Há dez anos, a barragem de minério de Fundão, no município de Mariana, em Minas Gerais, se rompeu, causando um dos maiores desastres socioambientais do Brasil. A tragédia matou 19 pessoas e provocou o aborto de um bebê em uma sobrevivente. Mais de 600 pessoas ficaram desabrigadas nos distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo.
Segundo Guilherme de Sá Meneghin, promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais, o que foi um rompimento que teria atingido um distrito de Mariana, na verdade atingiu 3 milhões de pessoas em Minas Gerais e Espírito Santo, afetou o meio ambiente, matou pessoas e destruiu economias. “Eu diria que, mais do que um crime ambiental, foi uma grave violação dos direitos humanos, que foi se perpetuando ao longo do tempo”, afirma.
Mônica Santos, liderança comunitária de Bento Rodrigues, relembra o dia 5 de novembro de 2015, e passeia com a equipe do Caminhos da Reportagem no que restou do local onde vivia. “A visão que eu tive foi essa visão aqui. Aí eu entendi o que estava acontecendo. Eu vi de fato que eu não tinha mais casa, que a igreja de São Bento não existia mais, a minha casa não existia, a casa do que foi dos meus avós não existia”. Para Mônica, o sentimento de revolta e de impotência continua. “Não precisava de ninguém ter morrido, porque a Samarco sabia do problema, e você continua vendo a empresa mandando e desmandando, ditando as regras para quem vai pagar indenização, de quem é atingido ou não”.
A barragem de Fundão era uma das três barragens de rejeitos da mineradora Samarco, uma empresa formada pela união da brasileira Vale e da BHP Billington, que é parte inglesa e parte australiana. De acordo com o gerente-geral de Projetos da Samarco, Eduardo Moreira, o rompimento trouxe mudanças profundas no rumo e nos negócios da empresa. “A gente tinha uma dívida com a sociedade de que nós não poderíamos voltar da mesma maneira. A gente precisava voltar de maneira diferente”, afirma. A Samarco voltou a operar em dezembro de 2020, cinco anos depois da tragédia. Segundo a empresa, a forma de descarte do rejeito de minério também mudou, e hoje 80% desse material tem o modelo a seco.
Especialistas questionam a segurança desse modelo a seco, com pilhas de rejeito, e afirmam que não há regulamentação nem fiscalização. O superintendente executivo da Agência Nacional de Mineração (ANM), Julio Cesar Rodrigues, afirma que realmente a regulamentação das barragens de mineração avançou mais do que a de pilhas. “As pilhas foram nascer em substituição às barragens a montante, que passaram por descomissionamento. A gente tem hoje uma política bastante robusta para barragens, mas isso não se repete ainda em pilhas. E a ANM sofre uma restrição orçamentária muito grande e não conseguiu evoluir no sistema de gerenciamento de pilhas como no passado evoluímos no sistema de barragens de mineração”, explica.
O Brasil tem hoje mais de 900 barragens, sendo que 74 delas apresentam alto risco de colapso, segundo dados do Sistema Integrado de Gestão de Barragens de Mineração (SIGBM). O Estado de Minas Gerais conta com 31 barragens das 91 que estão em situação de alerta ou emergência declarada. Moradores dos distritos de Engenheiro Correia e São Gonçalo do Bação, que fazem parte do município de Itabirito, em Minas Gerais, relatam que se sentem inseguros com a proximidade de barragens de minério.
Um muro de contenção foi construído em junho de 2021 depois de determinação do Ministério Público de Minas Gerais. A estrutura foi erguida pela Vale para prevenir danos em caso de rompimento das barragens da mina de Fábrica. “O muro dá uma falsa tranquilidade, porque a gente não sabe se ele vai funcionar, nunca foi testado”, afirma Thiago Damaceno, auxiliar administrativo. O geógrafo Ícaro Brito, que também vive na região, completa: “Não é um evento natural, a gente não está falando de uma área de avalanche que está acontecendo ali porque a configuração geológica ou uma condição natural está forçando. Isso foi colocado em cima da nossa cabeça”.
Gilvander Luís Moreira, assessor da Comissão Pastoral da Terra em Minas Gerais, denuncia o que ficou conhecido como terrorismo de barragem, quando empresas retiram as pessoas dos locais onde elas vivem alegando falta de segurança nas barragens. “Já tem tese de doutorado em Minas Gerais que demonstra que foi criado o terrorismo de barragem de propósito, como estratagema para ampliar os territórios a serem minerados, burlando, passando por cima de direitos assegurados aos povos e comunidades tradicionais”.
O jornalista e cientista ambiental Maurício Ângelo afirma que é preciso repensar o modelo de mineração em Minas Gerais e no Brasil, para que novas Marianas e novos Brumadinhos não aconteçam mais. “A indústria gosta de falar que a mineração está no dia-a-dia de todos nós, de fato está, está em tudo, nosso celular, nosso relógio, as construções em geral, tudo é mineração. Então, a gente deve não só trabalhar, pressionar, acompanhar, atuar para que novos desastres não aconteçam, mas que a mineração dê um retorno para o Brasil que ela não deu”.
O Caminhos da Reportagem volta a Mariana dez anos depois do rompimento da barragem de Fundão para contar histórias de quem sobreviveu e de quem vive com medo de novas tragédias em Minas Gerais. O programa vai discutir também a segurança das barragens e o impacto da mineração na vida da população.
Ficha técnica
Reportagem: Ana Graziela Aguiar
Produção: Carol Oliveira
Reportagem cinematográfica: JM Barboza
Apoio à reportagem cinematográfica: André Rodrigo Pacheco
Auxílio técnico: Maurício Marcelo Aurélio
Colaboração técnica: Marcelo Vasconcelos
Edição de texto: Flávia Lima
Edição e finalização de imagem: André Eustáquio
Artes: Aleixo Leite, Caroline Ramos e Wagner Maia
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