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Brasil Migrante

Série mostra a história de brasileiros que deixaram sua cidade natal

Olhar Nacional

No AR em 12/04/2018 - 06:00

Esta série tem como objetivo mostrar para o público o que acontece com o imaginário daqueles que rompem com a vida que levavam no meio rural, e migram para as grandes cidades brasileiras. O quanto o processo de adaptação, muitas vezes traumático, permeia aspectos da vida profissional e econômica e também psicológica, emocional, existencial. O imaginário dos migrantes continua vinculado ao passado, imerso em recordações, símbolos e arquétipos cujas raízes profundas ainda se encontram lá, na roça, no cerrado, na floresta, na beira do rio ou em qualquer outro lugar distante deixado para trás, com seus mitos, festas, tabus e tradições culturais.

Geraldo Moreira Prado nasceu no estado da Bahia e migrou para São Paulo aos 18 anos
Geraldo Moreira Prado nasceu no estado da Bahia e migrou para São Paulo aos 18 anos - Divulgação/Gaya Filmes

Episódio 1 – Alagoinha, um Quixote do sertão
Geraldo Moreira Prado nasceu no estado da Bahia, no povoado de São José do Paiaiá, no município de Nova Soure, em 1940. Com o sonho de estudar, migrou para São Paulo aos 18 anos com apenas o primário e chegou a Mestre em Desenvolvimento Agrário. Hoje vive entre Rio de Janeiro, São Paulo, Paiaiá e Copenhagen, onde vive sua ex-mulher dinamarquesa, Tine, com quem mantém relação forte de amizade. Criou em seu povoado de origem uma biblioteca, que tem cerca de 120 mil livros, 10 mil periódicos, 1800 DVDs (filmes e documentários) e 2000 CDs de músicas, sendo considerada a maior biblioteca em área rural do mundo.

Episódio 2 – Eliana, a rede e a Maré
Hoje com 54 anos, nasceu em Serra Branca, na região do Cariri, Paraíba, e emigrou para o Rio de Janeiro com a família quando tinha 7 anos. Foi viver na comunidade Nova Holanda, no Complexo da Maré. Tornou-se uma líder local – foi a primeira presidente da Associação de Moradores de Nova Holanda, quando tinha apenas 22 anos – e foi uma das fundadoras da ONG Redes de Desenvolvimento da Maré, que desenvolve diversos projetos de educação, segurança pública e artes para melhorar a qualidade de vida dos moradores da comunidade. Em 1996, Eliana fundou um curso pré-vestibular na Maré e hoje a comunidade possui o maior índice de moradores com superior completo no Rio de Janeiro. Eliana é formada em Letras pela UFRJ, com mestrado em Educação e doutorado em Serviço Social pela PUC/RJ e é diretora da Divisão de Integração Universidade Comunidade da Pró Reitoria de Extensão da UFRJ.

Benedito Tadeu de Oliveira é especialista em restauração
Benedito Tadeu de Oliveira é especialista em restauração - Divulgação/Gaya Filmes

Episódio 3 – Benedito, o passado-presente
Benedito Tadeu de Oliveira nasceu na então pequena cidadezinha de Cambuí, em 1955, Minas Gerais, onde estudou e trabalhou, até a idade de 19 anos. Migrou para São Paulo e logo depois para Brasília, onde estudou arquitetura e se formou, na UnB. Fez pós-graduação na Universidade de Roma, com especialização em restauração de edifícios e monumentos históricos. Na volta ao Brasil, morou 1 ano em Cambuí, 16 anos no Rio e 14 anos em Ouro Preto, onde reside atualmente. Defende com rigor o patrimônio histórico dessa cidade, mas encontra forte oposição. Os morros que circundam Ouro Preto foram invadidos irregularmente nos últimos anos, descaracterizando a cidade, que é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade.

Episódio 4 – Eliezio, reencontro com a infância perdida
Eliezio deixou o povoado de Santa Cruz, no Maranhão, onde nasceu, ainda menino. Perdeu toda conexão com seu local de nascimento, voltando lá mais de 50 anos depois, com a equipe de filmagem que registrou esse reencontro emocionado. O pai de Eliezio era um pequeno agricultor piauiense, um ‘cigano da agricultura’, que nunca parou muito em lugar algum. Quando Eliezio tinha 7 anos, seu pai vendeu tudo que tinha para fazer algum dinheiro, colocou esposa, filhos e alguns poucos pertences em lombos de burros e iniciou uma verdadeira epopeia que terminaria em Porto Velho quatro anos depois. Eliezio casou e teve duas filhas. Em dado momento da vida os negócios não iam bem e Eliezio, que até então bebia socialmente, começou a beber cada vez mais, tornando-se alcoólatra. Seu casamento acabou. Eliezio conseguiu vencer o alcoolismo com auxílio da comunidade terapêutica Casa Família Rosetta, em Porto Velho e, hoje, vive e trabalha na Casa Família Rosetta, de onde não quis sair ao final do tratamento. Leva uma vida simples, está sempre cantarolando.

Maria Florescelia Bandeira nasceu em Torrões, Ceará, e hoje mora em São Paulo
Maria Florescelia Bandeira nasceu em Torrões, Ceará, e hoje mora em São Paulo - Divulgação/Gaya Filmes

Episódio 5 – Flores, um roteiro para Pedro
Uma mulher de personalidade forte, infância difícil, atitudes polêmicas. Uma vida de perdas, mas também de conquistas e sonhos, marcada pela ausência de vínculos familiares, sem raízes fincadas no passado e nas origens. Maria Florescelia Bandeira nasceu em Torrões, sítio no município de Pentecoste, no Ceará, em 1961, e ficou órfã de mãe aos 3 anos. O pai a deu para ser criada por suas irmãs e nunca mais apareceu. Aos 15 anos entrou em carro de homem desconhecido e foi para Fortaleza com a roupa do corpo, para viver como sua amante por 12 anos, até a morte de seu companheiro. Foi mãe aos 16 anos. Sua filha, já adulta, teve problemas com prostituição e uso de drogas. Mãe e filha hoje não se falam. Flores, como é conhecida, trabalha hoje como manicure em São Paulo, atende suas clientes em domicílio – muitas delas personalidades do mundo da moda e do cinema. Há mais de 10 anos, quando conheceu a obra do cineasta Pedro Almodóvar e se apaixonou por ela, persegue o sonho da sua vida: ter o seu roteiro – Desobediência – filme que retrata sua vida e foi escrito por ela – filmado pelo diretor espanhol.

Episódio 6 – Aprígio, a rima da memória
Aprígio Jerônimo Monteiro nasceu em 1928, no estado de Pernambuco, no sítio Muçambê, no povoado de Brejinho, terra de cantadores, cordelistas, repentistas e poetas. Migrou para o Rio de Janeiro com 20 anos, com uma pequena ajuda financeira do pai e motivado pela perspectiva de uma vida nova, já que a dureza da seca crônica minava as perspectivas dos jovens do lugar. Viveu 10 anos no Rio, com idas e vindas à terra natal. Em 1957 foi contratado como operário para a construção de Brasília. Foi e não voltou mais. Vive em Brasília, mas nunca perdeu o vínculo com Brejinho, onde se casou nos anos 1960, teve um cargo político e uma casa. A poesia permeia o imaginário de Aprígio desde cedo, quando começou a escrever poemas. Como bom pernambucano de raiz, mantém sua terra natal, Pernambuco, viva em seus versos.

Aprígio Jerônimo Monteiro foi carpinteiro na construção de Brasília
Aprígio Jerônimo Monteiro foi carpinteiro na construção de Brasília - Divulgação/Gaya Filmes

Episódio 7 – Aloísio, no sul de Todos os Santos
Aloisio Alceu Bieger nasceu em 1962, no distrito de Salvador das Missões, Rio Grande do Sul. Cresceu em família tipicamente alemã e, aos doze anos, atendendo a desejo da mãe, foi morar em Passo Fundo, estudar num seminário para padres. Aos 17 mudou-se para Porto Alegre, onde foi fazer seu noviciado. Nessa época cursou um ano de Filosofia na PUC. Acabou saindo do seminário, mas ficou em Porto Alegre, onde teve vários trabalhos. Foi casado por 17 anos com a primeira namorada, com quem tem três filhos na faixa dos 20 anos. Começou a frequentar uma casa de matriz africana por curiosidade, levado por um amigo. Depois de se separar da primeira mulher, frequentava a casa de Glória, sua atual mulher, que é Mãe de Santo. Tornou-se Pai de Santo na linha Batuque do Rio Grande do Sul. Sente-se totalmente adaptado em Porto Alegre e pertencente à comunidade de matriz africana e não tem mais vínculos afetivos com sua origem alemã e com sua cidade natal. Hoje Aloisio vive do gerenciamento dos trabalhos da casa Templo dos Caminhos do Oriente – onde vive com a sua mulher.

Episódio 8 – José Robson e seus irmãos
José Robson Cavalcanti nasceu em Poção, cidade do agreste pernambucano, em 1966. É o nono filho de uma família de dez irmãos. Robson perdeu o pai muito cedo e a mãe criou os dez filhos sozinha. A família não tinha posses, mas também não passava dificuldades. Aos 14 anos, Robson se mudou para Recife para estudar e jogar futebol e aos 17 mudou-se para São Paulo, ainda para jogar bola. Chegando lá, os planos de carreira no futebol não deram certo e José Robson acabou arrumando emprego em um bar da Vila Madalena, o Martín Fierro. Começou como faxineiro, virou garçom, gerente, arrendou o bar com outros funcionários até tornar-se um dos donos do bar. É um dos quatro sócios do Empanadas Bar, um dos bares mais tradicionais da Vila Madalena, em São Paulo, que funciona no mesmo endereço há 35 anos. A maior parte dos funcionários do Empanadas Bar é de Poção, cidade natal de nosso personagem.

Episódio 9 – Soninha, uma líder guajajara
Sonia Bone de Souza Silva Santos nasceu em 1974 no povoado Campo Formoso, vizinho da Terra Indígena (TI) Araribóia, município de Amarante do Maranhão. Foi professora e trabalhou como auxiliar de enfermagem em aldeias no Maranhão. Em 2001, aos 27 anos, participou do 1°. Encontro Nacional dos Povos Indígenas. Logo foi se tornando conhecida. Participou do Encontro Nacional dos Movimentos Sociais. Em 2002, organizou o Encontro Estadual dos Povos Indígenas do Maranhão, durante o qual foi criada a COAPIMA – Coordenação das Organizações e Articulação dos Povos Indígenas do Maranhão. Soninha ocupou cargos de liderança e chefia em algumas ONGs, normalmente como militante. Pela COAPIMA, visitou todos os povos indígenas do Maranhão, além das aldeias guajajaras: índios Guajá, Canela e Urubu-kaapor. Falava de direitos indígenas, demarcação de terras e gestão de projetos. Sua militância e liderança já levaram Soninha a várias partes do mundo, seja Nova York (ONU), sejam Doha ou Paris (COP’s), ou Holanda, Alemanha e Dinamarca, participando de reuniões sobre direitos indígenas e mudança climática, entre outros destinos. Participou da 12ª. edição do Acampamento Terra Livre, em 2016, em Brasília, onde estava à frente dessa grande manifestação, da qual participaram cerca de mil lideranças indígenas de todo o Brasil.

Episódio 10 – Tião, sotaque maranhense em São Paulo
José Antônio Pires de Carvalho nasceu em 1955, no estado do Maranhão quase divisa do Pará, em Cururupu. Região de quilombolas, sua família trabalhava na lavoura. Ele tem duas irmãs que moram em São Paulo, e quatro irmãos. Um deles ainda mora perto da mãe, Dona Florzinha, na região de Cururupu. A tradição do bumba-meu-boi vem de família, desde seu bisavô. Conheceu o mundo do ‘boi’ pelo pai e a avó paterna, que era festeira e líder comunitária. Com oito anos mudou-se para São Luís, indo viver na casa da tia, irmã da mãe. Diz que desde pequeno tinha uma alma nômade, era desapegado e não sofreu com a mudança. Em São Luís conheceu e frequentou muitos grupos de folguedos, escola de samba e capoeira. Foi estudando informalmente as tradições populares. Viveu em São Luís até os 24 anos. Numa viagem para Ouro Preto, com seu grupo de teatro, conheceu Ilo Krugli, do Teatro Ventoforte, que o convidou para uma turnê nos EUA. Vive há 30 anos no Morro do Querosene, na Vila Pirajussara, São Paulo. Ali fundou o Grupo Cupuaçu, referência cultural da cidade, e todos os anos fazem a festa do Boi. Mantém estreito vínculo com o Maranhão, para onde vai cerca de 3 vezes ao ano. Tião mora com a atual esposa, Mauri. Teve dois casamentos anteriores. O filho, Yuri, de 16 anos, mora com a mãe em São Paulo. Ana Flor, a filha mais velha, e a neta, moram também no Morro do Querosene. O filho do meio, Noel, mora em Pirenópolis, Goiás.

Episódio 11 – João, entre a paz e a guerra
João Casimirov tem 69 anos, nasceu em 1947 em um sítio no interior do Rio Grande do Sul. Filho e neto de imigrantes, migrou a vida toda: morou e trabalhou em 15 cidades diferentes do Paraná e de São Paulo. Migrando sem parar, assim foi sua vida. Trabalhou em sítio, estudou e hoje é desenhista e projetista industrial. Trabalhou em grandes fábricas, mas seu sonho até hoje é o campo, voltar para a natureza, para a agricultura, o que sente ser impossível. Depois de tantas mudanças de cidade e nenhuma fixação definitiva, sente-se um pouco desenraizado. Foi preso durante a ditadura. Não pertence a sindicato ou partido, mas é contra o capitalismo e tem ideias meio pessimistas a respeito do futuro. Afirma que o “sistema” é o grande responsável pelo êxodo rural, pelo inchamento das periferias, pela poluição e crise ambiental.

Episódio 12 – Lourdinha, à flor da pele
Maria de Lourdes Moreira Siqueira nasceu em 1937, no povoado de Matinha, no quilombo Matões dos Moreira, município de Codó, Maranhão. Fez o primário em Codó, foi normalista em São Luís, onde entrou para a Juventude Estudantil Católica (JEC). Aí começa sua identificação com os movimentos sociais. No último ano de faculdade - Pedagogia, vem o golpe militar, a república onde morava é interditada pela Polícia Militar. Passa algum tempo escondida, até ir para o México em 1967. Quando volta para o Maranhão, não consegue emprego e se muda para o Rio de Janeiro para trabalhar no Incra, com a equipe nacional de reforma agrária. No Rio, entra para uma organização clandestina - a VAR-Palmares, da qual recebe a missão de esconder um exoperário de Osasco. Lourdinha foi presa em Recife, torturada e passou incomunicável por 4 meses e presa por quase um ano no Rio de Janeiro, depois de passar pelo Dops e Doi-Codi. Com a ajuda de uma colega consegue liberdade condicional, vai a julgamento e é absolvida. Vai trabalhar em Salvador, onde conhece o Ilê Ayê e tem o primeiro contato com terreiros de candomblé. Faz mestrado na PUC de São Paulo, em Ciências Sociais, com dissertação sobre o candomblé. Vai fazer doutorado na França e, na Escola de Altos Estudos e na Sorbonne, faz amizade com pessoas do mundo inteiro, principalmente africanos. Foi para Benin e Togo para pesquisa de campo. Fez concurso para professora na Universidade Estadual de Feira de Santana e depois na Federal da Bahia. Saiu para o pós-doutorado na África do Sul, onde ficou por 10 meses. Morou em Salvador até 2007 e desde 2008 mora em São Luís. É diretora do Ilê Ayê, participa de bancas examinadoras de mestrado e doutorado de estudantes negros, é sempre convidada para congressos e conferências nos temas da negritude e da mulher.

Fátima Lima migrou do Piauí para Brasília
Fátima Lima migrou do Piauí para Brasília - Divulgação/Gaya Filmes

Episódio 13 – Fatinha, uma história bordada
Natural de Barro Duro, no Piauí, Fátima Lima mudou-se para Brasília aos 18 anos, quando se casou. Ela aprendeu abordar com a mãe aos 11 anos, mas na capital federal aperfeiçoou sua arte em diversos cursos de capacitação e virou bordadeira profissional. Hoje, Fatinha é presidente da editora Brincando com Linhas, associação formada em 2005 por 23 mulheres que contam histórias do folclore brasileiro com os seus bordados. Além disso, ela viaja pelo Brasil capacitando outras mulheres de comunidades carentes. Depois de produzir muitos livros bordados sob encomenda, Fatinha decidiu bordar a história da sua vida. Para isso, conta com ajuda da designer Adriana e da poetisa Moema.

Direção: Renato Barbieri, Fabiano Maciel e Neto Borges
Produção: Gaya Filmes

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