Histórias reais de jovens que cresceram em casas de acolhimento e, ao completarem 18 anos, precisaram encarar sozinhos os desafios da vida adulta. Ana Vitória, Valéria e Raone são exemplos da difícil transição entre a proteção institucional e a busca pela autonomia. Entre idas e vindas, separações familiares e reencontros frustrados, eles enfrentaram a vulnerabilidade que surge quando o Estado deixa de ser responsável por suas vidas.
O Brasil tem hoje mais de 35 mil crianças e adolescentes em cerca de 8 mil instituições de acolhimento. Essa é uma medida extrema, adotada quando há graves situações de vulnerabilidade, como maus-tratos, abandono, violência física ou abuso sexual.
“A criança vai para um serviço de acolhimento porque a família, de alguma forma, não soube protegê-la. E, olhando mais profundamente, o Estado também não soube, porque várias políticas públicas falharam para que isso acontecesse”, explica Izabel Freitas, assistente social da 1ª Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal. Entre essas políticas públicas, estão o acesso a creches, serviços de saúde e assistência social, por exemplo.
Julia Matinatto, doutora em psicologia, explica que existe “um direito que é garantido, que é o direito da convivência familiar e comunitária. Toda criança tem o direito de estar em família. Quando existe uma situação excepcional e provisória, essa criança é retirada. Por que se fala em ser excepcional e provisória? Porque eu vou infringir um direito para proteger outro”.
Valéria Damasceno conta que foi institucionalizada ainda bebê. “Minha mãe era usuária de drogas. Ela e meu pai perderam a guarda porque nos deixavam trancados em casa, sem comida, sem água, sem nada”. Ela cresceu entre acolhimentos e reintegrações familiares. Hoje é adulta e mora com o irmão.
Acolhimento
Patrícia Braga, presidente da instituição Nosso Lar, em Brasília, explica como é o trâmite em casos de acolhimentos. “Quando a criança chega, realizamos um estudo de caso em rede, junto com o Conselho Tutelar, a Vara da Infância, o CREAS e o CRAS. O primeiro investimento da instituição é tentar o retorno desse menor à família de origem — seja um pai, uma avó, uma tia ou um irmão mais velho”.
Se ao longo de 2 anos ficar comprovada a impossibilidade de a criança ser reintegrada à família, ela deverá ser destituída e inserida no cadastro nacional de adoção. Mas essa não é a realidade da maioria. Os dados do Sistema Nacional de Adoção (SNA) mostram que a minoria dessas crianças e adolescentes vão para a adoção.
Os dados do SNA estão em constante atualização, mas, para se ter uma ideia, em outubro de 2025, os dados apontavam:
- 35.512 crianças e adolescentes acolhidos.
- 8.778 crianças e adolescentes para adoção.
- 5.869 crianças e adolescentes em processos de adoção.
- 405 crianças e adolescentes adotados desde 2019.
Maioridade
A maioria dessas crianças e adolescentes permanece nas instituições e muitos chegam à maioridade sem rede de apoio, formação profissional ou família de referência.
O Poder judiciário, observando essas dificuldades, lançou o programa Novos Caminhos, uma política nacional voltada à criação de oportunidades para quem vive em instituições de acolhimento, com o objetivo de garantir uma transição segura para a vida adulta.
A juíza auxiliar da Corregedoria Nacional de Justiça, Cláudia Catafesta, afirma que, “pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), a gente consegue fazer um elo com todos os tribunais do país e o objetivo é ofertar oportunidades e cuidado e proteção para crianças, adolescentes e jovens que estão em situação de acolhimento. Então, a gente desenvolveu parcerias com grandes empresas públicas, como Petrobras, Eletrobras, o sistema S, os Correios. E, por meio dessas empresas, como elas estão presentes no país inteiro, a gente consegue que cada tribunal local, nos seus estados, consiga recepcionar essas vagas de ofertas, tanto de profissionalização como de cuidado”.
Valéria, por exemplo, trabalha no Sest Senat, e adora. “Eu amo o SEST, é uma empresa maravilhosa, porque visa muito pela saúde do colaborador, tanto emocional como física. Lá tem fisioterapia, tem psicólogo, nutricionista e odontologia”.
Centelha
A organização da sociedade civil Aconchego, em Brasília, tem vários programas voltados à promoção da convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes em acolhimento institucional. Um dos programas deles é o Centelha, por onde já passaram mais de cem jovens desde 2019.
Guilherme Ávila é coordenador do programa e explica que “ele foi criado para atender os jovens no momento da saída do acolhimento. É muito comum esses meninos virarem moradores de rua, irem para a prostituição, tanto masculina como feminina, suicídio... Então, o Centelha trabalha com esses jovens buscando autonomia, dando treinamentos, profissionalizando e correndo atrás de trabalho”.
Raone é um dos jovens apoiados pelo Centelha. Hoje, aos 19 anos, mora sozinho e trabalha em uma barbearia. Aos 14 anos, após agressões por parte da mãe, tomou uma decisão que mudaria seu destino: procurou o Conselho Tutelar e foi acolhido em uma instituição. Lá, encontrou abrigo, estudo e a oportunidade de recomeçar. Raone se profissionalizou e sonha em viver de música e poesia.
Famílias acolhedoras
Mas a realidade dessas crianças e jovens não se resume a adoção ou acolhimento. Existe ainda o programa Família Acolhedora. “O programa preconiza que se faça o acolhimento, ao invés de em uma instituição, na casa de uma família”, explica Izabel Freitas. Qualquer configuração familiar pode se candidatar ao programa. Os interessados passam por capacitações, para compreender as regras e estarem seguros de que estão realmente abertos a acolher uma criança ou adolescente em sua casa.
As famílias acolhedoras cadastradas são informadas, desde o início, que ficarão temporariamente responsáveis pelos cuidados dos acolhidos, oferecendo afeto e estabilidade enquanto a justiça decide seu futuro. E que, em hipóteses alguma, poderão adotar.
Sirlete de Paula Moreira faz parte de uma família acolhedora. Ele conta que soube da oportunidade atráves de um programa de televisão e que se sensibilizou muito. Algum tempo depois, recebia dois irmãos, de 2 e 6 anos, em sua casa. “Uma experiência muito intensa. Eles ficaram só três meses, mas deixaram marcas profundas e muitos sentimentos envolvidos”, conta.
Após alguns acolhimentos, Sirlete recebeu, há um ano e três meses, um garotinho de 12 anos. “Ele é muito carismático. Aonde ele chega atrai os olhares”, relata, com os olhos marejados de emoção, transparecendo que essa história também deixará marcas profundas no coração da família.
Ficha técnia
Reportagem: Marieta Cazarré
Reportagem cinematográfica: Sigmar Gonçalves, Rogério Verçoza e André Rodrigo Pacheco
Auxílio técnico: Marcelo Vasconcelos, Alexandre Souza
Apoio ao Auxílio Técnico: Thiago Souza
Produção: Cleiton Freitas
Edição de texto: Marieta Cazarré
Edição de imagem e finalização: Rivaldo Martins
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