As chuvas deste início do ano têm ficado abaixo da média histórica para o período e não têm sido suficientes para recuperar os mananciais e reverter o quadro dos reservatórios que levam água a cerca de 22 milhões de habitantes da capital paulista e da Grande São Paulo.
O maior deles, o Cantareira, tem menos água agora do que em janeiro de 2014, logo antes da crise hídrica. Isso significa que a situação tem potencial de ser mais crítica que a vivida pela população de São Paulo há 12 anos.
As águas da represa, para Caio Henrique de Oliveira, mostram o futuro: podem ser sinal de faturamento ou de preocupação. Ele vive do lazer no reservatório de Atibainha, no interior de São Paulo, dos passeios com turistas. As lembranças da crise hídrica, de mais de uma década, ainda assustam.
“Afeta tanto a parte comercial quanto a dos moradores. Porque começa a ter racionamento de água, o turismo dá uma diminuída, afeta até a beleza natural do local. Começou a baixar? A gente sempre fica preocupado”, conta o empresário.
Essa é a represa do Atibainha, fica a quase cem quilômetros de São Paulo. É um dos reservatórios que compõem o Sistema Cantareira, que abastece a região metropolitana. Hoje, o nível das águas por aqui está em pouco mais de 20%. Mas, em 2014, pouco antes da crise hídrica, nessa mesma época, estava em mais de 40%. Antes da crise, o volume das águas ia até aquele barranco e cobria a terra vermelha.
De longe, dá para ver a dimensão do baixo volume do Atibainha: as faixas vermelhas contornam quase todas as margens do reservatório. Situação nítida também nas pilastras que sustentam a ponte: os níveis, tingidos por águas do passado, não deixam dúvida. A represa já foi mais cheia.
Em Nazaré Paulista, cidade erguida ao lado do reservatório, moradores convivem com a falta d’água. Na casa da Rosana, quando tem água na torneira, ela aproveita: não deixa louça na pia.
“Minha água é direto da rua. Não tenho caixa-d’água. Aí, tipo, não tem água na rua, pronto, acabou. Às vezes termina de manhã, aí só volta depois da meia-noite, um exemplo, né? Se não encher as panelas de água, com balde, as garrafas, não tem água para beber, nem para tomar banho, nem para usar o banheiro”, reclama Rosana da Silva, serviços gerais.
Análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais mostra que o ano passado foi o mais seco da última década. Segundo o Cemaden, o conjunto dos reservatórios que abastecem São Paulo encerrou 2025 com o menor nível, 26%, desde 2013, quando estava em 41,4%, ano que antecedeu a crise hídrica. Mesma situação do Cantareira. No ano seguinte, em 2014, foi preciso bombear água do volume morto do sistema.
“Acontece que a gente está tendo também o efeito de uma sequência de anos em que tivemos mais anos secos do que anos chuvosos. Então o solo, os recursos hídricos do subsolo, vão ficando com menos água. Para que a gente conseguisse ter entrada de água no Cantareira, precisaria estar com o solo mais úmido, mais encharcado. Só que, ao longo desses 10 anos, a gente teve mais anos secos. Então, não é só a chuva, no solo a gente está com menos água. Mesmo que chova o mesmo tanto, não chega água no Cantareira”, explica Giovanni Dolif, meteorologista do Cemaden.
Especialistas apontam: é preciso ações dos dois lados, do poder público, mas também das pessoas, no dia a dia, com o uso consciente e racional da água.
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