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Bioeconomia: da vanguarda dos cosméticos à tradição

Repórter Brasil

No AR em 08/07/2026 - 19:00

As casas em um formato diferente chamam a atenção de quem passa. No meio da Floresta Amazônica, uma cidade inteira foi construída pelo empresário estadunidense Henry Ford no período da borracha, na década de 1930.

Visionário para a época, Ford nunca pisou em Belterra, a cidade que construiu no Pará, mas deixou um legado tecnológico e industrial. Hoje, esse histórico de inovação e tradições ancestrais impulsionam negócios diversos nesse pedaço da Amazônia. O Museu de Ciência da Amazônia (Muca), por exemplo, vai abrigar o maior banco genético vivo do planeta, além de um laboratório avançado de selva.

“Diferente dos museus convencionais que a gente é acostumado a ver pelo mundo afora, as nossas coleções, os nossos trabalhos são mais voltados para parte da ciência amazônica… É um laboratório que ao mesmo tempo que ele tem tecnologias para desenvolver novos produtos, como são os casos dos cosméticos, tá muito próximo das comunidades e de onde vêm os insumos deses cosméticos”, afirma Artur Carvalho, coordenador educacional/Muca. 

Algumas ideias saíram dos bancos da universidade e hoje viraram produto.

“Foi a partir é de uma apresentação que eu conheci, que eu descobri que na universidade tinha professoras que trabalhavam com cosméticos e com produtos da biodiversidade amazônica. Eu pedi para poder entrar no laboratório e a professora me aceitou. Inicialmente eu comecei querendo fazer um produto para cabelo cacheado, mas que utilizava babosa, coisas que não era amazônico. Depois de um tempo, as orientadoras deram a ideia de fazer produtos, utilizando produtos da região. São todos os produtos são biodegradáveis, então você pode banhar com esses produtos no rio, na cachoeira, no mar. O ativo principal é o nosso óleo, né? E para os condicionadores também utilizamos manteigas, são todos do Pará”, conta Melissa Karen Lage, farmacêutica e empreendedora. 

E como é trabalhar com produtos que vêm do estado em que se nasceu? 

“É uma alegria assim. Eu cresci muito com a visão de que para conseguir coisas interessantes ou fazer coisas interessantes, teria que ir para fora ou vir coisas de outros estados. E saber que tem essas matérias-primas, poder valorizar isso, ter contato com as pessoas que produzem também, também usar isso no meu negócio é muito gratificante. Algumas pessoas acham que as coisas da Amazônia é muito artesanal. E tem e tem o seu valor. Mas também tem a parte científica, né? Nós estamos na universidade, produzimos com todo um critério científico, mas também com as coisas da comunidade do território, né? Com os produtos do território”, se alegra Melissa. 

“São ações em que se você une o saber tradicional com a ciência. E a ciência para quê? Para ter um uma rastreabilidade, para o produtor compartilhar valor adequado. Não ser simplesmente tirar o valor dele e ser colocado no mercado com valor alto e ele não receber esse valor, né? Então todos esses exemplos, a gente ver que tem sim solução. Só que é uma transição. Tá saindo de um nichos pequenos para o que a gente chama de regime, né? Mudar o regime de exploração, de forma que atua a cadeia de valor”, explica Maria Sylvia Saes, professora da FEA-USP

A matéria-prima para alguns dos produtos da Melissa vem de uma comunidade a 70 km dali. No coração da Floresta Nacional do Tapajós estão as Amélias da Amazônia. Elas fazem parte do projeto Iconografia Local Bioma Amazônico, iniciativa do Sebrae. O objetivo é incentivar e valorizar negócios amazônicos a partir do território e da cultura tradicional.

Marileide da Silva Monteiro, conta como surgiu a ideia de fazerem as Amélias. “Olha, surgiu através de quatro irmãos, né? Porque a gente vê que aqui essa semente da andiroba, algumas famílias tiravam para fazer seus próprios remédios, né? Parte da semente ela se perdia: eram queimadas, jogadas para o mato. Aí decidimos trabalhar no processo, né, para tirar o óleo da andiroba. Foi através disso que surgiu as Amélias da Amazônia. Foi no ano de 2016. Aí em 2018 a gente conseguiu legalizar nossa associação”, relembra ela. 

Para virar óleo, o processo é longo… As sementes de andiroba ficam algumas horas no fogo. Depois do processo de cozinhar a andiroba, ela vai para uma bancada, onde seca. Aí acontece o processo de abertura para retirar a polpa, de forma totalmente manual. 

Números

A bioeconomia na Amazônia Legal gera atualmente um PIB de mais de R$ 12 bilhões por ano. São 347 mil empregos, com 84 mil trabalhadores formais. São empregos diretos e indiretos como os gerados pelas Amélias, que crescem e diversificam o negócio

“Se nós estamos conseguimos já estamos um grau mais mais alta, é porque nós nunca desistimos disso, porque a gente acreditou que um dia, né, a gente ia conseguir algo melhor para a gente com a nossa família. E conseguimos”, comemora Marileide. 

Veja também  

Reportagem 1 – Bioeconomia: turismo comunitário gera renda com a floresta de pé 

Reportagem 2 – Bioeconomia: cores e sabores da Amazônia
 

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Criado em 08/07/2026 - 20:15

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