O alimento que dona Elianeide dos Santos prepara ajuda a sustentar seus nove filhos. “Eu gosto de fazer a farinha para botar dentro de casa para meus filhos. Não para vender, para meus filhos comer, porque meus filhos comendo eu tô com tudo na vida”, conta a agricultora
No território indígena Truká, município de Orocó, no semiárido pernambucano, plantar e processar a mandioca é atividade essencial.
“A gente quando não tira a roça, que a gente não faz a farinha, fica doente. Porque tem o costume, né? Aí... mas tudo dá certo a gente, a gente vende, dá para a família. Eu mesmo não, não vendo não. Eu, quando para, pego dois, quatro, cinco sacos, eu levo para minha família. Agrada um, agrada outro, um colega chega na minha casa, eu dou”, relata o agricultor Francisco João da Silva.
Mas antes da farinha e do beiju saírem quentinhos do forno, a matéria-prima precisa ser cultivada. Na roça, após o plantio, as mandiocas são colhidas e levadas para a casa de farinha. Nesse local, os moradores utilizam equipamentos industriais e práticas manuais para transformar o alimento.
“Fazer esse o processo de ralar, tirar a goma, botar num saco, levar para a prensa, espremer, como nós chamamos, tirar a manipueira. Aí vai passar numa peneira, peneirar para tirar o grosso, ficar só a massa. Aí leva para o forno para ressecar para virar farinha”, detalha o pajé Ulisses Mendes.
A casa de farinha também sustenta uma cultura centenária criada pelos povos indígenas do Brasil. Foi em espaços como esse que as técnicas de processamento da mandioca foram aperfeiçoadas entre os anos de 1500 a 1822.
“As casas de farinha se transformaram num complexo industrial de adaptação da cultura indígena que, com a colonização, o processamento passou de tradicional também, né, para ficar em larga escala. E a partir das técnicas também utilizadas em Portugal e aqui com a cultura indígena e também africana, ela foi criando uma cultura alimentar única”, explica Danielson José dos Santos, pesquisador.
Seja para alimentar a família ou para manter viva uma tradição, as casas de farinha guardam a história de um povo.
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