July 7th, 2010
A partir desta quarta (7), a TV Brasil exibirá 20 episódios, escolhidos entre os 32 apresentados

Repórter Aline Midlej na África do Sul
Quem perdeu os episódios da série Nova África, que se encerrou no dia 30 de junho, terá uma segunda chance. A partir desta quarta (7), a TV Brasil exibirá 20 episódios, escolhidos entre os 32 apresentados. O foco do programa desta semana é África do Sul, que está sediando os jogos da Copa do Mundo. A equipe do Nova África mostra que, quase duas décadas após o fim do apartheid, mudou pouco a situação do campo: as terras continuam concentradas na mão de 60 mil fazendeiros brancos e os negros que migraram para as cidades entram em conflito com imigrantes negros que vêm de países da região.
A posse de terra continua sendo uma questão delicada. O domínio bôer e o colonialismo britânico resultaram na concentração fundiária, com as terras mais férteis do país em poder dos dominadores brancos. Assim, a maioria da população encontra-se destituída do bem mais valioso do país. A equipe do “Nova África” percorreu o interior da África do Sul para conhecer a questão fundiária, visitou fazendas dominadas por brancos e vilarejos zulus de empregados dessas mesmas fazendas.
Veja fotos do Episódio aqui
comentarJune 29th, 2010
Por: Conceição Oliveira
Durante nossas viagens em vários países africanos nossa equipe entendeu o porquê de o historiador Alberto da Costa e Silva ter definido o Atlântico como ‘um rio’ que separa o Brasil da África. Do lado da ‘outra margem do rio’, seja na costa ocidental africana ou na oriental, encontramos semelhanças entre nós brasileiros e os inúmeros povos africanos que redescobrimos.
Povos distintos, culturas diversas, convivendo, às vezes, em pequenos espaços geográficos. Eles nos convidam a refletir sobre as micro-nações africanas, muitas delas submetidas a fronteiras arbitrárias impostas pelos europeus.

O óleo que usam para se proteger do sol tinge a pele dessas mulheres de vermelho, característica marcante das mulheres do povo Himba.
Nem sempre o mosaico étnico existente em diferentes países africanos é razão de conflitos. Na Guiné-Bissau, por exemplo, cerca de trinta etnias convivem pacificamente. Em Ruanda, onde o etnicismo foi forjado, a manipulação política de uma falsa etnicidade resultou na morte de um milhão de pessoas. Ao atravessar este ‘rio chamado Atlântico’ descobrimos que nem tudo é conflito étnico.
A África vista como um continente miserável não se sustenta. A República Democrática do Congo é um verdadeiro ‘escândalo geológico’, em Gana o solo fértil atrai gaúchos que estão plantando arroz; nosso caju que brota por todos os cantos da Guiné-Bissau se tornou o maior produto de exportação daquele país, no Maláui a fome vem sendo combatida com fornecimento de insumos pelo governo aos pequenos agricultores.

Silos onde o arroz produzido por brasileiros é armazenado, interior de Gana.
Os conflitos que vimos de perto — por terras, no Zimbábue ou por riquezas naturais, na República Democrática do Congo — nasceram da disputa pelo controle de riquezas. E não faltam riquezas naturais no continente africano: 10% das reservas mundiais de petróleo estão espalhadas em vários países da África, 80% do coltan essencial para a produção de celulares, videogames e outros eletrônicos saem do Congo. Na atualidade, o grande desafio dos africanos é fazer os benefícios dessas inúmeras riquezas chegarem às populações locais.
A África hoje acolhe os chineses. A China importa um terço de todo o petróleo que consome da África. Isso levou a denúncias de um neocolonialismo chinês. Mas não foi bem isso o que descobrimos aos conversar com os africanos. Em Cabo Verde, os chineses erguem represa para armazenar água da chuva num país que não tem rios, trazem produtos baratos, acessíveis para a população em várias partes do continente.

Barragem de Poilão, Ilha de Santiago, Cabo Verde.
Os brasileiros também estão cada vez mais presentes no continente africano. Somos bem-vindos, porque estabelecemos uma relação de parceria com os africanos. Conhecimento e tecnologia brasileira estão contribuindo para potencializar a agricultura africana.
Outro mito desfeito em nossas viagens foi o da África como um continente preso no passado sem acesso à tecnologia. Os celulares estão em todas as regiões do continente. Os quenianos pagam até passagem de ônibus pelo celular, em Zanzibar a mortalidade materna e a neonatal têm sido reduzidas com o uso da tecnologia celular. Em Cabo Verde o combate à dengue, usando a internet, assim como acesso gratuito à rede nas praças de cada uma das ilhas do arquipélago, mostram que a modernidade tecnológica é bem-vinda.
Praça na Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde onde o acesso à internet é gratuito.
Ao longo de nossas viagem em quase duas dezenas de países africanos ouvimos escritores, pesquisadores, músicos, intelectuais, trabalhadores e descobrimos inúmeras histórias. Eles nos ensinam que a história do continente africano não pode ser contatada por uma única voz. Elas são múltiplas, por vezes dissonantes. Dentre elas a queniana Wangari Maathai, prêmio Nobel, o artista plástico moçambicano Naguib, o escritor moçambicano Mia Couto.
No Brasil, na outra margem do ‘rio’, o historiador brasileiro Alberto da Costa e Silva, especialista em África, o angolano Carlos Serrano e o congolês, Kabengele Munanga, ambos antropólogos radicados no Brasil, professores da Universidade de São Paulo, a professora Rita de Barros, diretora do Africa Consulting também falam sobre um continente africano que ainda precisa ser redescoberto por nós.

Entrevista com professor Carlos Serrano, antropólogo angolano, professor da USP.

Aline e Profª. Dra. Rita de Cássia B. Barros, Diretora – África Consulting
Venha fazer essa redescoberta conosco no último episódio da série Nova África que revisita o continente responsável por grande parte de nossa identidade e que fez nossa repórter se apaixonar e, literalmente, expressar esta paixão à flor da pele. Aline Midlej tatuou o termo paixão em cinco línguas africanas.

Nossa repórter, Aline Midlej, apaixonou-se pela África e expressou esse amor em cinco línguas africanas.
Para ver mais fotos de nossa viagem ao continente africano visite o Flickr do Nova África.
Para ver trechos deste programa acesse aqui.
A série Nova África é exibida toda quarta-feira às 20h30, com reprise aos domingos às 22h30 na TV-Brasil. Pode também ser vista online, nos horários de exibição do programa na webtv da TV-Brasil.
3 comentáriosJune 21st, 2010
Por: Aline Midlej
Nossa história com Gana remonta a um período doloroso para muitos de nós. Digo isso, porque há pouco mais de quatro séculos milhares de africanos de várias regiões do continente foram tirados de suas terras e levados forçadamente para as Américas na condição de escravos. Milhares desses homens, mulheres e crianças que resistiram tornaram-se nossos ancestrais e formaram o Brasil que temos hoje. Milhares desses homens e mulheres saíram em navios ancorados na margem do que hoje é o território ganense do Atlântico.
A ponte sobre o oceano Atlântico entre Brasil e Gana não se rompeu, mesmo com o fim do tráfico de cativos. Engana-se quem imagina um ganense rancoroso desse passado. Os laços que uniram nosso país a Gana está no nosso sangue, na nossa cultura e no imaginário dos que hoje vivem na outra margem do Atlântico e têm uma história incrível para contar.
A comunidade TABOM, formada por afro-brasileiros que retornaram ao território ganense desde as primeiras décadas do século XIX, luta para fortalecer os laços entre brasileiros e ganenses. Como a maior parte da história recente africana, essa também tem poucos registros, não despertou interesse à minoria que manteve um regime imperialista na África. Mas os afro-brasileiros retornados à Gana a partir do século XIX não deixaram esta história ser esquecida.
O nome TABOM é curioso. Segundo a tradição dos retornados quando os afro-brasileiros voltaram ao atual território ganense, antiga Costa do Ouro, eles não dominavam as línguas locais e apenas respondiam, ao ser inquiridos: “Tá bom!”

Comunidade de pescadores de James Town, em Acra, capital de Gana.
Assim, o nosso “tá bom”, ‘está tudo certo’, serviu para denominar o grupo de brasileiros de origem africana retornados ao território ganense. Na memória dos retornados ficou também o carinho e a curiosidade sobre uma terra distante, o Brasil, mas ainda muito perto dos corações. Ser ‘Tabom’ em Gana é ser feliz. Nós, brasileiros, somos bem recebidos pelos Tabom, como se encontrássemos parentes que há muito não tínhamos notícias.
Na Casa do Brasil, localizada na capital Acra, são ministradas aulas de português duas vezes por semana. Pelo vilarejo de James Town representantes da sexta e sétima geração de retornados falam de um Brasil que sonharam ou sonham em conhecer. A diplomacia brasileira tem suportado iniciativas de troca cultural entre as duas nações.

Rua Brazil Lane, onde fica a Casa do Brasil, em Acra, capital de Gana.
No século XXI, brasileiros cruzam o Atlântico de olho no potencial de Gana. O país foi um dos primeiros a conquistar a independênia em 1957. Saiu na frente com estabilidade política e econômica, mas ainda batalha para crescer por meio de sua própria riqueza. Potencial não falta. As condições climáticas fazem de Gana um país bastante adequado para a produção de arroz. De olho nisso, gaúchos estão colhendo este ano, com sucesso, a primeira safra.
O Brasil, através de iniciativas como a Embrapa África, sediada em Gana, tenta inaugurar uma nova forma de cooperação com o continente. A cooperação que consiste, de fato, em troca de conhecimento, visando o crescimento mútuo, digno de duas regiões do mundo em desenvolvimento.
Os produtores locais de arroz ainda saem em desvantagem, precisam de assistência técnica e financeira para competir com os brasileiros, com os estrangeiros que estão de olho na África. Os ganenses precisam de suporte para gerar a renda necessária a uma vida digna. O governo ganense ainda precisa fazer muito por eles.

Pequenos produtores de arroz em final de colheita, interior de Gana.
Brasileiros partindo para Gana e ganenses chegando ao Brasil em busca de aprendizado. Eles vêm enxergando no país-irmão o exemplo e a possibilidade de se superarem. E nós, devemos dar as boas-vindas.
Para ver mais fotos de nossa viagem à Gana visite o álbum do 31º episódio no Flickr do Nova África.
Para ver trechos deste programa acesse aqui.
A série Nova África é exibida toda quarta-feira às 20h30, com reprise aos domingos às 22h30 na TV-Brasil. Pode também ser vista online, nos horários de exibição do programa na webtv da TV-Brasil.
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