Prevenir para evitar tragédias não tem sido o forte das cidades brasileiras, uma realidade que os números comprovam, seja no de vítimas, seja em custos financeiros. Com o Super El Niño batendo às portas, cidades abaladas por desastres naturais recentes pouco fizeram em prevenção.
Entre os efeitos do El Niño no Brasil estão eventos extremos: chuva no Sul, ondas de calor, seca no Nordeste, na Amazônia e no Pantanal, com riscos de incêndios. Entre 2013 e 2025, os desastres causaram prejuízo de mais de R$ 780 bilhões, segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Mais de 95% das cidades tiveram impactos em moradias, infraestrutura, nos serviços públicos e no setor privado. Cerca de 5.300 municípios foram afetados por desastres.
A família Inocêncio tem uma história de memória e pertencimento com o bairro do Alto Independência, em Petrópolis. No terreno comprado pelo pai, os filhos foram construindo casas. O local foi atingido por uma enxurrada há dois anos, a casa vizinha desabou e todo o casario foi condenado pela Defesa Civil. Jairo Inocêncio nunca recebeu aluguel social: primeiro morou de favor, depois alugou um espaço com recursos próprios. Quando o orçamento pesou ele não viu saída, teve que voltar para a casa que ainda está em situação de risco.
Da mesma família, Michele Oliveira, técnica em enfermagem, ainda sofre com o trauma da tragédia. Ela vive com a família em uma quitinete, mas sente falta do lugar onde cresceu.
Nesta vizinhança, no Alto Independência, o que restou é silêncio. O local onde foi realizada uma obra de contenção foi a casa onde em 2024 morreram quatro pessoas da mesma família. Só uma criança se salvou. Lá no alto, ainda está a casa de uma idosa que precisa ser demolida. Essa foi a orientação do poder público, mas o custo é transferido para as famílias que estão em dificuldade com as contas básicas. A casa ainda está no mesmo lugar.
Não foi a primeira vez que chuvas fortes deixaram mortos em Petrópolis. Em fevereiro de 2022, um temporal desabou sobre a cidade, matando 241 pessoas. Milhares ficaram desabrigadas. Em apenas três horas, o volume de chuva chegou a 258 mm, quatro vezes acima do limite considerado forte. Para evitar novos desastres, a cidade vem adotando uma série de medidas.
No Morro da Oficina, um dos epicentros da tragédia de 2022, foram erguidos muros de contenção, com drenagem e estabilização de encostas. Placas indicam os locais seguros em casos de inundação. Quando a água sobe, cancelas fecham o acesso a pontos considerados críticos para evitar a circulação de pessoas. Para o Rio Quitandinha, está em fase de licitação uma obra para a construção de reservatórios para reter o volume de água em caso de chuva forte. Os núcleos comunitários de Defesa Civil estão em 98 comunidades, com a participação dos moradores que atuam como voluntários na prevenção de desastres.
A cidade tem ainda 68 pontos de apoio e 22 sirenes do sistema de alerta e alarme. Elas avisam quando há possibilidade de chuva forte ou risco de deslizamentos e inundações. Quem está em perigo deve ir para o ponto de apoio mais próximo. O som da sirene é o último sinal para que as pessoas procurem local seguro.
Apesar de todas as medidas, Petrópolis ainda está em situação de vulnerabilidade. Um estudo do Instituto de Ciência e Tecnologia da Unesp, de São José dos Campos, e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), aponta a necessidade de ampliação de políticas habitacionais num cenário em que a população mais pobre é empurrada para as encostas. São necessárias políticas para o uso e ocupação do solo, bem como aprimorar o sistema de comunicação de risco.
Diante da necessidade de políticas transversais de prevenção, pesquisadores apontam como solução a criação de um sistema nacional de prevenção de desastres, num modelo parecido com o Sistema Único de Saúde (SUS).
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