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Pgm 720 - Estupro na Mídia - 15/04/2014

 

Um em cada quatro brasileiros acredita que se uma mulher usa roupas provocantes merece ser atacada. O dado é muito abaixo dos 65% divulgados inicialmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) na pesquisa “Tolerância Social à Violência contra Mulheres”, mas ainda é alarmante: 58,5% dos entrevistados pelo Ipea afirmam que se as mulheres soubessem como se comportar haveria menos estupros. O estudo ganhou destaque na mídia e levou a um intenso debate sobre a violência sexual contra mulheres no Brasil.

Somente em 2009 o estupro deixou de ser crime contra os costumes e passou a ser tipificado como crime contra a dignidade e a liberdade sexual. Em 2012, mais de 500 mil casos de estupro foram notificados no Brasil. O Ipea estima que apenas 10% dos casos sejam reportados à polícia. Mais da metade das vítimas que procuram atendimento médico têm menos de 13 anos. O impacto físico e emocional do abuso sexual costuma ser duradouro e inclui estresse pós-traumático e transtornos de comportamento. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (15/4) discutiu o comportamento da mídia diante dos alarmantes índices de ataques contra mulheres.

Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo a socióloga e pesquisadora Fátima Pacheco Jordão. Especializada em pesquisa de opinião, é diretora da Fato, Pesquisa e Jornalismo e integrante do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Vladimir Herzog. O jornalista Leonardo Sakamoto também participou no estúdio de São Paulo. Voltado para a área de Direitos Humanos, é professor de Jornalismo na PUC-SP e diretor da ONG Repórter Brasil. No Rio de Janeiro o programa contou com a presença da jornalista Flávia Oliveira, de O Globo. Repórter de Economia, assina a coluna Negócios&Cia, uma coluna na editoria Sociedade e é comentarista do Estúdio i da GloboNews.

Erros e acertos

Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines sublinhou que os erros podem levar a lições que não seriam aprendidas de outra forma. “A extraordinária repercussão tanto da pesquisa como da errata, graças à adesão das redes sociais, está oferecendo à sociedade brasileira um debate com inédita dimensão. Esta inesperada conscientização tornará mais efetivas as políticas públicas e a legislação em vigor em defesa da mulher. Os 26% de brasileiros que justificavam os estupros como resposta à provocação causada pelo uso de roupas sensuais, se ouvidos novamente, poderão ter mudado de opinião. Perceberam que nenhuma violência pode ser justificada, a não ser em sociedades que fizeram opção pela tirania e pela brutalidade”, disse Dines. Para ele, é importante que o debate não se limite à questão do vestuário feminino.

O programa entrevistou o presidente do Ipea, Marcelo Neri, que explicou o erro: “Nós tivemos um pequeno grande erro, pequeno porque foi uma troca de dados, tabelas, foi uma coisa que aconteceu, não deveria acontecer, estamos revisando os nossos procedimentos de checagem. Uma em cada quatro pessoas ter uma visão individual tolerante em relação ao ataque interpretado como estupro é algo muito grande, de qualquer maneira”. Neri acredita que é importante ter um olhar sobre a clientela das políticas públicas e tentar entender a cabeça das mulheres e homens envolvidos nessas situações. É necessário causar a mudança, de valores e de tolerância.

Para Junia de Vilhena, do Instituto de Psicologia da PUC-Rio, é preciso discutir o assunto sem tabus. “Tem que discutir, sim, tem que debater, sim. Acho que é um avanço monstruoso você falar isso, sem banalizar, mas colocar na pauta, colocar para as mulheres: ‘Olha, você não é culpada, você é vítima’.” Ela explicou que o estupro não está ligado somente ao sexo, é o crime do patriarcado. “Tem a ver com poder. ‘O seu corpo me pertence. Você não é nada, você é um objeto e eu vou usufruir dele da melhor maneira que eu quiser’. É uma sociedade que objetifica muito a mulher. Para vender qualquer coisa, você está lá colocando uma mulher. É o país da bunda. Você tem medidas que pode tomar. Agora, precisa ser uma decisão política. É importante as mulheres serem donas de seus corpos? É importante elas não serem mais submetidas a essas situações degradantes? Se for, vamos trabalhar em cima disso”, propôs a psicóloga.

O coro das redes sociais

A jornalista Nana Queirós, idealizadora da campanha “Eu não mereço ser estuprada” nas redes sociais, explicou que decidiu fazer o protesto virtual porque não é seguro para as mulheres se manifestarem nas ruas. “Eu achei também que seria mais fácil encorajar as mulheres a mostrarem que o seu corpo é um objeto político e não um objeto social nas redes sociais. Eu acho que a coisa mais importante que a gente conseguiu com essa campanha foi quebrar um tabu. Pela primeira vez, nós temos mulheres falando sobre abuso sexual, sobre sexo, sobre como elas enxergam o próprio corpo”. Nana acredita que o brasileiro ainda culpa a vítima pelo estupro: “Isso é um absurdo. O único culpado pelo estupro é o psicopata que se excita pelo medo alheio. A questão no Brasil é falta de educação. Os meninos de 15 anos estavam achando que estuprar era um tema engraçado para fazer piada. E a gente quer mostrar que não: estupro não tem graça, ninguém está rindo”.

O Observatório exibiu o depoimento da jornalista Clarissa Thomé, que teve a mãe morta, no Rio de Janeiro. “Eu sou filha da jornalista Silvia Thomé. A minha mãe foi assassinada na praia de Piratininga. Ela foi atacada por um maníaco sexual a 600 metros da nossa casa. E a minha mãe não merecia ser estuprada”, relembrou Clarissa. Para ela, a roupa não pode servir de desculpa para que mulheres sejam abordadas: “A pessoa quando sai, sai como ela quiser. Ela pode andar de saia curta, ela pode andar de sutiã, ela pode andar sem sutiã, ela pode andar de biquíni e as pessoas não podem ser atacadas pela forma como elas se vestem. Senão, o que sobra para a gente? Sobra uma sociedade bárbara”.

Inicialmente, Clarissa não iria tornar a sua história pública, mas acabou mudando de ideia quando tomou conhecimento da campanha na internet. “Eu não pensei em me manifestar porque é uma história muito íntima, que me marca muito. Mas quando eu vi o depoimento daquela professora de Brasília, Daiara Figueroa, e no cartaz estava lá ‘Eu não mereci ser estuprada’, eu fiquei muito emocionada como ela se expôs. Isso era uma história que ninguém conhecia e ela se expôs daquela maneira. Eu quis ser solidária, ‘não é só você, você não está sozinha, nós somos muitas’.”

Para ela, a mídia não pode silenciar diante do tema. “Eu acho que a imprensa tem que falar, sim, sobre esse crime sexual. Muitas vezes a gente vê uma matéria dessa e fala ‘que mundo cão!’. Mas é importante falar que isso existe, é importante falar que essa é a nossa realidade. O lado bom dessa pesquisa é que todo mundo pôde falar: ‘Nós não queremos mais essa sociedade, nós estamos dando um basta nisso’. É claro que continuam encoxando as moças no metrô, mas também está claro que a gente não suporta mais. Foi uma voz só, todo mundo se uniu numa voz só para dizer que a gente não quer mais essa sociedade”, disse Clarissa.

De olhos fechados para a realidade

No debate ao vivo, Dines comentou que profissionais da Comunicação contribuem para piorar a situação ao usar a imagem das mulheres para alavancar vendas de produtos como carros e cervejas. Para Fátima Pacheco Jordão, o tema é relegado à invisibilidade e ganha notoriedade apenas em situações pontuais, como ocorreu a partir do erro do Ipea. “Na verdade, o jornalismo, com algumas exceções de colunistas e observadores, não oferece à sociedade uma visão absolutamente verdadeira, correta. Prevalecem, de longe, as representações enviesadas, masculinas, patriarcais, que tornam a mulher, de fato, não só o objeto, mas também a vítima.” Para ela, o erro do Ipea serviu para a sociedade perceber que a situação precisa ser alterada.

Há um ano, o Instituto Patrícia Galvão e a Secretaria de Políticas para as Mulheres realizaram uma pesquisa que revelou que 80% dos brasileiros admitem que a mulher que apanha seguidamente corre alto risco de ser assassinada. “Nós já estamos até começando a ter uma certa complacência com relação a um crime muito mais complicado do que uma série de violências”, criticou a socióloga. Ela acredita que há décadas as políticas para as mulheres são negligenciadas enquanto as delegacias especializadas preparam melhor a sociedade para lidar com a violência sexual contra mulheres.

A sociedade brasileira está repleta de exemplos de tolerância à violência contra mulheres, de acordo com a jornalista Flávia Oliveira. “Só não vê quem não quer. Tem na música, tem na propaganda. Tem em cada esquina, como o assédio que sofrem, muitas vezes, de homens fardados. O que eles chamam de cantada, de galanteio, se não for bem recebido pela mulher é replicado como uma ofensa de conotação gravíssima. Meninas e mulheres convivem com isso historicamente, é secular essa tolerância à violência contra a mulher”, analisou Flávia. Ela ressaltou que parte das mulheres acaba contribuindo para perpetrar este comportamento ao criar seus filhos homens sob o filtro do preconceito.

Dines questionou se as jornalistas não deveriam reagir de forma mais veemente, uma vez que estão em maior número do que os homens nas redações. Flávia Oliveira afirmou que a pauta foi contagiada pelo movimento das redes sociais. “Todo debate é bem-vindo, mesmo que ele não seja exatamente uma grande contribuição à causa, mas à medida que alguém se manifesta publicamente sobre uma determinada mazela social, a reação que esse pensamento equivocado vai causar vai ser muito positiva para o debate”, avaliou a jornalista. Ela disse que nas redações há debates ferrenhos entre homens e mulheres, sobretudo a respeito de cantadas e galanteios, usados para justificar comportamentos agressivos em relação às mulheres.

Machismo disseminado

Leonardo Sakamoto ressaltou que os homens são criados para serem inimigos das mulheres por instituições como igrejas, escolas, famílias, governos e a mídia. “Entre a pesquisa do Ipea e a correção – e eu acho que isso talvez tenha sido um dos maiores desgostos que eu tive –, uma série de jornalistas de grandes veículos de São Paulo, Rio e Brasília, fizeram um esforço, um malabarismo mental para tentar deslegitimar a pesquisa do Ipea em qualquer circunstância”, criticou Sakamoto. Diante do erro do Ipea, jornalistas homens assumiram o papel de reprodução do machismo e do patriarcado.

Professor universitário, Sakamoto contou que frequentemente alunas são submetidas à violência sexual em festas da universidade. E os rapazes acreditam que este comportamento é biologicamente justificável nos homens. “Se ele como estudante faz isso, ele vai ser daquele mesmo grupo de jornalistas que acabaram atacando a pesquisa e dizendo que a pesquisa é uma grande besteira”, lamentou Sakamoto. Para ele, a geração fruto da Constituição de 1988 não foi educada para entender os direitos fundamentais. Apesar de ter acesso à informação, o caldo de cultura onde foram criados impede que evoluam.

 




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