Ao longo da história, muitas vezes a sobreposição entre trabalho e moradia foi comum. Basta lembrar das cidades em que os sobrados reuniam residência e comércio no mesmo imóvel. Com a urbanização, essa realidade mudou. Mas um estudo de uma pesquisadora do Rio de Janeiro mostra que a transformação da casa para incorporar o espaço de trabalho voltou com força nos últimos anos. E a legislação precisa se adequar a essa nova realidade.
Ana e o irmão tinham um bar em Irajá, na zona norte do Rio. Com a pandemia, precisaram buscar outras formas de sobreviver. Uma compra grande de produtos de cama, mesa e banho fez a família enxergar uma oportunidade de negócio.
“A minha cunhada queria lençol para dentro de casa. Aí meu irmão começou a comprar em atacado, porque saía mais barato para eles. E ele falou: ‘Não vou usar 20, 30 lençóis. Então vamos começar a revender’”, conta Ana.
Foi quando surgiu a ideia de transformar a parte de baixo da casa em loja e aproveitar os espaços disponíveis para fazer estoque. O negócio cresceu. Hoje, o caminho de Ana para o trabalho é simples: basta descer as escadas.
“Eu não corro tanto risco de ir para a rua, faço meu horário, é mais tranquilo. Às vezes acontece alguma coisa com um filho meu e eu consigo socorrer”, diz.
A adaptação das casas para uso misto não é novidade. É um retorno ao modelo dos sobrados do início do século 20: no andar de cima, moradia; no térreo, comércio.
Esse modelo modifica a cidade de várias formas. Reduz deslocamentos entre casa e trabalho, movimenta a economia nas periferias e gera renda em áreas afastadas dos centros urbanos.
As transformações do espaço urbano acontecem, muitas vezes, por iniciativa dos próprios moradores, diante da necessidade de gerar renda e tornar a rotina mais prática.
O fenômeno foi pesquisado pela professora e pesquisadora Ana Sleide, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
“Nas casas no Rio de Janeiro e em outras cidades, a gente vê muito comumente acontecer espaços de salão de beleza, serviços como cabeleireiro e barbeiro, mas também pequenos pontos de venda, bares e biroscas”, explica.
Segundo a pesquisadora, esses espaços funcionam tanto como comércio importante em bairros onde o grande varejo está distante quanto como locais de convivência e sociabilidade.
De acordo com Ana Sleide, o movimento observado em bairros da zona norte do Rio sugere a necessidade de revisão na legislação urbana para tornar as regras mais adequadas à realidade e às necessidades dos moradores.
“A gente pensar no incremento e no estímulo a essa legislação é não só permitir, mas incentivar essa aproximação desses dois usos. Isso pode beneficiar inclusive na solução de grandes problemas de mobilidade”, afirma.
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