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João Carlos Martins: Tudo conspirou para que eu não tocasse mais piano

Conheça a história de superação do pianista e maestro brasileiro

Impressões

No AR em 19/07/2020 - 22:30

João, o maestro: este é o título do filme que conta a história de João Carlos Martins. Mas, como ele mesmo afirma com bastante humor: “[o nome do filme] deveria ser: O sobrevivente”. Sua carreira começou aos 8 anos de idade. Logo cedo, Martins desenvolvia músicas ao piano que não deixavam qualquer brecha para ponderações.

O perfeccionismo desencadeou o primeiro grande desafio: uma doença conhecida como distonia focal, típica dos que buscam ultrapassar os limites da capacidade. Não foi o suficiente para pará-lo. João Carlos Martins foi destaque no universo da música clássica muito cedo. Mas ainda passaria por outros fortes obstáculos.

A história de superação, disciplina e reconhecimento do pianista e maestro, que é conhecido pelos dedilhares certeiros ao piano e pela capacidade indiscutível de emocionar o público com suas regências, é tema desta edição do Impressões. João Carlos Martins é maestro por pura reinvenção. Sua paixão pela música era pautada principalmente pela relação de amor com o teclado. Depois da distonia, Martins ainda sofreu um acidente que ocasionou uma grave lesão em suas mãos e enfrentou a LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e uma forte lesão cerebral que agravou suas capacidades. 

No primeiro momento, Martins passou quatro anos de sua carreira usando apenas a mão esquerda para tocar. Pouco depois, a limitação se agravou e, das duas mãos, conseguia utilizar apenas cinco dos dez dedos. O que já era um desafio, se tornou uma missão quase impossível: tocar apenas com os dois polegares. Nada parava o mestre. A batalha que perdurou mais de duas décadas, marcada por 24 operações, só teve trégua quando um designer de tecnologia ofereceu uma saída: uma luva biônica que faria com que o músico voltasse à sua plena capacidade.

O primeiro modelo foi aceito pelo maestro como um gesto de gratidão. Em seguida, Martins convidou o autor do prospecto para explicar detalhadamente suas dificuldades, e a luva foi readaptada. “Não vou ser nunca o músico de antigamente, mas o simples prazer de colocar os dez dedos no teclado para realizar uma música, isto me dá uma satisfação enorme”, desabafa.

Em nenhum momento, Martins sequer cogitou a possibilidade de se afastar da música clássica. Enquanto pôde, ele tocou e procurou a precisão e a velocidade ideal para interpretar composições de grandes nomes. Quando as limitações se intensificaram, ele se lançou à regência de orquestras que encheriam corações de emoção. 

João Carlos Martins é considerado o maior intérprete do compositor alemão Johann Sebastian Bach
João Carlos Martins é considerado o maior intérprete do compositor alemão Johann Sebastian Bach - Divulgação/TV Brasil

A fonte de toda determinação é explicada em afirmações aparentemente simples. Uma: “A música explica que Deus existe”, afirma ao citar casos como o do compositor Ludwing van Beethoven, que, mesmo surdo, compôs obras reconhecidas universalmente. Outra base para Martins diz respeito à missão que atribui a sua categoria: “Quando você está na frente do seu companheiro [o piano, no seu caso] ou de uma orquestra, a missão é transmitir emoção. A missão de um artista é chegar ao coração do público”, diz.

Ao completar recentemente 80 anos de vida, o maestro  – que hoje comemora seu reatamento com o piano graças à tecnologia e arrisca ingressar em redes sociais com mais de 170 mil seguidores já fiéis, desafio imposto pelo isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19 – não se curva ao tempo. 

“Aos 80 anos, estou anunciando planos para os próximos 20 anos. Aos 80 anos você pode encarar a idade como início ou fim de uma carreira. Eu encaro como início. A esperança nunca pode sair do seu dicionário ou rotina”, afirma o músico, que tem experiência suficiente para adotar tal postura.

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Criado em 16/07/2020 - 10:50

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