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Procurador fala sobre descoberta de poupanças de pessoas escravizadas

Repórter Brasil Tarde

No AR em 15/05/2026 - 12:45

A história da escravidão no Brasil ganhou novos contornos com a recente descoberta de cadernetas de poupança de pessoas escravizadas, abertas na Caixa Econômica Federal, no fim do século XIX.

O conhecimento só foi possível a partir de um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal que investiga o destino dado a essas poupanças e o papel do banco no processo de escravização.

Para entender melhor essa história, o Repórter Brasil Tarde conversou com o procurador Júlio Araújo, responsável pelo caso.

Um decreto de 1874 permitiu que pessoas escravizadas abrissem caderneta de poupança. A partir daí, centenas ou milhares de cadernetas podem ter sido abertas e o objetivo final dessas pessoas era comprar a sua própria alforria, a sua própria liberdade.

Confira os principais trechos da entrevista

Luciana Barreto: “Através de uma provocação do Ministério Público Federal, nós sabemos agora ou temos conhecimento de 158 dessas cadernetas que trazem exatamente o quê? E esse número é muito pouco, né?”

Procurador Júlio Araújo: “É, esse número foi informado pela Caixa a partir de uma provocação nossa a respeito desse universo de poupanças de pessoas que buscavam recolher recursos, acumular, poupar recursos para conquistar a liberdade.”

Luciana Barreto: “Esse é um capítulo muito importante da nossa história. Como é que a gente julga isso? Eu poderia usar palavra negligência, quando a gente trata de a falta de investigação?”

Procurador Júlio Araújo: “É um desafio mesmo superar essa negligência para que a gente possa sim elucidar o que se passou, identificar histórias, pessoas e identificar o que aconteceu com esses recursos. A perspectiva do Ministério Público é sempre uma perspectiva coletiva, voltada à realidade da população negra enquanto um grupo social, mas também à sociedade brasileira.”

Luciana Barreto: “Isso abre, doutor, possibilidade para alguma indenização, por exemplo, para os descendentes?”

Procurador Júlio Araújo: “Haverá, claro, um esforço grande para tentar identificar seus descendentes, garantir que de alguma forma elas também busquem a eventual reparação, que pode vir a ser uma indenização, mas não necessariamente. E isso vai ter que ser discutido mais à frente.”

Luciana Barreto: “E o direito de conhecer a própria história, né, doutor?”

Procurador Júlio Araújo: “Exato, um povo sem história, sem a memória de tudo que aconteceu e a partir de a gente tentar reconstruir isso, identificar isso, é algo que não diz respeito apenas ao passado. Não é uma coisa só do passado, uma coisa que repercute até hoje no nosso presente, que diz respeito também sobre o que a gente quer ser no futuro. Então, acho que esse debate tem um pouco a ver com isso.”

O Repórter Brasil Tarde procurou a Caixa Econômica Federal e, em nota, o banco afirmou que “a guarda, conservação e pesquisa no acervo histórico da Caixa é um processo contínuo e permanente, sendo efetuado por equipes multidisciplinares na Caixa Cultural. O trabalho considera as condições materiais do acervo histórico”.

A Caixa informa ainda que “as pesquisas em outras tipologias documentais, como livros de contas correntes estão em andamento e serão reportadas oportunamente na forma da legislação permanente”.  

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Criado em 15/05/2026 - 15:20

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