Uma fotografia que virou música, vídeo, peça publicitária e resultou no maior prêmio da publicidade mundial: o Leão de Ouro no Festival de Cannes. Essa é a história que reuniu o olhar apurado do fotógrafo Paulo Pinto, da Agência Brasil, à criatividade do publicitário Jarbas Agnelli. A imagem corriqueira de pássaros sobre a fiação deu asas à imaginação dos dois e conquistou a admiração de pessoas por todo o mundo.
Paulo Pinto é repórter fotográfico há mais de três décadas, e já cobriu momentos importantes da história, da política, da sociedade e, principalmente, do esporte brasileiro e mundial.
“O fotojornalista, ele não fotografa para quem entende de fotografia. Ele fotografa para as pessoas comuns. Que elas olhem a foto e se identifiquem, consigam identificar aquilo ali, sem legenda, sem nada, que ela consiga captar aquele momento”, afirma Paulo.
Numa viagem para Santana do Livramento, sua terra natal, no Rio Grande do Sul, Paulo capitou uma cena comum da paisagem urbana. “Eu saí para tirar uma foto, né? Aí a mãe estava junto, na frente de casa, e assim: "Olha, o vizinho, é, todo final de tarde ele alimenta os passarinhos ali." Eu digo: "Pô, interessante. Vamos lá? Vamos." Aí a gente foi, atravessou uns dez metros na frente de... da casa da mãe, né? Só que eu olho para cima e vejo aquele montão de pássaros nos fios — porque tem muitos fios elétricos lá, né? — é, esperando para comer, a sua vez de comer. Eu digo: "Pô, que interessante. Aquilo ali parece uma partitura”, relembra o fotógrafo.
Não demorou muito para que os pássaros na fiação voassem para o mundo. E eis que, um belo dia, quando o Jarbas estava folheando o jornal, ele se deparou com essa foto. E foi aí que ele já percebeu algo diferente na imagem e teve uma grande ideia.
“O publicitário está sempre atento, né? Está sempre buscando alguma ligação com alguma coisa, né? E... e daí eu vi aquela foto e foi muito forte, assim. Eu olhei: “Caramba, tem cinco fios aqui, esses passarinhos parecem notas, né?” E na hora eu fui para o piano. Um dia eu fiz o arranjo, fiz a música, mandei para o Paulo e foi... o resto também foi muito rápido. O Paulo falou: “Ai, que lindo, isso aí é exatamente o que eu vi lá na casa da minha mãe”, conta o publicitário Jarbas Agnelli.
“Ele viu com o olhar de músico. Ele viu música, eu vi pássaros, né? Então, aí teve uma junção aí”, destaca Paulo.
“Três dias depois já estava uma matéria no jornal da música, "o cara que fez a música com... a partir de uma foto". E daí eu falei: "Caramba, tem alguma coisa nessa história aí. Eu queria... eu... eu vou tentar fazer um vídeo para mostrar para todo mundo o meu raciocínio, né”, lembra Jarbas.
O vídeo que o Jarbas fez alcançou milhões de visualizações em poucos dias. Por conta dos pássaros nos fios, tanto o Jarbas quanto o Paulo passaram a ministrar cursos e palestras. A repercussão fez com que o projeto ganhasse prêmios como o YouTube Play do Guggenheim. Quinze anos depois, os pássaros seguiram outros rumos. A campanha, realizada com a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica, ficou conhecida como “Sinfonia da Energia”. Além da foto do Paulo, foram selecionadas outras sessenta fotografias, vindas de diversos lugares, para compor uma nova sinfonia. Deu tão certo que a “Sinfonia da Energia” ganhou, este ano, o Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes, o Oscar da publicidade.
“O projeto é verdadeiro, né? Ele tem essa história por trás, né? E Cannes, particularmente este ano, estava muito rigoroso, né? Eles subiram o sarrafo, né? Os critérios estavam muito altos. Teve muito menos inscrições do mundo e do Brasil. Então, foi... foi, para a gente, foi incrivelmente recompensador, assim, né”, afirma Jarbas.
“O Jarbas teve a ideia de fazer... voltar ao local, né? De voltar ao local para a gente fazer um... um vídeo de como foi feito inicialmente aquela primeira imagem. Mas qual não foi a nossa surpresa que os pássaros já não estavam mais lá? Porque o dono da casa, que alimentava os passarinhos, já tinha ido embora também. E a mãe, também, que indicou, também já não está mais aqui. Então, isso tudo, o que que ficou de lição? Que é o momento, né? Nós temos que aproveitar o momento disso aí. Hoje, depois desse prêmio do Leão de Ouro em Cannes, eu entendi que eles não deviam estar lá mesmo. E eles não estarão mais lá também. Não adianta procurar, no mesmo lugar eles não estarão, porque... o que que eles foram? Eles foram para o mundo, eles foram cantar para o mundo”, resume Paulo.
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