A vida e o legado de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, se entrelaçam à história do samba e da cultura negra no Brasil. Baiana do Recôncavo, Ciata faz parte de um coletivo de mulheres que migrou para o Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do século XX, no movimento que mais tarde foi definido como “diáspora baiana”. Na capital federal, Ciata vira referência religiosa, humanitária e cultural. Hoje, mais de cem anos após a sua morte, essa influência ainda reverbera.
A trajetória de Tia Ciata, porém, é repleta de pontos de interrogação. São lacunas que o programa Caminhos da Reportagem – que vai ao ar na próxima segunda-feira (27 de julho), às 23h, na TV Brasil – tenta apontar e responder. E quem vai atrás de explicações é a âncora do Repórter Brasil Tarde, Luciana Barreto.
Uma dessas questões é a verdadeira imagem de Hilária. A historiadora e pesquisadora Angélica Ferrarez, que há anos se dedica ao estudo das “tias do samba”, defende que o retrato feito na Bahia pelo fotógrafo alemão Rodolpho Lindemann não poderia ser de Ciata em função da data em que a foto foi tirada. Hilária mudou-se para o Rio de Janeiro aos 22 anos, em 1876, onde viveu até sua morte, em 1924. A fotografia teria sido tirada quando ela já estava no Rio. “A gente tem algumas imagens que fazem referência a Tia Ciata, mas infelizmente a gente ainda não tem o rosto, sabe? A foto que represente essa figura central na história do Brasil, na história do Rio de Janeiro, na história social do samba”, afirma Angélica.
Já a bisneta e presidente da Casa de Tia Ciata, Gracy Mary Moreira, argumenta que a bisavó viajava frequentemente para a Bahia por ser “mãe pequena” no terreiro de João Alabá, famoso babalaô africano e fundador do primeiro terreiro de candomblé do Rio de Janeiro. “Ela também cuidava de especiarias”, comenta. Gracy destaca ainda o processo para verificar sua hereditariedade a partir da famosa foto de Lindemann. “O antropólogo forense fez essa pesquisa junto com outras imagens e com fotos também do meu pai e da minha irmã”, lembra.
O número de descendentes de Tia Ciata, bem como o patrimônio acumulado pela família, é outra brecha desse passado. O inventário de Hilária, de posse do acervo do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, menciona que quatro filhos repartiram a quantia de três contos de réis após o falecimento. “A gente sabe que era uma riqueza econômica que deu certa estabilidade para a família de Tia Ciata”, diz Jéssica Costa, pesquisadora do Arquivo do Tribunal.
A importância da casa da Praça Onze é um dos principais destaques do programa. É no afamado quintal, na extinta rua Visconde de Itaúna, que Ciata, possivelmente, participa do nascimento da composição de “Pelo Telefone”, primeiro samba registrado no país, em 1916, por Donga e Mauro de Almeida. “A casa dela era um núcleo da maior relevância da cultura do Rio de Janeiro, tanto do ponto de vista da religião como do ponto de vista da música popular urbana que estava se formando”, analisa o escritor e historiador Luiz Antônio Simas.
A planta do imóvel é reconstituída pela arquiteta Luciana Mayrink, a partir de layout e fachada comuns à época. “As manifestações religiosas, elas aconteciam no terreiro que ficava localizado no fundo do terreno. O samba também acontecia na frente do galpão, que é o quintal”, explica. “Então, esse quintal é um quintal protegido”, finaliza.
A influência de Ciata e de outras tias ilustres (tia Carmem, tia Amélia e tia Perciliana são alguns exemplos) se perpetua até a atualidade. Esse paralelismo fica claro na visita ao Cafofo da Tia Surica, em Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro. Assim como na casa de Ciata, a cantora e matriarca da Portela é conhecida pelas festas com roda de samba no quintal. “Nós não vamos ser eternos. Então, os que estão vindo agora que deem continuidade. Porque dizem que o samba morre. O samba não morre, nem agoniza”, reflete Surica.
O Caminhos da Reportagem “Tia Ciata: a matriarca do samba” será exibido no dia 27 de julho, às 23h, na TV Brasil.
Ficha técnica
Reportagem: Luciana Barreto
Produção: Luciana Góes, Thaís Chaves e Vitor Abdala
Reportagem cinematográfica: Marcio de Andrade
Auxílio técnico: Caio Araujo e Yuri Freire
Edição de texto: Aline Muguet e Luciana Góes
Edição e finalização de imagem: Eric Gusmão
Artes: Aleixo Leite, Caroline Ramos, Wagner Maia
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