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O trabalho nosso de cada dia

Caminhos da Reportagem

No AR em 28/07/2025 - 23:00

Entregador por aplicativo, atendente de loja, microempreendedora. Nos últimos anos as relações de trabalho sofreram profundas mudanças, principalmente depois da reforma trabalhista. A Organização Internacional do Trabalho, OIT, estima que no Brasil os trabalhadores passem cerca de 39 horas semanais no ambiente laboral. 

O país conta hoje, segundo o IBGE, com uma força de trabalho de 110,7 milhões de trabalhadores. Cerca de 104 milhões estão empregados, 40 milhões com carteira assinada. A taxa de desemprego de 6,2% é a menor desde 2012.  

Letícia Moreira tem 23 anos e trabalha como bartender. Ela tem carteira assinada. A escala de trabalho é de seis dias semanais, com apenas um dia de folga. A carga horária é intensa. “Trabalho no mínimo 10, 12 horas por dia. E tenho duas horas de intervalo”, conta. 

Letícia Moreira tem 23 anos e trabalha como bartender
Letícia Moreira tem 23 anos e trabalha como bartender - Divulgação/ TV Brasil


São em média 48 horas de trabalho semanais. O que impede Letícia de fazer outras várias coisas, como por exemplo a tão sonhada faculdade de arquitetura. “Tenho o Ensino Médio completo, somente. Tento fazer uma faculdade, mas não dá pelos horários. Não consigo. Eu já me matriculei três vezes, paguei três vezes a matrícula, mas nunca casa os horários”. Ela defende o fim da escala 6x1. Acredita que se fizesse uma escala de trabalho menor, com mais dias de folga, conseguiria estudar e também estreitar as relações familiares. 

Mas Letícia não é a única que questiona esta escala, que é muito comum em restaurantes, lojas e na indústria. Segundo uma pesquisa realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, 65% dos brasileiros são favoráveis a mudanças nesta jornada de trabalho.  

Em fevereiro deste ano, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) foi protocolada na Câmara dos Deputados. O texto, que propõe redução da jornada de trabalho semanal para 36 horas, distribuídas em quatro dias da semana, conseguiu o apoio de 171 deputados federais. A PEC ainda está em discussão no Congresso. 

Para Ruy Braga, sociólogo do trabalho e professor da USP, essa discussão é mais do que urgente. “O trabalhador que se submete à escala 6 por 1 é o trabalhador celetista, que não tem poder de barganha, por exemplo, pra negociar um contrato coletivo, uma jornada alternativa, uma jornada menor. Esse é o trabalhador que não tem controle sobre o seu tempo de vida, né? Porque ele praticamente vive para trabalhar. E quando você vive para trabalhar nessas condições, com essas características, ganhando muito pouco, isso gera um desencantamento, né?” 

A redução de jornada já é realidade para uma empresa de tecnologia de São Paulo. Nela, os 130 funcionários trabalham quatro dias e têm outros três dias livres. E dos quatro dias trabalhados, apenas um é de forma presencial. Os outros são no sistema home office. “Quando eu assumi a operação, eu estava acompanhando esse movimento na Europa e eu tive a ideia de colocar aqui. O financeiro falou: você vai quebrar a empresa. Nas primeiras semanas os resultados começaram a aparecer. Nossa produtividade aumentou e vem se mantendo em 32% acima da média.” afirma Fabrício Oliveira, CEO da Vockan. 

Fabrício Oliveira, CEO da Vockan
Fabrício Oliveira, CEO da Vockan - Divulgação/TV Brasil


Se o número de trabalhadores empregados com carteira assinada e que fazem a jornada 6 por 1 é grande, também é considerável o número de trabalhadores informais no país.  

De acordo com dados do IBGE, o Brasil conta com 39,3 milhões de trabalhadores informais, uma taxa de 37,8% da população ocupada no país. Em 2022, o país contabilizou 2,1 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais. Muitos deles entregam comida, remédios, documentos.

Gustavo dos Santos vive em Osasco, na grande São Paulo, e faz entregas por aplicativo. Com apenas o ensino médio completo, ele conta que é difícil conseguir um emprego com melhor remuneração. “Hoje um motoboy consegue tirar 4 mil reais no mês, sabe? Então um trabalho registrado, pra conseguir esse valor aí...eu gostaria, mas ainda não encontrei.”, conta Gustavo.  

Gustavo dos Santos vive em Osasco, na grande São Paulo, e faz entregas por aplicativo
Gustavo dos Santos vive em Osasco, na grande São Paulo, e faz entregas por aplicativo - Divulgação/TV Brasil


Para ele, os motoristas de aplicativo deveriam receber mais a cada entrega. “Às vezes a gente pega uns pedidos aqui, aí você olha a nota: R$170. Aí eu fico pensando: caramba, R$170. Eu tô trabalhando desde de manhã e só agora que eu tô chegando em R$170. Eu não acho ruim a pessoa pedir uma comida desse valor, o que eu acho errado é a gente não poder ter o mínimo, uma comida simples. A maior parte das pessoas que estão trabalhando na rua não tem dinheiro pra comprar nem uma marmita.”, desabafa.

O historiador e professor da UFABC, Ramatis Jacino, resume os desafios atuais: “O problema não é o trabalho, o trabalho é ótimo. O problema são as condições de trabalho, quem se apropria do resultado do trabalho e que isso é o que causa as injustiças sociais.”, conclui.  

Historiador e professor da UFABC, Ramatis Jacino
Historiador e professor da UFABC, Ramatis Jacino - Divulgação/TV Brasil


Essas e outras discussões sobre as mudanças no mundo do trabalho são temas abordados pelo Caminhos da Reportagem, episódio “O trabalho nosso de cada dia”, que vai ao ar na próxima segunda-feira (28/07), às 23h, na TV Brasil.  
 
Equipe técnica: 
 
Reportagem: Thiago Padovan 
Apoio à reportagem: Patrícia Araújo  
Produção: Acácio Barros, Thiago Padovan 
Apoio operacional à produção: Lucas Cruz 
Reportagem cinematográfica: Alexandre Nascimento, Jefferson Pastori, JM Barboza e Raul Cordeiro 
Apoio à reportagem cinematográfica: Sigmar Gonçalves e Raul Cordeiro 
Auxílio técnico: Rafael Carvalho  
Colaboração técnica: Dailton Matos, João Batista de Lima, Maurício Aurélio Marcelo, e Wladimir Ortega  
Edição de texto: Ana Graziela Aguiar 
Edição de imagem e finalização: Rodrigo Botosso 
Assessoria: Maura Martins 
Artes: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia

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Criado em 24/07/2025 - 13:00

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