Há quase 600 milhões de anos, a colisão das placas sul-americanas e africanas forjou o gnaisse facoidal, uma rocha metamórfica que molda monumentos geológicos que fazem parte da paisagem natural do Rio de Janeiro. Em sua edição que vai ao ar às 23h desta segunda-feira (16), o programa Caminhos da Reportagem mostra a relação dessa pedra com os cariocas e com a cidade.
O programa passeia por monumentos naturais compostos pela rocha, como o Pão-de-Açúcar, o morro da Urca, o pico do Corcovado e as pedras do Sal e do Arpoador, mostrando personagens ligados a cada um desses locais.
“A morfologia do Rio de Janeiro é única no mundo. Assim como tem o Grand Canyon, como tem o Himalaia, os Alpes, o Rio de Janeiro é uma formação geológica única, com pontões rochosos, pães-de-açúcar, pináculos, de feições extraordinárias, o Dois Irmãos, o Corcovado, o Pão-de-Açúcar. São desenhos morfológicos, geomorfológicos únicos e muito interessantes. E, por isso, [é] a Cidade Maravilhosa. Esse nome que ela recebe tem muito a ver com essa paisagem montanhosa”, destaca o geógrafo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Marcelo Motta.
Montanhista desde 2008, Ricardo Barros conhece bem morros como Pão-de-Açúcar e o Corcovado, já que passou toda sua vida entre as cidades do Rio e Niterói, outra cidade que conta com inúmeras formações rochosas compostas por gnaisse facoidal.
“É um privilégio nascer e viver aqui no Rio e Niterói. Já viajei para alguns outros cantos, mas nunca achei nada igual ao Rio de Janeiro e Niterói, onde você consegue subir uma montanha, descer e dar um mergulho no mar. Ou até mesmo subir com o mar nas suas costas. Em outros estados, outras cidades mais distantes, é comum as pessoas viajarem uma hora até chegarem numa montanha. Aqui a gente, em uma hora, passa por seis, sete montanhas imensas”, conta Barros ao Caminhos da Reportagem.
A geóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Katia Mansur explica que o gnaisse facoidal surgiu na colisão de África e Brasil, mas os monumentos formados pela rocha só afloraram com a separação das duas massas continentais, a partir de 130 milhões de anos atrás. “Com o tempo, [o gnaisse facoidal] vai subindo e o que acontece? Vai-se formando umas cascas, como se fosse uma cebola, e esse material que forma da casca começa a soltar, e vai formando então esses corpos meio arredondados”.
Ponto de encontro de sambistas desde o início do século XX, quando descendentes de escravizados vindos da Bahia passaram a se reunir no local, a Pedra do Sal é um dos monumentos rochosos visitados pelo Caminhos da Reportagem.
“Você vai ter esse processo de separação do Gondwana, o aparecimento da América e da África. Milhões de anos vão passar, você vai ter esse triste processo de escravidão, onde a gente embarcava nos negreiros. O que explica, milhões de anos depois, você ter essa reconexão? Isso não pode ser à toa, você ter uma desconexão geológica e uma reconexão cultural”, conta o professor Walmir Pimentel, que se apresenta nas rodas de samba que reúnem várias pessoas todas as semanas na Pedra do Sal.
Por ser uma rocha onipresente nos arredores da Baía de Guanabara, o gnaisse facoidal foi também uma das principais matérias-primas para a construção civil na cidade do Rio de Janeiro desde os primeiros anos da colonização portuguesa. O resultado disso são inúmeros monumentos arquitetônicos compostos pela rocha e visitados pelo Caminhos da Reportagem, como a Fortaleza São João, do século XVI, e o Palácio Gustavo Capanema, do início do século XX.
Sua importância para a paisagem carioca e para a arquitetura da cidade foi reconhecida pela União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS), que, em 2024, declarou-a Pedra Patrimônio, a única brasileira a ter esse reconhecimento e a se juntar a outras rochas como o calcário lioz, de Portugal, e o mármore carrara, da Itália.
“Estamos em uma época que está começando a se conceber o tema da geoconservação. O mundo [precisa] conservar a natureza e também conservar a parte geológica, para que não se perca, para o futuro, [o conhecimento de] como se deu a história da Terra”, diz a engenheira de minas Núria Castro.
Ficha técnica
Reportagem e produção: Vitor Abdala
Apoio à reportagem: Aline Beckstein
Reportagem cinematográfica: Gilson Machado, Marcelo Padovan, Marcio de Andrade e Rodolpho Rodrigues
Auxílio técnico: Adaroan Barros, Caio Araujo, Claudio Tavares e Yuri Freire
Edição de texto: Ana Passos
Edição de imagem e finalização: Ubirajara Abreu
Trilha sonora: Ricardo Vilas, Warner Chappell Production Music, Samba da Pedra do Sal
Sonorização: Mauricio Azevedo
Intérprete de libras: Thamires Ferreira
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