Vitória é conhecida pelas praias e pela relação com o mar, mas a capital capixaba também guarda uma importante área de mangue. Um dos maiores manguezais urbanos do mundo fica dentro da cidade e ajuda a preservar a biodiversidade, proteger a costa e também equilibrar o ecossistema.
À primeira vista parece só um monte de raízes saindo da lama. Mas basta parar por alguns instantes para perceber que tem muito mais coisa acontecendo por aqui. Caranguejos, aves, árvores que aprendem a viver entre a água doce dos rios e a água salgada do mar. E tudo isso em meio à correria de bairros como Maria Ortiz, São Pedro, Goiabeiras e República, em Vitória. Popularmente conhecido como Parque do Lameirão, o local abriga os três tipos de mangue encontrados no Brasil: o vermelho, o preto e o branco. Lucas Martins, que é agente cultural, cresceu vendo o mangue de perto. Com o tempo, entendeu que esse ambiente faz muito mais pela cidade do que a maioria das pessoas imagina.
“Cresci no Rio Santa Maria, cresci banhando naquele manguezal. E, com o passar do tempo, ver algumas casas noturnas, né, cerimoniais construídos na frente, né, no estilo de Jardim da Penha, atrapalhou um pouco essa questão da luminosidade. Luminosidade, inclusive, que reflete até na questão da vida marinha ali na própria água, né, dos seres que vivem ali. E agora com o calçadão chegando, ou seja, pras pessoas eh pode parecer que é uma integração e é interessante, mas eu acho que falta, na verdade, é uma conexão com o manguezal. Ou seja, a ideia, penso eu, que deveria ser a gente integrando a natureza, não sobrepondo a natureza”, destaca ele.
O curioso é que boa parte da vida marinha começa exatamente em lugares como este aqui. Os manguezais, eles servem como berçários naturais, onde as espécies encontram alimentos, proteção e também um lugar para poder se desenvolver e crescer. Além de servir de abrigo para diversas espécies, o mangue ajuda a proteger a costa, filtrar a água e a manter o equilíbrio de todo esse ecossistema.
“Você tem várias espécies vegetais e animais que passam a parte da sua vida aqui para se reproduzir. O mangue é vida, ele gera alimentos. Ele é super importante tanto para a população que depende desses recursos, porque nós temos pescadores, temos catadores de caranguejo, mas também para a importância porque ele é uma área que ele retém sedimentos”, explica Iara Moreira, coordenadora de Unidades de Conservação Semmam/PMV.
“Eu chego aqui em Vitória e vejo esse manguezal, né, que de uma certa forma tá dentro da cidade e que ainda não foi tomado pela urbanização... Hoje eu me conecto muito mais com o manguezal do que com a cidade, do que com o concreto” conta André Sopon, estudante de Educação do Campo.
Mas toda essa riqueza também enfrenta ameaças. O lixo descartado de forma irregular, a poluição que chega pelos rios e as pressões da ocupação urbana deixam marcas que nem sempre são vistas de imediato. E quando o mangue sofre, os impactos não ficam restritos a ele.
“Aqui é um parque, né? Então assim, por ser um parque, é uma área também dessa vida ambiental, dessa fauna e dessa flora. Então, quando a gente já traz o esgoto, traz uma grande obra com resíduos, por exemplo, de cimento, de areia, de coisas que são tóxicas a esses animais, a gente tá trazendo um impacto ambiental a todo um parque”, pontua o artista Bruno Bissolli.
O mangue não é apenas uma área de preservação, mas um espaço que faz parte da história e da vida da cidade.
“Esse trabalho, né, de preservação ambiental do manguezal serve para trazer também sentimento de pertença. Então é Vitória também de frente pro mangue, não Vitória de frente pro mar. É pro mar, mas também de frente pro mangue. Vamos olhar pro manguezal também, ver de perto, ver as garças cantando, né, vamos estar dentro do território”, convoca Lucas Martins.
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