Digite sua busca e aperte enter

Compartilhar:

Novela Windeck discute questões raciais e o preconceito em Angola

Nesta terça-feira (24)  Ofélia Voss conheceu Pedro Ruffato, o filho do Giorgio. O rapaz está matriculado na mesma escola que a filha, Lweji Voss. A megera não quer os dois muito próximos: nada de amizade, paquera ou mesmo fazer trabalhos escolares juntos.

O motivo disso tudo é o preconceito. Pedro é português, branco, e Ofélia demonstra intolerância racial.

Toda forma de preconceito é condenável. No Brasil, onde a população negra ainda convive com a discriminação nas relações sociais, no mercado de trabalho, nos meios de comunicação, o racismo é crime previsto na Constituição, inafiançável e imprescritível.

Para entender melhor as relações raciais em Angola, conversamos com José Ferreira, mestrando em Relações Internacionais da Universidade de Brasília. José é angolano, negro, mora no Brasil há dez anos e veio ao país para estudar.

Gésio Passos: José, como se dão as questões raciais em Angola?

José Ferreira: Hoje temos uma relação mais tranquila neste aspecto. Temos um país novo, a independência ainda é recente (1975), mas com algumas marcas coloniais que ainda permanecem. No Brasil, por exemplo, que teve sua independência em 1822 e teve o fim da escravidão há muito tempo, as relações raciais são muito mais difíceis do que as nossas, que temos muito menos tempo de independência.

Existe em Angola um fenômeno sociológico chamado de tribalismo. Nós temos seis línguas diferentes, temos um multiculturalismo muito vasto e existe uma resistência cultural. Este processo foi acentuado com a colonização, que utilizou da desunião das tribos para explorar a população.  Eles colocavam as tribos brigando entre si e, enquanto elas lutavam, a colonização seria mais fácil porque não haveria unidade. Mas ainda há resquícios. Tem o norte do país, por exemplo, que é um pouco mais fechado; já o sul é um pouco mais aberto, porque a colonização chegou mais forte, há maior miscigenação.

Quanto ao colonizador, os portugueses têm muito que agradecer a Angola. Apesar de a história ser recente, não temos uma xenofobia gritante contra portugueses. E hoje temos uma relação melhor do que muitos países. Diferentemente, o mesmo não acontece quando os angolanos estão em Portugal, tenho que destacar isso. Quando os angolanos estão em Portugal eles são vítimas de xenofobia, racismo, preconceito. Mas os angolanos, os africanos em si, dão uma lição de perdão ao mundo.

Passos: Cenas de preconceito contra brancos, como mostradas na novela Windeck, podem ser corriqueiras em Angola?

Ferreira: Acho que são situações que podem aparecer, independente da origem. Mas como disse, no geral, temos uma relação tranquila em Angola. Pode existir a resistência pelo processo colonial, que não foi fácil, mas ainda sim vemos que temos uma relação tranquila.

Passos: Existe alguma política pública para promover a igualdade racial em Angola?

Ferreira: Não existe uma política nacional em relação a isso. Mas o povo tratou de fazer sem que se tenha um plano de Estado. A nação tratou de perdoar. Mesmo depois da independência, temos no governo de Angola pessoas brancas, descendentes desses portugueses. Depois da independência não houve perseguições, diferente do que ocorreu com a África do Sul, por exemplo.

Passos: Como você vê a questão racial do Brasil?

Ferreira: O processo brasileiro é terrível. Se comparar com os Estados Unidos, por exemplo, os negros lá conhecem os seus adversários. Aqui não, aqui é velado. É um tal de estarmos todos juntos, misturados, mas na verdade não. O Brasil é um país com mais de 50% de negros, só que os lugares centrais são dos brancos. Estou aqui há dez anos, nunca levei uma injeção de um doutor que seja negro. Os gerentes dos bancos que eu frequento são brancos. Olhamos para a política, não temos governadores negros. Olhamos para nossas empregadas, quem são? Tem brasileiro que usa uma expressão “que o problema não é racial, a questão é social”. Mas a pobreza no país tem cor: chama negro, preto. Eu já vi a situação, por exemplo, no ônibus. Até que o ônibus fique lotado, ninguém senta do meu lado. E tem que estar totalmente lotado para isso acontecer.  Quando estamos fora, achamos realmente que o Brasil é um país miscigenado, mas quando se chega aqui é uma decepção. Quando eu fiz a graduação eu era o único negro.

Passos: Na sua opinião, a novela Windeck pode aproximar Brasil e Angola?

Ferreira: Primeiro quero agradecer a iniciativa da TV Brasil. Eu não conhecia a novela, estou há dez anos no país, mas pelas redes sociais lá em Angola só se falava que a novela passaria aqui no Brasil. Aí conheci a novela através de vocês.

Eu digo que vai ser muito importante a exibição da novela, especialmente para a comunidade afro-brasileira. O povo negro aqui tem poucas referências, e quando se tem, elas são muito ofuscadas, quase não se vê. O negro brasileiro precisa ver que suas origens não são atreladas a escravidão, são atreladas à África. Esta novela vai ajudar muito na autoafirmação do negro brasileiro. O negro angolano tem referências, nossos lideres são negros. Aqui não, o negro é sempre colocado em segunda instância. A novela pode dar visibilidade para estes papéis. Não são aqueles papeis que a novela brasileira apresenta, do negro limpando carro, limpando a cassa do branco. O negro está sentado na cadeira do doutor. O negro está em papéis relevantes.

*Escrito por Gésio Passos.




Deseja fazer algum tipo de manifestação?

Favor copiar o link do conteúdo ao apresentar sua sugestão, elogio, denúncia, reclamação ou solicitação.

Criado em 27/11/2015 - 19:29 e atualizado em 27/11/2015 - 19:29

Ultimas

O que vem por aí