De acordo com levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil tem atualmente 88 organizações criminosas.
“As facções nasceram na estrutura prisional. O Comando Vermelho é de 1978, aqui do lado, no Caldeirão do Diabo, aqui na Ilha Grande. Surge a partir das condições prisionais. O PCC, que é o segundo e o maior, disputando com o Comando Vermelho hoje no Brasil, surge em 1992, depois do Carandiru”, relembra o sociólogo José Cláudio Sousa Alves, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
“O PCC tem um papel, ele fundamental de ser uma agência reguladora do mercado do crime e, a partir do controle das prisões, regulamentou a atividade criminal em São Paulo”, constata Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo (USP)
“Sempre houve essa estrutura prisional, uma relação muito intensa, porque é lá que eles sofrem, é lá que eles estão próximos, é lá que eles vão encontrar as possibilidades de negociação de mercadorias. As comunicações se estabelecem a partir dos presídios. Os presídios federais permitiram, então, uma aproximação entre grupos armados, nacionalmente falando”, destaca José Cláudio Sousa Alves.
Além do CV e do PCC, o Terceiro Comando Puro, (TCP), também do Rio de Janeiro, tem crescido e já atua em cerca de dez estados. A nacionalização das facções criminosas tem contribuído para o aumento da violência nas regiões Norte e Nordeste. As duas apresentam as maiores taxas de homicídio do país.
O Norte está cheio de laboratórios de refino de cocaína e rotas do tráfico. Isso porque liga países produtores da droga, como Colômbia e Peru, aos portos do Nordeste e do Sudeste, que escoam o produto para a Europa e a África. E essas rotas, como a do Alto Solimões, vêm sendo disputadas por uma das maiores facções do país, o Comando Vermelho, principalmente depois que o PCC, organização de origem paulista, dominou a chamada rota caipira cerca de dez anos atrás, que passa por Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.
“Com isso, se lançou uma nova corrida pelo domínio da rota da região Norte e Nordeste, que a gente chama, principalmente, de corredor amazônico do tráfico de drogas. E isso gerou um desequilíbrio, uma disputa que, num nível um pouco mais subalterno, envolve diversas facções aqui existentes. A gente também não pode ignorar que nós somos atravessados, no nosso território, por uma série de bunkers de empresários do tráfico internacional de entorpecentes, que se envolvem ora com pequenos atravessadores, ora com as próprias facções. E isso tudo tem funcionado. Uma série de transformações aqui”, explica o professor Roberto Magno Reis Netto do Observatório de Estudos de Defesa da Amazônia da Universidade Federal do Pará.
Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que a presença de facções na Amazônia Legal cresceu e já chega a quase metade, 45%, das cidades. O Comando Vermelho domina o crime em mais de 200 municípios, mais que o dobro do que tinha em 2023. E, nessa conta do crime, ainda entram as chamadas milícias.
“As dimensões que os grupos políticos e econômicos dominantes envolvem, eles vão lançar mão dessa estrutura armada estatal para se beneficiar. Se você for ao Norte, você vai ter o mesmo caminho, a mesma rota do tráfico de drogas, tráfico de madeira, tráfico de armas, tráfico de ouro, prostituição infantil. São as mesmas rotas, né. Você vai para o Centro-Oeste, aí é agronegócio. Aí é pesado. Tem tráfico de agrotóxico, disputa por terra, confronto com indígenas e quilombolas. No Nordeste, descendo todo o litoral, aí são questões associadas a grandes projetos urbanos. Aqui no Rio é original, porque nós exportamos para todo o resto do país”, lembra José Cláudio Sousa Alves.
Uma pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense, constatou que as milícias perderam espaço no Rio de Janeiro. Mesmo assim, é um dos grupos que mais cresceu nos últimos anos.
“De toda a série histórica que a gente acompanha, entre 2008 e 2023, a milícia cresceu mais de 200%. Então, ela foi o grupo armado que mais cresceu. Os grupos milicianos contam com a participação de agentes públicos, de ocupantes de cargos eletivos. Isso é conhecido. Diversas investigações acabam apontando para a íntima relação das milícias com agentes do Estado”, aponta Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni), UFF
“Para mim, a grande saída é fazer uma intervenção econômica nesses espaços que são disputados por conta dessas economias informais que sustentam esses grupos. Então, seja tráfico, seja milícia, a ocupação armada territorial visa ao controle de algumas economias. Nós precisamos de um Estado que faça a intervenção”, sugere Orlando Zaccone, delegado de Polícia Civil aposentado.
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