No centro do Rio de Janeiro, uma igreja fundada por negros e anterior à chegada da família real portuguesa ao Brasil tenta resistir ao tempo e ao apagamento na história. O local, que é tombado desde 1938, sofre com a falta de recursos para restaurações.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos é um lugar de devoção e também de história. No século XVII, católicos negros ergueram a construção para ter um espaço próprio para professar a fé. O financiamento veio da irmandade de mesmo nome que a igreja. Irmandades de pretos eram associações de fiéis católicos criadas por africanos e descendentes de africanos no Brasil Colônia. A historiadora Lucimar Felisberto Santos explica:
"As irmandades foram esse ponto de apoio, esse núcleo aglutinador de pessoas que também contribuiu para que a escravidão no Brasil tivesse uma outra característica, visto que elas também atuavam em buscar subversões, contribuições para comprar o alforria do escravizado."
"A irmandade tinha essa missão de enterrar os corpos, educar as crianças órfãs e cuidar dos pretos que eram largados," completa o reitor da igreja, padre Robson de Oliveira.
Para se ter uma ideia de sua importância, a igreja foi Catedral do Rio até 1808 e o primeiro templo visitado pela corte de Dom João VI na chegada ao Brasil. Nela estão os restos mortais de Mestre Valentim, homem negro, escultor, arquiteto e um dos principais artistas do período colonial no Brasil. Na igreja também foi redigida a manifestação popular que culminou no "Dia do Fico". O templo foi ainda local de reuniões do movimento abolicionista, com participações de José do Patrocínio, Luiz Gama, entre outros. Uma história que não vem sendo bem cuidada.
O que vemos hoje é a fachada do século XVIII em péssimo estado de conservação. O interior original, com entalhes barrocos em madeira, foi completamente destruído por um incêndio em 1967. O Museu do Negro, inaugurado dentro da igreja para preservar a memória da população preta, está fechado há pelo menos 10 anos.
A má conservação do prédio histórico, que é tombado, motivou uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal para garantir sua recuperação. Em março, a Justiça Federal decidiu que a responsabilidade pela restauração é dos proprietários do imóvel, a Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos. Depois de recurso, houve uma mudança de entendimento que estabeleceu que a União e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), também réus, têm apenas papel de fiscalizar e acompanhar as obras.
Atualmente, a gestão da igreja é da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. A decisão determinou a realização de obras de restauração sob pena de multa.
Preservar esse patrimônio, lembrar sua origem e tudo que aconteceu aqui é uma forma de reparação histórica: não deixar esquecer que a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos faz parte do legado da população negra no país.
Em nota, a Arquidiocese do Rio informou que não é ré na ação e que atua no processo como "assistente do Ministério Público Federal", colaborando para a preservação do patrimônio histórico, cultural e religioso. Nossa equipe tentou contato também com a Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, mas não obteve retorno até o fechamento dessa edição.
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