O Caminhos da Reportagem desta segunda-feira, dia 01/06, às 23h, mostra como o empreendedorismo inclusivo transforma barreiras em oportunidades e garante que talentos não sejam limitados pela deficiência.
No Brasil mais de 14 milhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência, segundo o IBGE. Gente que tem dificuldades para enxergar, ouvir, andar ou que tem algum tipo de limitação nas funções mentais com dificuldades para se comunicar, trabalhar ou estudar. Para esses indivíduos as maiores barreiras nem sempre estão no corpo — mas no acesso, nas oportunidades e na inclusão real.
Para muita gente, empreender foi a maneira de começar a ocupar o próprio lugar no mundo. Foi o caso do chefe de cozinha Ocacyr Junior que ficou cego após sofrer um acidente de carro aos 23 anos. Depois de 35 cirurgias, 12 transplantes de córnea, uma negligência médica e infecção hospitalar, ele ficou totalmente cego aos 39 anos e teve que se reinventar depois da tragédia. “Eu era bancário, né? Depois eu aposentei por invalidez. Eu levantava de manhã, não sabendo o que fazer e comecei a mexer com comida, que era uma coisa que eu gostava”, relembra Ocacyr.
Mas a cozinha não foi a única aposta feita por ele para complementar a renda. “Depois que eu fiquei cego. Eu fiz curso de massagem, depois eu fiz curso de quiropraxia, fiz drenagem, fiz reflexologia, fiz Shiatsu”, recorda.
Apesar das inúmeras barreiras enfrentadas diariamente, Ocacyr trabalha a própria autonomia e fala com alegria das experiências na vida que não o impediram de viver aventuras e explorar novos hobbies como andar de skate e até saltar de paraquedas. Hoje ele conta que conquistou reconhecimento em sua nova profissão: “Eu sou hoje o único pizzaiolo cego no mundo", diz com orgulho.
Assim como Ocacyr, milhões de pessoas no país tentam combater a visão estereotipada atribuída às pessoas com deficiência. Muitas vezes elas são vistas entre dois extremos: o da incapacidade ou o da superação. A Secretária Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Isadora Nascimento, é crítica à essa visão. “Essa perspectiva do herói, do exemplo, de superação, da pessoa que apenas por ter uma deficiência, ela já está colocada ali no lugar de herói, de heroína, de anjo, de exemplo, sendo que, na verdade, essa é só mais uma forma de se estar no mundo”.
Quando se fala de trabalho e empreendedorismo para as pessoas com deficiência, inúmeras barreiras de acessibilidade e inclusão ainda precisam ser transpostas. A diretora de administração e finanças do SEBRAE, Margarete Coelho, lembra que além do capacitismo que difunde a ideia de que essas limitações atrapalhariam o desempenho dessas pessoas, elas ainda enfrentam outras dificuldades.
“A primeira delas é o acesso aos cursos, treinamentos, eventos como encontros, congressos, seminários, que não estão preparados para as necessidades de cada grupo. Então linguagem de libras, a questão do áudio para quem tem problema de surdez. E temos ainda a questão da acessibilidade. O banco não tem rampa, não tem pessoas preparadas para recebê-los, é difícil andar na rua, o meio de transporte público nem sempre está adaptado para eles. Então tudo isso vai crescendo, fazendo um pacote que torna bastante tormentosa a vida de um empreendedor PcD”.
Já a empresária Silvia Alencar, fundadora da Reapta Inclusiva, empresa voltada para soluções e tecnologias assistivas, descobriu um novo nicho e encontrou oportunidade para empreender. Ela criou produtos para dar segurança e autonomia a idosos e pessoas com deficiência. Silvia procurou o SEBRAE que abriu as portas para ela. Depois ela apresentou os protótipos que já havia desenvolvido em um lar de idosos. Lá, ouviu de uma terapeuta ocupacional uma sugestão que ajudaria a direcionar o trabalho: criar um cinto de segurança para evitar que idosos em cadeiras de rodas escorregassem. "A partir daí, novas ideias começaram a surgir”, relembra.
No Brasil já é possível notar alguns avanços como a criação da Lei de Cotas, de 1991, que ampliou a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ao exigir vagas para PcD’s em empresas com mais de 100 funcionários. E também a Lei de Libras, de 2002, que fortaleceu a acessibilidade da comunidade surda.
Mas quando se trata de inclusão, o Secretário da Pessoa com Deficiência do Distrito Federal, William Santos, reforça que há toda uma cadeia de ações que ainda precisa acontecer para criar oportunidades para as PcD’s. "Se você cumpre a cota, mas não garante um ambiente de trabalho acessível, é, por óbvio, que essa pessoa não vai querer participar do processo seletivo ou se for participante do processo seletivo e contratado, não vai querer permanecer nesse ambiente de trabalho”, pontua.
O Caminhos traz ainda a história da banda Surdodum, formada por músicos surdos e ouvintes e ativa há mais de 30 anos, mostrando como a arte também pode ser um espaço potente de inclusão, convivência e expressão coletiva.
A reportagem acompanha também a trajetória de Melina, que decidiu empreender por causa da filha, Zilah, que tem síndrome de Down. Ela queria que a menina tivesse acesso à arte, à música e à convivência social em ambientes que fossem além dos espaços terapêuticos — lugares onde pudesse simplesmente experimentar, criar, pertencer e se desenvolver como qualquer outra criança.
Ficha técnica:
Reportagem: Marieta Cazarré
Produção: Cleiton Freitas e Patrícia Araujo
Reportagem cinematográfica: Rogério Verçoza, Sigmar Gonçalves
Apoio à Reportagem cinematográfica: André Rodrigo Pacheco
Auxílio técnico: Edivan Viana, Thiago Souza, Hugo Madureira
Apoio ao auxílio técnico: Raimundo Nunes, Jairom Rio Branco, Marcelo Vasconcelos
Edição de texto: Cintia Vargas
Edição de imagem e finalização: André Eustáquio
Artes: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia
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