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Território Cracolândia

Caminhos da Reportagem

No AR em 08/09/2025 - 23:00

Mais de três meses depois do sumiço do chamado “fluxo” de dependentes químicos na região da Cracolândia, no centro de São Paulo, muitos ainda se perguntam como isso aconteceu. Em 13 de maio deste ano, a Rua dos Protestantes, que até a véspera concentrava os usuários de crack, amanheceu vazia. Diferentemente de outras vezes, não houve no dia uma operação policial para prender traficantes e dispersar os dependentes. Mas o que aconteceu para que a Cracolândia se esvaziasse? O histórico do território e as disputas em torno de seu destino são abordados no programa Caminhos da Reportagem da próxima segunda-feira (8).

Último fluxo da Cracolândia foi esvaziado em maio deste ano
Último fluxo da Cracolândia foi esvaziado em maio deste ano - Divulgação/TV Brasil

 

Antes de ficar conhecida como Cracolândia, a região foi um importante polo audiovisual do país, abrigando nos anos 1920 e 1930 estúdios de cinema internacionais. Essas empresas atraíram outros setores relacionados ao cinema nas décadas seguintes, e no fim dos anos 1960 a chamada “Boca do Lixo” passou a ser conhecida como um reduto do cinema independente, com filmes autorais e pornochanchadas. Com quase 100 anos de história, a Gráfica Cinelândia é um símbolo desse período, produzindo desde cartazes de filmes à programação dos cinemas do centro de São Paulo. Um dos sócios do negócio, Odilon Melo, lembra que o bairro era um reduto da boemia, com muitos bares, casas noturnas e também prostituição. “Sempre teve, mas elas eram bem cordiais com a gente, não tinha problema nenhum”, diz ele, que celebra o novo momento da região, depois do esvaziamento do número de dependentes químicos na vizinhança.

Sócio de uma gráfica na região, Odilon lembra o passado do bairro
Sócio de uma gráfica na região, Odilon lembra o passado do bairro - Divulgação/TV Brasil

 

“A Cracolândia é o quartinho de bagunça da cidade. Todas aquelas pessoas que não cabem, ou que não são benquistas em outros lugares, acabam vindo para cá”, diz Roberta Costa, antropóloga e redutora de danos, que atua na região há mais de dez anos. Testemunha de grande parte das operações policiais no território durante esse período, ela é crítica das frequentes medidas de repressão que prometeram dar fim à Cracolândia. Como a megaoperação de 2017, que envolveu mais de 600 policiais, com relatos de violência contra dependentes químicos.

Região da Luz, em São Paulo, foi palco de diversos conflitos nas últimas décadas
Região da Luz, em São Paulo, foi palco de diversos conflitos nas últimas décadas, por Divulgação/TV Brasil

 

Há quase dez anos na Cracolândia, Renato Oliveira Jr. define em poucas palavras aquela operação: “Tiro, porrada e bomba”. Depois de maio deste ano, quando houve a dispersão do fluxo, ele continua frequentando a região, onde é atendido por projetos de cuidado com dependentes.

Renato frequenta a região há quase dez anos
Renato frequenta a região há quase dez anos - Divulgação/ TV Brasil

 

Junto à prisão de suspeitos e à dispersão da Cracolândia, prefeitura e governo estadual têm interditado imóveis e demolido parte deles, para dar lugar a novos empreendimentos, como moradias e equipamentos públicos. Um grande projeto de intervenção é o Novo Centro Administrativo Campos Elíseos, que vai abrigar prédios do governo de São Paulo em diversas quadras da região. Pesquisadores apontam uma pressão da especulação imobiliária no local. “Esses projetos de transformação que prometem uma cidade revitalizada abrem espaço para esses novos negócios”, diz Débora Ungaretti, pesquisadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. 

A pesquisadora Débora Ungaretti identifica especulação imobiliária na região
A pesquisadora Débora Ungaretti identifica especulação imobiliária na região - Divulgação/ TV Brasil

 

O secretário de Projetos Estratégicos da Prefeitura de São Paulo, Edsom Ortega, defende que parte das interdições de imóveis tem o objetivo de acabar com o uso deles pelo crime organizado, e de construir moradias populares na região. Sobre o sumiço da Cracolândia, ele alega que a redução do fluxo de usuários aconteceu aos poucos, com o aumento da oferta de atendimento e das ações de inteligência policial. “Organizamos junto com o governo do estado essa rede, que quase multiplicou por cinco a quantidade de alternativas na área da saúde para atender essas pessoas. O que fez com que esse grupo que frequentava fosse sendo reduzido”, diz Ortega.

Willians Octavio Pires mora na região da Santa Cecília e tem um café no bairro, que é vizinho à região conhecida como Cracolândia. Ele conta que viu aumentar o número de pessoas em situação de rua na frente de seu estabelecimento, depois de maio. “Mudou bastante o perfil. Hoje eu vejo focos no meu cotidiano, em vários lugares”, diz o empresário, que se preocupa com a situação. “A Cracolândia não é um problema do centro. É um problema de São Paulo. É um problema do Brasil”, define.

Willians tem um café em um bairro vizinho à Cracolândia, e viu aumentar o número de dependentes nas redondezas
Willians tem um café em um bairro vizinho à Cracolândia, e viu aumentar o número de dependentes nas redondezas - Divulgação/TV Brasil

 

O médico psiquiatra Flávio Falcone, que há anos atua em projetos de saúde com as pessoas em situação de dependência, critica as medidas no território. “Para mim é muito claro que o objetivo não é cuidar dessas pessoas. O objetivo é fazer com que essas pessoas tenham um inferno na vida delas e saiam do centro”, afirma.

O tenente-coronel da PM Rodrigo Garcia Vilardi, que coordena o Centro Integrado de Comando e Controle, do governo de São Paulo, defende que as ações reduziram os crimes na região e também aumentaram o acesso à saúde dos dependentes: “É um trabalho constante que não pode baixar a guarda, para que a gente não retroceda e mais uma vez haja um descrédito e um desânimo para a população”.

O Caminhos da Reportagem "Território Cracolândia" será exibido na segunda-feira (8/9), às 23h, na TV Brasil.

Ficha técnica:

Reportagem: Daniel Mello
Produção: Acácio Barros e Daniel Mello
Apoio à produção: Thiago Padovan
Apoio operacional à produção: Acácio Barros e Lucas Cruz
Assessoria: Maura Martins
Reportagem cinematográfica: JM Barboza e Raul Cordeiro
Apoio à reportagem cinematográfica: Alexandre Nascimento
Auxílio técnico: Rafael Carvalho e João Batista de Lima
Edição de texto: Márcio Ribeiro Garoni
Edição e finalização de imagem: Rodrigo Botosso
Arte: Aleixo Leite, Carol Ramos e Wagner Maia

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Criado em 03/09/2025 - 16:55

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