O início de 2026 registrou o maior número de mortes de mulheres cometidas pela polícia de São Paulo desde o início da série histórica em 2013. Foram três só no mês de fevereiro: em Guaiçara e Limeira, interior de São Paulo, e na capital paulista. A morte de Thawanna da Silva Salmázio pela soldado Yasmim Cursino Ferreira, em ação policial na capital paulista, semana passada, ainda não foi incluída no levantamento.
Na madrugada daquele dia, Thawanna caminhava pela rua com o marido quando o retrovisor da viatura bateu no braço dele. O disparo ocorreu no momento em que o casal estava sendo questionado pelos policiais. Thawanna não estava armada. Os policiais foram afastados e o caso está sendo investigado.
Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, desde 2013 ao menos 43 mulheres foram mortas por policiais. Dezessete delas, 40% do total de mulheres mortas por policiais, aconteceram a partir de 2023, no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Pesquisadores apontam para um aumento da letalidade policial nesse período. O número de pessoas mortas por policiais militares em serviço no primeiro bimestre passou de 76 para 103 vítimas, alta de mais de 35%.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informa que “todas as ocorrências de morte decorrente de intervenção policial são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Judiciário. As circunstâncias de cada caso são analisadas de forma individualizada, com base em elementos técnicos e periciais”. Diz ainda que “as forças de segurança realizam ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade, com revisão de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e uso de tecnologia”.
Editorial
Este caso terrível da morte da Thawanna da Silva Salmázio desenha pra nós a falência de uma política de segurança que incentiva o enfrentamento. Veja bem esse caso: um casal caminha pela rua, uma rua estreita e com uma calçada quase inexistente. O retrovisor do carro da polícia atinge um deles.
Os agentes públicos retornam, perguntam: “A rua é lugar pra você tá andando?”. A Thawanna responde: "Com todo respeito, vocês bateram em nós". Começa uma discussão.
Em pouquíssimo tempo, a agente atira em outra mulher, uma cidadã. A fala do outro policial, em tom de perplexidade, é: “Você atirou nela? Por quê?”. A história piora. Mais de 30 minutos para o socorro. Ela morre.
A política de enfrentamento, em vez de segurança, cria uma insegurança na população: qualquer um pode ser vítima. Assim aconteceu recentemente no Rio com a médica Andreia Marins Dias, morta em março por agentes públicos.
Essa política de insegurança também faz dos agentes públicos vítimas de uma crise de saúde mental. Para citar um exemplo, dados do último Anuário de Segurança Pública mostram que mais de 26% das licenças médicas de policiais foram de afastamento por transtornos mentais. Política pública séria se faz com investimento no agente público e com respeito ao cidadão.
Clique aqui para saber como sintonizar a programação da TV Brasil.