Pesquisas arqueológicas realizadas no antigo prédio do DOI-Codi, em São Paulo, identificaram o local exato onde foi feita a foto do jornalista Vladimir Herzog após a morte dele.
Em 1975, então diretor de jornalismo da TV Cultura, Herzog foi torturado e morto pela ditadura militar. A imagem do corpo pendurado por um cinto foi usada pelos militares na tentativa de forjar um suicídio.
A ditadura militar não se apoiou apenas na violência para se manter no poder por 20 anos. O regime também foi sustentado por mentiras.
Para encontrar a verdade, pesquisadores de três universidades públicas utilizam técnicas arqueológicas no prédio do antigo DOI-Codi, na zona sul da capital paulista. O local era um dos principais centros de tortura e assassinatos da ditadura.
Na primeira etapa dos trabalhos, em 2023, foram encontrados centenas de objetos, entre eles garrafas, moedas, frascos de remédio e uma prótese dentária.
Os pesquisadores também identificaram objetos simples do cotidiano que ajudaram a despertar memórias de sobreviventes da repressão. Um dos itens encontrados foi um tinteiro citado por ex-presos políticos nos relatos sobre o preenchimento de fichas ao chegarem ao centro de detenção.
As escavações avançam agora sobre a arquitetura do prédio. Após a desativação do DOI-Codi, o espaço foi usado pela Polícia Civil e passou por reformas. Atualmente, o imóvel fica nos fundos de uma delegacia e está abandonado há anos.
Em uma das paredes, os pesquisadores encontraram um calendário entalhado, com referência ao mês de novembro e aos dias da semana. O vestígio confirma relatos de sobreviventes que passaram pelo local.
A partir dos estudos, foi possível determinar o ponto exato onde Vladimir Herzog ficou preso antes de ser assassinado, em outubro de 1975.
O caso ficou conhecido pela falsa versão de suicídio divulgada pelos agentes da ditadura. A foto mostrava Herzog pendurado na grade da cela em uma posição considerada incompatível com enforcamento.
Dois meses antes, o militante comunista José Ferreira de Almeida foi vítima da mesma farsa. Assim como Herzog, o corpo dele apresentava sinais de tortura, mas o laudo oficial registrou o caso como suicídio.
Segundo os pesquisadores, o registro fotográfico dos dois casos é quase idêntico. A diferença no enquadramento de uma das imagens permitiu identificar o local exato onde os presos ficaram detidos.
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