Nos últimos dias, a Groenlândia virou o centro de uma disputa entre os Estados Unidos e a Europa. O presidente Donald Trump diz que precisa da ilha, que faz parte da Dinamarca, para a segurança nacional. Ele não descartou o uso da força para conquistá-la.
Mas por que o governo americano quer tanto assumir o controle da Groenlândia? É o que mostra a reportagem.
Com mais de dois milhões de quilômetros quadrados, a Groenlândia é a maior ilha do mundo, se for deixada de fora a Austrália. Tem cerca de 80% do território coberto por gelo, com grandes áreas inabitáveis. Por isso, é o território menos povoado da Terra. A Groenlândia ocupa uma posição geopolítica estratégica. Fica entre o Atlântico Norte e o Ártico, perto dos Estados Unidos, do Canadá e da Rússia.
Antiga colônia da Dinamarca, a ilha foi incorporada ao país em 1953. Em 2009, conquistou ampla autonomia de autogoverno, incluindo o direito de declarar independência por meio de um referendo. Mas Copenhague mantém o controle sobre a defesa e a política externa. A economia depende da pesca, que representa mais de 95% das exportações, e de subsídios anuais da Dinamarca, que cobrem aproximadamente metade do orçamento público.
A capital da Groenlândia, Nuuk, está mais próxima de Nova Iorque, nos Estados Unidos, do que da capital da Dinamarca, Copenhague. O local possui riquezas em minerais, petróleo e gás natural, mas o desenvolvimento tem sido lento. Os Estados Unidos já tentaram comprar a Groenlândia várias vezes.
A última foi em 1946. Há pouco mais de um ano, o presidente Donald Trump já falava que precisava da ilha para a segurança nacional. "Isso é para o bem do mundo livre. Estou falando de proteger o mundo livre", afirmou.
A localização estratégica e os recursos da Groenlândia poderiam beneficiar os Estados Unidos. Ela fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, vital para o sistema de alerta de mísseis balísticos do governo americano. Com o Ártico cada vez mais militarizado, com os países da Otan, a China e a Rússia expandindo as atividades na região, os Estados Unidos querem aumentar a presença militar na ilha.
Em março de 2025, o primeiro-ministro da Groenlândia também já dizia que o território nunca fará parte dos Estados Unidos. "Queremos uma parceria sólida em segurança nacional, é claro. Mas queremos isso com respeito mútuo. Nunca estaremos à venda e nunca seremos americanos", disse. Esse é o mesmo sentimento de muitos dos pouco mais de 55 mil moradores da ilha. No último fim de semana, a população encheu as ruas de Nuuk para protestar contra a ameaça de Trump de anexar o território.
O pesquisador do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais Mikkel Olesen, observa que o ponto de vista da segurança é o argumento que Trump mais repetiu, mas que não faz muito sentido, porque o acordo em vigor, bem como a boa vontade política que o acompanha na implementação prática desse acordo, significa que os Estados Unidos provavelmente conseguiriam obter tudo o que precisam na Groenlândia simplesmente pedindo educadamente. O governo americano mantém uma base aérea ativa em Pituffik, no noroeste da Groenlândia, fruto de um acordo assinado em 1951.
No começo deste mês, Trump disse que a Groenlândia está repleta de navios russos e chineses. "Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional. E a Dinamarca não vai conseguir isso, eu posso garantir", afirmou.
Com o poderio militar limitado, a Dinamarca depende de aliados da Otan para proteger a Groenlândia. Diante das ameaças de Trump de anexar o território, nos últimos dias vários países europeus têm enviado tropas à ilha.
Muito além dessa tensão entre Estados Unidos e Europa, o pesquisador dinamarquês ressalta que os groenlandeses não querem ser comprados; eles querem ser independentes. Nesse sentido, os Estados Unidos teriam que convencer a população de que seria uma boa ideia deixar o reino dinamarquês e estabelecer algum tipo de relacionamento com o governo americano.
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