“A gente tem que aprender a conviver com essa perda, com esse pedaço que falta. É como se você tivesse que viver a sua vida inteira faltando uma parte do seu corpo”, lamenta Rafaela Matos, mãe de João Pedro
18 de maio de 2020. João Pedro, de 14 anos, brincava dentro de casa, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Agentes da Polícia Federal e da Polícia Civil, que estavam à procura de bandidos, invadiram o local e abriram fogo contra a casa. João morreu com um tiro de fuzil.
De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, na região metropolitana do Rio, 45 crianças morreram devido a tiroteios nos últimos oito anos. No estado de São Paulo, pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 77 crianças e adolescentes foram mortos em intervenções policiais em 2024, mais que o dobro do registrado em 2022.
Além da dor, familiares das vítimas também sofrem com a impunidade. Os policiais, acusados de atirar no menino João Pedro, foram absolvidos em 2024. O Ministério Público e a Defensoria Pública do Rio recorreram, e o Tribunal de Justiça do Rio resolveu levar os envolvidos a júri popular, ainda sem data para ocorrer.
“A gente fica nessa ansiedade porque essa busca por justiça também vai nos matando aos poucos, porque a gente perde a nossa saúde mental, nossa saúde física”, destaca Rafaela Matos.
“As circunstâncias das mortes nunca são esclarecidas. Prevalece sempre a versão apresentada pelos policiais, e esses casos acabam sendo arquivados. Essa é a esmagadora maioria dos casos de morte por intervenção de agente policial”, afirma Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni), UFF.
“A gente espera que a justiça faça a parte dela, até mesmo porque tem todas as provas, e são provas, assim, bem robustas do que realmente aconteceu e de como foi”, diz a mãe de João Pedro.
Essa grande quantidade de mortes deveria ser suficiente para que a atuação das forças de segurança fosse repensada. Mas existem mais motivos. Os confrontos armados causam pânico e transtornos para a população.
“E acaba que esses massacres, o que eles causam é um trauma coletivo nos territórios onde ocorrem, e a população é submetida a experiências de terror”, destaca Carolina Grillo.
“O país surgiu matando indígena, estuprando indígena, matando indígena, decapitando negro escravizado. E nós somos o país do sangue. Por isso, você tem que aplacar o sofrimento da sociedade com mais sangue”, relembra o sociólogo José Cláudio Sousa Alves da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
“E sem falar que as operações, de uma maneira geral, já rompem com o cotidiano de toda a população, que fica no fogo cruzado da violência entre o tráfico e a polícia”, aponta Carolina Grillo.
Em 2010, uma megaoperação policial foi realizada no Complexo do Alemão, um grande conjunto de favelas do Rio. A promessa era ocupar a região e eliminar o Comando Vermelho do local, mas não deu certo. Tanto que, 15 anos depois, em 2025, outra operação foi feita por lá, com 2.500 agentes.
“Vou usar um termo que foi usado no dia da operação pelos próprios policiais nos grupos de WhatsApp: operação suicida. Por que operação suicida? Porque os policiais foram levados para uma operação em que toda a estratégia era a produção de confronto. E, infelizmente, muitos desses policiais foram mortos”, revela Orlando Zaccone, delegado de Polícia Civil aposentado.
O resultado foi um banho de sangue.
“Nós tínhamos um recorde anterior de 28 pessoas mortas na Operação Jacarezinho, e agora passamos a ter um recorde de 120 pessoas mortas. Entre os mortos, temos também outro recorde, que é o número de policiais vitimados em uma única operação”, conta Orlando Zaccone.
No ano passado, quase 50 policiais morreram em atividade. Mas a maioria tirou a própria vida. Foram 126 mortes.
“O número de policiais que morrem é extremamente alto e inaceitável. Aceitar a morte de um policial é uma tragédia para a sociedade. Então, acho que faltam políticas de proteção policial”, aponta Ignacio Cano, Laboratório de Análise da Violência, UERJ.
“Aquele território estava ocupado por traficantes armados e hoje continua ocupado por traficantes armados. E o Comando Vermelho, que perdeu aquelas armas, com certeza já está repondo esse armamento”, constata Orlando Zaccone.
“Quarenta anos de operações no Rio de Janeiro ajudaram a reduzir o poder do Comando Vermelho? O Comando Vermelho continua em expansão, continua ampliando o seu espaço nas cidades e, mesmo assim, essas pessoas defendem que essa operação, esse remédio que, na verdade, é um veneno e tem se revelado um veneno, precisa duplicar a dose, em vez de pensar em outras formas de lidar com o problema”, provoca Bruno Paes Manso, Núcleo de Estudos da Violência (NEV), USP.
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