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Entrevista: Francisco, o papa que aproximou a Igreja dos humildes

Repórter Brasil Tarde

No AR em 21/04/2025 - 12:45

O papa Francisco ficou 12 anos à frente da Igreja Católica e, para falar sobre esse legado, o Repórter Brasil Tarde recebe Francisco Carlos, professor de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Qual a sua avaliação desses 12 anos de papado? 

É importante que a gente destaque que, o pontificado de Francisco, vem depois de dois pontificados conservadores: um papa polonês e de um papa alemão, que renunciou, inclusive, e não pôde continuar com a sua proposta. E tivemos, então, a ascensão desse latino-americano muito enfranhado, que conhecia bem os movimentos sociais e as dificuldades sociais — aquilo que acabou de ser dito como as periferias nesse sentido — e se dedicou a esse trabalho com as periferias.

E o fato dessa devoção e proteção às periferias pode se dar por ele ser um latino-americano?

Sem dúvida nenhuma. Quando ele foi eleito, ele fez uma declaração muito interessante dizendo que o conclave foi buscar um papa no fim do mundo. A Argentina como ponto extremo. Essa ideia do fim do mundo, da periferia — mas num fim do mundo também social —, daqueles que ficam ao lado de todo o progresso, ficam ao lado do desenvolvimento. Ele se voltou para essas pessoas, para os humildes e para aqueles que não são o centro. Então, mulheres, a África, que ele destacou muito, a bênção mesmo aos homossexuais. Então todas essas periferias foram muito bem contempladas durante o pontificado de Francisco.

Qual o impacto de uma opinião de um papa sobre a sociedade?

Esse é um ponto interessante. Porque Francisco andou no limite do cânone. Ele não rompeu nenhum cânone, ele não inovou no sentido de alterar a doutrina social clássica da Igreja, mas ele ampliou esse espaço. Ele trouxe elementos novos. 

Ele discutiu abertamente a questão sexual, ele discutiu abertamente a questão do meio ambiente, ele discutiu a participação das mulheres na Igreja de uma forma muito intensa. Então, mesmo que ele não tenha tomado medidas muito claras no sentido de alterar o status quo, ele abriu o debate para isso. 

Qual que é a tendência da Igreja agora: manter esse progressismo ou ir para uma área mais conservadora?

Eu acho que nesse momento a Igreja e o clero católico vivem uma tensão muito grande. O clero norte-americano, que de longe é o mais rico, o que contribui com mais recursos para a Igreja, e o clero alemão e polonês eram muito contrários às políticas que vinham sendo tomadas por Francisco.

Nesse sentido, é possível que eles avancem e formem uma coligação para trazer um Papa conservador. Isso é um movimento relativamente natural na Igreja. Tivemos dois conservadores, um progressista avançado, possivelmente teremos um conservador, se esses cleros mais conservadores e ricos se unirem nessa direção.

Quais os próximos passos do conclave?

Parece que o processo vai ser rápido. Inclusive, está se pensando uma coisa inédita: dos cardeais não retornarem, já ficarem em Roma para um conclave rápido de eleição do sucessor. Isso é uma novidade implantada, inclusive, por Francisco. Nesse sentido, é possível que o grande número de cardeais que Francisco nomeou — possivelmente Francisco foi o Papa que mais nomeou cardeais... e cardeais que tinham a ver com ele e com a sua visão de mundo — tenha uma influência muito grande no conclave. 

A escolha do papa pode ter influência política ou ela é unicamente religiosa?

Não, ela tem uma influência política fantástica. É só ver o caso de João Paulo II e as transformações no mundo socialista, o papel dele na Polônia junto ao Solidariedade. Esse é um papel sempre muito político. Temos que pensar que o Papa é um chefe de Estado. 

Já existem alguns nomes favoritos, alguns países aí no centro das discussões?

Tem nomes que estão surgindo e, interessantemente, nomes italianos. O cardeal de Turim é um deles, o cardeal de Milão é um deles. Mas tudo isso pode mudar. São várias votações e é cedo ainda para a gente ter essa ideia.

Qual o legado do papa?

Olha, o legado é muito importante. Quer dizer, a gente vê que os pobres retornaram — não como na Teologia da Libertação, que nunca foi dominante na Igreja —, mas que os pobres retornaram como sendo o alvo principal do papado. É um elemento central. 

O papado hoje tem um desafio muito grande que é o avanço da religião evangélica, dos grupos evangélicos, principalmente aqui na América Latina. Então é preciso que ele volte a olhar a população e volte a olhar esses desfavorecidos.

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Criado em 21/04/2025 - 17:25

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