A Ditadura Militar perseguiu e afastou cientistas da instituição que hoje se chama Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Dez profissionais foram aposentados compulsoriamente por realizar pesquisas e denunciar corrupção e abusos do governo, na época em que os militares estavam no poder. A Fiocruz faz, nesta quarta-feira (5), então, um ato em memória desses pesquisadores que tiveram carreiras e pesquisas interrompidas.
O episódio, ocorrido em 1970, ganhou o nome de "Massacre de Manguinhos" e foi contado por um dos pesquisadores, Herman Lent, que publicou um livro com os relatos em 1978.
A Fundação Oswaldo Cruz faz uma homenagem à memória de dez cientistas da Fundação Oswaldo Cruz que foram cassados em 1º de abril de 1970, durante a Ditadura Militar. Cinco dias depois daquela data, um decreto do então Ministro da Saúde determinou a aposentadoria dos dez cientistas. A instituição que, na época, se chamava Instituto Oswaldo Cruz, perdeu 14% do quadro de pesquisadores então formado por 70 profissionais.
“Nós estamos falando de uma geração que teve interrompido um conjunto de projetos de pesquisa relacionados com a imunologia do ser humano, a resposta imune em relação a infecções, em relação a algumas pesquisas voltadas para a produção de vacina, de soros, de medicamentos, tudo isso foi interrompido. Porque esses cientistas, eles tinham uma verdadeira geração, uma legião de estudantes que os acompanhavam. E a frustração não foi somente para estes dez cientistas, a frustração foi para todo um coletivo, toda uma geração”, explica Rivaldo Venâncio da Cunha, da Fiocruz.
Esses registros mostram os motivos da perseguição aos pesquisadores.
“Como nós já tínhamos denunciado muitas coisas como desvio de verbas da malária, da peste bubônica, da meningite, nós denunciávamos essas coisas, então estávamos muito visados, né”, destaca o pesquisador Domingos Artur Machado Filho (arquivo).
“De acordo com a cassação, nós estávamos proibidos de vir ao instituto, de frequentar a biblioteca, não só aqui no instituto, como também em qualquer laboratório do governo”, contou Haity Moussatché, também pesquisador (arquivo).
Todos os profissionais da Fiocruz cassados pela Ditadura Militar tinham mais de 20 ou 30 anos já de atuação e intensa produção científica. Foram chefes de laboratórios, seções e divisões da instituição. Eles foram reincorporados à Fiocruz 16 anos depois, em 1986, mas a aposentadoria interrompeu diversas pesquisas na instituição.
Todos os homenageados recebem hoje a condecoração de professores eméritos da Fiocruz. Eles são lembrados pelas trajetórias que marcaram o desenvolvimento científico do país.
"40 anos depois, nós estamos celebrando a democracia como um dos marcos fundamentais para o desenvolvimento científico de qualquer nação, né. É importante ter claro que saúde só se se conquista com democracia e com políticas públicas que vão tornar, durante o processo democrático, essa saúde mais ampla”, resume Rivaldo Venâncio da Cunha.
Clique aqui para saber como sintonizar a programação da TV Brasil.