A semana que estamos encerrando será lembrada e estudada por muito tempo. Mais do que os resultados de um longo processo judicial, o Brasil registrou um movimento inédito de responsabilização de autoridades que entenderam que seria legítimo atuar onde fosse possível para invalidar o processo democrático, sem qualquer resistência das instituições que constituem a República.
No projeto, até homicídios foram cogitados, e integrantes do alto escalão se movimentaram para organizar frentes variadas no ataque à democracia. De fraudes digitais à tentativa de sensibilizar autoridades estrangeiras, a trama passou por acampamentos mantidos por campanhas difamatórias, reforçadas diariamente pelos algoritmos das redes sociais.
O capítulo atual do plano de golpe ainda está no STF, onde o presidente, Luís Roberto Barroso, fez questão de encerrar o julgamento em um pronunciamento de pouco mais de 3 minutos. O suficiente para colocar as coisas nos devidos lugares.
"Eu gostaria de cumprimentar o procurador-geral da República, o professor Paulo Gustavo Gonet Branco, pelo trabalho meticuloso e criterioso que desenvolveu como titular da ação penal. Gostaria também de cumprimentar o presidente da Turma, ministro Cristiano Zanin, pela organização e condução impecáveis desse julgamento. E, sobretudo, o relator, ministro Alexandre de Moraes, pelo trabalho hercúleo que desenvolveu ao longo dos anos na preparação desse julgamento paradigmático, divisor de águas na história do Brasil.
Quero repetir, uma vez mais: tratou-se de um julgamento público, transparente, com devido processo legal, baseado em provas as mais diversas – vídeos, textos, mensagens, confissões. As compreensões contrárias fazem parte da vida, mas só o desconhecimento profundo dos fatos, ou uma motivação descolada da realidade, encontrará neste julgamento algum tipo de perseguição política.
A vida, no entanto, é plural, assim como também é este Tribunal. E, por essa razão, não quero deixar de manifestar respeito e compreensão pela posição divergente. Pensamento único só existe nas ditaduras. Na vida democrática, antes da ideologia, antes das escolhas legítimas e das diferentes visões de mundo, tem de existir o compromisso com as regras do jogo, com as instituições e com o respeito aos resultados eleitorais. Essa é a mensagem mais importante desse julgamento.
Concluo, portanto: o Tribunal cumpriu missão importante e histórica de julgar, com base em evidências às quais todos têm acesso, importantes autoridades civis e militares pela tentativa de golpe de Estado.
Ninguém sai hoje daqui feliz, mas devemos cumprir, com coragem e serenidade, as missões que a vida nos dá. E é por isso mesmo que estou aqui. Acredito que estejamos encerrando os ciclos do atraso na história brasileira, marcados pelo golpismo e pela quebra da legalidade constitucional.
Estou convencido de que algumas incompreensões de hoje irão se transformar em reconhecimento no futuro. Desejo, muito sinceramente, que estejamos virando uma página da vida brasileira, que possamos reconstruir relações, pacificar o país e trabalhar por uma agenda comum, verdadeiramente patriótica, com as divergências naturais da democracia, mas sem intolerância, extremismo ou invisibilidade.
Que possamos iniciar uma era de boa-fé, boa vontade, justiça e prosperidade para todos.
Por delegação do presidente da Turma, Cristiano Zanin, eu declaro encerrada a sessão. Muito obrigado a todos."
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