles assumem a fluidez da existência virtual ao mesmo tempo em que sonham com um cargo público, pensando em estabilidade e segurança.

    As ruas das principais cidades do Brasil são mais do que a arquibancada da propaganda da Fiat. Elas acabaram se transformando na parte visível de um imenso laboratório social que até agora permaneceu oculto aos olhos da geração com mais de 40 anos, por culpa da imprensa e dos formadores de opinião. Os protestos são um sintoma de uma mudança social contextualizada nas novas tecnologias de comunicação e informação, mas que vai muito além da internet e do computador.

    Originalmente publicado no Observatório da Imprensa

     

  • Transcrições

    Pgm 683 - Renato Lessa - 14/05/2013

     

    No segundo programa comemorativo dos 15 anos do Observatório da Imprensa exibido pela TV Brasil, Alberto Dines entrevistou o novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, o cientista político Renato Lessa. Maior biblioteca da América Latina, a instituição ocupa o posto de uma das dez mais importantes bibliotecas do mundo, com um acervo de cerca de nove milhões de peças. Professor titular de Teoria Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Lessa é presidente do Instituto Ciência Hoje e pesquisador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

    A edição de terça-feira (14/5) do OI na TV coincidiu com a Semana do Proibido, período em que a TV Brasil tratou de temas que foram censurados durante a ditadura militar. Dines ressaltou que o embargo dos anos de chumbo não ocorreu por acaso. “Nos primeiros 308 anos da nossa existência estivemos submetidos a três censuras simultâneas e sincronizadas – uma censura inquisitorial, outra censura eclesiástica e a terceira censura da Coroa Portuguesa. Este prolongado sufoco precisa ser lembrado e relembrado para jamais ser repetido”, disse Dines, em editorial. Para ele, a Biblioteca não pode ser apenas um gigantesco armazém de livros e periódicos.

    A reportagem exibida no programa entrevistou Mônica Rizzo, diretora do Centro de Referência e Difusão. Ela explicou que a Biblioteca Nacional teve origem na coleção privada da realeza portuguesa, e que chegou ao Brasil entre 1810 e 1811, após a vinda da família real. “Essa biblioteca, antes disso, tinha sofrido um processo de perda muito grande durante o terremoto que ocorreu em Lisboa em 1755. A coleção foi praticamente quase toda destruída e foi refeita na administração do Marquês de Pombal. O conjunto que veio para o Brasil tinha cerca de 60 mil peças”, explicou Mônica. “Essa coleção é diariamente enriquecida por força da legislação do depósito legal, que obriga os editores e autores a enviarem à Biblioteca Nacional um exemplar de tudo o que é publicado no país. E dessa forma nós temos condições de formar aquilo que chamamos de memória nacional.”

    Raridades na rede

    A instituição detém uma série de documentos emblemáticos do país, como a Carta de Abertura dos Portos às Nações Amigas. No setor de iconografia, destaca-se a Coleção Thereza Christina Maria, doada pelo imperador Dom Pedro II: “Essa coleção tem uma parcela que foi reconhecida como Memória do Mundo, pela Unesco. É um retrato da segunda metade do século XIX como nenhum outro dentro de uma única instituição”, disse Mônica. “Temos também mapas do século 16, 17 e 18, inclusive muitos mapas únicos. Temos também livros impressos ainda no século 15, ou seja, incunábulos. Entre eles eu destaco A Bíblia de Mogúncia, que é o impresso mais antigo que se conhece no Brasil. Também temos uma coleção completa da Gazeta do Rio de Janeiro, que foi o primeiro periódico publicado no Brasil. Além de também termos uma coleção completa do Correio Braziliense, que foi o primeiro jornal brasileiro, mas esse publicado em Londres.”

    Um dos destaques da instituição é a Biblioteca Digital, que vem sendo aperfeiçoada desde 2006. Há nove meses, foi lançada a Hemeroteca Digital Brasileira, na qual mais de 1.600 jornais e revistas estão disponíveis, em um total de 7 milhões de páginas. O site chega a ter 400 mil acessos mensais. “É um projeto magnífico, todo mundo que entra nele para pesquisar se torna, de alguma forma, dependente porque são tantas frentes que você abre viajando nesse conjunto de periódicos brasileiros... A proposta da Biblioteca Nacional foi digitalizar títulos, coleções completas de jornais brasileiros que já estivessem em domínio público, ou seja, jornais e revistas extintas, para proporcionar ao público uma pesquisa facilitada”, contou Mônica Rizzo. A maior parte do acervo está sendo digitalizada a partir dos microfilmes já existentes, em um processo que chega a produzir 20 mil imagens por dia.

    Entre as preciosidades do século 19 estão as coleções do Correio Braziliense, da Gazeta do Rio de Janeiro e do Revérbero Constitucional Fluminense, entre outras. O pesquisador pode acessar também exemplares de importantes revistas, como a Semana Illustrada e a Revista Illustrada. Estão disponíveis jornais que marcaram o século 20: A Noite, A Manhã, Diário Carioca, Ultima Hora, Correio da Manhã e Jornal do Brasil. Também estão ao alcance de um clique as coleções das revistas O Malho, Revista da Semana, entre outras.

    Através de uma ferramenta de busca por palavras, o pesquisador pode chegar a dados nunca antes analisados. “Nós tivemos, recentemente, um depoimento de uma pessoa que está fazendo uma pesquisa sobre Ernesto Nazareth e ele me disse que está, com o apoio da Hemeroteca Digital, praticamente reescrevendo trechos da biografia do músico. Para nós, isso é uma satisfação enorme, porque o nosso trabalho é um trabalho silencioso”, comentou a funcionária da Biblioteca.

    Inferno escondido

    Ana Virgínia Pinheiro, chefe do setor de Obras Raras, mostrou ao programa uma seleção de obras proibidas por valores morais, religiosos ou políticos que compõem a “Coleção do Inferno”. As peças mais antigas datam do século 15 e as mais recentes chegam ao período da ditadura militar. “Uma das obras mais representativas desse conjunto é a edição de 1661 da Cidade de Deus, de Santo Agostinho. Esse exemplar pertenceu ao censor e tem várias passagens expurgadas, tornando quase impossível ler e compreender o sentido do texto. É uma edição em latim, uma edição fora de consulta pela impossibilidade do seu manuseio em função das técnicas de censura que foram impostas ao volume, que usou um tipo de tinta que desgasta. A intenção era efetivamente desgastar o suporte”, explicou Ana Virgínia.

    Outro exemplo clássico de uma obra que ficou escondida é o Index Librorum Prohibitorum, uma relação de livros que foram proibidos na Espanha. “Na página preliminar tem um comentário de época, porque a inscrição é da época da publicação – 1667 - e, segundo o censor, esse seria um índex falso, não seria um índex original. Teoricamente, o editor teria publicado um índice de obras proibidas, na visão dele, porque na verdade são obras que foram liberadas pelo rei, talvez para dar uma espécie de troco por ter sido censurado”, explicou Ana Virgínia. Embora o rei D. José tenha proibido uma série de obras, os exemplares censurados constavam em sua biblioteca, deixando claro que era quase impossível estabelecer um controle sobre o que era incorporado.

    No debate ao vivo, Dines explicou que o aparato censório que a Coroa Portuguesa instalou no Brasil durante os três primeiros séculos de colonização impediu que o país desenvolvesse um circuito intelectual robusto. E mesmo depois que a corte foi transferida para o Rio de Janeiro, em 1808, o controle permaneceu. Nos séculos seguintes, períodos de mais liberdade alternaram-se com outros de forte censura, culminando com a ditadura militar imposta ao país entre 1964 e 1985. Renato Lessa disse que essa interdição à oportunidade de pensamento fez com que a cultura livresca no Brasil fosse, durante muito tempo, exclusiva de um segmento diminuto da população e tivesse pouca capacidade de se expandir. “O próprio sistema educacional não colabora nesse sentido. Ele faria com que a propagação da leitura se irradiasse por todo o país”, lamentou Lessa.

    Durante o século 19, de acordo com Renato Lessa, o tipo de pensamento que vigorou nas elites intelectuais brasileiras era conhecido como ecletismo espiritualista. Era uma tentativa de reunir as diversas correntes filosóficas em uma perspectiva teológica. A ruptura com esse tipo de tradição religiosa só ocorreu no Brasil no fim do século 19, enquanto os europeus já experimentavam esta separação desde o século 16. “No caso europeu, a ruptura com o espírito religioso e a afirmação da laicidade se deu concomitantemente com a dispersão do prelo: Gutenberg e os livros, a ideia de publicização do pensamento. No Brasil, nós tivemos episódios interessantes. Um dos primeiros intelectuais que rompem com essa tradição meio religiosa, mística, e começa a pensar o Brasil com paradigmas modernos, Tobias Barreto, publicou um jornal no interior do Sergipe em alemão, que ele mesmo lia”, relembrou o cientista social. A passagem para o espírito laico no Brasil não foi acompanhada pela conquista de novos adeptos e o pensamento permaneceu restrito à elite.

    Tesouro para todos

    Dines comentou que a história da imprensa brasileira é pouco explorada e elogiou a iniciativa da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Renato Lessa completou: “Esses mecanismos modernos de busca tornam a pesquisa muito mais simples. A minha história na Biblioteca Nacional começou nos anos 1970, pesquisando em jornais. Eu era estagiário do CPDoc da Fundação Getúlio Vargas, em 1975, e passei dois anos na Biblioteca fazendo pesquisas em jornais gaúchos sobre política gaúcha no final da década de 1920. E eram volumes imensos. Muitas vezes a própria manipulação quebrava os jornais, percebia-se que o suporte teria vida curta”, contou Renato Lessa. O primeiro passo dado pela Biblioteca Nacional para a preservação da coleção de livros e jornais foi a microfilmagem das edições.

    Há uma visão sobre a Biblioteca Nacional que não é errada, mas que devemos nuançar: que a Biblioteca Nacional é uma espécie de guarda de tesouros. É verdade. Há coisas ali que são preciosidades inestimáveis. O tesouro, por sua vez, só tem sentido na medida em que ele entra na cadeia de produção de conhecimento, na medida em que é aberto, investigado. Um material do século 15 vai ganhar vida se uma pergunta formulada no século 21 for dirigida a ele”, afirmou o presidente da instituição. “A ideia de tesouro remete também a algo que foi dado de presente. Por isso, é importante refletir sobre o legado que se deixará para as gerações futuras e implementar a digitalização para divulgar o conhecimento.” As novas plataformas, como livros eletrônicos, e ferramentas de comunicação como twitter e e-mail serão usadas pelos arqueólogos do futuro para recompor o passado. “O livro digital entra nessa configuração desafiando uma ideia tradicional de acervo bibliográfico”, explicou Renato Lessa.

    Dines questionou como a Biblioteca Nacional pode “se federalizar” de fato. Para Lessa, este processo pode ser feito pela via digital, estabelecendo alianças. Uma das parcerias bastante adiantadas é com a Biblioteca Brasiliana, da Universidade de São Paulo. “A ideia é trabalharmos na direção de um sistema de bibliotecas que digitalizam os seus acervos, de bases que são compatíveis em termos de plataformas e que sejam submetidas a instrumentos de busca comuns”, contou Renato Lessa. É importante que esse sistema permita a entrada de novos parceiros e de suportes diferenciados, como imagem em movimento.

    Paraíso cheio de problemas

    Lessa comentou que o escritor Jorge Luis Borges, nomeado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina em 1955, costumava dizer que imaginava o paraíso sob a forma de uma biblioteca: “A imagem que eu tenho é um pouco uma combinação de Borges com Kafka. A Biblioteca é um paraíso, mas ela também tem ar condicionado defeituoso, tem que fazer obras, e várias licitações para começar a fazer obras. Portanto, há toda uma série de providências de natureza prática e outras de natureza jurídica e burocrática que são imperativas e imediatas para que o paraíso tenha concretude, para que tenhamos um paraíso tangível. Há desafios muito grandes do ponto de vista material, que estão encaminhados”. Com a ajuda de parceiros como o BNDES e o governo federal, Lessa acredita que seja viável recuperar o prédio da instituição.

    O novo presidente comentou a polêmica em torno da participação da Biblioteca na Feira de Frankfurt. “A ideia de internacionalização da Biblioteca estava associada à ideia de internacionalização do livro, o que fazia da Biblioteca Nacional uma espécie de produtora de eventos literários internacionais, que são fundamentais, importantes. O Brasil agora é o país homenageado na Feira de Frankfurt. Isso foi entendido pelo governo federal há dois anos como oportunidade de o Brasil fazer valer o seu talento, sua capacidade criativa. Mas a Biblioteca Nacional não é a melhor instituição para ser a produtora e a gestora de uma política desta natureza, que envolve uma complexidade muito grande”, ponderou Renato Lessa. A produção de um evento desse porte mobiliza uma grande energia dos funcionários, que deveriam estar orientados para a gestão interna da Biblioteca. O governo federal e a iniciativa privada, na opinião de Lessa, são as melhores esferas para organizar eventos dessa natureza.

    A revisão de situações como essa abre caminho para que a gestão possa focar em questões internas graves, como obras e qualificação de pessoal. Renato Lessa ressaltou que todo o “tesouro” depositado na Biblioteca Nacional depende do esforço dos funcionários. “A Biblioteca tem uma destreza técnica, que aos poucos eu vou descobrindo, e que deve ser mostrada”, disse. Planos de carreira e valorização salarial devem ser priorizados. “Eu estou confiante, estou animado. Eu não vou resolver todas essas coisas, evidentemente. Seria irresponsável dizer uma coisa dessas, mas tenho confiança de que vale a pena e que nós temos recursos internos na Biblioteca para fazer com que ela dê um salto”, garantiu Renato Lessa.

    Para ele, a instituição ocupa um lugar central na cultura brasileira e na produção de conhecimento no país. O desafio agora é passar a poder comprar novas peças para o acervo. Para isso, há uma longa batalha jurídica a ser enfrentada. Lessa comentou que a Biblioteca planeja uma expansão física para um armazém no Cais do Porto do Rio, que será reformado com o apoio do BNDES. “Eu vou frequentar muito o BNDES com o pires na mão. Não só o BNDES. É preciso mobilizar o Estado brasileiro e parceiros privados”, avisou o novo presidente da Biblioteca Nacional.

     

  • Bastidores

    A ira está solta

    Por Alberto Dines em 17/06/2013

    Reproduzido do Correio Popular (15/6/2013) e do Diário de S.Paulo (16/6/2013)

    “Conflito entre canibais e antropófagos.” Com este impagável veredicto sobre o embate entre manifestantes e policiais na quinta-feira (13/6) em São Paulo, o veterano jornalista Elio Gaspari atalhou a habitual lengalenga que acompanha o noticiário sobre a repressão aos protestos de rua (ver “A PM começou a batalha na Maria Antônia“).

    As partes estavam dispostas a tudo e não perderam tempo para exibir a sua disposição. Foram igualmente insanas e irresponsáveis. Sobrou para os repórteres que, como Gaspari, lá foram para testemunhar e registrar o que acontecia – sete profissionais da Folha de S.Paulo foram atingidos por balas de borracha disparadas pela PM, dois deles no rosto.

    A refrega era previsível e não apenas porque foi o quarto episódio numa série iniciada há dez dias e ameaça irradiar-se pelo país, mas porque há uma tensão mundial que encurta drasticamente os pavios e favorece as explosões de fúria. No Brasil o pretexto está sendo o aumento das tarifas dos transportes urbanos, em Istambul é a destruição de uma das últimas áreas verdes da cidade. Nos dois casos, uma visível impaciência que estrategistas e marqueteiros teimam em ignorar.

    Fazer as contas

    A questão vai além das divergências sobre o limite de tolerância dos regimes democráticos com as manifestações populares. A fórmula de ir a rua para chamar a atenção por meio do incômodo ou da truculência exibe sinais de fadiga. As ruas mudaram, as cidades mudaram, a forma de despertá-las mudará obrigatoriamente.

    Filhas da segunda metade do século passado, as exibições políticas de massa tiveram o seu momento estelar em Paris, maio de 1968. Esta primavera libertária chegou ao Oriente Médio com 45 anos de atraso, foi razoavelmente bem-sucedida no Egito, mas na Síria as ruas converteram-se em campos de batalha onde quase 100 mil vidas já foram sacrificadas sem qualquer indício de desfecho à vista.

    O repertório de ações políticas não-violentas (de certa forma criado pelo pacifista indiano Mahatma Gandhi) cresceu exponencialmente com a entrada em cena da comunicação digital. O espaço público está de tal maneira congestionado e tumultuado que foi obrigado a alçar voo e aninhar-se no ciberespaço. A solidariedade e a persuasão tornaram-se mais acessíveis, ganharam novos estímulos e oportunidades, a mobilização para o dissenso e a não-cooperação se tornou fácil. São mais eficazes do que os antiquados coquetéis Molotov que na Segunda Guerra Mundial inutilizavam os tanques, mas hoje são incapazes de ganhar eleições.

    A ira está solta. Com o quinto protesto marcado para a segunda-feira (17/6) pouco adianta distinguir os canibais dos antropófagos. As tarifas de transporte foram aumentadas por conta da inflação. E a inflação não se enfrenta na rua, mas fazendo contas – nos gabinetes, nos plenários dos legislativos. Ou nas urnas.

  • Bastidores

    Jornal menor pode ser melhor

    Por Mauro Malin em 13/06/2013

     

    A coluna da ombudsman da Folha de S. Paulo, Suzana Singer, após a primeira semana de circulação do jornal O Estado de S. Paulo em novo formato, mais enxuto (“Queridos, encolhi o jornal”), somou-se a temores e críticas que jogavam para baixo o moral da redação do diário. A descoberta de que haveria demissões, ainda antes do anúncio da reforma, tinha criado intensa preocupação na sede e nas sucursais.

    Enquanto lambia as feridas, um dos jornalistas teve a ideia de comparar o tamanho do “núcleo duro” das edições dos dois jornais naquele domingo. Constatou que, enquanto Primeiro Caderno, Mercado, Cotidiano, Esporte e Ilustrada somavam na Folha 62 páginas, no Estadão o novo Primeiro Caderno, Economia & Negócios, Caderno 2 e Edição de Esportes vinham com 76 páginas.

    A rigor, portanto, em matéria de jornal diário, justo naquele dia o Estado tinha mais páginas do que a Folha, o que Suzana não poderia adivinhar quando escreveu a coluna. O autor da comparação entendeu que a crítica da ombudsman fora atropelada pelos fatos. Compartilhou a constatação com os colegas. O petardo virou injeção de ânimo.

    Meses de sofrimento

    O clima opressivo na redação do Estadão naquela segunda quinzena de abril vinha sendo alimentado por diferentes episódios de demissão coletiva nos quatro meses precedentes, entre eles o que desempregou metade dos 120 profissionais do Jornal da Tarde,publicado pela última vez em 31 de outubro de 2012.

    Como nos dois anos anteriores, os jornalistas do Estado de S. Paulo tomaram conhecimento do iminente fechamento de postos de trabalho por meio de vazamentos sempre desmentidos pelos dirigentes da Redação e sempre confirmados pelos fatos.

    Não dava mais para confiar. Como boataria e comedimento são antípodas, espalhou-se que estava a caminho um megacorte de pessoal. Uma noite, alguém pôs no sistema Hermes – plataforma de edição do jornal e de acesso a tudo que é produzido pelas empresas de comunicação do grupo – o projeto de adaptação da reforma de 2010, feita pela Cases I Associats, de Barcelona. O site Comunique-senoticiou.

    Só mais um ou dois anos?

    O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo pediu uma reunião urgente com a diretoria do Estadão. Usou o instrumento do dissídio coletivo de natureza jurídica, que garante prioridade em relação a milhares de dissídios salariais que tramitam na Justiça do Trabalho. A empresa viu-se obrigada a negociar quando foi concedida pela Justiça do Trabalho liminar que suspendia as demissões.

    Fizeram-se duas reuniões. Os números foram esclarecidos: entre 347 jornalistas empregados em São Paulo, haviam sido demitidos 31: menos do que os 10% a partir dos quais se caracteriza a demissão em massa. Número igual à metade dos profissionais do Jornal da Tarde que foram absorvidos pelo Estadão – impresso e portal. Saíram também pessoas jurídicas e gente com menos de um ano de casa. O Sindicato obteve o pagamento de dois salários adicionais e seis meses de vigência do plano de saúde. As mesmas condições dadas aos demitidos do Jornal da Tarde.

    A primeira percepção coletiva na redação foi a de que tinha chegado ao fim a trajetória do jornal fundado em 1875. Instituiu-se um “bolão” sem apostas em dinheiro: vai durar mais um ano, dois. Houve choradeira na editoria de Cidades quando foi confirmada a demissão de um repórter querido.

    Tempo real

    O diretor de conteúdo do jornal, Ricardo Gandour, percebeu que era hora de conversar com a equipe. Tardiamente? Talvez. Não se deve ignorar que mudanças dessa natureza sempre são conduzidas com o conhecimento de um grupo reduzido de chefes.

    Numa palestra, Gandour garantiu que a nova reforma (houvera mudanças em 2003, grandes reformas em 2004 e novamente em 2010) tinha como objetivo dispor de recursos para aumentar a qualidade do impresso – o jornal quer oferecer, além da notícia, análises, cenários, bastidores e outros elementos de contextualização –, e investir no portal e no serviço em tempo real Broadcast, da Agência Estado.

    O Broadcast parecera ameaçado pela criação do Valor Pro. Temor infundado. O serviço de informações em tempo real do jornal Valor Econômico não conquistou a fatia de mercado que estava nos planos de seus idealizadores. E os investimentos feitos para estruturá-lo teriam sido a causa de cortes na redação do jornal de economia e negócios.

    Jornalistas mais familiarizados com o lado empresarial da crise do Estadão também acharam que o matutino rumava para a extinção. Pesou em seu raciocínio a existência de uma dívida que, comenta-se, teria levado os herdeiros de Roberto Marinho a desistir de comprar o jornal. Os cortes estariam sendo feitos para garantir o pagamento, agora improrrogável, dessa dívida.

    Houve jornalistas que se lembraram de ter ouvido Gandour prever que o jornal impresso não iria durar muito – mais cinco, até dez anos – e que era necessário se concentrar agora nos produtos digitais. A reforma de 2013 anunciaria, portanto, o início do fim.

    Difícil para todos

    Uma das consequências retardadas das demissões foi que jornalistas remanescentes, de diferentes editorias, decidiram aceitar convites para deixar o Estado. Os mais pessimistas ficaram surpresos, porém, quando souberam que o jornal tinha coberto uma oferta feita a um repórter prestigiado que havia passado incólume pelo enxugamento da equipe. E quando viram vagas que não se pretendia eliminar ser preenchidas por novas contratações, sem rebaixamento de salários.

    A reforma de abril do Estadão foi recebida, fora do jornal, com críticas mais ou menos veementes. Enquanto Otavio Frias Filho, entrevistado por Alberto Dines no programa de televisão do Observatório da Imprensa, adotou um tom comedido (“...amim não agradou a reforma que o jornal O Estado de S.Paulo fez recentemente. Pelo menos não é a reforma que eu faria se estivesse em circunstâncias parecidas”), já sabendo que haveria cortes na sua Folha no curto prazo, para outros o que estava ocorrendo era um “suicídio”, ou, na melhor das hipóteses, uma comprovação de que está à vista o fim dos jornais impressos.

    Isso pareceu, nas semanas seguintes, explicar a onda de demissões em diferentes meios: a já mencionada no Valor, a que a Folha de S.Paulo realizou no início de junho, uma, mais antiga, na Trip. Os mais alarmistas, ou mais alarmados, viram até no corte de 400 profissionais de dramaturgia da TV Record uma conexão com o fenômeno.

    Há um problema com os jornais impressos? Há. Não um só. Muitos.

    Como se vê na tabela abaixo, elaborada com dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), a tiragem dos três jornais mais influentes do país praticamente estacionou.

     

    Circulação, 2010-2012 (mil exemplares)

    Posição Jornal Média das edições 2012     2010 2011 2012 2ª-feira 3ª a sábado Domingo 2 Folha 295,7 297,1 298,1 318,1 304,1 306,9 3 Globo 262,4 264,4 267,5 245,3 257,6 339 4 Estadão 236,4 254,2 241,5 232,2 236,3 277,1

    Notas: 1) A maior circulação do país em 2012 (306,5 mil, média das edições) foi alcançada pelo Super Notícia, de Belo Horizonte. Na quinta posição aparece o Extra, do Rio, com 233,4 mil exemplares. Na sexta posição, a Zero Hora, de Porto Alegre, com 186,1 mil. 2) A estatística da ANJ (Associação Nacional de Jornais) dá a Folha em primeiro lugar em 2012.

     

    Abaixo de 100 mil e acima de 50 mil exemplares de tiragem média por edição em 2012 estão (em ordem decrescente) outros jornais de importância regional ou setorial, como Estado de Minas (15a posição no IVC, ligeiro crescimento), Lance! (16a, queda considerável, de 14,7%), A Tribuna (Vitória; 18a, ligeira queda), Valor Econômico (19a, crescimento de 12,6%), O Dia (Rio; 21a, queda de 3,7%) e Correio Braziliense (22a, estacionado).

    Na verdade, se poderia dizer que os jornais resistiram muito razoavelmente, com as exceções conhecidas (Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e outros, menos importantes) ao encolhimento da fatia dos impressos no bolo publicitário brasileiro, que há anos cresce bem mais do que a economia. Resistiram até, que nos perdoe o divino Cartola, aos abismos que alguns cavaram com os próprios pés.

    Assinantes não se abalaram

    Se a opinião do leitor é importante, registre-se que o número de desistências – cancelamentos ou não renovações –, até a primeira semana de junho, estava em torno de 60, um pouco maior do que o número de novos assinantes que o jornal conquista em média por dia.

    No orçamento dos jornais não foi apenas a redução do faturamento com anúncios – devido à dispersão da publicidade – que criou dificuldades. As equipes da redação cresceram com o advento dos portais.

    A modernização das relações de trabalho no país aumentou muito o custo de tarefas de produção que eram exercidas por uma espécie de subproletariado sem direitos trabalhistas – no Estadão, chamados de “egípcios”, em alusão à construção das pirâmides. Agora, têm carteira assinada, adicional noturno. Os custos de impressão e logística subiram mais do que os das Redações. Todos os jornais reduzem há tempos o número de páginas.

    Do ponto de vista do formato, o que havia e, apesar das tesouradas, ainda há de mal-parado nos grandes jornais é seu tamanho excessivo e sua exagerada cadernização, ditados por interesses comerciais, não editoriais. Como se sabe, o espelho (número de páginas e espaço disponível para conteúdo de cada edição) é fornecido à Redação pela publicidade, após negociações em torno de pontos sensíveis: se o jornal se deixar guiar só pela cabeça de quem vende anúncio, o leitor será submetido a uma lógica que não bate continência para os preceitos do bom jornalismo.

    Isso vai dito sem nenhuma intenção de desconsiderar a publicidade, sem a qual só sobrevive a mídia subvencionada por governos ou por interesses subjacentes. Comprometida com interesses que dificilmente coincidem com os de parcelas democraticamente expressivas da sociedade.

    Queridos, a grana encurtou

    No Estadão, havia espaço de mais e gente de menos para ocupá-lo com matérias que merecessem publicação. A receita publicitária é a variável determinante do tamanho do jornal. Em princípio, o preço do anúncio acompanha seu tamanho, mas há variações segundo o “pacote” de anúncios, a página do jornal, o dia da semana, os descontos praticados para diferentes categorias de anunciantes etc.

    Jornais vivem de assinaturas e publicidade, mas quanto ganham os jornalões com os mastodônticos anúncios de lançamentos imobiliários que ocupam, com fartura de tinta, uma, duas, três páginas inteiras? Quase nada. Fruto de uma política de descontos exagerados praticada há muitos anos.

    Em tese, o mercado publicitário deveria aos poucos se adaptar às políticas dos jornais. O problema é que eles, a rigor, não as têm. Foi a publicidade que exigiu lugar na capa, espaços fenomenais, cor. Os jornais foram se deixando levar até cair em armadilhas que hoje é necessário desarmar.

    O faturamento da publicidade não bancava mais segurar na empresa os muito bons, os bons e os regulares. Escolhas se impuseram: preservar os muito bons e os bons. Quem está na empresa poderá avaliar se foram justas e corretas.

    Dieta faz bem

    Em relação à qualidade do conteúdo, não é a dieta com menos celulose que atrapalha. Ao contrário. O novo formato do Estadão dá a sensação de que o jornal melhorou. Se não por acréscimo, ao menos por subtração: tinha muita matéria chocha no jornal. O tema é controverso, mas fontes credíveis garantem que em muitos momentos chegou-se a publicar tudo que chegava à Redação, sem deixar “gaveta”.

    Outra vantagem é que foram suprimidos grafismos e fotos exageradamente abertas que não acrescentavam nenhuma informação e não hierarquizavam a informação. Eram quase imperativos em face das vastidões a diagramar.

    Havia no Estadão, na esteira de um período de aparentes vacas gordas, um molde a ser quebrado. Esse formato admitia matérias não exatamente medíocres, mas, numa nomenclatura menos agressiva, “medianas”. Agora, pretende-se que o que não merece virar reportagem seja transformado em curto registro.

    Os condutores da reforma estão convencidos de que se abriu espaço para publicar o que pode fazer diferença, surpreender o leitor, pautar a televisão e, por intermédio dela, toda a mídia. É um discurso convencional, que os jornalistas fazem com facilidade e seguem com dificuldade, e já tinha sido enunciado na reforma de 2010 (ver aqui). Mas é uma orientação editorialmente correta.

    Salvar os dedos

    O jornal, ficou-se sabendo após baixar um pouco a poeira, usou critérios em geral inteligentes para fazer os cortes. Não foram mandados embora os maiores salários, não se enfraqueceram segmentos fortes do jornal, como a Economia e a sucursal de Brasília. Foi suprimido apenas um posto de correspondente no exterior, a segunda vaga em Nova York. Os projetos especiais não foram interrompidos, viagens no país e ao exterior não foram suspensas.

    Houve racionalizações. O “Link”, que era publicado às segundas-feiras, é um exemplo. Tinha uma equipe de seis pessoas para alimentar diariamente a parte de tecnologia do portal e produzir semanalmente as seis páginas do suplemento. Passou a ter quatro pessoas para alimentar o portal e produzir duas páginas por semana adicionadas ao caderno de Economia.

    O design da reforma não é brilhante. Tratou-se de adaptar um modelo concebido em outras circunstâncias. Simplificar não só o impresso, mas toda a cadeia de produção de material jornalístico. Simplificar não é nada simples.

    Mudar a Opinião

    Outras mudanças poderão vir. A morte de Ruy Mesquita, que comandava a parte de Opinião do jornal – separada da produção e edição do noticiário, a ponto de ter orçamento próprio –, talvez desate um processo de modernização. Há anos se constata a necessidade de dinamizar a página 2 do Estadão.

    A seção de Cartas talvez venha a ter liberdade para publicar posições diferentes, não só as que são escolhidas para secundar as escolhas políticas e as idiossincrasias da casa. A Folha, por exemplo, ajudada pelo advento das mensagens eletrônicas, oferece um painel diversificado e vivo dos leitores. E não omite cartas com críticas ao jornal.

    Uma edição só

    Não há mais duas edições, uma para São Paulo e Brasília e outra para as demais cidades do estado e do país. Voltou-se à prática tradicionalíssima de acrescentar informações em segundos clichês, aproveitando paradas de máquinas ou, caso necessário, interrompendo a rodagem para dar nos exemplares rodados em seguida uma notícia ou uma atualização de grande importância. Com isso, a redação ganhou uma hora a mais para fechar a edição, o que lhe permite reler o que já está pronto, consertar erros, caprichar, sem brigar com a oficina.

    A junção das editorias de Opinião, Política, Internacional, Cidades e Esportes num só caderno tende a induzir, por contiguidade, leitores jovens, que antes só liam o caderno de esportes, a esbarrar em outros temas e descobrir que também podem ter interesse neles. Justiça seja feita ao Globo, que foi comedido em sua cadernização.

    Nada indica que os jornalões estejam decididos a caminhar para o matadouro: Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo puseram nos últimos dias anúncios no horário mais caro de todas as mídias brasileiras: intervalos do Jornal Nacional,que acolhem, na praça do Rio de Janeiro, promoção do O Globo mediante remuneração contábil.

    Quem ficou rala mais

    Entre as vítimas do corte estão não só os profissionais demitidos, mas também os que ficaram, cujo trabalho está mais complexo, porque menos coisas são publicadas por inércia e aumentaram as exigências de reforço do conteúdo, para ir além da notícia que virou commodity – essa que circula sem lenço e sem documento pela rede. Em particular, os estagiários, informa-se, estão sendo submetidos a uma jornada de trabalho que inclui jornal e portal: começa às 8 da manhã termina às 9 da noite.

    É algo que, se houver uma preocupação lúcida da direção, poderá ser resolvido com melhor planejamento. Para isso será indispensável superar de uma vez por todas uma cultura que, até recentemente, confundia improviso com criatividade e jogava as equipes num fechamento vertiginoso que o ritmo dos acontecimentos não justificava.

    Muitas notícias importantes são conhecidas na pior das hipóteses desde a noite anterior, quando vai ao ar o Jornal Nacional. Isso acontece há mais de quarenta anos, mas ao longo do tempo os editores assistiram aos noticiários de televisão com a preocupação de saber se estavam deixando de dar algo da seleção feita pelo jornalismo da Globo, ao invés de, caso também considerassem relevantes tais notícias, se empenhar em qualificá-las elaborando novas pautas para apuração no dia seguinte.

    Salvo da morte certa

    Ninguém está em condições, hoje, de dizer se a nova reforma do Estadão vai ou não dar certo. O que se pode dizer, sem medo de errar, é que, se não a fizesse, o jornal não ia durar muito. Mas os problemas básicos do jornalismo da casa não poderão ser enfrentados sem uma discussão não apenas de gestão, mas de rumos jornalísticos. Absorvida a reforma determinada pelo passado e por contingências do presente, será preciso saber para onde pretende caminhar o jornal, nos suportes impresso e digital.

    “Dar certo” não depende só dos jornalistas. A história do próprio Estadão é uma lamentável confirmação dessa sentença óbvia. Já no lançamento do Jornal da Tarde, em 1966, ficaram patentes alguns paradoxos. Foi um jornal que marcou época graças a sua modernidade gráfica e editorial. Entretanto, passou a maior parte de sua existência dando prejuízo. E concorria com o carro-chefe da casa.

    Ninguém deveria ficar muito preocupado com isso na época. O Estadão estava no auge de seu prestígio. Em 1967, sua circulação chegou a passar de 340 mil exemplares. Estimava-se que a cidade de São Paulo tivesse 5,2 milhões de habitantes. A TV Globo tinha apenas dois anos de existência, não existia rede nacional interligada (que permitiria, dois anos depois, o surgimento do Jornal Nacional) e a Folha estava longe de fazer a reforma que lhe daria a proeminência atual.

    Em 2012, 55 anos depois, quando a população paulistana andava na casa dos 11,1 milhões, os índices de alfabetização haviam melhorado muito e o estado concentrava boa parte das pessoas com ensino superior, mestrado e doutorado do país, o Estadão tinha circulação pouco acima de 240 mil exemplares.

    Meu reino por um prédio

    Nos anos 1970, o governo militar, que exercia censura prévia no Estado, no JT, na Veja e nos jornais ditos alternativos – e obtinha dos outros, via intimidação ou por afinidade ideológica, a autocensura – decidiu financiar a modernização dos meios de comunicação “dentro de um projeto de integração nacional que decorria, por sua vez, da doutrina de segurança nacional” (Alzira Alves de Abreu, no livro Eles mudaram a imprensa: depoimentos ao CPDOC, de 2003, organizado por ela, por Fernando Lattman-Weltman e por Dora Rocha).

    A família Mesquita resolveu mudar redação e máquinas do Centro de São Paulo para imponente sede na Marginal do Tietê. O Estadão e o Jornal da Tarde começam a funcionar no prédio do bairro do Limão em 1976. A empresa não conseguira empréstimo da Caixa Econômica Federal, porque havia passado do apoio entusiasmado ao golpe militar à decepção e, em seguida, quando foi publicado o AI-5, à oposição ao regime, embora não ao ideário que o lastreava. Recorrera a um empréstimo em dólar do BankBoston.

    Nas três décadas e meia seguintes, o jornal não se livraria mais das dívidas e dos problemas administrativos, em parte causados pela dificuldade do grupo para acomodar na diretoria e no conselho de administração os interesses e as concepções, não raro conflitantes, da descendência dos Mesquitas fundadores.

    Leve-se em conta, porém, que não foi nada fácil administrar qualquer empresa brasileira em meio à escalada inflacionária que o segundo choque do petróleo (1979) desencadeou no país, tragédia que só seria superada com o advento do Plano Real, em 1994. Mas o caso do Estadão rompe os limites do compreensível.

    Jornal virou bico

    Em seu depoimento para o já citado Eles mudaram a imprensa, Augusto Nunes, diretor de redação do O Estado de S. Paulo entre 1988 e 1991, descreve mazelas do jornal:

    “Eu sabia que os salários tinham sido aviltados, mas o que encontrei me horrorizou. Havia sido instituído pela empresa o duplo emprego. Pela empresa! Desde os anos 70, quando alguém pedia aumento, a direção recomendava ao cara que arrumasse um outro emprego e acumulasse os salários”.

    Com o tempo, o segundo emprego ficou mais importante do que o primeiro. Enquanto isso, 40 indivíduos que diziam ter sido amigos de Júlio de Mesquita Filho (1892-1969) recebiam sem trabalhar.

    O jornal não estava informatizado, não usava cores, não saía às segundas-feiras (“Os jogos de futebol de domingo, inclusive os da seleção brasileira, eram noticiados na terça”, relata Nunes, que comandou a reforma gráfica mais importante do Estadão).

    Decisões negociais equivocadas fizeram com que, tendo se recuperado durante a Nova República com a publicação de listas telefônicas (concessão recebida, no governo Sarney, do ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães; segundo Nunes, dava lucro anual de quase US$ 100 milhões), o Estadão se visse novamente encalacrado com dívidas.

    ‘Diversificação’ deu chabu

    Em 2004, a repórter Elvira Lobato publicou na Folha reportagem (“Mídia nacional acumula dívida de R$ 10 bilhões”, 15/2) segundo a qual o Grupo Estado tomara empréstimos de US$ 120 milhões no exterior para investimento no parque gráfico e para se tornar acionista da empresa de telefonia celular BCP, que acabou vendida ao grupo mexicano Telmex, em 2003. “Segundo informações do mercado”, escreveu a jornalista, “os acionistas teriam perdido 95% do capital investido.”

    Após concluir uma renegociação com os credores, o grupo anunciara o afastamento da família Mesquita dos cargos executivos. “Francisco Mesquita Neto, ex-diretor-superintendente do grupo, assumiu a presidência do Conselho de Administração. A família participa da orientação estratégica e editorial, mas saiu do dia a dia”, informou Elvira Lobato.

    A dívida financeira pesa até hoje nos destinos do jornal.

    Facciosismo contaminou noticiário

    A mais perturbadora herança negativa do Estadão é a credibilidade de seu noticiário ter sido sempre afetada por sua entusiástica adesão a uma das extremidades do duopólio de poder que se estabeleceu no país reconstitucionalizado. Sempre a mesma, a do antilulismo nos planos federal e paulista (mas não necessariamente a do antipetismo no plano municipal paulistano).

    É não ter sido capaz de entender, como os jornais estudados por Matias Molina em Os melhores jornais do mundo: uma visão da imprensa internacional (2ª ed., 2008), que “um bom jornal é uma nação falando para si mesma” (Arthur Miller), que sua importância há de ser “muito superior às suas dimensões econômicas”, que ele se destaca “pela relevância, que vem do fato de ser lido por uma elite e pelos ocupantes de altos cargos públicos, cuja opinião ajuda a formar”.

    É não ter conseguido, nem procurado, se colocar acima das correntes em choque, para tentar transmitir uma percepção do país que funcionasse como referência factual e analítica dos debates mais sérios sobre passado, presente e futuro da sociedade brasileira e do mundo. Que pusesse o acento não na emoção, mas na razão, fazendo de seu conteúdo instrumento útil para pessoas que tomam decisões, das mais abrangentes às puramente individuais.

    Buscar ser justo

    O Estado de S.Paulo prestou e presta grandes serviços ao país. São incontáveis as informações e denúncias que põe no mundo diariamente. Mas isso não o dispensa de buscar ser justo, na linha do que disse Zygmunt Bauman (Bauman sobre Bauman, 2011): “A justiça é o horizonte que uma sociedade justa tenta alcançar, um horizonte que se afasta a cada passo que essa sociedade dá. Insistir em dar esse passos e não afrouxar nessa insistência, aconteça o que acontecer, é o que torna justa uma sociedade”.

    Entre reformas sempre apresentadas como passos seguros na direção de uma qualidade maior, unilateralismo e faltas maldosas, os poucos grandes jornais brasileiros que sobreviveram não perderam sua importância, para o bem e para o mal. Se sucumbissem, o país correria o risco de abrigar uma sociedade formada pela televisão e pelas redes sociais.

     

     

    Publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

     

     

  • Transcrições

    Pgm 682 - Warren Buffett - 07/05/2013

     

    A edição que iniciou a série de programas especiais para celebrar os 15 anos do Observatório da Imprensa na TV exibiu uma entrevista exclusiva do jornalista Alberto Dines com o bilionário Warren Buffett, presidente do conglomerado Berkshire Hathaway. O encontro foi gravado em abril em Omaha, Nebraska, nos Estados Unidos, onde Buffett nasceu e vive até hoje. Aos 82 anos, o investidor é a terceira pessoa mais rica do mundo e figura entre os 15 mais influentes de acordo com o ranking da revista Forbes. Dono de um talento incomum para multiplicar dinheiro, Warren Buffett investe pesado em companhias de seguro, bancos, ferrovias, indústrias e, surpreendentemente, jornais impressos.

    Há alguns meses, o bilionário tornou-se proprietário do seu 28º título, em uma história que começou na década de 1970 com a compra de ações do Washington Post. Na contramão dos que apostam no fim da palavra impressa, Warren Buffett adquiriu nas últimas décadas uma série de jornais de médio porte com circulação local. Reestruturou as empresas, aumentou o preço da edição impressa, adotou a cobrança para o acesso digital e espera ter lucro em, no máximo, cinco anos. Para especialistas em mídia, a estratégia também tem um caráter “sentimental”, já que Buffett foi entregador de jornais na adolescência e é um leitor fiel de cinco publicações impressas.

    Formado em Economia, Buffett tornou-se milionário aos 32 anos. Hoje acumula uma fortuna de cerca de 44 bilhões de dólares e é famoso por seus hábitos simples. Dirige o próprio carro e mora na casa que comprou em 1958 por 31 mil dólares, seu único imóvel até hoje. O “oráculo de Omaha”, como é conhecido por conta de seus conselhos no mundo das finanças, anunciou que irá doar 85% da sua fortuna para filantropia, sobretudo para a Fundação Bill e Melinda Gates. O investidor estimula outros bilionários a participar de projetos sociais e a pagar mais impostos.

    Avesso às novas tecnologias, o investidor não tem computador em sua mesa de trabalho e pouco usa o telefone celular. Dias atrás, foi destaque nas mídias sociais com a criação de uma conta no Twitter. Apesar do estardalhaço, seus – até o momento – pouco mais de 400 mil seguidores só tiveram o prazer de ler dois únicos posts. O primeiro deles foi: “Warren is in the house”, que pode ser traduzido como “Warren está na área”. A seguir, a entrevista concedida a Alberto Dines na sede da Berkshire Hathaway.

    ***

    Antes de qualquer coisa gostaria de agradecê-lo por esse privilégio de ter a sua presença no aniversário de 15 anos do programa Observatório da Imprensa. A mídia é importante para as pessoas?

    Warren Buffett –Bem, durante toda a minha vida eu sempre fui entusiasmado por jornais. Eu cresci com eles, eu entreguei, eu li. Metade do dinheiro que eu tinha com 21 anos eu consegui entregando jornais.

    E bons jornais.

    W.B. – Bons jornais, com certeza. O Washington Post e o Washington Times Herald e mais quatro jornais, na verdade. São os veículos pelos quais você se informa sobre a sua sociedade. O negócio dos jornais mudou muito nos Estados Unidos, mas ainda me diz bastante sobre assuntos que eu quero saber.

    Como um grande jornal pode ser indispensável?

    W.B. – Não tem como você ser indispensável para toda a população, mas para uma parte significante da população você precisa ser indispensável. Isso quer dizer que existem coisas que eles querem saber e você tem que ser capaz de entregar um número significante de coisas que eles querem saber de uma forma que eles recebam rápido, bem apurado, bem escrito. E, enquanto você conseguir fazer isso, terá muitos leitores.

    Sim, mas é mais ou menos fácil ser efetivo num jornal regional, porque as pessoas estão focadas nos seus assuntos. Mas e em um grande jornal? Num mundo tão grande como o nosso, como ser indispensável?

    W.B. – Eu não sei como fazer se eu estou em Nova York ou Los Angeles, não é uma comunidade coesa o suficiente, mas em uma cidade como Omaha é diferente. Nós estamos em 28, 29 cidades agora. Esses lugares que nós estamos agora têm um senso de comunidade. Eles se importam com os times de futebol da escola deles, ou o time de luta livre, de basquete, eles se importam com o que está acontecendo na Câmara Municipal da sua cidade. Eles se importam com vários assuntos que não são noticiados nas TVs nacionais. Eles querem saber sobre os seus vizinhos, sobre o que eles estão fazendo. E os jornais podem dar essas informações, contanto que as pessoas realmente se importem com a sua comunidade. Se elas apenas forem pessoas que hoje estão aqui e amanhã vão embora para outro lugar, não serão consumidores-clientes.

    Você vê um futuro em que os grandes jornais se tornem indispensáveis?

    W.B. – Eu não sei a reposta para as grandes metrópoles. Se você for para Chicago ou Los Angeles, têm muitas áreas diferentes, onde as pessoas estão focadas em uma parte da cidade e outras estão focadas em outra parte. Você não tem como se comunicar com toda a cidade, não existem oficinas de jornais suficientes para fazer isso. Eu realmente gosto de uma comunidade onde uma grande porcentagem das pessoas têm interesses similares. Elas podem ir à mesma igreja a que seus pais iam e os seus filhos também vão. Elas vão se casar lá, vão morrer naquela área, vão conhecer as pessoas na escola. O jornal vai ser significante para elas.

    A sua opinião política é bem clara. Enquanto você votou no presidente Barack Obama, dez de 12 de seus jornais apoiaram [o candidato republicano] Mitt Roomney. Como você administrou isso?

    W.B. – Eu não coordeno, eu não tenho um problema com isso. Cada um dos nossos editores-responsáveis em todos esses diferentes jornais – nem todos apoiaram, mas 12 apoiaram – toma as suas próprias decisões; eles refletem as suas próprias comunidades. Eu não estou impondo nenhuma opinião desde o meu escritório. E eu não vou [fazer isso]. Eu escrevi sobre isso porque eu não vou estar por aqui para sempre, alguém vai ter que me suceder e eu quero que ele siga a mesma política. É por isso que eu escrevi sobre isso. Eu estou tentando enquadrá-los na mesma política. Porque o jornal não pertence a eles, pertence à companhia. E, de certa forma, realmente pertence à comunidade em que ele existe. Eu não posso dizer para todas as pessoas – nós temos um jornal em Richmond, Virgínia – eu não posso dizer a eles sobre Richmond, Virgínia. Quem deve [dizer] são as pessoas de lá, que devem dirigir o jornal de forma correta.

    Você acha que um site feito pelas pessoas da comunidade pode realizar o mesmo trabalho que um site de um jornal?

    W.B. – Eu acho que, se nós não realizarmos o trabalho, alguém vai realizar. Nós somos as pessoas mais indicadas para fazer, nós temos vários repórteres, vários editores e eles conhecem as suas comunidades. Então, se nós realizarmos um bom trabalho, o nosso website vai ser muito melhor que os outros e não fará nenhum sentido para eles competirem com a gente.

    Você acha que o modelo sem fins lucrativos pode ajudar na sobrevivência da mídia local, como em fundações?

    W.B. – Existe um grande jornal nos Estados Unidos, em St. Petersburg [Flórida], que faz parte de uma fundação sem fins lucrativos. Eu não acho que sem fins lucrativos seja um bom modelo. [As empresas] sem fins lucrativos acabam se transformando em grandes perdas, eventualmente, e eu acho que jornais têm que ser dirigidos como um negócio, um negócio especial, mas eu acho que existe uma disciplina necessária para produzir lucro. Faz com que as pessoas sejam muito mais espertas quando pensam sobre as coisas; e quando você entra no mundo sem fins lucrativos acaba sendo dirigido como um governo.

    Os três homens mais ricos do mundo, de acordo com a revista Forbes, são Carlos Slim, no México, Bill Gates e você. Todos vocês, de alguma forma, estão envolvidos com mídia ou comunicações. Você acha que isso é uma coincidência ou uma tendência?

    W.B. – Essa é uma boa pergunta. Eu acho que é uma coincidência porque se você pegar os 15 mais ricos, alguns são mais ligados à mídia do que outros. Alguns são mais ligados às novas mídias sociais, como o Mark Zuckerberg.

    Em uma recente entrevista você mencionou que está disposto a usar um uniforme de safári e ir caçar um elefante. É uma metáfora para uma nova estratégia de investimento?

    W.B. – É uma metáfora para a estratégia que nós estamos seguindo por um tempo.

    Não na mídia.

    W.B. – Não, não na mídia. Mas nós vamos comprar jornais pequenos. A Berkshire tem muito dinheiro entrando agora e vai continuar tendo, então eu usei essa metáfora para que alguém que leia essa reportagem e que tenha um desses negócios de elefantes pense em mim quando decidir fazer alguma coisa.

    Mas você acha que essa geração que está sendo criada com o Facebook e o Twitter ainda pode estar inclinada a seguir uma carreira no jornalismo tradicional?

    W.B. – Vão existir alguns. Não vai ser como era há 30 anos, mas as escolas de jornalismo ainda estão formando profissionais. Há pessoas que querem ser repórteres, que querem trabalhar em um jornal. Se um filho ou filha minha tivessem interesse em se tornar um repórter de jornal, eu iria encorajá-los. Se eu não fizesse o que eu faço na vida, dirigindo a Berkshire Hathaway, eu acho que gostaria de ser um repórter.

    Você é um viciado em jornais? Você se vê como um daqueles publishers representados em tantos filmes?

    W.B. – Eu não me vejo representado em nenhum filme (risos).

    Como um redator-responsável, um “super-redator”?

    W.B. – Eu não acredito nisso porque os nossos jornais fazem parte da companhia que eu dirijo, a Berkshire Hathaway, mas nós temos, talvez, 1 milhão de acionistas. Não sei o número exato. O jornal não pertence apenas a mim, o jornal pertence à Berkshire Hathaway. E os nossos acionistas têm várias opiniões políticas diferentes. Então, não depende de mim dar a minha opinião política nesse jornais. Cada um deles é dirigido de forma independente.

    Você é conhecido por ler cinco jornais por dia. São impressos?

    W.B. – Eu sou à moda antiga, é no impresso.

    Um desses cinco é o seu jornal aqui em Omaha, o Omaha World-Herald.

    W.B. – Está correto.

    Um jornal muito bom. E os outros quatro?

    W.B. – Os outros quatro são The New York Times, The Wall Street Journal, Financial Times e USA Today. Eu leio todos eles no impresso. Eles chegam ao meu escritório, alguns deles na minha casa. Eu leio esses cinco todos os dias.

    Deve ser um desafio. Quantas horas?

    W.B. – Sim, é um desafio, mas eu aprecio. Eu não apenas aprendo, eu me divirto lendo um jornal. Eu não sei o que eu vou encontrar dentro, eu sei que vou encontrar alguns assuntos que me interessam, mas também algumas surpresas. Há histórias lá que eu não saberia de outra forma. Mas me falam sobre assuntos que são essenciais para mim, sobre a minha comunidade.

    Quando nós escutamos um editor-responsável dizer, pelo menos no Brasil, que em 30 anos os jornais e revistas impressos vão ser inteiramente digitais, pode ser que eles estejam admitindo o seu próprio fracasso?

    W.B. – Pode ser. Eu não estou familiarizado com os jornais no Brasil, mas, aqui nos Estados Unidos, eu acho que os nossos jornais vão estar em formato digital, mas também vão estar em formato impresso; eles se complementam. Na minha opinião, nós cometemos um grande erro. Inicialmente, quando o digital começou, nós o fornecemos de graça. Se eu vou beber uma Coca-Cola e em um lugar eu consigo de graça e em outro eu tenho que pagar, eu vou ao que é de graça. Você tem que ter uma ação coordenada para que as pessoas paguem pelo produto.

    O seu jornal em Omaha era de propriedade dos seus funcionários, mas não agora.

    W.B. – Dos empregados, está correto.

    Mas não mais, porque você o comprou.

    W.B. – Não, não agora.

    Esse tipo de solução pode funcionar em determinados casos?

    W.B. – Costumava funcionar melhor quando os jornais eram mais lucrativos, porque as pessoas iam trabalhar no jornal querendo comprar uma participação e não causava problema as pessoas que estavam saindo venderem as suas ações para as que estavam chegando. Mas, à medida que os jornais se tornaram menos lucrativos, quando os repórteres e editores ficavam velhos e queriam vender suas ações, os novos funcionários que estavam chegando não queriam comprar. Então esse modelo, que funcionou bem por cerca de 50 anos, parou de funcionar. E é por esse motivo que nós acabamos comprando um jornal aqui em Omaha.

    Existe uma grande discussão agora no Reino Unido e também aqui sobre a regulamentação da imprensa, o relatório Leveson. E as pessoas estão furiosas dizendo que isso irá colocar em risco a liberdade de expressão. Mas aqui nos Estados Unidos, em 1934, o presidente Roosevelt criou um outro tipo de regulamentação, a FCC [Federal Communications Commission], que até os dias atuais funciona como um árbitro de justa competição, bloqueando que alguém seja proprietário de diferentes tipos de mídia numa mesma região. Você concorda com essas regras da FCC?

    W.B. – Eu acho que as regras eram mais apropriadas quando os jornais eram muito fortes economicamente, assim como as TVs e as rádios. Eu não acho que elas sejam necessárias atualmente e acho que essa é a opinião geral nos Estados Unidos. Elas eram muito importantes há 40, 30 anos quando a presença da mídia era muito forte nas cidades. Agora existem várias outras fontes de comunicação disponíveis. Eu acho que agora não é tão preocupante se alguém é dono de um jornal e de uma rádio, eu não acho que ele vai controlar o fluxo de informação.

    Mas, por exemplo, o Washington Post não tem uma rede de televisão ou uma estação [de radiodifusão].

    W.B. – Eles têm um grupo de estações de TVs, mas não em Washington DC. Eles tinham uma estação de televisão, mas mudaram para Detroit.

    Essa questão da propriedade cruzada é o grande perigo. No Brasil, por exemplo, há várias companhias que são donas de diversos veículos de comunicação.

    W.B. – Não é mais um grande problema aqui. Existem várias formas de se conseguir informação, inclusive a internet.

    A sua história de vida pessoal: como você já contou várias vezes, você tem “tinta” nas suas veias.

    W.B. – Com certeza, se auto-carrega.

    Essa entrevista será exibida no nosso aniversário e nós pretendemos lançar um apelo, uma campanha: “Faça o que o senhor Buffett faz, compre um jornal”. Você acha que nós teremos sucesso?

    W.B. – Eu realmente acho que faz sentido uma pessoa bem sucedida que se importa com a comunidade em que ela mora ser dona de um jornal. Mas não para se envolver e tentar dizer à comunidade o que fazer.

    Obrigado, foi um prazer.

    W.B. – Foi realmente um prazer para mim, obrigado.

    A palavra do pastor

    Após a entrevista, Dines e o jornalista Lucas Mendes, que colaborou nos Estados Unidos com a produção deste programa especial, trocaram impressões sobre a gravação. O bate-papo entre os dois jornalistas foi filmado no Gorat’s Steak House, restaurante modesto onde o bilionário costuma almoçar. “Eu acho que ele tem toda uma atitude muito simples, mas ao mesmo tempo sofisticada sob o ponto de vista político, como apoiar os pequenos jornais. A base da democracia americana é a pequena imprensa. Ela desconcentra o poder. A pequena imprensa fiscaliza o prefeito, impede que se forme um caudilho local, um coronel”, disse Dines. Para eles, é formidável que um homem que comanda um conglomerado de empresas em vários setores gaste algumas horas por dia para ler jornais impressos.

    Dines destacou que Buffett aposta na cobrança do conteúdo digital para proteger a estabilidade econômica dos jornais. “Ele criou uma fórmula, e isso é muito inteligente, em que ele diz o seguinte: um jornal gasta uma fortuna para ter repórteres, redatores, colunistas. Por que ele vai botar esse conteúdo, que custa uma fortuna, de graça, na internet? O dado fundamental é: o jornal tem que vender e cobrar, de alguma forma, por esse serviço”, disse Dines. Para ele, Warren Buffett é o oposto do magnata Rupert Murdoch, outro “barão da mídia”, porque tem uma visão mais humana, democrática e progressista.

    Lucas Mendes destacou o vigor mental e físico do investidor. O jornalista contou que Warren Buffett atribui a sua sorte ao fato de ter nascido homem, na década de 1930, nos Estados Unidos. Em 1945, no pós-guerra, Buffett já era um adolescente com um tino formidável para o negócio. Aos 11 anos, comprou suas primeiras ações e lia balanços de empresas. Lucas comentou que uma das grandes influências na vida profissional de Buffett, que tem uma memória prodigiosa e é exímio escritor, foi o investidor Benjamin Graham (1894-1976).

    No campo pessoal, sua primeira esposa, Susan, com quem casou em 1952, teve um forte impacto. Após a morte dela, em 2004, casou-se com Astrid Menks. “Ele era um camarada que saía com um sapato de uma cor e outro de outra, não penteava o cabelo. Casou com a Susan depois de dois anos e tiveram três filhos. Ela realmente cuidou dele”, contou Lucas Mendes.

    Quando o investidor já acumulava milhões, Susan decidiu mudar-se para a Califórnia e tornar-se cantora de jazz: “Ela foi para lá, mas antes de sair de casa ela disse: ‘Warren, você sai de casa sem pentear o cabelo!’ Ligou para uma grande amiga dela – que ele conhecia – chamada Astrid, uma recepcionista de um restaurante francês, e disse: ‘Astrid, você vai lá, faz uma sopa para o Warren, vê se ele está penteado’. E eles ficaram amigos para o resto da vida. Ele ficou arrasado quando [Susan] morreu de câncer em 2004. Eles mandavam cartão de Natal juntos, os três!”. Susan também foi a responsável pela conversão de Buffett de republicano em democrata, levando-o para ouvir o pastor e ativista social Martin Luther King.

    Exemplo para o Brasil

    A integridade de Warren Buffett durante a crise financeira que abalou o mundo em 2008 também foi elogiada por Lucas Mendes. “Se o Buffett falasse ‘É hora de correr!’, fechava Wall Street. Ele foi lá e apoiou o [banco] Goldman Sachs. Em 25 dias da crise ele colocou 15 bilhões de dólares comprando pedaços de banco, de financeira, de seguradora”, relembrou. Dines sublinhou que essa integridade também se manifesta no cotidiano. “Ele ganha uma nota de dividendos, das ações que possui, mas tem um salário na empresa, na Berkshire Hathaway, de 100 mil dólares por ano, que é um pouco mais do que o salário médio de um dentista. Desses 100 mil, ele devolve 50 mil dólares para a empresa por conta de serviços pessoais de que ele se beneficia, como o escritório. É tudo muito simples”, disse Dines.

    No encerramento do programa, gravado em frente à sede do 28º jornal que o magnata comprou, o Tulsa World, Dines afirmou que um dos homens mais ricos do mundo estimula o investimento no jornal impresso e na pequena imprensa: “Este é um jornal antigo, de 1885, que vende 180 mil exemplares por dia e 200 mil aos domingos. Já foi um jornal pequeno. Um jornal que já quebrou. Um jornal que foi comprado pelos empregados. Mas é um jornal que está vivo. Esse é o exemplo que queremos levar para o Brasil: uma pequena imprensa preenchendo os vazios deixados pela grande imprensa”.

     

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