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Trabalho escravo doméstico: silêncio e servidão

Caminhos da Reportagem

No AR em 20/04/2026 - 23:00

O dia 25 de março de 2026 entrou para a história como a data em que a ONU reconheceu que a escravização de africanos foi o crime mais grave contra a humanidade. Assim como outros 122 países, o Brasil votou a favor da resolução. E não era pra menos: 4,86 milhões de escravizados chegaram ao território brasileiro entre 1501 e 1900, segundo o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos. Nenhum outro local recebeu mais africanos traficados.

O Brasil foi também o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Assim mesmo, por meio de um processo incompleto. “A data representou, é claro, a abolição do trabalho escravo, mas não o rompimento com a forma de exploração do trabalho. A gente viu muito mais uma mudança na forma de exploração do que uma liberação que significasse independência”, lembra o jornalista, cientista político e diretor da ONG Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto.

Caminhos - Maria Santiago foi escravizada por décadas
Maria Santiago foi escravizada por décadas

Hoje, 138 anos após a abolição, a exploração não desapareceu. Muitas vezes, ela se esconde dentro de casa. A escravização doméstica é o tema do Caminhos da Reportagem, e ouviu vítimas, pessoas que ajudam a libertar essas vítimas e profissionais que atuam no pós-resgate.

“A primeira pergunta é: para onde eu vou?”, explica a ministra Liana Chaib, do Tribunal Superior do Trabalho. “Eu não tinha casa, família nem ninguém para me abraçar”, desabafa Suzana Salomono. Ela passou anos trabalhando em casa de família sem receber salário.

Caminhos - Suzana Salomono não tinha pra onde ir
Suzana Salomono não tinha pra onde ir

Roberta dos Santos, de 46 anos, recebia alimentação como pagamento. “Só que a patroa dizia que eu só tinha direito a um prato de comida no almoço. No jantar não tinha. Nem eu nem meu menino”. O filho de Roberta é autista.

Araci do Amaral, de 73 anos, apanhou da ex-patroa e foi vítima do racismo do ex-patrão. “Ele chegava xingando, falando ‘nega não sei o quê’. E ela me agrediu umas duas ou três vezes”, conta.

Caminhos - Roberta dos Santos mal podia se alimentar
Roberta dos Santos mal podia se alimentar 

Maria Santiago, de 78 anos, passou décadas como doméstica escravizada. Não recebia salário nem o BPC (Benefício de Prestação Continuada) feito em seu nome. “Eu não sabia a senha nem conhecia o cartão”, diz ela.

Já Maria Raimunda, de 63 anos, denuncia o sequestro do filho enquanto foi escravizada. “Ela (ex-patroa) chegou e falou assim quando eu voltei do hospital: ‘Deixa eu pegar ele no colo, Maria’. Aí me deu vontade de ir no banheiro, muita vontade. Quando eu saí, ela disse assim: ‘Maria, o neném já lá vai...’”. Maria Raimunda nunca mais viu o filho.

Caminhos - Maria Raimunda denuncia o sequestro do filho
Maria Raimunda denuncia o sequestro do filho

Suzana, Roberta, Araci, Maria Santiago e Maria Raimunda foram resgatadas. Elas e centenas de outras trabalhadoras salvas formam um grupo com perfil definido. “Mais da metade dessas mulheres têm no máximo a 5ª série de escolaridade, 24% são analfabetas e 72% são negras”, afirma a coordenadora-geral de Fiscalização do Trabalho Análogo à Escravidão do Ministério do Trabalho e Emprego, Shakti Borela.

Caminhos - Araci do Amaral foi vítima de racismo
Araci do Amaral foi vítima de racismo

Como denunciar?

Qualquer pessoa pode denunciar situações de trabalho escravo. A ligação é gratuita, o sigilo é garantido e o serviço funciona 24h por dia. Basta discar o número 100. Além disso, a denúncia pode ser feita pelo Whatsapp (61 99611-0100) e pelo Telegram (digite “Direitoshumanosbrasil” na busca do aplicativo).

Ficha técnica

Reportagem: Ana Graziela Aguiar, Ana Passos e Marieta Cazarré
Reportagem cinematográfica: Daniel Moreno, Fred Oliveira, Gabriel Penchel, JM Barboza, Rogerio Verçoza e Sigmar Gonçalves
Auxílio técnico: Alexandre Souza, Marcelo Vasconcelos e Rafael Carvalho
Produção: Cleiton Freitas e Patrícia Araújo
Edição de texto: Paulo Leite
Edição de imagem e finalização: Rivaldo Martins
Arte: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia

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Criado em 15/04/2026 - 16:35

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