O Repórter Brasil começa hoje uma série de três reportagens sobre bioeconomia. A ideia é mostrar como podemos gerar recursos aproveitando as riquezas naturais. Derrubar tudo para começar a produzir é uma prática tradicional, mas não faz sentido no contexto do desafio climático que enfrentamos.
Destino conhecido de muitos, mas ainda de natureza intocada. O distrito de Alter do Chão fica a 38 quilômetros da cidade de Santarém, no estado do Pará. Banhado pelas águas transparentes do rio Tapajós, Alter ganha várias cores e cenários durante o ano. A subida e baixada do rio faz surgir praias de areia branca que atraem turistas de todas as partes do Brasil e do mundo.
Foi aqui que o pequeno negócio de Dórrisson Borari se estruturou ao longo dos anos. Hoje, a pousada dele é a mais antiga do lugar. “Em 1997 resolvi, né, partir para esse lado. Nós fechamos uma parte do restaurante, eu estava na faculdade e aí estava difícil de conciliar o trabalho de restaurante e comércio, que precisava mais estar presente. E comecei a partir para o lado de hotelaria, resolvi montar, né? Então, aí a gente resolveu migrar para a parte de hotelaria e foi aumentando, né?”, conta o dondo da Pousada Mingote
“A minha ideia era o seguinte: fazer uma pousada não só de qualquer jeito, mas que desse conforto para quem passasse o dia na praia e, à noite, ter um quartinho aconchegante. Não colocasse um preço muito alto, mas que desse pra gente se manter e dar oportunidade para quem quer vir a Alter do Chão”, destaca a sócia da propriedade, Maria da Conceição Munduruku.
A pousada de Dórrison e de sua esposa, Maria da Conceição, é um exemplo de empresa de bioeconomia na Amazônia. Eles valorizam a cultura e as tradições locais e ainda geram renda e empregos.
“A bioeconomia, ela é uma economia baseada na biodiversidade. Essa biodiversidade pode ser de plantas, pode ser de animais. Então, uma economia que é baseada em recursos que são explorados, no caso da Amazônia, que são explorados em suas florestas, a gente considera isso uma bioeconomia, né? O ambiente vai determinar a bioeconomia, mas em muitos momentos, a bioeconomia nada mais é do que uma economia centrada na exploração sustentável desta biodiversidade”, explica Patrícia Chaves de Oliveira, engenheira agrônoma e professora da Universidade Federal do Pará.
“A bioeconomia acaba surgindo na década de 1990 por aí como uma estratégia de superação das questões climáticas que têm essa lógica, né? Vamos pensar uma sociedade diferente. Só que, quando a gente vai para a Amazônia, a gente começa a ver que a gente tem que pensar a bioeconomia também para quem, não simplesmente pensar em tecnologias ou nos recursos. Devemos pensar nas pessoas. E as pessoas que habitam a floresta são muito importantes, porque são elas que têm esse conhecimento milenar de preservar a floresta”, destaca Maria Sylvia Saes, professora de economia da USP.
Ter a chance de se conectar com a natureza e a cultura do lugar. Vivenciar um turismo de experiência, de base comunitária. Quem chega a esta região do Pará quer conhecer um pouco mais das tradições das comunidades que aqui vivem. E um dos principais locais a serem visitados é a Floresta Nacional do Tapajós.
A Floresta Nacional do Tapajós é uma unidade de conservação que foi criada em 1974 e tem 527.319 hectares. Mais de mil famílias residem dentro da área. A maior parte delas vive do turismo.
Desde 2018, Elton John Vasconcelos desenvolve turismo de base sustentável na Flona do Tapajós. E ele conta como surgiu a ideia.
“A Casa do Elton ela vem de uma necessidade de empreender dentro da reserva. Eu trabalhava em um projeto e esse projeto tinha duração de 10 anos. Eu saí desse projeto e a gente começou a construir umas casinhas para o final de semana. A gente passava o final de semana com a família. E as pessoas passavam, os visitantes passavam aqui para conhecer a Flona e paravam aí na nossa casinha e perguntavam: 'Tem comida? Tem comida?'. E aí eu falei para o meu pai: 'Ó, meu pai, o dinheiro passa aí na frente de casa, bora pegar um pouco'. E a gente colocou aí uma plaquinha de pano e a gente escreveu 'restaurante'. No primeiro dia chegaram duas pessoas. No segundo dia chegaram 20 pessoas, e aí nós não tínhamos prato nem colher. Então a gente saiu correndo atrás de vizinhos arrumando prato, colher e talheres para servir o pessoal. E a Casa do Elton começou a crescer. Começou a crescer”, relembra.
E, com esses investimentos, a expansão do negócio foi questão de tempo. Hoje, Elton oferece trilhas, chalés, passeios de barco...
"A partir do momento em que eu comecei com as capacitações do Sebrae, eu comecei a entender e a despertar que a gente podia trabalhar a economia da comunidade em geral. Além de vender uma experiência hoje na culinária, a gente vende a experiência com os passeios: oficina de plantas medicinais, oficina de biojoias, oficina de carimbó, nós temos pesca esportiva, nós temos a famosa piracaia nossa. Coisas que a gente desenvolve na comunidade, que a gente trabalha junto com a comunidade. Um dos pontos fortes é a nossa trilha, né? Nós temos pernoite na floresta, nós temos trilha noturna para observações de cogumelos luminosos. Então tem bastante alternativa em que a comunidade toda ganha. Eu não consigo fazer sozinho, mas toda a nossa comunidade junta consegue fazer o melhor para o nosso visitante ter uma experiência única. Quando você vem para o Parque Nacional do Tapajós, você precisa de tranquilidade e tem uma experiência que você só vive dentro da reserva." detalha Elton.
Comunidade que se une para se defender do turismo predatório de grandes empreendimentos e provar que é possível o uso sustentável dos atrativos da Amazônia.
“Os povos aqui funcionam como guardiões justamente, né, dessa riqueza que a gente tem. Nós tivemos essa luta lá pela preservação do Tapajós e nós tivemos aqui a preservação, a luta também aqui dentro do território pela preservação da floresta, né”, afirma Dórrison Borari.
“Essa experiência de ficar, ver o cotidiano, ver como a pessoa vive, como é que a pessoa tem essa conexão muito forte, porque aqui a gente tem uma conexão muito forte com a floresta, né? A floresta nos dá, a gente respeita ela e assim vai”, resume Elton.
Clique aqui para saber como sintonizar a programação da TV Brasil.