Entregador por aplicativo, atendente de loja, microempreendedora. Nos últimos anos as relações de trabalho sofreram profundas mudanças, principalmente depois da reforma trabalhista. A Organização Internacional do Trabalho, OIT, estima que no Brasil os trabalhadores passem cerca de 39 horas semanais no ambiente laboral.
O país conta hoje, segundo o IBGE, com uma força de trabalho de 110,7 milhões de trabalhadores. Cerca de 104 milhões estão empregados, 40 milhões com carteira assinada. A taxa de desemprego de 6,2% é a menor desde 2012.
Letícia Moreira tem 23 anos e trabalha como bartender. Ela tem carteira assinada. A escala de trabalho é de seis dias semanais, com apenas um dia de folga. A carga horária é intensa. “Trabalho no mínimo 10, 12 horas por dia. E tenho duas horas de intervalo”, conta.
São em média 48 horas de trabalho semanais. O que impede Letícia de fazer outras várias coisas, como por exemplo a tão sonhada faculdade de arquitetura. “Tenho o Ensino Médio completo, somente. Tento fazer uma faculdade, mas não dá pelos horários. Não consigo. Eu já me matriculei três vezes, paguei três vezes a matrícula, mas nunca casa os horários”. Ela defende o fim da escala 6x1. Acredita que se fizesse uma escala de trabalho menor, com mais dias de folga, conseguiria estudar e também estreitar as relações familiares.
Mas Letícia não é a única que questiona esta escala, que é muito comum em restaurantes, lojas e na indústria. Segundo uma pesquisa realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, 65% dos brasileiros são favoráveis a mudanças nesta jornada de trabalho.
Em fevereiro deste ano, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) foi protocolada na Câmara dos Deputados. O texto, que propõe redução da jornada de trabalho semanal para 36 horas, distribuídas em quatro dias da semana, conseguiu o apoio de 171 deputados federais. A PEC ainda está em discussão no Congresso.
Para Ruy Braga, sociólogo do trabalho e professor da USP, essa discussão é mais do que urgente. “O trabalhador que se submete à escala 6 por 1 é o trabalhador celetista, que não tem poder de barganha, por exemplo, pra negociar um contrato coletivo, uma jornada alternativa, uma jornada menor. Esse é o trabalhador que não tem controle sobre o seu tempo de vida, né? Porque ele praticamente vive para trabalhar. E quando você vive para trabalhar nessas condições, com essas características, ganhando muito pouco, isso gera um desencantamento, né?”
A redução de jornada já é realidade para uma empresa de tecnologia de São Paulo. Nela, os 130 funcionários trabalham quatro dias e têm outros três dias livres. E dos quatro dias trabalhados, apenas um é de forma presencial. Os outros são no sistema home office. “Quando eu assumi a operação, eu estava acompanhando esse movimento na Europa e eu tive a ideia de colocar aqui. O financeiro falou: você vai quebrar a empresa. Nas primeiras semanas os resultados começaram a aparecer. Nossa produtividade aumentou e vem se mantendo em 32% acima da média.” afirma Fabrício Oliveira, CEO da Vockan.
Se o número de trabalhadores empregados com carteira assinada e que fazem a jornada 6 por 1 é grande, também é considerável o número de trabalhadores informais no país.
De acordo com dados do IBGE, o Brasil conta com 39,3 milhões de trabalhadores informais, uma taxa de 37,8% da população ocupada no país. Em 2022, o país contabilizou 2,1 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais. Muitos deles entregam comida, remédios, documentos.
Gustavo dos Santos vive em Osasco, na grande São Paulo, e faz entregas por aplicativo. Com apenas o ensino médio completo, ele conta que é difícil conseguir um emprego com melhor remuneração. “Hoje um motoboy consegue tirar 4 mil reais no mês, sabe? Então um trabalho registrado, pra conseguir esse valor aí...eu gostaria, mas ainda não encontrei.”, conta Gustavo.
Para ele, os motoristas de aplicativo deveriam receber mais a cada entrega. “Às vezes a gente pega uns pedidos aqui, aí você olha a nota: R$170. Aí eu fico pensando: caramba, R$170. Eu tô trabalhando desde de manhã e só agora que eu tô chegando em R$170. Eu não acho ruim a pessoa pedir uma comida desse valor, o que eu acho errado é a gente não poder ter o mínimo, uma comida simples. A maior parte das pessoas que estão trabalhando na rua não tem dinheiro pra comprar nem uma marmita.”, desabafa.
O historiador e professor da UFABC, Ramatis Jacino, resume os desafios atuais: “O problema não é o trabalho, o trabalho é ótimo. O problema são as condições de trabalho, quem se apropria do resultado do trabalho e que isso é o que causa as injustiças sociais.”, conclui.
Essas e outras discussões sobre as mudanças no mundo do trabalho são temas abordados pelo Caminhos da Reportagem, episódio “O trabalho nosso de cada dia”, que vai ao ar na próxima segunda-feira (28/07), às 23h, na TV Brasil.
Equipe técnica:
Reportagem: Thiago Padovan
Apoio à reportagem: Patrícia Araújo
Produção: Acácio Barros, Thiago Padovan
Apoio operacional à produção: Lucas Cruz
Reportagem cinematográfica: Alexandre Nascimento, Jefferson Pastori, JM Barboza e Raul Cordeiro
Apoio à reportagem cinematográfica: Sigmar Gonçalves e Raul Cordeiro
Auxílio técnico: Rafael Carvalho
Colaboração técnica: Dailton Matos, João Batista de Lima, Maurício Aurélio Marcelo, e Wladimir Ortega
Edição de texto: Ana Graziela Aguiar
Edição de imagem e finalização: Rodrigo Botosso
Assessoria: Maura Martins
Artes: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia
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