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Crimes de Maio, 20 anos sem respostas

Segunda, 11, às 23h

Caminhos da Reportagem

No AR em 11/05/2026 - 23:00

Maio de 2006. Uma onda de violência para diversas cidades de São Paulo. E duas décadas depois, ainda há muitas dúvidas sem respostas. 

À época, ataques coordenados do Primeiro Comando da Capital (PCC) desencadearam uma onda de crimes que resultou em centenas de mortes, rebeliões em presídios e forte impacto sobre a população civil. 

Em meio à escalada de conflitos e a posterior resposta das forças de segurança, a estimativa é que ao menos 564 pessoas foram mortas entre os dias 12 e 21 de maio de 2006, além de dezenas de feridos e desaparecimentos forçados, em sua maioria jovens negros e moradores de periferias. 

“O que existe aqui é um padrão de violência estatal. Houve uma desproporção muito grande na letalidade”, fala Raiane Assunção, Socióloga e Pesquisadora do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp. 

Diante da ausência de responsabilização do Estado brasileiro, organizações como a Conectas Direitos Humanos e o Movimento Independente Mães de Maio encaminharam um apelo urgente à Organização das Nações Unidas, denunciando omissões persistentes em relação aos chamados Crimes de Maio. O documento reforça a cobrança pelo direito à memória, verdade, reparação e não repetição, destacando que nenhuma das mortes foi devidamente esclarecida e que não houve responsabilização efetiva de agentes estatais. Para Gabriel Sampaio, advogado e diretor da Conectas, as entidades também apontam a ausência de reparação adequada às famílias das vítimas. “Nenhuma dessas mortes foi esclarecida de forma adequada. Esses casos seguem sem resposta do Estado”, conclui. 


Mães de Maio e a luta contra a impunidade 

O Movimento Independente Mães de Maio surgiu no contexto imediato das mortes de 2006, formado por familiares de vítimas que passaram a denunciar a ausência de investigação e reparação. Segundo as entidades, muitas das mães adoeceram ou morreram ao longo dos anos, enquanto outras vivem em condições de vulnerabilidade e dependem de redes de apoio comunitário. 

Além da denúncia à ONU, as organizações solicitam medidas como o fortalecimento do controle externo da atividade policial, políticas de redução da letalidade, assistência integral às vítimas e reconhecimento formal das violações cometidas. 

Débora Santos perdeu o filho Edson Rogério. 20 anos depois, ainda convive com as lembranças e a falta de respostas. Fez do luto, luta, e hoje é uma das lideranças do Movimento Mães de Maio. “Esses cinco tiros que eles deram no meu filho, eu senti todos. Todos os tiros eu senti. Mas o do coração eu senti mais, sinto até hoje. Ele dói.”, fala entre lágrimas.  

 

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Débora Maria da Silva, mãe de Edson Rogério - Divulgação/TV Brasil

 

Um caso ainda sem resposta 

Quase 20 anos após os eventos de maio de 2006, o caso permanece sem responsabilização efetiva e segue como símbolo das discussões sobre violência estatal no Brasil. Ilza Maria de Jesus Soares, mãe do Thiago, faz uma pergunta: Como o sistema de justiça, ele é sentido, ele é percebido, ele dá resposta ou não para esses familiares? “O que está em jogo é o direito à vida e à justiça”, fala Ilza. 
 

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Ilza Maria de Jesus Soares, mãe do Thiago - Divulgação/TV Brasil


Ações violentas que se repetem. Há dois anos, a Baixada Santista voltou a sofrer com a letalidade policial. Soraia Jurovitz Alves é mãe de Luiz Henrique e Marcus Vinicius. Os dois jovens, de 17 e 18 anos, morreram em 2024 na Operação Verão. “Luiz Henrique levou oito tiros. Eu acho assim, ele já deu dois tiros na perna. Os dois tiros foram na perna. Se já deram na perna, pra que dar o resto, matar? E tudo nas costas. O mais novo levou três tiros. Tudo de fuzil”, afirma.  
 

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Soraia Jurovitz Alves, mãe de Luiz Henrique e Marcus Vinícius, mortos na operação Verão - Divulgação/TV Brasil

 

Para o tenente-coronel da polícia militar que hoje está na reserva, Adilson Paes de Souza, a orientação dada para os policiais segue a mesma desde a ditadura militar. “As polícias são as mesmas da ditadura. Então o que foi treinado, ensinado era a captura e a caça dos inimigos da sociedade. Só que esse sistema precisa de um inimigo. Se não tem mais os comunistas para eliminar, elimina-se preto, pobre, quem já tem uma anotação criminal na sua vida pregressa. Isso que nós temos até hoje.” 

 

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Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da PM de São Paulo e pesquisador sobre letalidade policial - Divulgação/TV Brasil

 

Para as entidades envolvidas, a decisão do Superior Tribunal de Justiça e a resposta da comunidade internacional poderão representar um marco, seja de avanço na responsabilização do Estado, seja de aprofundamento da impunidade. 

 

Ficha técnica:

Reportagem: Ana Graziela Aguiar e Elaine Cruz
Produção: Acácio Barros, Ana Graziela Aguiar e Elaine Cruz
Reportagem cinematográfica: JM Barboza
Auxílio técnico: Eduardo Domingues e Rafael Carvalho
Apoio auxílio técnico: Maurício Aurélio e Wladimir Ortega
Apoio imagens: Cadu Pinotti e Jefferson Pastori
Apoio produção: Leandro Calixto e Lucas Cruz
Assessoria: Maura Martins
Edição de texto: Elisângela Marques
Montagem e finalização: Rodrigo Botosso
Arte: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia
Pesquisa de acervo: Fábio Albuquerque e Nelson Lin

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Criado em 07/05/2026 - 19:15

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