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O eterno abril de Carajás: 30 anos de um massacre

Caminhos da Reportagem

No AR em 13/04/2026 - 23:00

Cerca de 700 famílias vivem no assentamento “17 de Abril”, área de 18 mil hectares na zona rural de Eldorado do Carajás, no sudeste do Pará. O assentamento é o maior fornecedor de leite da região, e produz diversas culturas, como cacau, açaí e macaxeira (ou mandioca), sem agrotóxicos. A estrutura conta com áreas de uso comum, como praça, quadra esportiva, associação de moradores, e uma escola de referência na região.

O agricultor Altamiro Simplício da Silva planta cacau e diversas outras culturas
O agricultor Altamiro Simplício da Silva planta cacau e diversas outras culturas - Rafael Carvalho/TV Brasil

 

Um modelo de política de reforma agrária, fruto de intensa mobilização dos sem-terra. O nome “17 de Abril” faz referência a este mesmo dia no ano de 1996, que terminou no maior massacre no campo da história recente do país: o Massacre de Eldorado do Carajás, repressão policial que deixou 21 mortos e dezenas de feridos.

Cerca de 700 famílias vivem no  assentamento “17 de Abril”
Cerca de 700 famílias vivem no  assentamento “17 de Abril” - Rafael Carvalho/TV Brasil

 

Maria Zelzuíta é uma das assentadas do “17 de Abril”, e sobrevivente do massacre. “Eu tenho que dar valor a cada gota de sangue que foi perdida naquela curva”, diz ela, que estava na marcha organizada pelos sem-terra para reivindicar a desapropriação da Fazenda Macaxeira, na época um latifúndio improdutivo da região. Organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, eles pretendiam marchar até Marabá, onde havia um escritório do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, para avançar na desapropriação da terra.

Maria Zelzuita Oliveira de Araújo é auxiliar de serviços gerais na EMEF “Oziel Alves Pereira”.
Maria Zelzuita Oliveira de Araújo é auxiliar de serviços gerais na EMEF “Oziel Alves Pereira” - Rafael Carvalho/TV Brasil

 

Os sem-terra montaram acampamento na BR-155, no trecho conhecido como Curva do S, e decidiram ocupar a pista para pressionar as autoridades. Com a promessa de que teriam ônibus para levá-los a Marabá, Zelzuíta lembra que eles celebraram quando viram os veículos chegarem. “E vieram os ônibus, mas foi cheio de polícia”, completa Luzenira Paula da Silva, outra sobrevivente do massacre. De ambos os lados da rodovia, os policiais dispararam contra os manifestantes. Primeiro com balas de borracha, depois com munição letal. Dezenove pessoas morreram. Outras duas vítimas faleceram posteriormente, em decorrência dos ferimentos.

Luzenira Paula da Silva é cuidadora de idosos e mora em Eldorado Dos Carajás
Luzenira Paula da Silva é cuidadora de idosos e mora em Eldorado do Carajás - Rafael Carvalho/TV Brasil

 

“O massacre, na verdade, não foi por acaso. Foi uma ação premeditada”, diz o advogado José Batista Gonçalves Afonso, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Marabá, que atribui o massacre a ordens do então comandante geral da PM do Pará, do então secretário de segurança pública, e do então governador do Pará, Almir Gabriel, que determinaram que a PM desocupasse a estrada “a qualquer custo”. O julgamento do caso, porém, terminou em 2004 com apenas duas condenações: do coronel da PM Marcos Colares Pantoja, comandante do batalhão de Marabá, e do major da PM José Maria Pereira de Oliveira, comandante da operação. Pantoja morreu em 2020, de covid-19, quando cumpria prisão domiciliar.

 

José Batista Gonçalves Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra de Marabá
José Batista Gonçalves Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra de Marabá - Rafael Carvalho/TV Brasil

 

“O meu entendimento é de que apenas os policiais militares que estavam no palco dos acontecimentos deveriam ser responsabilizados criminalmente. A questão política não cabe ao Ministério Público”, diz o promotor do Ministério Público do Pará (MPPA), Marco Aurélio Lima do Nascimento, que apresentou a denúncia à Justiça. O MPPA apresentou recursos a tribunais superiores para buscar a condenação de todos os 155 policiais militares que participaram da ação, mas foi mantida a sentença inicial.

O massacre teve repercussão nacional e internacional, e chamou atenção para a importância da reforma agrária. Mas a violência no campo ainda é uma realidade no Pará, o estado brasileiro com o maior número de massacres e assassinatos no campo. Dados da CPT mostram que entre 1985 e 2022, o Pará liderou o ranking de violência, com 26 massacres e 125 pessoas assassinadas.

Fruto dessa trajetória mais recente, a assentada Sara Ramos de Sousa é uma liderança entre os sem-terra. Formou-se em medicina, e busca seguir o exemplo dos mais velhos na luta pela reforma agrária. “Eu não estou dizendo que eu quero um caminho fácil, mas um caminho que tenha menos injustiça”, resume ela.

Integrante do MST desde a adolescência, Sara Ramos de Sousa se formou em Medicina na Venezuela
Integrante do MST desde a adolescência, Sara Ramos de Sousa se formou em Medicina na Venezuela - Rafael Carvalho/TV Brasil

 

O episódio “O Eterno Abril de Carajás: 30 Anos de um Massacre”, do Caminhos da Reportagem, vai ao ar na segunda-feira (13/04), às 23h, na TV Brasil.

Ficha técnica

Produção e reportagem: Thiago Padovan
Apoio à reportagem: Lana Oliveira
Apoio à produção: Acácio Barros
Reportagem cinematográfica: JM Barboza
Apoio à reportagem cinematográfica: Josemar Garcia
Auxílio técnico: Rafael Carvalho
Colaboração técnica: Ysomar Nascimento
Edição de texto: Márcio Garoni
Edição e finalização de imagem: Rodrigo Botosso
Pesquisa de Acervo EBC - Fábio de Albuquerque e Nelson Lin
Arte: Aleixo Leite, Carol Ramos e Wagner Maia

 

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Criado em 09/04/2026 - 17:30

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