Digite sua busca e aperte enter

Compartilhar:

A cor do meio

Caminhos da Reportagem

No AR em 31/08/2026 - 23:30

No Brasil, de cada dez pessoas, quatro a cinco se identificam como pardas. Mais de 90 milhões se declararam assim no último censo de 2022. Uma identidade que reúne diferentes tons, povos e culturas.

Caminhos - Para Ailton Krenak a invenção do pardo é um truque colonial
Para Ailton Krenak a invenção do pardo é um truque colonial, por Reprodução/TV Brasil

Para o filósofo, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, a invenção do pardo é um truque colonial. “Essa disputa na nossa história colonial de quem é pardo, quem é preto, quem é branco, quem é mulato, quem é indígena, é uma disputa política. É uma disputa política que os indígenas não entraram. E por isso eles perderam e passaram a ser chamados de pardos para que eles não pudessem reivindicar território, porque pardo não reivindica território”, analisa.

Pelo censo, a região mais parda do Brasil é a Norte com 67,2% da população autodeclarada. Também é a região com mais indígenas no país, concentrando quase 45% de quem se identifica com essa cor.

Caminhos - 90 milhões de brasileiros se declararam pardos no último censo
 90 milhões de brasileiros se declararam pardos no último censo - Reprodução/TV Brasil

O professor do departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, Gersem Baniwa explica essa lógica. “A região Norte é majoritariamente habitada, tradicionalmente, por grupos indígenas. Muitos que não querem se identificar como indígenas, acabam incorporando a identidade parda. Muitas vezes até por uma questão de sobrevivência, para evitar massacres, para evitar opressões”.

Para a historiadora Ana Flavia Magalhães, a questão da identidade parda também tem outros recortes, como a do apagamento social. “Quando a gente pensa em como a categoria parda se constituiu, foi justamente para esvaziar o gradiente africano e indígena”. Ela chama atenção sobre como o racismo se mantem até hoje no país. “No Brasil não existe racismo porque os negros sabem o seu lugar. Quando se diz isso, o que está se justificando? Aqui a gente não tem problema porque há um pacto de silêncio sobre isso. Embora todo mundo saiba o que cor e origem significam nesse país, né?”. 

Caminhos - Luiza Carvalho concluiu o doutorado e se orgulha de ter vencido preconceitos
Luiza Carvalho concluiu o doutorado e se orgulha de ter vencido preconceitos - Reprodução/TV Brasil

A assistente social Luiza Carvalho sabe muito bem o que é conviver com o preconceito desde criança. “Eu lembro de receber essa orientação, nitidamente. Que eu tinha que colocar o pregador no nariz, porque senão ia ficar largo. De controlar o meu consumo de café e Coca-Cola, dizendo que se eu consumisse mais, eu iria ficar mais escura”.

Hoje, ela se orgulha de ter conquistado uma carreira acadêmica driblando preconceitos. “Eu acabei de concluir o doutorado, mas foi tão extremamente cansativo, eu quase desisti.  Eu fui a única pessoa (negra) da minha seleção de doutorado. E eu sou uma mulher parda. Se isso não diz nada pra sociedade, sabe? Não é sobre ter vagas apenas. Mas é sobre quem consegue chegar a fazer essa seleção”.

Luiza é um exemplo que vai na contramão das estatísticas. Pretos e pardos são os que mais abandonam os estudos antes de chegar ao ensino superior: são três a cada cinco brasileiros. Uma realidade que vem mudando graças as ações afirmativas, como as cotas raciais, que destinam percentuais de vagas a pretos, pardos, indígenas e quilombolas.

Para o presidente do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais, Helio Santos ,essas políticas devem sempre ser inclusivas. “Para cada cem afro-brasileiros, oitenta e dois são pardos e dezoito são pretos. Dentro dessa categoria, o pardo, vai ter uma elasticidade de tom de pele muito grande. Então, quando a pessoa tem uma dúvida, significa que ela deve ser incluída. Porque eu não tenho nenhuma dúvida quando estou diante de um branco”.

Helio Santos defende que as políticas raciais sejam sempre inclusivas
Helio Santos defende que as políticas raciais sejam sempre inclusivas - Reprodução/TV Brasil

O pesquisador Gustavo Amora precisou recorrer à justiça para garantir seu direito de ingressar em concurso público por meio das cotas raciais. "Fiz a prova, depois fui chamado para uma banca de heteroidentificação". Após a avaliação ele teve o pedido indeferido. "Fui a público, ingressei na justiça e depois pautei a imprensa. E a partir da primeira reportagem, centenas de pessoas do Brasil inteiro começaram a me procurar. Então a gente se organizou num grupo com aproximadamente 150 pessoas”.

Gustavo ganhou a causa na justiça, mas ainda aguarda para assumir o cargo. Para ele, a união de candidatos negros não reconhecidos pelas bancas pressionou por mudanças na heteroidentificação dos concursos públicos.  

Caminhos - Gustavo Amora conseguiu mudança na banca de heteroidentificação de concurso
Gustavo Amora conseguiu mudança na banca de heteroidentificação de concurso - Reprodução/TV Brasil

Mas garantir a representatividade de pessoas pardas no Brasil exige ações coordenadas em diversas frentes sociais, institucionais e políticas. E essa mudança também passa pela educação. Uma escola pública de Ceilândia, na região administrativa de Brasília, trabalha conteúdos antirracistas durante todo o ano em sala de aula. É o que explica a orientadora educacional Eliane dos Santos: “A gente voltou de novo na lei 10.639. A lei tem mais de 20 anos, então por que isso não é feito? A gente não precisa de mais leis, a gente precisa de coisa efetiva, vamos mostrar o que dá pra fazer”.  

Na escola, são feitas diversas atividades em que os professores mostram para as crianças que não existe apenas uma cor de pele. Um aprendizado que a aluna Ana Luisa Souza, de 10 anos, diz que já experimenta na prática. "Eu acho minha cor bonita. E não pode uma pessoa falar que a cor da outra pessoa que é feia. Acho isso errado”.

Caminhos - Alunos de escola pública aprendem sobre respeito e identidade
Alunos de escola pública aprendem sobre respeito e identidade - Reprodução/TV Brasil

Conhecimento que enche de orgulho os educadores da escola, como Eliane. “É muito transformador, dá esperança para a gente ver que é uma geração diferente e faz valer a pena o trabalho da gente. E você descobrir que tem cor de pele, te fazer sentir orgulho disso, não querer ser igual o outro. E a criança branca também, aprende a respeitar a criança negra e a entender que a diversidade é legal, porque tudo é aprendido”.

Ficha técnica

Reportagem: Carina Dourado  
Apoio à reportagem:  Thiago Padovan, Vitor Abdala  
Produção: Carol Oliveira  
Reportagem cinematográfica: Robson Moura, Sigmar Gonçalves  
Auxílio técnico: Alexandre Souza, Jairom Rio Branco  
Apoio à reportagem cinematográfica: Amâncio Ronqui, JM Barboza, André Rodrigo Pacheco, Manoel Lenaldo  
Colaboração técnica: Thiago Pinto, Thyago Pignata, Rafael Carvalho  
Edição de texto: Cintia Vargas  
Edição e finalização de imagem: Rivaldo Martins   
Arte: Aleixo Leite, Caroline Ramos, Wagner Maia  

Clique aqui para saber como sintonizar a programação da TV Brasil.

Criado em 26/08/2026 - 13:15

Últimas

O que vem por aí